terça-feira, 6 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 5




Capítulo 5


Mamãe e Tia Samira corriam pela sala da nossa casa, pendurando balões e flores de papel celofane. Elas tinham planejado aquela festa durante semanas, chegando a desenhar o meu bolo de aniversário de oito anos, que Tia Samira encomendou na melhor confeitaria da cidade. Meus amiguinhos da escola tinham sido todos convidados e também alguns amigos de Sara. Tio Helvécio lia o jornal em um cantinho da sala, jogado em uma poltrona, e de vez em quando, erguia os olhos para escutar tia Samira xingar: 

-Você fica só aí, sentado, não ajuda em nada! Vê se vai lá fora ver se as cadeiras e mesas já chegaram.

Então, ele se erguia da poltrona, e indo até a janela, verificava se o caminhão com as mesas e cadeiras estava por perto. 

Eu, Sara e os primos estávamos vestindo roupas novas, e tínhamos sido advertidos para não nos sujarmos; eu usava um vestido rosa com a saia coberta por uma camada de filó estampado com rosinhas quase transparentes. Havia um laço de veludo preto em volta da cintura, uma cor que minha mãe não queria me deixar usar de jeito nenhum, porém, eu bati pé, e ela finalmente concordou, dizendo que o laço acabou combinando com os sapatos envernizados pretos e o reloginho de pulso que ganhei de papai. O arco de cabeça que eu estava usando também era de veludo preto, incrustrado de pedrinhas brilhantes imitando pequenos diamantes. Ao me ver, papai me disse que eram estrelinhas do céu pousadas na minha cabeça. 

Mamãe estava absurdamente linda, usando um vestido azul royal simples e sem mangas que marcava sua cintura. Os cabelos presos por grampos escondidos sob as mechas deixavam ver suas orelhas bem desenhadas que ostentavam brincos da mesma cor do vestido. Tia Samira usava um vestido verde esmeralda, que contrastava com seus cabelos escuros. Ambas estavam deslumbrantes! Sara também estava muito linda. Estávamos todos lindos naquele dia. O dia estava lindo e tudo era perfeito.

Mais ou menos às três da tarde, mamãe pediu a papai que fosse buscar o meu bolo de aniversário na confeitaria, que ficava a alguns quilômetros da nossa casa. Eu estava ansiosa e feliz. Faltava apenas uma hora para que os convidados da festa começassem a chegar. Papai chamou Tio Helvécio para ir com ele, e ambos partiram, com a voz de Tia Samira ecoando pela sala atrás deles:

-Andem logo! Já deveriam ter ido antes! Os convidados estão quase chegando e o bolo ainda não está na mesa!

Eu andei pela sala, apreciando os enfeites e ansiosa pela chegada dos meus amiguinhos. Com certeza, pensei, esse dia vai ficar marcado, já que papai até conseguiu uma máquina de retratos emprestada com um vizinho. Eu pensava nas poses que faria, e que pediria a papai que tirasse uma foto minha com todos os amigos da escola. Os primos, sentados no sofá com Sara, brincavam de adivinhar nomes de frutas que começavam com certas letras do alfabeto. Mamãe e Tia Samira acabavam de dar os últimos retoques.

Alguns minutos após a saída de papai e tio Helvécio, a campainha tocou. Mamãe foi abrir, dizendo:

-Esses dois... os convidados estão chegando e nada de bolo!

O que vimos ao abrir a porta nos deixou desconcertadas:

Dois policiais, quepes na mão, nos olhavam com expressões estranhas no rosto. Por trás deles, nossos convidados estavam espalhados pelo gramado, e suas vozes chegavam até nós como zumbidos de abelhas. Ao ver os policiais parado à porta, meu primo Décio correu em direção a ele, examinando sua farda bem de perto (ele queria ser policial quando crescesse). Daí então tudo aconteceu em câmera lenta.

Eu vi meus colegas de classe e os demais convidados nos olharem, todos ao mesmo tempo, enquanto um silêncio mortal se fez entre eles. Nós éramos o alvo de todas as atenções. Eu ri, pensando que aquilo tudo fazia parte de uma grande surpresa de aniversário arquitetada pelo meu pai. Tomei a dianteira sorrindo, ficando bem na frente de mamãe, segurando a ponta do vestido, perguntei aos policiais:

-Vocês vieram para a minha festa de aniversário? Podem entrar!

E eles passaram por nós, sem me sorrirem de volta. Mamãe olhou para fora mais uma vez antes de fechar a porta. Pensei em como aquilo pareceria descortês com os demais convidados e já ia abrir a boca para protestar, mas um dos policiais – o mais velho – pigarreou e disse:

- Senhora Vanessa Alcântara?

Mamãe, de olhos arregalados, a mão segurando o pescoço como se temesse que sua cabeça saísse rolando pelo chão, balançou a cabeça, concordando. Tia Samira se aproximou, segurando mamãe pelo braço. Nos olhos dela, um imenso pavor.

O policial olhou para nós crianças, e disse:

-Talvez seja melhor conversarmos em outro lugar, senhoras.

E mamãe fez sinal para que eles a seguissem indo para a cozinha e fechando a porta atrás deles. Tia Samira ficou conosco na sala. Ela estava realmente muito apavorada – eu nunca a tinha visto daquele jeito. Andava de um lado ao outro da sala, sem tentar esconder de nós o seu nervosismo.

