segunda-feira, 10 de junho de 2013

Aceitação - Parte III



Aceitação - Parte III


Comecei a tentar adivinhar a idade dela; eu fora casada com Tércio durante vinte e dois anos, e namoramos por dois. Portanto, nos conhecíamos há vinte e quatro anos. Ela teria que ter mais de vinte  e quatro anos, ou então, eu tinha sido traída.

-Quantos anos você tem?
-Dezessete.

Fiz as contas. Eu tinha sido traída. Tércio tinha sido pai daquela menina quando tínhamos sete anos de casados. Rapidamente, tentei me lembrar do que tinha acontecido entre nós naquela época. Alguma briga? Separações? Não. Tinham sido nossos melhores anos! Até fizemos um cruzeiro às Ilhas Gregas! Uma segunda lua-de-mel. A única coisa que eu conseguia pensar, era que aquela menina ali, na minha frente, era filha de Tércio. Filha de uma traição dele durante o nosso casamento, nos nossos melhores anos! De repente, comecei a sentir muita raiva dele. 

-Bem, e o que você quer de mim? 

Ela pareceu desconfortável. Torcia as mãos.

-Eu não teria vindo aqui se não fosse estritamente necessário. É que minha mãe...
-Sua mãe?
-Sim, minha mãe está muito doente...

Ela falava da mulher com quem Tércio havia me traído! Como ela era? Qual seria o seu nome? Por quanto tempo eu tinha sido enganada por eles? Minha cabeça parecia um turbilhão! Percebi que é possível - perfeitamente possível - sentir ciúmes de alguém que já tinha morrido. Ela continuou:

-Deixe-me explicar... seu marido; meu pai; Tércio e minha mãe se conheceram durante um cruzeiro. Foi apenas uma aventura, não durou.

O cruzeiro! Então fora durante a nossa segunda lua de mel!

-Mamãe contou-me que eles se envolveram em um cruzeiro, numa noite em que a esposa dele... você - ficou indisposta durante dois dias, e não compareceu aos eventos... ficou na cabine, de repouso.

Lembrei-me daquelas dois dias em que eu estivera indisposta, e insistira para que Tércio aproveitasse a viagem. Bem, ele o tinha feito! Verônica continuou:

-Eles ficaram juntos por algumas horas, duas noites, e na terceira, ele confessou à minha mãe que era casado, e feliz... que não queria mais continuar com aquilo. Pois ele amava você.

Levantei-me, indo até a janela. Senti muita raiva, mas não quis despejá-la sobre aquela menina que de nada tinha culpa.

-E ele... ele via você?

-Não, ele nem soube que eu existo. Sempre quis saber quem era o meu pai, mas minha mãe nunca me contou. Até que um dia eu briguei muito com ela. Então, ela me contou, e isto foi há apenas três meses. Eu tentei fazer contato com ele, cheguei a esperá-lo no escritório, mas eu pensei: "O que eu vou dizer? Olá, sou sua filha?" Bem, eu estava tentando criar coragem. Até que...

Ela encolheu os ombros. Senti pena dela.

-Você me disse que sua mãe está muito doente?
-Sim. Eu só soube há pouco tempo, quando ela começou a sentir-se mal, e precisou fazer alguns exames. Sabe, ela não tem muito tempo. Minha mãe... minha mãe é uma pessoa um pouco diferente. Ela não se liga em convenções, e investe firme no que deseja; mas ao mesmo tempo, ela é uma aventureira... maravilhosa, mas... não concordo sempre com as coisas que ela faz!

Pensei que aquela menina tinha muito de Tércio. Sempre mais 'certinho' e ético do que as pessoas que nos rodeavam, às vezes causava desconfortos e controvérsias no trabalho por causa de sua mania de querer fazer tudo certo sempre. 

-Verônica... como sua mãe se chama?

-Rosane.

Fiquei rolando aquele nome em minha língua, tentando lembrar-me se alguma vez ouvira Tércio repeti-lo, ou se algum dia ele fizera parte de nossas vidas. Não me lembrei de nada. Rosane era uma perfeita estranha, e há poucos minutos, nem sequer fazia parte de nossas vidas. Nem Verônica. Pensei, de repente, que aquilo tudo poderia ser uma tremenda armação! Como saber se aquela menina era realmente filha de Tércio? Mas... o mesmo olhar, as mesmas sobrancelhas, o cabelo muito loiro, o jeito de inclinar a cabeça... a história, que 'batia' perfeitamente... com certeza, ela era filha dele.

-Bem, Verônica, o que você quer realmente de mim?
-Bem, a casa na qual nós moramos foi emprestada à minha mãe por uma amiga de minha falecida avó, que assinou um documento dizendo que ela poderia ficar lá enquanto ela estivesse viva. Depois eu nasci... e esta senhora morreu. A família decidiu tirar-nos da casa, mas não conseguiu. Agora, que souberam que minha mãe está doente, eles conseguirão, assim que ela... morrer. Não terei onde morar, e nem poderei continuar meus estudos. Ficarei sem nada... e de repente, eu descubro que eu tinha um pai. E minha mãe mandou que eu viesse falar com você, Débora.

-Você sabe meu nome?
-Minha mãe me disse.

O fato de saber que Tércio dissera meu nome à sua amante encheu-me de dor. Eles falaram sobre mim, ela sabia meu nome. Talvez soubesse mais de mim do que eu imaginasse. A raiva e a indignação tomaram conta de mim novamente. Levantei-me, resoluta. Peguei Verônica pelo braço gentilmente, conduzindo-a até a porta:

-Olha, mocinha, as coisas não são bem assim. Você terá que provar quem você é primeiro. E pode ter certeza que eu não vou facilitar as coisas para vocês! Sua mãe é uma golpista, e me desculpe por dizer isto; mas vocês terão que reivindicar seus direitos na justiça, se é que os tem.

Dizendo aquilo, empurrei-a porta afora gentilmente, e fechei a porta.



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