sábado, 10 de junho de 2017

A MÃO & O LAÇO – Capítulo X







E nós fomos ao cinema. Apesar de achar que tudo estava indo rápido demais, eu deixei que acontecesse. Nós nos beijamos durante o filme. A respiração dele estava alterada, a minha também. Eu estava completamente ligada, os hormônios à flor da pele, mais ainda – muito mais – do que quando eu dançara com Adílio na festa de aniversário dele. Eu agarrava a nuca dele, forçando seu rosto contra o meu durante o beijo como nunca sonhara fazer um dia. Noel cheirava bem. Eu gostava do perfume dele, do seu hálito, da textura e da temperatura de sua pele.  Nossa química era perfeita. Eu me lembrei de um dia em que uma amiga me dissera que para que um casal desse certo juntos, era preciso que houvesse química entre eles. Na época, eu não entendi o que ela queria dizer, mas agora, eu entendia perfeitamente. 

Saímos abraçados do cinema, como dois namorados que se conheciam há muito tempo. Eu estava definitivamente apaixonada por Noel. Mas não sabia o que ia na cabeça dele. Afinal, ele era mais velho, e poderia estar apenas se divertindo, saindo com uma bela garota que acabara de conhecer. Ele entrara na minha vida tão de repente, e de forma tão intensa, que sua presença ficara marcada na minha pele e na minha vida, embora nos conhecêssemos há apenas algumas horas. Se ele tivesse me pedido, eu teria me casado com ele. 

Mas uma campainha soou lá no fundo da cabeça: “Vá devagar! Você pode se machucar!” Eu parecia estar ouvindo a voz do meu pai. 

Cheguei em casa pisando em nuvens, e com a cabeça em Marte. É claro que minha vontade era mandar Noel entrar e ficar com ele em meu quarto, mas não fiz aquilo, e ele não insinuou nada. Me deixou na porta de casa e foi embora. Eu ainda não sabia o que estava rolando entre a gente – se era algo parecido com o que tinha acontecido entre Adílio e eu ou se era algo mais forte. Apesar de eu pensar que era algo bem mais forte, não queria entrar de cabeça com medo de machucar. Pelo menos, não sem antes saber o que se passava na cabeça de Noel. 

Uma semana e meia depois, estava claro que nós dois estávamos namorando. Minha mãe ficou feliz, e me disse que tinha marcado hora para mim no ginecologista, o que me deixou constrangida, mas ela foi comigo, dizendo que essas coisas eram naturais, mas que eu só me entregasse se sentisse que ele era o cara certo para ser o meu primeiro. Mesmo assim, achava mais seguro se eu tomasse certas precauções, e eu concordei com ela. 

As férias começaram com dias ensolarados e quentes. Depois daquela mensagem por telefone, só vi Shirley mais uma vez, rapidamente. Ela estava claramente me evitando, e eu fiquei muito magoada com aquilo. Doralice continuava na clínica, e minha mãe sempre telefonava para saber notícias dela. 

Numa manhã de sábado, eu estava na piscina da casa de minha avó com Adílio e Laura. Noel tinha viajado para casa a fim de visitar os pais dele. Me convidou para ir também, mas eu recusei, pois achava que era cedo demais para conhecer a família dele. Eu estava apaixonada – literalmente babando por ele – mas ainda queria ir devagar. 

Nós três estávamos dentro da piscina, e o calor do sol sobre nossos ombros era delicioso. Puxei assunto sobre Shirley:

-Vocês tem visto a Shirley? Porque já faz vários dias que nós não conversamos.

Adílio tomou um gole de sua Coca-Cola e respondeu, enquanto alisava as costas de Laura:

-Na verdade, não... achamos que ela estaria aqui.

-Pois é. Liguei para convidar, mas ela não atendeu o telefone. Mandei mensagem, mas ela não respondeu. Acho que está brava comigo.

Laura perguntou:

-Brava com você? Mas por que ela estaria brava com você?

