segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - Parte II







No teto , estrelas de luzes dançavam no espaço semiescurecido. Você me puxava para si, me fazendo dar alguns rodopios, e depois, sem parar de dançar, me abraçava por trás. Eu estava tão feliz por podermos voltar àquele lugar, o salão de baile do meu aniversário de 15 anos! Todas as minhas amigas estavam lá, e eu às vezes notava alguns olhares invejosos, mas eu estava ocupada demais dançando com você para prestar muita atenção a qualquer outra coisa. 

Engraçado, eu não estava usando o mesmo vestido da formatura; usava um branco longo de cintura marcada e saia rodada, com tule sobre os ombros no estilo anos 50. Você usava um terno preto de lapela prateada (um tuxedo? Não sou boa para descrever roupas masculinas) e tinha os cabelos controlados por uma camada de brilhantina. Achei engraçado, mas ao mesmo tempo, charmoso. 

De repente, uma valsa começou a tocar. Eu sabia que era o Danúbio Azul, embora não entenda nada de valsas. Como eu poderia saber? Só sei que olhei em volta, e todo mundo tinha sumido: sobramos apenas nós dois, e uma orquestra que tocava não sei de onde. As estrelas no teto começaram a girar rapidamente, e nós levitamos até elas, enquanto o teto se abria e elas fugiam para o céu noturno, tornando-se estrelas de verdade. Eu voava de mãos dadas com você, e o vento em meu rosto era tão real! Via a paisagem da cidade lá de cima, de um ângulo que nunca tinha visto antes , pois nunca tinha sobrevoado a cidade, mas lá estavam o telhado da escola, o parque com suas árvores e o lago, e nossa, olhe lá, a minha casa! A luz da varanda estava acesa, como todas as noites. 

Comecei a sentir um pouco de frio, e sem dizer nada, você me abraçou, passando a voar por trás de mim. Eu não via mais você, mas sentia o calor do seu corpo e o perfume tão conhecido da sua marca de desodorante. Via apenas seus braços, cobertos pelo tecido preto do terno, e parte de suas mãos sobre meus seios (sempre abusadinho!). 

Começamos a subir cada vez mais alto, mais alto e mais alto, até que pude vislumbrar o contorno do planeta. Era tão lindo! Começamos a voar em volta dele, e o dia começou a amanhecer, e vi lugares que eu sabia serem outros países. Vi a Estátua da Liberdade, e passamos voando bem perto do rosto dela. Havia pessoas lá dentro, e o sol estava alto no céu, mas elas não nos viam. Depois, conforme íamos circundando o planeta e voltando para casa, o dia ia tornando-se noite novamente. Nem sei quanto tempo se passou, mas eu sabia que aquilo era real!

Quando estávamos bem alto, paramos no ar, onde havia um portão alto, pintado de azul. Eu não sabia o que estava do outro lado, mas conseguia ouvir uma música muito linda, que eu nunca tinha ouvido antes, e havia uma luz que vinha de todos os lugares e se desmanchava em faixas ao redor do portão. Ali, você se despediu, e disse que eu tinha que voltar.

Mais uma vez, acordei e a primeira coisa que vi foi o copo d'água com o remédio do lado, e meu celular. Tive aquela familiar sensação de tédio absoluto e muita solidão. As cores não eram tão brilhantes. 

Naquele domingo, papai tinha me convidado para jantar com ele, e eu conheceria Cátia formalmente. Não estava ansiosa, mas estava curiosa. Minha mãe me encheu de recomendações absurdas, do tipo "Não fale demais e nem dê muito cartaz a ela. Seja polida, pois foi assim que eu te ensinei, mas nada de deixar que ela se aproxime demais de você, afinal, é uma péssima influência. Imagine só, meter-se em um casamento de anos e destruir um lar estável! Com certeza, não passa de uma interesseira. Ainda por cima, é bem mais nova que Estêvão. Todo mundo sabe que, assim que ele começar a envelhecer, ela o deixará por alguém da idade dela, e quem sabe,  isso aconteça até bem antes!"

Apesar de chateada, fiquei feliz porque minha mãe estava, finalmente, encarando o problema de frente. Beijei-a e abracei-a  antes de ir. Eu sabia que ela devia estar sofrendo. Ainda disse: "Fique bem, Dona Marta. Você será sempre a minha mãe, ninguém vai tomar o seu lugar." Pensei em acrescentar que isso seria impossível, já que Cátia não tinha idade para ser minha mãe, mas achei melhor não dizer mais nada.

No restaurante, notei que Cátia estava nervosa por me conhecer. Torcia as mãos sobre a mesa, e quando me viu chegando, ergueu-se e estendeu a mão para cumprimentar-me de maneira formal, e suas mãos estavam muito frias. Ela e papai se entreolharam, e enquanto eu olhava o menu (eles já tinham escolhido) os dois permaneciam de mãos dadas sobre a mesa. Achei bonitinho e ao mesmo tempo, estranho ver meu pai namorando. Quando eu, mamãe e ele saíamos para almoçar ou jantar, aquele tipo de coisa - mãos dadas sobre a mesa - jamais acontecia. 

Acabei gostando de Cátia, principalmente durante a sobremesa, quando com todo jeitinho, ela me disse que sentia muito sobre  a minha perda, e que se eu precisasse conversar, ela estaria sempre disponível. Ela era muito bonita. Aparentava ter uns 30 anos (papai tinha 52) mas mais tarde descobri que ela na verdade tinha 28. Nem me passava pela cabeça conversar com ela sobre Fred, mas de qualquer forma, gostei de sua atitude. Após a sobremesa, eles me convidaram para um cinema e depois, conhecer seu novo apartamento, mas inventei uma desculpa, dizendo que precisava estudar e ir dormir cedo, pois tinha prova na segunda-feira. 

Mamãe encheu-me de perguntas: ela era bonita mesmo? Inteligente? Não era vulgar? Os dois pareciam apaixonados? Não queria magoá-la, então fiz o que achei que ela esperava de mim: menti. Disse que, de perto, ela nem era tão bonita assim, e que talvez fosse um pouco "burrinha." Não sabia se vestir muito bem e nem tinha muita classe. papai parecia apaixonado, embora não estivesse muito à vontade - talvez por ela ser tão mais jovem. Quando terminei meu dossiê sobre Cátia, mamãe parecia triunfante.

Mas eu só estava triste.

(continua...)




Um comentário:

  1. Acho tão difícil a situação dos filhos.
    Quando termina, a melhor coisa é não querer saber nada!
    Meu pai tinha uma companheira e, cada vez me apresentava uma nova namorada. Um dia ela soube, porque era no mesmo prédio, quem apanhou fui eu, por não ter falado pra ela.
    Admiro homens que assumem o término da união e refazem a vida. Sou completamente avessa à mentira, à traição. É um grande desrespeito à família.
    Todos estamos sujeitos a mudar de opinião, só não podemos nos acovardar e mascarar um sentimento que já não existe.
    Estou gostando da história, aguardando o próximo capítulo!
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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