terça-feira, 21 de julho de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA






Eu lembro que fazia muito calor naquela tarde logo após o almoço. Eu sentia que seria possível fritar um ovo na calçada, literalmente, e o asfalto amolecido parecia emitir ondas em direção ao céu quando eu olhava para ele. A rua do meu bairro estava deserta, e o ruído do portão batendo quando saí de casa ecoou no muro da vizinha. Nenhuma brisa soprava. Apesar de ter acabado de sair do banho, onde depilei as pernas, virilhas e axilas com o aparelho de gilete da minha irmã, meu rosto já escorria suor. Meus pais e minhas duas irmãs tinham saído para ir ao shopping (quem vai ao shopping numa tarde como aquela, meu Deus?) E eu resolvi aceitar o convite de Betina, minha vizinha, para ir à piscina da casa dela. Ela tinha nos convidado no dia anterior. Na verdade, ela tinha convidado Paola, minha irmã mais velha, que era sua amiga e cuja idade batia com a dela; ambas tinham dezessete anos. Mas Paola tinha resolvido ir ao shopping, e convenceu nossa mãe e Sandrinha, minha irmã de dezesseis anos, a ir com ela. Quanto ao meu pai, tinha sido alugado como motorista. Eu sabia muito bem que papai as levaria de carro ao shopping e depois de dar uma passadinha na loja para ver como as coisas estavam indo, se refugiaria na piscina e no bar do clube, aguardando até que as duas ligassem para ele e pedissem para busca-las no final da tarde.  

Eu me recusara veementemente a acompanha-las, tal o calor que fazia, e fiquei esticada no sofá, ventilador ligado, assistindo a um filme velho na TV, quando de repente me lembrei de Betina e do seu convite. 
Na verdade, eu sequer gostava de muito de Betina. Como ela e minhas irmãs fossem bem mais velhas que eu, ela sempre me tratava com uma condescendência irritante, e eu detestava quando ela e minhas duas irmãs começavam a conversar, na minha frente, em uma língua que só elas entendiam, cheia de indiretas e palavras-chave cujo significado eu não imaginava. Elas davam risadas altas e Betina me olhava de soslaio, piscando para mim, como se eu fosse uma criança. 

Mas ela tinha uma casa e uma piscina maravilhosas, e uma porção de coisas que meninas adoravam, como maquiagens, roupas caras da moda que ela nos emprestava às vezes, perfumes, cremes importados e bijuterias finas e caríssimas que nós jamais poderíamos comprar. 

Era o ano de 1985, férias de dezembro. Meus pais tinham uma fábrica de roupas femininas que fechava em dezembro e uma loja onde vendiam as peças. Tínhamos uma vida confortável, embora não fôssemos ricos. Os negócios iam bem, e como estávamos na época do Natal, as mercadorias que tinham sido fabricadas até novembro vendiam muito. Eu tinha então treze anos, mas aparentava mais, pois era alta e esguia para a minha idade. Tinha cabelos pretos, longos e brilhosos partidos para o lado esquerdo, e pele dourada, como era moda na época - ninguém colocava uma saia nos anos 80 se não estivesse com as pernas devidamente bronzeadas. 
Enquanto caminhava, carregando minha bolsa de pano com uma toalha e um bronzeador (o biquíni estava por baixo do vestido leve e solto de algodão branco), eu procurava a sombra das árvores plantadas ao longo da calçada do lado esquerdo, pois a calçada do lado direito era quase completamente nua de árvores. Meus chinelos brancos e um pouco gastos faziam um ruído leve ao roçarem contra a calçada. 

Betina era uma deusa loira de dezessete anos; magra e alta, cabelos lisos até a cintura, olhos verde-esmeralda e pele bronzeada. Todos os garotos da escola queriam ficar com ela, mas ela só tinha olhos para um único garoto: Breno, que, infelizmente, era gay, mas ela vivia dizendo que ia “convertê-lo”, e para isso, usava todo o seu charme. Diziam as más línguas que os dois tinham ficado juntos uma única vez durante uma festa, e  Betina afirmava que perdera sua virgindade com ele, mas ele negava tudo. Eram amigos desde a infância, porém. De vez em quando, Betina namorava um ou outro garoto, mas nunca levava nenhum deles à sério e nem ia até os “finalmente” com eles. 
 
A casa de Betina ficava a apenas um quarteirão da nossa, mas por causa do forte calor, eu tinha a impressão de que não chegaria nunca! Finalmente, avistei o portão pintado de branco, ladeado por dois enormes vasos onde plantaram miniaturas de coqueiros. A casa de Betina era muito bonita. Dei a volta pela casa até a esquina, como sempre fazíamos, e encontrei o portão lateral aberto (sempre entrávamos por ali, e nunca pelo principal). O esguichador do gramado estava ligado, e a porta de vidro da varanda, que dava para a enorme sala de estar estava aberta, e uma música de Boy George tocava: “Mistake number three.” Uma de minhas músicas prediletas. Esse era um dos motivos que eu aturava Betina: ela tinha discos ótimos e sempre me emprestava alguns. 