Achei melhor contar a eles tudo o que tinha acontecido. Eles me escutaram, mostrando-se chocados em várias ocasiões. Fizeram algumas perguntas cujas respostas eu desconhecia. Depois, saímos da água e fomos nos sentar nas espreguiçadeiras. Ficamos em silêncio durante um bom tempo. Laura observou:

-Conhecemos Shirley há muitos anos. Nós praticamente crescemos juntas, Jordana. Mas ela nunca me contou nada disso. Eu nem imaginava essas coisas... dela ter sido abusada pelo pai, e de ser meia-irmã de Diana... eu sempre percebi que havia alguma coisa estranha entre as duas... eu pensava que Santoro e Lígia eram os pais verdadeiros dela.

-Você conhece eles? Os pais de Shirley?

-Sim. Eles são pessoas legais. 

-Eu... sempre quis conhecê-los, mas ela sempre mudava de assunto quando eu dizia isso. Na festa do meu aniversário mamãe se ofereceu para dar uma carona para ela após a festa, mas ela ficou toda sem graça, praticamente saiu correndo. Disse que a mãe vinha busca-la de carro.

Adílio franziu a sobrancelha:

-Estranho. Porque Santoro está em uma cadeira de rodas, e Lígia não sabe dirigir. Eles nem tem carro.

Tentei raciocinar:

-Bem, talvez ela viesse buscar a filha de táxi... mas por que o pai de Shirley está em uma cadeira de rodas?

Foi Laura quem respondeu:

-A mãe dele era cuidadora de Santoro, e os dois acabaram se apaixonando. Dizem que ele teve um acidente de carro. 

-Mas Shirley me disse que mãe dela era professora!

Adílio riu, dizendo:

-Não. Ela é enfermeira. E cuidadora de idosos.

Minha cabeça deu um nó: mais uma mentira de Shirley! Mas por que ela mentia tanto? Do que tinha medo? Pedi explicações aos meus amigos:

-Esperem: vocês estão me dizendo que a mãe de Shirley é cuidadora de idosos e enfermeira... então... Santoro está em uma cadeira de rodas e os dois se apaixonaram depois que ela foi cuidar dele... conclusão: Santoro é um homem idoso?

Eles concordaram ao mesmo tempo, e Laura concluiu:

-Sim. Idoso. Ele tem 78 e Lígia tem 45. 

Fiquei boquiaberta! Então, quem sabe, Shirley se envergonhava da diferença de idade entre a mãe e o padrasto! Mas o que Adílio disse em seguida, me deixou sem chão: 

-E ele adotou Shirley. O velho é muito rico e não tem nenhum herdeiro, a não ser ela e Lígia. A vida delas está garantida.

Senti como se tivesse levado um soco no estômago: aquela história de ser filha de uma professora e de precisar chantagear o pai para pagar os estudos não tinha o menor fundamento! Shirley era rica. Uma menina rica, talvez mais rica do que eu naquele momento! Laura observou:

-É, está. Mas só depois que ele morrer. E do jeito que a Lígia cuida bem dele, parece que isso vai demorar ainda. Santoro é rico, mas não dá boa vida a Shirley agora. Ele quer que ela estude e tenha uma profissão, e por isso ele paga; mas não dá a ela uma vida de princesinha mimada. A mesada que ele paga a Shirley é frugal, só para as despesas menores. E ela fica furiosa e frustrada com isso. 

Comentei:

-Então é isso! Shirley chantageava Pedro porque ela não quer esperar até o padrasto morrer: ela quer dinheiro agora. Quer ir embora, ser independente... porque ela tinha me dito que chantageava Pedro porque precisava do dinheiro para pagar seus estudos e garantir seu futuro.

Adílio e Laura se entreolharam. Confessaram que nunca poderiam imaginar aquele lado negro de Shirley. Sabiam que ela era um pouco vingativa, talvez um tanto dominadora e até possuía um certo humor negro; mas que ela mentia tanto, nem eles poderiam imaginar. Exclamei:

-Gente... quem é essa pessoa? Por que ela mente tanto para todo mundo?

-Que merda – Adílio soltou. – Eu pensava que conhecia a minha amiga! Mas... ela mentiu principalmente para você, Jordana. Porque eu, Laura e os outros sabíamos que a mãe dela é enfermeira, que o pai – digo, padrasto – está em uma cadeira de rodas e é idoso.

-É, mas ninguém sabia sobre Pedro, o verdadeiro pai. Ou sobre ela e Diana serem irmãs. 

