terça-feira, 17 de setembro de 2019

INOCÊNCIA - Parte III, Capítulo IV - FINAL







Mirtes descansava em sua cama, o antebraço cobrindo os olhos. Aquele tinha sido um dia pesado e triste, que custara muito a passar. Ainda estava usando o traje preto, e as meias finas pretas que deixavam transparecer o vermelho das unhas dos pés. Pensava na noite anterior e constatava que no momento exato em que Nelson morria, ela fazia amor com Duílio. Sentiu-se um lixo por aquilo. Jurou que nunca mais o veria, embora seu coração e seu corpo ardessem por ele. 

À porta, Yara a olhava. Percorria com os olhos cada parte dela, imaginando que as mãos de Duílio passaram sobre aquele corpo, e que os lábios de Duílio, após beijá-la, tinham beijado os seus.  Pensou no que escutara: ele dissera que nunca a tinha amado, mas que a usara para provocar ciúmes na mãe. Que só fazia amor com a filha porque assim sentia-se mais perto da mãe. A cada pensamento, seu ódio por Mirtes aumentava. Seu ódio por todos eles aumentava. 

Yara finalmente pigarreou, denunciando sua presença. Yara olhou-a, erguendo o corpo e apoiando-se em um cotovelo; estendeu o braço livre para ela, dizendo:

-Venha aqui, minha querida filha.

Yara demorou um pouco antes de caminhar até a cama, mas não se sentou e nem aceitou aquele abraço oferecido pela mãe. De pé, ela permaneceu ao lado da cama, olhando-a com desprezo. Disse:

-Você é patética. Todos vocês. Não passam de um bando de gente falsa, traidora, suja, nojenta, asquerosa. Você, “Tio” Duílio, “Tia” Aurora... um trio de pervertidos sujos! Tão mentirosos, que chega a dar nojo. Só vim aqui para despedir-me de você e dizer que nunca .mais.quero.olhar.na.sua.cara.suja. E você jamais vai me ver de novo, ou ao João. Esqueça de mim. Esqueça que um dia fui sua filha. Case-se com seu amante sujo. Seja muito feliz com ele. Se não fosse pelo meu pai e pela memória e a honra dele, eu a desmascararia e mostraria a todos a megera prostituta que você é, que você sempre foi. Traindo meu pai sob o teto da casa dele com seu melhor amigo e sócio durante anos! Usando sua filha para encobrir seu caso com ele. Mirtes... eu tenho pena de você, pois vai pagar caro por tudo isso um dia. E quando toda a sua vida estiver uma droga, lembre-se deste dia, destes anos, de tudo o que fez, do quanto me feriu e feriu papai, pois ele sabia de tudo!

Mirtes escutava a tudo com os olhos vidrados e a boca entreaberta. Permanecia na mesma posição, apoiada no cotovelo, o outro braço estendido, até que ela o baixou, compreendendo que jamais voltaria a aninhar sua filha entre seus braços. Jamais voltaria a escutar sua voz, ouvi-la chamando-a de ‘mãe,’ e jamais a veria novamente. Também jamais voltaria a sorrir ou ser feliz de novo.
Yara virou-se de costas e saiu sem olhar para trás. Mirtes não podia entender como a filha descobrira tudo. Só podia ter sido Cristina! Ah, aquela menina infernal, que sempre causava confusão dentro daquela família desde que era criança!  Mirtes fizera tudo para que Yara nunca soubesse de nada, pois jamais pretendera magoar sua filha. Desistira do grande amor de sua vida por ela. Também não teve tempo de dizer a ela que era verdade que Nelson sabia de tudo, e que dera a ela a sua bênção; afinal, as muitas quimioterapias  e demais medicamentos deixaram-no impotente para o sexo. Ele a amara profundamente, e para ele, bastava que ela ficasse ao seu lado. E ela ficou, cuidando dele durante todos aqueles anos, cumprindo sua promessa e seu dever com sua família, não por obrigação, mas por amor a todos eles, inclusive a Nelson! Ela o amava como a um grande amigo, um irmão, um pai. Mas ela o amava! E estava sofrendo por ele. 

Depois que Yara e Cristina se foram, levando seu neto, Mirtes passou a viver sozinha na casa; quase não saía mais. Era frequentemente visitada e cuidada por sua filha Berta e seu genro Sebastian, e também pelos netos que esta lhe dera. Aurora acabou indo embora dali, e na verdade, ninguém ficou surpreso quando ela disse que venderia o restaurante e a fábrica e iria morar em Paris com sua filha Joanna e seu novo genro e o neto recém-nascido.

Assim que sua mãe foi embora, Marcelo viu-se livre para assumir o controle de sua vida: divorciou-se de Cândida e voltou para a faculdade, tornando-se o profissional que sempre desejara ser. Nunca mais voltou a ver Cristina, mas permaneceu apaixonado por ela pelo resto da vida. Colecionava recortes de revistas onde ela aparecia, colando as fotografias em um álbum que ele mantinha escondido debaixo do colchão. Marcelo não voltou a casar-se, pois a lembrança de Cristina ocupava todo o espaço de seu coração.

Mas Cristina seguiu em frente, e foi feliz com Gustavo, embora não fosse apaixonada por ele. Os dois tiveram três crianças – um menino e duas meninas. Jamais sentira com ele o mesmo que sentira quando estava nos braços de Marcelo, seu amor de adolescência. Mas lembrava-se sempre das palavras de sua avó Helena, que um dia dissera-lhe que jamais deixasse que o seu coração comandasse sua mente. Assim, Cristina e Gustavo foram felizes, embora nem sempre fiéis um ao outro. Mulher livre e belíssima que era, Cristina teve muitos relacionamentos fora do casamento – mas nunca, jamais apaixonou-se por nenhum deles. Gustavo suspeitava das escapadas da esposa, mas era feliz com a vida que tinham e não se pronunciava; afinal, ele mesmo não era fiel a ela. Era como se ambos tivessem um acordo silencioso.

Yara aceitou a proposta da amiga, concordando em gerenciar não um, mas dois de seus salões de beleza no sul do país, para onde ela mudou-se com João. Quando ficou sabendo da doença da mãe, anos depois, ela nada sentiu. Pelo menos, não externamente. Mas seu coração encolhia-se e expandia-se, e ela se perguntava se não seria melhor voltar e perdoá-la. Daí ela se lembrava que Mirtes jamais pedira-lhe perdão. 

E aqui estamos nós, no exato momento em que Yara termina sua visita à sua casa de infância, despedindo-se de todos que ali viveram e de suas lembranças. Ao fechar a porta atrás de si (ela nunca mais voltaria, pois resolveu não aceitar o presente da mãe, passando sua herança a uma instituição de caridade) Yara teve a impressão de ter ouvido ecos de uma voz miúda e distante, que dizia:

-Yara! Vá tirar o uniforme da escola e venha almoçar agora mesmo!

Depois, o som abafado de uma velha música dos anos sessenta que tocava no rádio, entrecortado pelos ruídos de uma panela de pressão e de passarinhos cantando nas árvores.

Naquele momento, ela teve saudades.


FIM





Um comentário:

  1. Boa tarde, Ana.
    Aqui fico encantado com sua lindíssima criatividade, na qual você remete o privilegiado leitor a nuanças que a vida pode trazer devido à inesperadas e surpreendentes circunstâncias.
    Receba os meus sinceros parabéns com o carinho de sempre e votos de profunda paz.

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