segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O DOM DE ESQUECER - PARTE III






Não adianta discutir com a minha mãe. Para ela, só os próprios interesses valem, só o que ela acha que é verdade merece crédito, e quando ela precisa de alguém, é capaz de ficar em volta da pessoa dias ou meses, agradando e elogiando, mas quando ela consegue o que quer, esquece da pessoa completamente. Mas... meu Deus, agora eu vejo porque não tenho amigas: eu agia igualzinho a ela! Não mostrava solidariedade pelas dores e problemas de minhas amigas. Achava que, por eu ser linda, rica e bem vestida, elas sentiriam-se honradas por eu falar com elas. Vivi a vida toda acreditando nos valores da minha mãe e agindo como ela. A única pessoa que me comovia, mexia com os meus sentidos e me deixava completamente rendida, era Fred. E ele era o único que dizia as verdades para mim, o único que tentava chamar a minha atenção quando eu errava em relação às amigas. Eu precisava dele, do olhar dele, das palavras dele, da boca dele, do corpo dele...

Será que nunca vai parar de doer? Às vezes eu penso que ele era a minha única chance de me tornar gente, de ser humana de verdade... nunca vou me esquecer daquela noite de sábado em que eu estava na sala de estar esperando o Fred chegar, e enquanto isso, assistia TV com meus pais. Papai tinha ido até lá, em mais uma tentativa de fazer mamãe assinar os papéis do divórcio. Eu tinha acabado de falar com Fred por telefone, ele disse que estava ali pertinho e que chegaria em quinze minutos para irmos ao cinema, e depois, a uma festa de aniversário. Até aquele momento, antes de eu desligar o telefone, minha vida era um sonho, maravilhosa, eu era feliz. Não tinha ideia do inferno no qual ela se transformaria dali a trinta e cinco minutos.

Olhei no relógio pela terceira vez, e a campainha tocou. Despedi-me dos meus pais, mas ao abrir a porta, ao invés de Fred, deparei com nosso vizinho Cauê, um rapaz que morava em frente e que eu estava acostumada a ignorar ou então a cumprimentar quando achava que ele era digno da minha atenção. Decepcionada, fui logo perguntando (a voz um tanto indiferente) o que ele queria. Cauê me pediu para entrar pois precisava falar comigo. Impaciente, eu disse que tinha um compromisso. Já ia bater a porta na cara dele, quando ele a segurou e soltou: "É sobre o Fred!"

Abri de novo, e mandei ele entrar. Foi quando ele, todo cheio de delicadezas comigo, me contou, na frente dos meus pais, que Fred estava estatelado no asfalto a cinco minutos da minha casa, debaixo da sua motocicleta,  e um rio de sangue escorria de sua cabeça. Alguém já tinha chamado a ambulância. Eu corri para a porta, e a voz dos meus pais me pedindo para esperar foi ficando cada vez mais distante. Saí correndo pela rua, o Cauê atrás de mim chamando meu nome, e quando eu vi o Fred, gritei como nunca havia gritado na vida. Os paramédicos já estavam em volta dele, acho que tentando ressuscitá-lo, pois um deles fazia massagens em seu peito, massagens tão fortes que o corpo de Fred se encolhia a cada investida. Gritei para ele parar, pois ia acabar quebrando ele no meio, e ao mesmo tempo, eu tentava me desvencilhar dos braços do Cauê - o que fiz após cuspir no rosto dele - e corri, ajoelhando-me ao lado de Fred. Tentei levantá-lo, mas o corpo dele estava pesado, e minha blusa ficou cheia de sangue, e mais pessoas me afastaram, me seguraram enquanto eu só sabia gritar, e o paramédico colocou o Fred na maca e a maca na ambulância. 

Dentro da ambulância, tentaram ressuscitá-lo de novo. Antes da porta da ambulância fechar, vi quando cobriram o rosto dele com um lençol. Meus pais tentavam me fazer calar a boca, minha mãe reclamava do escândalo. Eu queria que eles continuassem tentando trazer ele de volta, mas se já tinham coberto o rosto dele, significava que tinham desistido, e eu sentia o desespero tomar conta de mim cada vez mais. 