Laura disse, pensativa:

-Parece que Shirley tem várias faces. E uma memória incrível, para mentir tanto para diferentes grupos de pessoas durante tanto tempo. Eu nem sei mais o que pensar, o que dizer... nem sei se quero continuar sendo amiga dela.

Adílio respondeu:

-Quem deixa de ser amigo, é porque nunca foi, Laura. Ela precisa de ajuda, tenho certeza. 

Concordei com a cabeça, mas minha mente dava mil voltas. Mergulhei na água fria e azul para esfriar a cabeça, e vovó veio nos chamar para o almoço. Mamãe tinha chegado com duas amigas do trabalho, e o almoço foi um tanto festivo, e as conversas, animadas. Resolvemos deixar o mistério de Shirley para depois. Mas no fundo da minha mente, sibilava a chance de que Shirley era uma psicopata que poderia sim ter matado Diana, a própria irmã. Mas por que ela faria aquilo? Bem, concluí que psicopatas não precisavam de motivos. Ou precisavam? 

Passei mais uma mensagem para Shirley mais tarde, quando o sol já tinha ido embora e estávamos todos sentados junto à churrasqueira, no jardim, bebericando coquetéis de frutas e batendo papo enquanto eram servidos vários tipos de sanduíches e canapés. Escrevi:

“Pena você não estar aqui. Tivemos uma tarde maravilhosa na piscina. Agora estamos tomando drinks no jardim. Por que não se junta a nós?”

Mas novamente, ela ignorou a mensagem. 

Porém, uma hora depois, Shirley apareceu, como se nada tivesse acontecido. Ela usava um vestido preto de alcinhas, esvoaçante e curto, e sandálias rasteiras. Estava linda, muito sexy, os cabelos soltos e muito sedosos, a pele bronzeada. Cumprimentou a todos com um “olá” geral, e nós respondemos, nos entreolhando e tentando parecer naturais. 

Ela explicou que estivera fora de casa, passando alguns dias com uma tia que morava em uma cidade praiana vizinha à nossa, e que por isso não respondera às minhas mensagens e telefonemas: lá não havia internet e o sinal do celular era muito fraco. Achei que era apenas mais uma de suas mentiras, mas ela abriu o celular e começou a nos mostrar fotografias do local, onde ela aparecia sorrindo ao lado de pessoas que nós não conhecíamos. Começou a falar no lugar, nas atrações turísticas e em tudo o que fizera naqueles dias. Suas histórias logo interessaram às amigas de mamãe, que pensavam em viajar de férias. 

Ela era a mais animada entre nós, e as amigas de minha mãe a adoraram! No final da noite, elas comentavam o quanto aquela mocinha era totalmente encantadora. Mas eu, Adílio, mamãe, vovó e Laura estávamos apreensivos, embora tentássemos não demonstrar nada. 

Quando as amigas de mamãe se foram, e mamãe e vovó se recolheram aos seus quartos – passaríamos todos a noite na mansão – ficamos apenas nós quatro na sala de TV, começando a assistir a um filme antes de irmos dormir. O filme era menos interessante do que nós pensávamos. Estávamos em silêncio, fingindo prestar atenção ao filme, quando Shirley bufou:

-Gente, sou só eu que acha que esse filme é um saco? Vamos fazer alguma coisa mais interessante! 

Passava de meia-noite. Adílio bocejou, e Laura suspirou fundo, sem responder. De repente, eu me vi dizendo:

-Claro! Poderíamos começar falando sobre o porquê de você mentir tanto o tempo todo, Shirley. 

Ela me olhou como se eu fosse de outro planeta:

-Não estou entendendo, Jordana! O que você quer dizer? 

Eu nem sabia como começar. Abracei os joelhos, pondo os pés no sofá. Adílio veio em meu auxílio:

-Pôxa vida, Shirley. Estamos chateados com você. Mentiu para nós sobre a Diana e seu verdadeiro pai. Mentiu para Jordana sobre sua mãe e o Santoro... fico me perguntando sobre o que mais você pode ter mentido!

