segunda-feira, 10 de junho de 2013

ACEITAÇÃO - PARTE IV




ACEITAÇÃO - PARTE IV

Gertrudes e Zilá ouviam minha história de olhos arregalados, enquanto permaneciam de mãos dadas no sofá, e eu, jogada sobre o enorme e macio pufe da sala de seu apartamento. Terminei minha narrativa sem ser interrompida uma vez sequer. Quando finalmente me calei, Zilá observou:

-Bem... sua querida sogrinha sempre quis um netinho. Agora, ela tem!

Gertrudes cutucou-a, mas eu ri daquele comentário, deixando as coisas mais leves. Ainda não tinha pensado na reação de Doralice - minha sogra. Será que eu deveria contar a ela? achei que sim. Mas pensaria naquilo depois. Ainda tinha que verificar cuidadosamente a autenticidade daquela história, mesmo sabendo que era tudo verdade. Gertrudes foi até mim, e fazendo uma leve carícia sobre minha cabeça, perguntou-me, sentando-se no pufe ao meu lado:

-E você vai fazer o que agora?

-Dificultar as coisas, é claro.

Ela e Zilá se entreolharam.

-Bem, o que vocês fariam no meu lugar? Dividiriam tudo com uma desconhecida? Vocês sabem que Tércio deixou-me apenas aquela casa, um carro que já tem cinco anos e a loja, que já não vai muito bem. Se eu tiver que vender tudo para dividir com elas, ficarei quase sem nada.

Elas baixaram os olhos, após se entreolharem novamente. Pensei em como era incrível a capacidade que minhas amigas tinham de se comunicar através de um simples olhar, como se fosse telepatia. Mas eu estava fora daquela 'conversa.' Indaguei:

-Bem, o que vocês fariam no meu lugar?
Zilá respondeu: 

-Pensaríamos na possibilidade de um acordo! De qualquer maneira, ela tem direito a cinquenta por cento de tudo. Você perderia feio. Melhor não brigar, poupar a si mesma e a todos.

Levantei-me, e comecei a andar de um lado para o outro:

-Nem morta! Vocês entenderam bem o que está acontecendo aqui? Estou falando da amante do meu marido!
-Ex-amante - disse Zilá.

-E já está morrendo - disse Gertrudes. - Foi uma aventura! Você não consegue perdoar o Tércio?

-Não. Não consigo. Ainda mais nas circunstâncias em que tudo aconteceu! Na nossa segunda lua de mel! Vocês falam assim porque não estão na minha pele! Queria ver se uma de vocês traísse a outra, aí sim! Pimenta no olho do outro é refresco!

Zilá tentou acalmar as coisas, dizendo:

-Escuta, vamos tomar um café. Depois você pensa melhor, ainda tem tanta coisa na sua cabeça... venha...

Mas Gertrudes interrompeu-a:

-Olha, Débora, você sabe o quanto nós a amamos, mas agora as coisas não são só sobre você; tem essa menina, que de nada tem culpa. Ela é muito jovem, e está sofrendo muito com a morte do pai que acabou de conhecer, e a morte iminente da mãe. Ela está só!

Como sempre, Gertrudes conseguia me fazer olhar e enxergar as coisas. Mesmo quando eu não queria vê-las. Mesmo assim, não respondi. Passamos a tarde jogando conversa fora, e nos empanturrando de chá e doces.

Quando voltei para casa, já era noite alta. Deitei-me e adormeci imediatamente.

Sonhei com Tércio, e que contava a ele que ele tinha uma filha. Apesar de meu ressentimento, ao vê-lo novamente, eu não consegui odiá-lo.  Ele nada disse, embora parecesse muito emocionado, e após estreitar-me em seus braços, eu acordei para o vazio do meu quarto.

Na manhã seguinte, aprontei-me para reabrir a loja. Telefonei para minha funcionária, e marcamos de nos encontrar lá. Foi bom ter coisas para fazer novamente. Consegui atravessar o dia sem grandes dramas, e como novas mercadorias tivessem chegado, passamos a tarde arrumando tudo. Tivemos também boas vendas naquele dia. Foi muito bom voltar à ativa.

Antes de ir para casa, levei algumas rosas vermelhas para Tércio. Estar ali, naquele lugar silencioso que tornava as pessoas que amamos e que se foram ainda mais inatingíveis, eu senti uma estranha paz. 

À noite, quando voltei para casa, como sempre, foi muito difícil entrar na sala silenciosa e escura, sabendo que ninguém iria chegar. Arrasada, sentei-me na minha poltrona favorita e chorei. Por um instante, achei que não conseguiria mais ser feliz. Mas depois, achei que a autopiedade em nada me ajudaria, e fui preparar o jantar. Precisava alimentar-me melhor, pois as roupas já estavam ficando folgadas. Ficar doente em nada ajudaria.

Às nove horas em ponto, o telefone tocou. Eu acabara de jantar uma sopa de legumes. Atendi, e uma voz levemente enrouquecida respondeu:

-Boa noite, Débora! Meu nome é Rosane.


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