terça-feira, 10 de março de 2020

MADRE - Capítulo 7






Capítulo 7

No dia seguinte, acordei Às onze e trinta e cinco da manhã sentindo cheirinho de ovos, bacon e café. Meu estômago vazio logo deu sinal de vida, e vestindo minhas roupas, escovei os dentes, lavei o rosto e fui até a cozinha, onde Mateus estava preparando um lauto café da manhã para nós. Ele me explicou que chegara em casa às cinco da manhã e dormira até dez e trinta, o que fazia todos os dias. O bar costumava abrir às sete e trinta da noite, então ele tinha o dia livre para fazer o que quisesse.

Nós tomamos nosso desjejum e depois passei muito tempo contando a ele em detalhes a estranha história da minha vida. Mateus escutou tudo quase sem me interromper, e depois, quando terminei, ele deu um longo suspiro:

-Uau! Parece coisa de novela. Você me superou, Aisha! Eu achei que tinha uma história de vida difícil, isso é, sendo gay e rejeitado pela família... mas você me superou, confesso.

E deu uma grande risada. Ele não me deu conselhos, apenas me perguntou o que eu pretendia fazer em seguida. Respondi que iria procurar minha mãe de verdade, e ele concordou com a cabeça. Depois, em tom de humor, me disse:

-Mas não sem antes tomar um bom banho e lavar essa coisa grudenta que você tem na cabeça. Pode usar a banheira à vontade! Lá tem sais de banho, espuma, e todas as coisas para que você passe alguns minutos relaxando. Já eu... acho que vou dormir mais um pouco. 

Eu o obedeci.

No final da tarde, ele se despediu e foi abrir o bar. Disse que eu poderia ficar com ele o tempo que eu quisesse, que não precisava me preocupar com nada, e eu me senti tão grata, que tive vontade de abraça-lo e beijá-lo, mas não o fiz, achando que ele era só um desconhecido, afinal de contas. Senti naquele meu pensamento traços das lições sobre segurança que minha mãe sempre me passava:

“Nunca ande sozinha, principalmente por ruas escuras. Não fale com estranhos jamais, não poste fotos ou revele sua identidade na internet, ou tomaremos seu telefone e computador. Jamais pegue carona com estranhos ou deixe que estranhos toquem em você. Sempre olhe para trás para ver se não está sendo seguida. Não confie em ninguém!”

Respirei fundo e peguei a carta da minha mãe onde ela tinha escrito o número do telefone da minha mãe verdadeira. Peguei o aparelho de telefone fixo de Mateus.  Mas de repente, toda a certeza que eu tinha foi por água abaixo: quem seria ela, realmente? E se ela me rejeitasse? E se fosse louca ou algo assim, e na verdade, tivesse assassinado minha irmã gêmea? 

A ansiedade tomou conta de mim em rápidas golfadas de ar que pareciam não ajudar em nada na entrada de oxigênio nos meus pulmões. Aquele não era meu primeiro ataque de ansiedade; eu tivera tais ataques a minha vida toda, principalmente durante a noite, quando acordava banhada de suor sem conseguir respirar direito e achando que ia morrer. Geralmente, minha mãe ou Tina me faziam um suco de laranja e me davam um calmante leve, ficando comigo até que eu dormisse de novo. Mas agora eu não tinha ninguém por perto, e precisaria fazer tudo sozinha.

Peguei um copo de água com açúcar e bebi aos pouquinhos, tentando respirar devagar. Vasculhei o armário do banheiro e acabei encontrando uns comprimidos de Diazepam. Parti um deles ao meio e engoli sem água. Aos poucos, fui me acalmando. 

Peguei o telefone e disquei o número. Ele tocou nove vezes e eu já ia desligar, a ansiedade crescendo, quando uma voz cristalina respondeu: “Alô!”

Prendi a respiração, e tentei ficar calma:

-Alô.

Silêncio do outro lado. Eu conseguia sentir a tensão dela. Ela sabia que era eu. Eu sabia que ela sabia. E ela sabia que eu sabia que ela sabia. Enfim...

-Meu nome é Aisha.

-Eu sei. Eu... eu sei! Meu nome é...

- Mayara. Eu sei, é Mayara. Meus pais... eles...