Laura fungou, enxugando as lágrimas com a manta do sofá. Shirley riu, sem graça. Parecia estar tentando deliberar até onde nós sabíamos. Adílio continuou:

-Não é legal mentir para quem gosta da gente, Shirley. E é muito perigoso mentir para os amigos, pois eles conversam entre si, trocam informações e acabam descobrindo a verdade. 

Laura choramingou:

-Eu não confio mais em você, Shirley!

Shirley encolheu os ombros, e pareceu muito cansada de repente. Eu disse:

-Por que mentiu sobre ser pobre, quando seu padrasto é um homem rico? Por que extorquir dinheiro de Pedro, se você tem muito mais do que conseguiu tirar dele?

Ela tentou se defender:

-Mas não fui só eu que menti! Você disse a mim e à Diana que sua mãe não ia contar nada sobre nós. Agora, a escola toda já sabe!

-Porque você mesma contou à Susi e Drica, e elas espalharam! Eu não contei nada a ninguém. 

Ela me olhou, furiosa:

-Sei... aposto que Adílio e Laura já sabem de tudo.

Eles se entreolharam, baixando a cabeça. Eu admiti:

-Claro! Somos seus amigos – ou pensávamos que fôssemos. Eu contei a eles o que eu sei, e eles me contaram o que sabem. Agora parece que todo mundo sabe de tudo. Mas você está tentando desviar o assunto para outro lado, Shirley. 

Abrandei o tom de voz:

-Shirley, eu gosto de você. Nunca vou me esquecer de como me ajudou na escola, de como me ajudou com matemática... do quanto foi bacana comigo se tornando minha amiga quando as minhas amigas voltaram as costas para mim. 

-Se você realmente me considerasse sua amiga, teria também me contado que está namorando! 

-Como você ficou sabendo?

-Vi você e ele no cinema há alguns dias. Naquele domingo, depois que conversamos. 

-Eu queria te contar pessoalmente, mas você me ignorou. 

Percebi que mais uma vez, ela estava desviando o assunto:

-Mas estamos falando de você agora, Shirley! Responda, por que estorquiu dinheiro de Pedro? Por que mentiu para mim, dizendo que era pobre?

E Laura completou:

-Queremos saber também por que escondeu de todos que Diana era sua irmã! E por que não fez nada para ajudá-la quando soube pelo que ela passava! 

Shirley levantou-se do sofá, e começou a medir a sala para lá e para cá:

-Chega! Eu não devo satisfações a ninguém sobre a minha vida! Ninguém está na minha pele para me julgar e às minhas ações e motivos! Ninguém me entende! 

Laura disse:

- É verdade, “Shirley, a incompreendida...” e mesmo que você contasse uma história, quem poderia dizer se você não estaria mentindo de novo? Às vezes eu acho que você é maluca, sabe?

Fiz sinal para que Laura se calasse, e comentei:

-Shirley... só queremos entender! Somos seus amigos. Queremos ajudar. 

Ela começou a chorar. Sentou-se no sofá, escondendo a cabeça entre as mãos, e chorou, copiosamente. Eu, Adílio e Laura nos olhávamos, sem saber como agir, ou se aquela cena não era apenas encenação. Finalmente, Adílio aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado e passando um braço em volta dela. Laura balançou a cabeça e revirou os olhos, descrente. Eu não fiz nada. Fiquei de pé, olhando a cena sem saber o que pensar. 

Depois que Shirley se acalmou, ela aceitou o copo de água com açúcar que Adílio foi buscar na cozinha. Bebeu alguns golinhos, e começou:

-Jordana... eu menti para você sobre meus pais porque eu não queria que você soubesse que minha mãe tinha se casado com um velho doente. As pessoas julgam, sabe. Ninguém acredita que ela goste realmente dele. Por isso eu escondia de você. Porque você é uma menina de outra classe social, uma menina que eu queria ser... que eu... 

Ela hesitou, e tomou fôlego antes de completar:

-Invejo e admiro. Alguém que eu queria que pensasse só o melhor de mim. Eu... estraguei tudo, porém. E eu menti a vocês sobre a Diana porque eu tinha vergonha. Eu fui covarde. Eu não gostava dela. Pensava que ela tinha roubado meu pai. Nunca aceitei Santoro, achava que ele queria substituir meu pai, e se hoje eu e ele não temos um relacionamento de pai e filha, foi porque eu mesma não permiti. Ele é legal comigo, com a minha mãe... mas eu queria ir embora de casa. Não queria mais morar com ele e ter que sentir tanta vergonha o tempo todo. Eu sempre o enxerguei como um velho doente. 