Chamei por Betina. Sabia que ela estaria sozinha em casa, pois os pais dela viajavam muito a negócios e ela sempre ficava em casa em companhia de Helena, a empregada de muitos anos. 
Ela não respondeu, mas decidi não insistir. Pensei que ela talvez estivesse dormindo, pois estava realmente muito calor. Também achei que era melhor assim, sem a companhia dela, pois a piscina seria só minha. Nem mesmo Helena veio me receber, e como eu estava doida para tomar um copo de refresco, entrei pela porta da varanda, como sempre fazia, e fui até a cozinha. Abri a geladeira, enchi um copo de refresco de laranja e me recostei no azulejo gelado enquanto o tomava bem devagar, sentindo o alívio do contato frio contra a pele. Naquele momento, escutei risadinhas vindo do quarto de Betina, que ficava no andar superior. Era uma casa grande, e havia na cozinha um elevador de comida, e o som veio através dele. Porém, não ouvi mais nada.

Depois que terminei de beber, coloquei o copo na pia sem lavar, molhando o rosto com a água da torneira, e caminhei até a piscina. Agora o toca-discos reproduzia “Karma-chamelion”, mas eu fui até lá e coloquei “Mistake number Three” para tocar de novo. Nesse momento, antes que a agulha tocasse novamente o disco, escutei mais risadinhas e alguém fazendo ‘shshshs,’ como se não quisesse ser escutado. Concluí que Betina estava em casa e tinha companhia, e também que ela – ou eles – não desejavam serem importunados.

Fui até a piscina e tirei o vestido e os chinelos, ajeitando o biquíni em volta do busto, e enchendo o peito de ar,  pulei na piscina, mergulhando até o fundo e sentindo o frescor e o silêncio sob a água. Estava intensamente feliz agora. Subi à tona e me deixei ficar boiando, o sol na pele, os cabelos molhados esticados atrás da cabeça, enquanto vislumbrava a fachada imponente da casa. Eu simplesmente amava aquela casa, aquele jardim e principalmente, aquela piscina! Meu sonho era ter uma piscina, mas meu pai dizia que construir uma significaria ocupar todo o espaço livre do nosso jardim, que era pequeno. A parte de trás da casa também não era grande o suficiente para uma piscina. Eu estava ali, pensando em todas essas coisas sem importância: no quanto eu amava a casa de Betina, no quanto eu amaria ter uma piscina como aquela e no quanto meu sonho era impossível, a não ser que nos mudássemos, e enquanto cantarolava baixinho trechos de “Mistake Number Three.” 

De repente, ouvi dentro da casa um ruído de algo caindo e se quebrando, alguma coisa de vidro. Depois, silêncio novamente. Pensei em entrar para ver se Betina precisava de alguma ajuda, mas a água estava tão boa que eu não queria sair.

Nem sei quanto tempo eu fiquei boiando na água maravilhosa e azul; só sei que quando eu saí, meus dedos das mãos já estavam ficando murchos, e o sol já quase se escondera por trás do telhado, deixando metade da piscina à sombra. Sentindo um pouquinho de frio, saí da piscina e me enxuguei. Olhei para dentro da sala, onde o toca-discos já silenciara há muito, e vi as horas no relógio sobre o aparado: quatro e trinta e cinco. Hora de voltar para casa. Achei estranho que nem Betina nem Helena tivessem aparecido, Mas Betina às vezes era uma menina meio-estranha, e talvez tivesse dado a tarde de folga à Helena.

Estava fora da piscina me aprontando, quando escutei o barulho da porta dos fundos batendo e passos de alguém que corria. Pensei no porquê de alguém sair da casa pela porta da cozinha, e então terminei de me vestir e fui dar uma olhada, tomando cuidado para não ser vista. Estava escondida por trás do muro baixo que separava o jardim da frente da parte dos fundos. Estiquei o pescoço para olhar, e deparei com Breno. Ele parecia muito nervoso, olhando para os lados e segurando a cabeça com as mãos. De repente, ele deu impulso em uma corrida, subindo no muro dos fundos da casa, que dava para um terreno vazio. Tentou duas vezes antes de conseguir alcançar a borda e pular para o outro lado, desaparecendo da minha vista. 


(CONTINUA...)




3 comentários:

  1. Bom dia
    Adorei a estória...Continuarei!! 👏
    **
    "Um coração entre tantos"

    Beijo e uma excelente Dia. :)

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  2. Oh WOW, I am totally hooked!! What has happened in Betina's house? Why was Breno acting so suspiciously?
    There is such suspense in your fantastic story...I can't wait for the next instalment!!😊😊

    Have a super day!

    Hugs xxx

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  3. Ana,
    Estou aqui
    contente pois li
    tudinho com
    a mesma alegria
    e emoção.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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