quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um Conto de natal - VII conto

Um Conto de Natal  


Este conto é antiquíssimo. Escrevi-o quando tinha vinte e poucos anos, como uma tarefa de inglês – uma redação - do curso onde estudava. Foi publicado na internet há muito tempo, mas perdi o arquivo; assim, reescrevo-o hoje, baseado naquilo que me lembro do original e reinventando o que não lembro.






Um ser extra-social perambula pelas ruas da cidade. Ele impressiona-se com as luzes coloridas que brilham nas vitrines – janelas da vaidade humana, segundo captam seus sensores- e se encanta com as alegres canções que saem dos auto-falantes pregados nos postes da cidade. “É Natal,” Ele ouve os seres humanos dizendo. 

Ele vive só. Apesar de estar sempre à vista de todos, ele é invisível. Passa despercebido entre as multidões que carregam pacotes e mais pacotes, e seus sensores não conseguem captar o sentido de tudo aquilo. 

Há muito tempo, ele fugira de seu planeta. Fora sempre ignorado ou maltratado por aqueles que coabitavam com ele. Finalmente, embarcou em uma nave de sonhos – que estraçalhou-se no solo durante o pouso, ao bater com força sobre o campo da realidade – e sumiu, para nunca mais voltar. Seus sonhos despedaçados foram desintegrando-se aos poucos, e seu coração, já frio, foi tornando-se também duro como o asfalto que seus pés nus pisavam. Lembra-se vagamente de assistir, em uma pequena caixa quadrada que transmitia imagens em preto e branco, a história de um super-herói que era bom e salvava os fracos e necessitados. Era este o seu sonho: encontrar o super-herói para que este o salvasse. Procurou durante muito tempo, em cada esquina da vida, aterrissando sua pequena nave de busca em vários locais. Aos poucos, começou a esquecer-se do rosto que sempre aparecia na pequena tela quadrada. O ser extra-social compreendeu que teria que transformar-se, ele mesmo, em seu próprio salvador e combater o mal – representado pelos seres sociais.

Em seu rosto encovado estão sepultados milhões de sorrisos. O frio do asfalto às vezes entra pelas solas dos pés e chega até o seu coração. Nesses momentos, ele saca de sua arma interestelar – canivete, navalha – e faz sangrar alguns dos seres sociais. Mas não naquela noite. Era Natal! 
Ele pensa: “Natal deve ser uma coisa boa. Se tanta gente comemora, e fica tão feliz, é porque deve haver um bom motivo! Mas... o que é o Natal? Como fazer com que seja natal também para mim?” 

Ele sai caminhando pelas ruas já desertas daquela noite de Natal. Sua nave imaginária acaba levando-o a um bairro de classe média alta, onde vivem alguns seres sociais. Ele olha pelas janelas e vê pessoas felizes, mesas fartas e árvores enfeitadas rodeadas de presentes. Seus sensores captam a mensagem, há muito esquecida: “Família.” Mas aquelas famílias são bem diferentes da sua. Ali, as crianças não eram maltratadas; eram beijadas, abraçadas e recebiam presentes. Seu coração de lata enche-se de mágoa e tristeza. Ele segue.

Chega a uma casa toda iluminada, onde avista uma cena que chama-lhe a atenção: uma senhora e um homem olham para um menininho que estende os bracinhos para o céu. Três homens muito bem vestidos carregam presentes. Animais rodeiam a cena. Ele gosta, e decide atravessar a rua para ver melhor, voando em sua nave imaginária sobre a baixa cerca que separa a cena da calçada. Ao olhar para o menino, seus olhos se enchem de lágrimas, e mesmo embaçados, seus sensores transmitem-lhe uma mensagem: “Amor.” Mas naquele instante, um homem sai de dentro da casa dos seres sociais, gritando e correndo em sua direção: “O que você pensa que está fazendo, moleque? Caia fora do meu jardim!” 

Assustado, o ser extra-social pula novamente a cerca e atravessa correndo a rua. Não percebe que uma nave de ferro, pilotada por um humano embriagado, vem em sua direção. Apenas escuta uma freada, e seus sensores sequer tem tempo de captar a sua última mensagem: “Morte.”






3 comentários:

  1. pelo menos, de certa forma, conheceu a felicidade. digo eu [em jeito de brincadeira]! :)

    [sem brincadeira] noto (pela escrita) a "antiguidade" que referes, mais por teres alertado para ela. achei o teu conto muito interessante!

    ResponderExcluir
  2. Hello I'am Chris From France!!
    this is not a "spam"
    You Have A Wonderful Blog Which I Consider To Be Registered In International Blog Dictionary. You Will Represent Your Country
    "Directory Blogspot" is 15 million visitors! .193 Country. 18000 Websites
    Please Visit The Following Link And Comment Your Blog Name
    Blog Url
    Location Of Your Country Operating In Comment Session Which Will Be Added In Your Country List
    On the right side, in the "green list", you will find all the countries and if you click them, you will find the names of blogs from that Country.
    Imperative to follow our blog to validate your registration.Thank you for your understanding
    http://world-directory-sweetmelody.blogspot.com/
    Happy Blogging
    ****************
    I wish you and your family a Merry Christmas
    A small gift for you
    **********************
    http://nsm08.casimages.com/img/2014/12/08//14120811133512502812779261.gif

    ResponderExcluir
  3. Muito bom Ana!
    Gostei do enredo, das imagens e da mensagem central contida nas linhas e entrelinhas.
    Já com 20 anos tinha esse dom maravilhoso da escrita (nasceu com ele), certeza!

    Parabéns miga
    abraços

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...