Apaguei. Acordei em um hospital dois dias depois, meus pais mandaram os médicos me sedarem. Não acompanhei o velório e o sepultamento de Fred. Não pude nem falar com os pais dele. Fiquei furiosa com meus pais, mas eles disseram que tinha sido para o meu próprio bem. E aí vieram os médicos, os remédios. Não gostei de médico nenhum, dizia que não ia mais voltar após a primeira consulta, e então compreendi que se eu não aceitasse logo um, nunca ia me livrar daquilo. Eu tinha que fazer o que minha mãe queria. Ela ameaçou me internar. Finalmente, me ajeitei como pude com o último médico, o Doutor Rodrigo, que se não ajudava, pelo menos não atrapalhava. Eu chegava lá e duas vezes na semana,  ficava sentada quieta durante a primeira meia hora, e ele me olhando indiferente. Daí eu encolhia os ombros e falava de Fred, pois era a única coisa que eu conseguia falar e pensar. Ele só escutava. Pensei que um dia me tornaria uma psiquiatra, pois é dinheiro fácil. Depois daquele pensamento, eu me achei cínica e injusta. Fui melhorzinha com o Dr. Rodrigo. Ele até concordou quando pedi para ir apenas uma vez na semana. Eu fingia que estava melhorando, que já nem chorava mais, e isso foi após o segundo mês de consulta, e então ele me passou para a cada quinze dias. 

E então minha mãe pegou o meu computador outra vez.

Cheguei em casa e dei com ela apertando os botões, querendo apagar minhas fotos e filminhos com o Fred. Corri e arranquei o computador da mão dela. Chamei-a de vaca várias vezes. Ela me esbofeteou. Tranquei a porta do quarto, a vi que as fotos ainda estavam na lixeira, e pude recuperá-las. Papai chegou (acho que algum vizinho escutou a briga e telefonou para ele), e eles tiveram a briga mais feia de todas.  Ele me defendia, dizendo que nem todo mundo era emocionalmente distante como mamãe. Nem todo mundo era capaz de engolir um sapo com uma dose de Bourbon. Nem todo mundo conseguia distorcer a realidade de tal forma a achar que problemas não existiam. Ela chorou, e ele saiu batendo a porta. Mas no dia seguinte, à mesa do café, mamãe agia como se tudo estivesse perfeito, usando uma blusa rosa-pálido e colarzinho de pérolas. Exagerara um pouco no blush. 

Eu ignorei seu "bom dia," e agarrando uma maçã e minha mochila da escola, saí porta afora. É claro que meu computador estava comigo, e estaria comigo o tempo todo depois daquilo. Também tomei o cuidado de armazenar tudo em pelo menos cinco nuvens, dois pendrives e um CD. 

Não sei porque, mas contei tudo isso a Cátia em um domingo de manhã bem cedo, numa visita surpresa que fiz a ela quando soube que meu pai estaria viajando a negócios. Ela estava de roupão de banho quando abriu a porta, e levou um susto ao me ver. Me mandou entrar, me perguntou se eu já tinha tomado café, eu disse que não e tomamos café juntas, em silêncio. De repente, nós estávamos sentadas na varanda do apartamento olhando os carros lá embaixo, e eu estava contando tudo a ela. Cátia me ouviu sem me interromper ou fazer perguntas, e quando terminei, ela disse que eu podia contar sempre com ela e com papai, eles estavam do meu lado, e sempre que eu quisesse conversar era só ligar. 

Não sei bem porque eu comecei a chorar. Ela ficou desconcertada. O choro começou a sair em borbotões, todo o choro reprimido que não podia ter vazão diante de minha mãe, o choro que eu sufocava no travesseiro todas as noites antes de dormir. Saiu assim, livre, alto, doído, aos borbotões, e parecia que meu peito queimava em fogo. Cátia segurou minha mão, que tremia, e de repente estávamos abraçadas. Ela me segurava meio sem jeito, no início, mas depois me abraçou forte, e eu me soltei nos ombros dela. Acho que passaram-se uns vinte minutos antes que eu me acalmasse. Quando parei de chorar, ela me sentou no sofá e me trouxe um copo de água com açúcar. 

Eu poderia ter mentido para minha mãe. Isso com certeza tornaria as coisas bem mais fáceis, se ao invés de falar a verdade, eu tivesse dito a ela que tinha ido dar uma volta no parque quando ela me perguntou onde eu estivera. Mas eu estava cansada de tantas mentiras. Disse em alto e bom tom: "Fui ver a Cátia." 