-Eu sei. Sinto muito. Mas você não está sozinha, Aisha. Eu procurei por você a vida toda. A vida toda eu sonhei com o momento em que eu poderia falar com você, olhar para você...

De repente, a raiva me dominou, e eu gritei:

-É mesmo? Então por que deixou ela me levar? Por que não procurou a polícia?

-Porque durante muito tempo eu sabia que não poderia dar uma boa vida a você. Eu era extremamente pobre, e houve dias em que cheguei a passar fome. Eu não tinha ninguém! Nem sei como Georgina... sua irmã... sobreviveu!

As lágrimas desciam sem o menor esforço, formando uma cachoeira no meu rosto. Ela continuou:

- Eu conheci um homem que foi um pai para ela. Ele era muito rico, e tratou-a como a uma filha. Foi então que eu contei a ele a verdade sobre a sua existência, logo depois que ele se casou comigo. Ele me aconselhou a procurar você, mas eu não queria escândalos, não queria que a polícia se envolvesse, pois não desejava prejudica-la. 

-Minha irmã sabia de mim? Ela sabia que eu existia?

-Sim. Eu sempre disse a ela a verdade. Ela queria conhecer você, mas... você sabe, ela ficou muito doente e morreu aos seis anos. Mas ela tinha uma boneca, sabe... o nome da boneca era Aisha. (O tom de voz dela tornou-se quase animado) Ela costumava brincar muito com essa boneca.

-Mas... e meu pai? Onde ele está?

-Seu pai? Ele sumiu, há muitos anos, e ele nunca assumiu a paternidade. Na verdade, era jovem demais. Não sei se ele fez por mal, ficou assustado e ele e a família se mudaram para longe, me deixando sozinha. Meus pais, ao saberem da gravidez, queriam me obrigar a fazer um aborto. Mas eu me neguei, e fugi também. Eu não tinha nada! Consegui ajuda em uma casa para meninas como eu, grávidas e jovens demais. Hoje, seus avós já são mortos. Minha mãe morreu de câncer, e meu pai teve um ataque cardíaco. Eu... nunca pude perdoá-los. 

Deixei que ela falasse sem interrompê-la, o tempo todo dizendo a mim mesma: “Essa é a história de vida da sua mãe verdadeira.” 

-Aisha, eu não queria nada disso. Às vezes as coisas fogem do controle.

-E o seu marido? Ainda vivem juntos?

-Não, ele faleceu há cinco anos. Jorge era bem mais velho do que eu. Praticamente tinha idade para ser meu pai. 

Pensei que ela havia ficado totalmente só. Eu ainda tinha Tina e minha avó emprestada, mas ela não tinha ninguém. Eu me ouvi dizer:

-Quero te ver. Quero te conhecer melhor.

Escutei o choro dela do outro lado da linha.

(continua...)




8 comentários:

  1. Um conto muito bonito! Há pessoas que não se dão com a solidão... vou continuar a acompanhar!
    -
    Transparências ...
    -
    Beijo e uma excelente noite!

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  2. Lendo, gostando, elogiando, e continuando a acompanhar, esperando o próximo capítulo

    Abraço

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  3. As always, you have me on the edge of my seat, dear Ana!
    Your story is so intriguing, and leaves me hungry for the next installment...😊😊

    Stay safe, my friend...

    Hugs xxx

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  4. Pelas vicissitudes da vida muitos são os casos congêneres, caríssima Ana. O seu conto é belíssimo e envolvente. Fica a expectativa da continuidade.
    Meu carinho e meus aplausos.

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  5. Li num fôlego só, eu que fui subtraída da minha mãe aos 10 dias de nascida, muito me identifiquei com a beleza do conto.Envolvente e tocante. Esperando o próximo.

    Feliz dia Aana,

    Saudações.

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  6. bom dia Ana

    Amo seus textos
    Bráulio
    abraço....

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  7. Boa tarde Ana , nestes tempos de isolamento devido a pandemia , seria tão gratificante aos seguidores que os capítulos desta história fossem postados mais vezes .
    Ler o que é bom nos ajuda na dificuldade da quarentena .
    Beijos e bom domingos

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    Respostas
    1. Oi, Marisa! Fico feliz que você goste, eu tentarei postar mais vezes! Mas tem um conto que eu adoro, chama-se O Anjo no Porão. Se quiser ler, está todinho aqui!

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