segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O DIA QUE MUDOU MINHA VIDA - PARTE 4


 PARTE 4


Era uma tarde de domingo, e minhas irmãs tinham saído. Meus pais descansavam no quarto após o almoço, e eu deixava a minha mente vagar entre a realidade de um filme antigo na TV e a modorra silenciosa da tarde de domingo, jogada no sofá, sem ter a menor ideia de sobre o que era o filme. E de repente, do nada, me veio a lembrança do anel de Betina. Aquilo me despertou feito um choque elétrico; comecei a escutar o barulho vindo da rua – crianças brincando, alguns carros, um rádio tocando rock. De repente, eu estava viva novamente, e alerta. Corri até o quarto, trancando a porta atrás de mim, e abri a gaveta, jogando minhas calcinhas, anáguas e sutiãs no chão, procurando pelo embrulhinho de lenço branco. 

Mas nada encontrei. Nem lenço, nem anel, nem nada. Alguém o tinha encontrado. Alguém o pegara!

Logo desconfiei que tinha sido minha mãe, e por isso, ela andava tão estranha comigo. Pensei no que fazer; não sabia há quanto tempo o anel tinha sumido, pois simplesmente me esquecera da existência dele. Não sabia nem com certeza se tinha sido a minha mãe que o pegara, e nem se ele realmente estivera comigo ou se tudo tinha sido fruto da minha imaginação.

Às vezes, Breno nos visitava, e quando isso acontecia, eu me trancava no quarto ou arranjava uma desculpa para sair. Será que ele, sabendo do anel de alguma forma, tinha entrado em meu quarto quando eu estava fora e pego o anel? 

O que fazer? Tentei deliberar um plano de ação, caso alguém me perguntasse sobre o anel. Responderia que ele estava comigo há muito tempo, desde antes da morte de Betina, pois ela o emprestara a mim... mas... se Breno a matara, com certeza sabia que o anel estava no dedo dela, e encontrando-o comigo,  saberia que eu estivera na casa no dia do crime. Novamente, me vi tomada de desespero. 

Já não rezava desde a minha primeira comunhão. Caí de joelhos no chão do quarto, juntando as mãos na frente do rosto, e pedi a Deus que me desse uma solução. Foi quando uma grande paz me invadiu, e eu então soube o que fazer: nada. Absolutamente nada. Não diria nada sobre o anel, e se me perguntassem, dependendo de quem fosse, eu daria uma resposta diferente. Ou simplesmente diria que não tinha a menor ideia de como ele tinha ido parar na minha gaveta. 

Mas com o tempo, tive certeza absoluta de que minha mãe o pegara. Porque ela um dia se aproximou de mim, logo depois que voltei da escola. Eu estava sentada almoçando. Minhas irmãs tinham ido almoçar na casa de alguém, e meu pai estava trabalhando. Minha mãe sentou-se ao meu lado e ficou me olhando enquanto eu comia, a cabeça descansando em uma das mãos, me examinando como se eu fosse um ET ou algo assim. Senti um leve rubor cobrir o meu rosto, mas continuei comendo como se nada estivesse acontecendo. Ainda pude olhar para ela e dar um sorrisinho.

Ela queria me dizer alguma coisa, mas não sabia como. Por baixo da minha máscara de paz de espírito, meu coração queria ser digerido junto com a comida. Finalmente, ela disse:

-Mônica, existe alguma coisa que você queira me dizer sobre o dia da morte de Betina?

Me choquei com a maneira direta dela falar. Bebi o suco quase engasgando, e arregalei os olhos, respondendo rápido demais:

-Não! Por que?

Fiquei esperando ela colocar o anel diante de mim. Mas não. Ela ficou me olhando nos olhos, me encarando muito séria. Me aprontei para responder uma saraivada de perguntas que, com certeza, iam me desmentir ali naquele momento e colocar tudo a perder. Eu era uma péssima mentirosa quando confrontada, e minha mãe sabia disso. Mas depois eu descobriria que ela pensava que a verdade era tão terrível, que seria melhor não conhecê-la. 

Apertei os lábios, limpando-os com o guardanapo de papel. Meu calvário estava começando, pensei. Só que não; ela ainda abriu a boca para dizer algo, mas então colocou a mão rapidamente sobre a minha, fazendo uma leve carícia, e levantando-se da mesa, carregou meu prato e meus talheres para a cozinha. 

Então era só isso, pensei.

Mas a distância que começou a nos afastar era um abismo que só nós duas conseguíamos enxergar; para os outros, conseguíamos fingir que tudo ia bem, que tudo estava normal. Quando ficávamos sozinhas, evitávamos nos olhar e só falávamos quando estritamente necessário, mas quando estávamos junto com as outras pessoas, conseguíamos fingir que tudo estava bem.

Meus pesadelos recorrentes nunca me abandonaram, nem mesmo depois que meu pai me levou a um psiquiatra que me receitou alguns medicamentos leves para dormir. Eu sonhava com Betina todas as noites. Eu a via morta, os olhos vidrados; eu via o sangue escurecendo o tapete; eu sonhava com ela quando viva, rindo e brincando, sentada no nosso tapete da sala com minhas irmãs; eu tocava suas pupilas com a ponta do indicador; eu sonhava com as tardes de verão juntas na sua maravilhosa piscina. Mas em todos os sonhos, eu sabia que o momento chegaria no qual, na frente de todo mundo, ela me perguntaria: “Por que você me deixou sozinha?” Todos me olhariam ao mesmo tempo.  E naquele momento, o chão se abriria sob os meus pés e eu afundaria rapidamente em um buraco escuro, e muitas vezes, acordava gritando, as cobertas no chão, coberta de suor frio. 

Ir dormir era uma tortura para mim, e então o médico achou melhor aumentar as doses. Elas me faziam ter um sono pesado e acordar me sentindo péssima, mas não impediam os pesadelos. Uma vez, durante uma consulta, ele me disse:

-Eu sei que você guarda algum trauma profundo dentro de você, Mônica, e você não quer falar sobre ele. Mas enquanto não falar sobre os seus fantasmas, eles jamais a deixarão em paz e a visitarão todas as noites.

A palavra “fantasmas” era por demais adequada. Entre todos nós, eu era a única que ainda não tinha sepultado Betina. Até mesmo os pais dela tinham saído em uma viagem ao redor do mundo. Certa vez encontramos Helena na feira, e ela nem tocou no assunto; estava sorrindo, e conversamos sobre tomates e o preço da carne. Era como se Betina nem tivesse existido. Mas eu me lembrava, só eu me lembrava o tempo todo dela.


(continua...) 


3 comentários:

  1. Ana,
    Estou lendo e fascinada.
    Aliás li tudo na última
    meia hora.
    Aguardo a continuação.
    Bjins
    CatiahoAlc.
    https://reflexosespelhandoespalhandoamigos.blogspot.com

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  2. Ora muito bom. Obrigada pelo texto!:)
    *
    Ainda em modo de férias, passo numa breve visita a fim de desejar um excelente fim de semana.
    Dias diferentes que nos encher a alma. 2º Dia.

    Beijos

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  3. Eu outra vez lendo e impactada com a beleza e desenvoltura da sua maravilhosa retórica Ana.

    Adorei!Muito bom!
    Abraço!

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