quarta-feira, 22 de novembro de 2017

AMOR E REVOLTA - Capítulo VI







Gabi conversava com Melissa. Ambas estavam sentadas no pátio da escola, durante o intervalo. Tinham acabado de discutir as questões do teste que fizeram. Era um teste final de matemática, e após compararem suas respostas, chegaram à conclusão de que ambas tinham conseguido passar muito bem. 

O ano letivo terminaria em apenas duas semanas. Luis tinha terminado as provas mais cedo do que os demais alunos, em condições especiais, pois partiria com sua família em uma longa viagem de férias. As duas meninas estavam sentadas juntas, sentindo-se um tanto melancólicas. De repente, Gabi, que esmigalhava entre os dedos algumas folhas de grama, soltou um longo suspiro. As duas se conheciam muito bem, e logo Melissa percebeu que a amiga estava triste.

-É chato estar aqui sem o Luis, né?

Gabi concordou com a cabeça. Depois de algum tempo, disse:

-É, sim. Mas mais chato ainda, é a maneira fria como seu irmão vem me tratando. Sabe, Melissa, desde que ele fez amizade com aquela tal de Jane, tem nos ignorado.

-Já reparei... mas mamãe e papai dizem que ele está se adaptando à nova escola, fazendo novos amigos, e que isso é bom. Eu... não sei se é tão bom assim.

-Por que?

Melissa levantou-se do gramado, batendo as palmas das mãos no jeans, a fim de tirar as folhinhas de grama. Gabi seguiu-a, e ambas começaram a caminhar devagar em direção à cerca do pátio, um local mais afastado. Quando chegaram debaixo de uma grande árvore, melissa segredou:

-Achei um cigarro de maconha nas coisas dele.

Gabi levou um tempo para digerir aquela informação:

-Você mexeu nas coisas dele?

Melissa pareceu um pouco sem graça, mas disse:

-É que uma vez, de madrugada, eu me levantei para ir até a cozinha beber água. Ele estava chegando em casa naquele momento, e o cheiro era inconfundível! Daí, esperei ele ir dormir e revistei a mochila dele. Achei um cigarro de maconha. E uns comprimidos estranhos. Não sei o que são.

Gabi levou uma das mãos à boca:

-E o que você fez? Contou aos seus pais?

-Não. Não quero passar por dedo duro.

-Pois eu acho que você deveria contar. Isso é muito sério, amiga!

Melissa ergueu os cantos dos lábios:

-Eu sei... só não queria provocar uma outra crise lá em casa... as coisas andam tão calmas! Até mesmo minhas avós pararam de brigar.

As duas riram. Gabi disse:

-Melissa... e se você conversasse com ele?

Aquela possibilidade nunca tinha passado na cabeça dela.
Afinal, ela e o irmão nunca tinham sido, necessariamente, amigos íntimos.

-É... é uma boa ideia. Acho que eu vou pensar nisso. Mas... essa tristeza sua não tem só a ver com a ausência de Luis e do meu irmão, não é? Eu conheço você, e a última vez que suspirou assim, estava de paixões por um menino...

Gabi sorriu:

-É... mas não deu em nada, lembra? Depois que nós saímos juntos, eu me desapaixonei. Ele era um verdadeiro babaca. Nada parecido com o...

Gabi calou-se antes de revelar seu antigo segredo. Mas Melissa logo percebeu que a amiga não tinha completado a frase, e pulando e batendo palmas em volta dela, exclamou:

-Peraí! Tem coelho nessa moita! Conta aí, amiga: quem é o felizardo? Uma paixão secreta, e você está escondendo de mim??? Como foi que eu não notei?

Gabi olhou para ela, em pânico, e seu rosto cobriu-se de manchas vermelhas. Ela engoliu em seco, tentando mudar de assunto:

-Não, não é nada disso!

Mas seus olhos se encheram de lágrimas de repente, e Melissa ficou séria quando percebeu a verdade: Gabi estava apaixonada por Marvin! Melissa andou até ela, abraçando-a e pedindo desculpas:

-Desculpe, amiga.. mas há quanto tempo está assim, nesse estado tão desinteressante? Sabe, tem tanto cara mais legal do que o meu irmão, que é tão problemático, e agora está tão besta!

Gabi riu entre as lágrimas:

-É, mas acho que eu sou mais besta do que ele. Acho que eu me apaixonei pelo Marvin na primeira vez que deitei meus olhos nele.

-E por que nunca deixou ele saber?

Gabi fungou:

-Ele nem percebe que eu existo. Olhe só para mim! Esse cabelo cacheado, essas pernas grossas... e agora tem a Jane. A garota perfeita. Sabe, às vezes fico olhando para ela, tentando encontrar algum defeito, mas não tem nenhum: ela é perfeita. 

-Não. Ninguém é. Quer saber? Eu não vou muito com a cara dela e de seus amigos. Os pais dela estavam na escola no outro dia, quando eu fui pegar o Marvin com a mamãe... e se você visse... a mãe dela parece uma versão da boneca Barbie da terceira idade, e o pai, uma cópia do Tarzan. 

As duas deram gargalhadas. Gabi comentou:

-É... mas dizem que o irmão – Max – é uma perdição.

