segunda-feira, 10 de junho de 2013

ACEITAÇÃO - PARTE V



ACEITAÇÃO - PARTE V

Concordei - ainda não sei como - em passar na casa de Rosane a fim de conhecê-la, já que ela estava muito fraca naqueles dias para ir até a minha casa. Ela me explicou que às vezes se sentia melhor, mas ultimamente vinha sentindo-se fraca e cansada. Alguma coisa na voz dela me convenceu.

Quando parei o carro em frente ao endereço que ela me indicou, me vi diante de uma pequena casa pintada de azul, com janelas brancas. Havia um portão e uma cerca de madeira brancos, e um pequeno jardim não muito bem cuidado. Cruzei o caminho até a porta. Sentia-me muito nervosa, mas eu iria até o fim. Toquei a campainha. Esperei. Ouvi os passos se aproximando da porta. Verônica tinha vindo receber-me.

-Obrigada por ter vindo, Débora. Entre!

Ela me conduziu até o quarto onde Rosane descansava, sentada em uma cadeira de rodas, as pernas cobertas por uma manta vermelha de xadrez. Fiquei diante daquela mulher lindíssima, apesar de enfraquecida pela doença, e senti o peso de minha humilhação. Ela era bem mais bonita do que eu, mesmo doente! Tinha longos cabelos lisos e loiros, olhos esverdeados, e o rosto mais bonito que eu já vira em uma mulher. Se ao menos ela não fosse tão bonita!

Ela fez sinal para que eu me sentasse na cama , em frente a ela. Pediu à filha que saísse.

-Obrigada por ter vindo, Débora... eu... queria, antes de tudo, pedir-lhe desculpas. Quando jovem, eu nunca pensava muito no que eu fazia. Apenas queria algo, e pegava. Sinto muito.

Não respondi. Não sentia vontade de dizer nada. Apenas estava hipnotizada por aquela criatura linda e misteriosa à minha frente. A mulher que tivera uma filha de meu marido.

-Bem, acho que você já sabe como foi minha história, digo, minha brevíssima história com Tércio. Conhecemo-nos no navio em que viajávamos todos... e eu precisei investir muito para conseguir a atenção dele. Realmente, eu me empenhei bastante. Mas ele me disse com todas as letras que amava a esposa - você - e que não tinha lugar para mim na vida dele. Insisti, disse que concordaria em ser sua amante. Mas ele não me quis.

Pensei no quanto seria difícil para qualquer homem dizer não àquela mulher. Senti desprezo por ela. Ela representava tudo o que eu mais desprezava uma mulher: agira como alguém vulgar, superficial e oportunista. Pensei que ela deveria merecer o que estava passando! Mas imediatamente após aquele pensamento, compreendi que o que ela estava passando tinha muito a ver comigo; então, eu também merecia!

-Quero que saiba que depois de ser rejeitada por Tércio, jamais pensei em perturbar a vida de vocês, e não o faria jamais, se eu não tivesse ficado doente. Se o faço, é por minha filha. É apenas nela que eu penso. Você sabe, ninguém escolhe quando vai morrer, e eu estou morrendo. Não tenho nada para deixar para ela.  Não tenho nem uma casa. Ela não trabalha ainda, está estudando. Pago sua faculdade com muito sacrifício, mas agora, não sei como vai ser. Eu trabalho de recepcionista durante a manhã, em um consultório médico, e à tarde, eu dou aulas de etiqueta para jovens modelos. Fui modelo, sabe...

Olhando ainda mais atentamente para ela, não duvidei. Parecia mesmo um rosto conhecido... de repente, lembrei-me dela no navio! Eu a vira posando para fotos junto à piscina! Tinha um corpo escultural. As pessoas todas viravam-se para olhá-la. 

Permaneci calada. Ela me fascinava.

-Passei a vida viajando, sabe... conheci lugares e pessoas incríveis! -Ganhei muito dinheiro, mas não guardei nenhum. Achava que morreria bem velha.
Acho que minha filha sentirá muita falta desta vida que tínhamos. Por isso, nunca economizei nada. Fui irresponsável, mas com certeza, minha filha se lembrará de muitas coisas boas que vivemos e vimos juntas! Vivi intensamente... bem, isto me serve de consolo, ao saber que estou morrendo aos quarenta e três anos... eu vivi! 

Ao dizer aquilo, ela me olhou bem dentro dos olhos. Achei que estava me afrontando, e respondi:

-Sei o que quer dizer. Algumas pessoas acham que viver a vida intensamente, é viver sem responsabilidade, metendo-se na vida dos outros e tomando para si o que não lhe pertence.

-O que não me pertence? Você fala de Tércio?  E ele pertencia a você, Débora?
-Sim! Tércio era meu marido!
-Bem... se ele era seu, por que não está aqui agora? Por que você está sozinha? Eu respondo: porque ele não lhe pertencia! Ninguém nos pertence, Débora.
-Não vim até aqui para discutir filosofia com você. Vim porque achei que você queria falar sobre negócios.
-Negócios?
-Sim! Não é por isso que me procurou? Por dinheiro?
-E você acha que tudo se resume a dinheiro?! Não... eu a procurei por amor. Porque eu amo minha filha.

Ela disse aquilo de uma maneira tão doce, que não consegui retrucar.  Olhei-a nos olhos desarmada, pela primeira vez.

-Em que posso ajudar?
-Eu gostaria que você ficasse com ela.
-O que?! Como assim, ficar com ela?
-Não quero que minha filha fique sozinha no mundo. Só temos uma à outra. Não temos parentes. Meus amigos são loucos, almas livres... não gostaria que ela ficasse com nenhum deles. De você, eu sei. Tércio me falou sobre a pessoa maravilhosa que você é.
-Você está dizendo que, nos dois dias durante os quais você e meu marido estavam na cama, passaram boa parte do tempo discutindo minha relação com ele?

Ela respirou fundo, baixando os olhos.

-Não é bem assim, e não acho que os detalhes contam agora; acredite em mim, eu e ele falamos em você. Só tivemos relações uma única noite, e mesmo assim, porque eu praticamente o ataquei! A segunda noite foi apenas... apenas sobre você. Sabe, eu sei ser uma boa ouvinte, e uma boa perdedora.

-Escute, Rosane, sua filha é mulher feita, e pode tomar conta de si mesma.

-Eu não gostaria que ela ficasse sem referências. Por favor, diga-me que vai pensar!

Levantei-me, dizendo:

-Olha, eu... acho que vocês deveriam pensar em um teste de DNA, porque a justiça com certeza pedirá um. Essas coisas podem levar tempo, e...
-Tempo? Eu não tenho tempo. Não há tempo, nem haverá DNA. Por favor, me diga que você vai pensar esta noite, com muito carinho...
-Sinto muito, mas não posso fazer isso.
-Mas...
-Não posso! Eu não posso!

Saí correndo dali, e passei por Verônica, que estava sentada na sala de estar, sem nem sequer olhar para ela ou despedir-me. Bati a porta, entrei no carro e saí cantando pneus.




Um comentário:

  1. OI Ana


    Adorei esse seu blog também...
    Ainda não conhecia.

    Beijos e boa semana.

    Ani

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