Adílio declarou:

-Shirley, que bobagem! Isso é preconceito! 

Ela concordou:

-Eu sei, eu sei. E concordo. Mas sabe quando a gente leva uma coisa tão longe, que nem se a gente quisesse consertar, acha que não tem mais volta? (Ela me olhou) Comecei essa mentirinha, achando que ela não ia longe. Acho que nem que eu quisesse modificar as coisas lá em casa, eu já ofendi tanto minha mãe e o Santoro, que não tem mais jeito... por isso ela me mandou para a casa da minha tia para ficar uns dias por lá. 

Eu disse:

-Peça desculpas! É mais fácil do que você pensa, e pode sim, modificar uma porção de coisas. Mas agora me diga por que extorquiu seu pai verdadeiro!

Ela fez um muxoxo de desprezo, e o rosto dela mudou para uma expressão de puro ódio:

-Ele é um canalha. Teve o que mereceu. Com o dinheiro dele, eu poderia ganhar a minha independência. 

-Pois eu acho que você deveria devolver parte desse dinheiro à Doralice, esposa dele. Ela precisa mais do que você. Não terá como se manter assim que sair da clínica de reabilitação. 

Ela me olhou:

-Jordana, as coisas para você são sempre tão simples... você é tão honesta, tão certinha! Mas para mim, é tudo tão... eu não posso simplesmente dar este dinheiro a ela! Pedro me abandonou e à minha mãe por causa dela e de Diana! 

Laura berrou:

-Quando é que você vai perceber que ele não ama você, Shirley? Assim como ele não amava Diana, ou Doralice, ou Lígia? Ele é um canalha, e nesse caso, foi bem melhor que ele tivesse ido embora!

Shirley discordou:

-Não, você não sabe do que está falando. Pedro... – meu pai – era bom quando eu era criança. Ele e minha mãe eram felizes. A nossa vida começou a degringolar depois que ele passou a andar com aquela prostituta drogada da Doralice! Minha mãe sempre dizia isso. E se ela dizia, é porque era verdade. Depois... ele mudou.

Adílio tomou a palavra:

- Acho que ninguém muda tanto assim. Ele apenas se revelou. Ele já era um canalha. 

Concordei com ele. Shirley continuou:

- Gente, as mentiras que eu contei... que eu conto a todos... eu só estou tentando dar uma imagem melhor de mim mesma ao mundo, às pessoas de quem eu gosto. Não gosto quando me olham com pena, ou quando me julgam. Eu detestava, depois que meu pai foi preso, quando os vizinhos passavam por mim e diziam o quanto sentiam. O quanto seus olhares piedosos demoravam em mim... eu tinha vergonha, eu tinha nojo. Era uma história que eu quis apagar de minha vida. Mas hoje eu entendi que coisas assim são escritas à ferro quente na vida de alguém. Elas não desaparecem simplesmente. Eu só queria que vocês pudessem me perdoar.

Nós três nos entreolhamos novamente. Ninguém disse nada. Finalmente, eu respondi:

-Shirley... acho que eu preciso de um tempo.

E Adílio e Laura repetiram, quase em uníssono: 

-Eu também. 

Ela concordou com a cabeça, e passando por nós, pegou a bolsa que estava na cadeira. Escutei quando ela saiu e fechou a porta. Escutei os passos dela se afastando no caminho de pedra do jardim. Até sumirem. 

(continua...)





2 comentários:

  1. Boa tarde passando para deixar um abraço
    mais uma vez elogiar seus posts, e dizer
    que as boas amizades sempre voltam
    Bjuss de bom final de semana

    └──●► *Rita!!

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  2. Olá querida Ana! Mais um conto que encanta e nos convida a ler. parabéns escritora, sucesso! Obrigada pela visita lá no meu cantinho, volte sempre, será um prazer.
    Que Deus encha seu final de semana de bênçãos maravilhosas e você possa descansar e se divertir em paz!
    Abraços da amiga Lourdes Duarte.

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