De repente, nós ouvimos o grito mais agoniado que um ser humano poderia ter. Tia Samira cerrou os olhos com força, dirigindo-se à cozinha, enquanto eu, Sara e os primos nos entreolhamos. Sem entender que aquilo não era parte de um jogo, eu corri para olhar pela janela, mas todo mundo tinha ido embora. O gramado estava vazio, e um céu de chumbo completava a morbidez daquele cenário. Foi só então que eu percebi que alguma coisa muito séria estava acontecendo, pois vi minha avó de pé junto ao portão da casa.

Eu sei que gritei, e depois, não me lembro de mais nada.

Acordei mais tarde em meu quarto. Alguém tinha despido meu vestido, trocando-o por um pijama. Sara dormia profundamente na outra cama. A casa estava silenciosa e obscura. Levantei-me da cama, abrindo a porta e indo até o corredor, onde o único som era o do relógio de parede. Descalça, caminhei até a sala e vi Tio Helvécio dormindo no sofá. Ele tinha alguns arranhões no rosto e um braço imobilizado. Em volta dele, as decorações de aniversário ainda estavam penduradas em todos os lugares. Os doces estavam sobre a mesa, e havia um espaço vazio no meio deles, onde deveria estar o bolo. 

Corri até o quarto dos meus pais, mas não os encontrei. Ao invés disso, vi Tia Samira sentada na cama deles, e ela chorava feito um rio. Ela me olhou, estendendo os braços para mim, e eu fui até ela. Ela me abraçou com tanta força, que eu quase sufoquei. O rosto dela, molhado de lágrimas, colava-se à minha testa. Assustada, eu a empurrei:

-O que você está fazendo aqui, Tia? Cadê a minha mãe? E o papai?

Ela acariciou meu queixo:

- Seu papai teve um acidente de carro, minha querida. A mamãe está com ele no hospital. 

Ela fungou, enxugando as lágrimas na manga da blusa. Tia Samira havia trocado de roupa, e usava uma calça jeans e um suéter preto. Tentou sorrir, mas seu sorriso transformou-se em uma careta. Perguntei:

-Ele se machucou muito?

Tia Samira balançou a cabeça, concordando, e recomeçou a chorar. Foi aí que ela perdeu totalmente a cabeça, e jogando-se sobre o travesseiro de meu pai, ela repetia, entre as lágrimas:

- Pedro, Pedro, por que isso foi acontecer? Eu te amo tanto, tanto... eu te amo... eu sempre amei você... eu te quis, eu te quero ainda... eu nunca vou te esquecer!

Notei uma sombra escura parada à porta do quarto. Eram Tio Helvécio e mamãe.

O que aconteceu em seguida foi surreal: vi minha mãe voar sobre tia Samira, arrancando-a da cama pelos cabelos e arrastando-a até o corredor:

-Sua vagabunda! Pedro sempre teve razão, você não passa de uma invejosa, sempre tentou nos colocar um contra o outro! Traidora! 

Tio Helvécio, constrangido e com os olhos muito vermelhos, pegou os filhos, que a tudo observavam, e saiu da casa. 

Mamãe deu um tapa no rosto de Tia Samira, que ajoelhada no chão, caiu deitada. Tia Samira não reagiu. Mamãe sussurrou:

- Saia daqui. Pegue suas coisas e nunca mais se atreva a voltar a esta casa. Eu vou para o meu quarto, e quando eu voltar, não quero mais te ver aqui. E nem pense em ir ao velório dele. Se eu vir você lá, te dou outra surra na frente de todo mundo, para que todos saibam a vagabunda que você é.

Dizendo aquilo, mamãe entrou no quarto, fechando a porta. Sara ainda dormia. Eu estava sozinha com Tia Samira. Estava tão chocada, que não sabia o que dizer ou como agir. Devagar, Tia Samira ergueu-se do chão, e vi que um fio de sangue escorria de sua boca. Tentei ajudá-la a se levantar, dizendo:

-Tia, você está sangrando!

Ela concordou com a cabeça:

-Sim, querida, eu estou sangrando... eu estou sangrando de verdade...

E me olhando, ela se ajoelhou na minha frente, acariciando meus cabelos. Tentou sorrir. Os cabelos dela eram como nuvens escuras emoldurando uma tempestade. Ela caminhou até a porta. Abriu-a e saiu. Segundos depois, eu ouvi a porta do carro batendo, e o carro se afastando devagar da casa. 

Durante muitos anos, eu nunca mais veria meus tios e primos. Mamãe não nos dava muitas explicações, mas eu não era tola, e sabia que nunca mais as coisas seriam as mesmas entre nós e nossos tios e primos. Já Sara parecia viver em seu mundinho à parte, como se nada tivesse acontecido. Ouvi mamãe conversando com a psicóloga, que dizia ser normal para uma criança reagir daquele jeito a um grande trauma, mas que com o tempo, tudo mudaria e ela poderia finalmente expressar a sua dor.


(CONTINUA...)





2 comentários:

  1. Uma estória comum a tantas estórias de vida, mais no antigamente. Existem vidas tão traumatizantes que ficam para uma vida. Gostei de ler!
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    Sãos teus olhos o mistério escondido
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    Beijos, e uma excelente semana.

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  2. Boa tarde. Parabéns pelo seu trabalho maravilhoso. O texto ficou bem interessante.

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