Aquilo foi demais para ela! Furiosa, minha mãe começou a gritar feito louca, me acusando de ingrata, traidora, imatura. Eu tentei ir para o meu quarto, mas ela me bloqueou a entrada, me empurrando de volta para a sala e me obrigando a sentar no sofá. Achei que ela fosse me bater. Mas de repente, minha mãe desabou no sofá ao meu lado e pareceu dez anos mais velha, e muito cansada. Tive pena dela. Tentei falar com ela, mas quando comecei, ela ergueu uma mão, em um gesto para me fazer calar. Depois, retirou-se para o quarto, me deixando ali sozinha. Eu sabia que Dona Marta estava furiosa comigo daquela vez, muito magoada mesmo, mas nem assim eu senti culpa. Só pena. 

No final da tarde, eu estava em minha cama ouvindo música quando ela entrou. parecia mais calma. achei que poderíamos conversar, e sentei-me na cama. Ela sentou-se na minha frente. Me olhou. Nos olhamos por um longo tempo antes de ela dizer: "Nunca mais eu quero que você volte a procurar a mulher que levou seu pai embora desta casa!" Seu tom de voz era calmo e baixo. Respondi no mesmo tom: "Quem mandou meu pai embora foi você, com sua distância emocional e sua indiferença a tudo o que não lhe diga respeito diretamente. Sua mania de importar-se com aparências e com o que os outros estão pensando. Sua frieza extrema, sua falta de atenção para as dores dos outros, e a mania de, mesmo sabendo que ele estava saindo com outra, nunca tê-lo questionado, nunca ter conversado com ele. Você é orgulhosa demais para isso, Dona Marta. Orgulhosa demais até para admitir que estava levando um chifre! Você, mãe, é... patética! E eu estava me tornando igualzinha a você. Ainda bem que acordei!"

O tempo todo, à medida que eu falava, eu via os olhos dela começando a se esbugalharem, os lábios formando um "o", a pele ficando vermelha. Eu sabia que ela ia me bater daquela vez, e quando o tapa ardeu no meu rosto, eu ri. Ela ficou mais furiosa ainda e me agarrou pelos cabelos, e eu tentava me soltar, gritando e empurrando ela. Acabei arranhando-a no braço, arranquei sangue mesmo, mas foi sem querer. Ela me soltou, olhando o braço e tentando limpar o sangue com a mão.  Pedi desculpas. Tentei pedir desculpas, tinha sido sem querer. Mas ela não me olhou. Apenas disse: "Arrume suas coisas. Você vai morar com o seu pai."

Eu só queria morrer. Eu só queria o Fred. Era a única pessoa que me entendia, que me amava de verdade. Eu sabia que não poderia morar com meu pai e Cátia, o apartamento era pequeno, só tinha um quarto. Eu não sabia o que fazer. 

Coloquei minhas coisas em uma mochila sim; mas não fui procurar meu pai, nem me despedi dela. Peguei algum dinheiro da gaveta da sala, dinheiro que daria para sobreviver alguns dias se eu fosse econômica. Mas de repente, me deu na cabeça passar pelo banheiro antes de sair, e pegando a tesoura, cortei meus cabelos longos e loiros bem curtos, deixando-os bem colados no crânio. Peguei um pouco da tinta castanho-dourado de minha mãe e pintei-os. Tomei um banho para tirar a tinta e recolhi meus cabelos do chão com cuidado, colocando-os em um saco plástico que deixei na lixeira, e saí pela noite. Fiz questão de não deixar na pinta o que eu tinha feito, limpando tudo com cuidado. Quando pus os pés na calçada, passavam das duas da manhã, e as ruas estavam vazias. Não olhei para trás. 





Um comentário:

  1. Caramba, que intenso! Ana como tuas letras são sedutoras aos olhos, que lindo! Comecei como leitora ou uma humilde narradora (a mim mesma) e quando terminei, estava completamente envolvida, era a personagem! Que delícia sentir isso!
    Parabéns pelo dom! Imensamente prazeroso!

    *Sou muito diferente da minha mãe, mas herdei dela o que mais me irritava nela, rs... Sou metódica no último, é horrível, eu não me suporto e sei que talvez por isso arda no inferno um dia, risos...

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