-Um babaca arrogante e convencido. Uma vez eu estava com o Marvin e a Jane na rua, ele parou, falou alguma coisa com ela e nem nos cumprimentou. Além disso, é alto demais.  E você é melhor do que ela. Dá de mil a zero.

-Obrigada, amiga, mas infelizmente, não é você que precisa achar isso...

Naquela tarde, ao chegar da escola, Melissa surpreendeu-se por achar Marvin em casa. Ele parecia um tanto aborrecido. Estava sentado no sofá da sala, jogando vídeo game – coisa que ele sempre fazia no quarto. Seus pais tinham combinado de se encontrar após o trabalho para irem ao cinema, portanto, eles estavam sozinhos em casa. Ela murmurou um “oi”, e ele respondeu com um grunhido. Melissa pensou no quanto seu irmão estava ficando cada vez mais parecido com o cunhado arrogante. Mas também percebeu que ele não estava bem. 

Pegou um refrigerante na geladeira; depois, pensou melhor e pegou dois. Chegou na sala e sentou-se ao lado de Marvin, deixando uma das garrafas em frente a ele. Marvin, com os olhos grudados na tela, nada disse. Melissa arriscou:

-Nossa! Já está na última fase?

Naquele momento, Marvin perdeu sua última vida, e deu um soco na almofada. Ela tremeu. Marvin pegou o refrigerante, tomando vários goles:

-Estou. Mas não consigo passar. 

-Essa é a mais difícil...

Ele recostou-se no sofá, pegando o controle remoto e mudando para um canal de TV, onde um surfista fazia manobras radicais. Os dois ficaram calados durante um tempo, olhando a tela. Melissa podia sentir a tensão do irmão. Melissa perguntou:

-Está tudo bem com você?

-Hein? Está sim. 

-Não parece...

Marvin passou a mão pelo cabelo, olhando a irmã. Seria bom ter alguém com quem conversar sobre aquilo. Naquela tarde, após a escola, Jane mal despediu-se dele. Tinham combinado de ir juntos a uma lanchonete para almoçar, mas o tal Deputado Tavinho estava parado á porta da escola esperando por Jane. Ao ver o carro de luxo com vidros escuros estacionado, ela estancou, ficou séria de repente e largou a mão dele, dizendo:

-Não vai rolar hoje. Preciso ir. 

E estalando um beijo na bochecha de Marvin, entrou correndo no carro, deixando-o de pé na calçada. Melissa escutou tudo com atenção, e também ouviu dele a explicação que Sunny lhe dera sobre o Deputado Tavinho na noite da festa (mas não contou a irmã nem a ninguém que era uma festa de nudismo). Melissa pensou um pouco a respeito:

-Bem, se ele é amigo dos pais dela, e ajuda na tal ONG... e se a própria mãe disse a você que ele é como um tio para ela, eu não vejo porque você...

Marvin a interrompeu:

- Mas é aí que está o problema: a Jane não parece gostar dele, entende? Eu às vezes tenho a impressão de que ela o detesta. Que é forçada a estar com ele. E ele é um cara nojento.

-Estar com ele... como? 

Marvin retesou os músculos só de pensar na resposta para aquela pergunta. Melissa ouviu-o bufar de raiva, e socar novamente a almofada que estava em seu colo. Ela mesma se assustou, encolhendo-se do seu lado do sofá. 

-Eu não sei! Quer saber? Esquece tudo o que eu disse. 

Dizendo aquilo, ele se levantou do sofá. Melissa tomou coragem, e foi atrás dele em direção ao quarto:

-Talvez a Jane não seja a menina certa para você. Ela é muito moderninha. Quem sabe, se você olhasse melhor, veria que existem muitas meninas legais interessadas em você? 

Ele riu, nervoso:

-Ah, é? E se eu estiver interessado apenas na Jane?

-Eu diria que você pode estar perdendo seu tempo... escuta, irmão... aquela família é um tanto esquisita. Você nunca notou?

Marvin parou na porta do quarto, olhando para ela com raiva:

-Esquisita? Você nem os conhece!

Melissa encarou-o com firmeza:

-Mas apesar da minha pouca idade, eu sei que pessoas boas são aquelas que se preocupam com a gente e nos deixam com uma sensação de paz. São as pessoas com quem nos sentimos relaxados e felizes. Pessoas boas não nos deixam ansiosos, nem parecem estar sempre escondendo alguma coisa, e nem andam com pessoas como esse Deputado Tavinho. E pelo amor de Deus, aqueles seus amigos são super estranhos... E pessoas legais não dão drogas para adolescentes.

Ela viu o rosto do irmão empalidecer. Percebeu que ele estava a ponto de agredí-la fisicamente, mas de repente, Marvin entrou no quarto, batendo a porta. Melissa, extenuada após a tempestade emocional, largou-se no sofá, chorando. Ela e o irmão nunca tinham tido uma briga como aquela antes! Mesmo assim, decidiu não contar aos pais sobre o cigarro e os comprimidos que achara na mochila do irmão, pois pareceria que ela estava se vingando dele. 

(CONTINUA...)







Um comentário:

  1. Boa tarde. Bonito e interessante texto/conto. Continuo esperando pelo próximo.
    Hoje: "" O coração não mente, mas sente""

    Bjos
    Feliz Quarta-Feira

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