segunda-feira, 12 de julho de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 6




Capítulo 6 

 Eu sentiria tanta falta de papai, que jamais poderia descrever. Nas histórias que eu escrevi posteriormente, tentei extravasar em meus personagens aquela saudade, mas nada do que eu escrevesse chegava perto do que eu sentia. Minhas histórias morreram durante muito tempo. Eu não conseguia sequer escrever as redações da escola. Sara passou a fingir que ele tinha voltado a trabalhar viajando, e que ele estava fora, mas logo voltaria. A fantasia que ela criou era tão forte, que mamãe e eu temíamos desmenti-la. Se ela estava mais feliz daquele jeito, que ficasse assim. Mamãe andava pela casa feito um zumbi. Parava, encostava na parede de braços cruzados, suspirando profundamente. Mal conseguia fazer o serviço de casa. A vizinha da casa em frente, Dona Meire, de vez em quando nos trazia algo: um bolo, um frango assado, uma panela de macarronada. Também conversava com mamãe por algum tempo, consolando-a. Ela era uma senhora idosa, viúva, que morava com o marido que tinha Alzheimer. As duas se tornaram boas amigas. Antes, mal se falavam, pois a presença forte e dominadora de Tia Samira na vida de mamãe afastava a todos. 

Dona Meire também nos ‘emprestava’ sua faxineira de vez em quando: mamãe sorria tristemente e agradecia, dando à mulher algum dinheiro. Certa vez, escutei Dona Meire dizendo: - Vanessa, você precisa se reequilibrar! Tem duas crianças para olhar, não pode ficar assim. Lá se vão quatro meses. Você precisa seguir em frente. Precisa encontrar trabalho. Eu olho as crianças para você. - A senhora já tem muito o que fazer, e tem seus próprios problemas também. Não se preocupe, eu tenho um plano. Mas preciso me recuperar antes. Só preciso de um pouco mais de tempo. Lembrei-me dos tempos em que mamãe jamais admitiria que alguém sequer sugerisse o que ela deveria fazer – a não ser Tia Samira, é claro. Ela estava fraca. Tinha perdido peso também. Suas batas indianas dançavam em volta dela e do seu pulso cada vez mais magro. Eu não a via mais chorar. Ela estava destruída – tão destruída que se esquecia de sentir dor. 

Um dia, eu descobri o motivo de toda aquela destruição. Não era apenas luto. Mamãe tinha saído para ir ao supermercado, e Sara estava assistindo televisão na sala. Sem querer, passei pelo quarto de mamãe e olhando para dentro vi um envelope grande e pardo sobre a cama. Tinha um carimbo que identifiquei como sendo da polícia. Me aproximei. Pensei se deveria mexer nas coisas de mamãe, e achei que não, mas mesmo assim, abri o envelope, jogando seu conteúdo sobre a colcha indiana. Ali estavam alguns objetos: o relógio de pulso de meu pai, a aliança de casamento, algum dinheiro, um anel de prata que ele usava sempre, a camisa que ele estava usando no dia do meu aniversário (rasgada e suja de sangue), a carteira dele. Lágrimas vieram aos meus olhos enquanto eu colocava a camisa junto ao meu nariz para tentar sentir um pouco do cheiro do meu pai. Aspirei profundamente, mas o cheiro do papel do envelope tinha dissipado tudo. Foi então que eu percebi que ainda havia alguma coisa dentro do envelope. Sacudi-o, e um outro envelope menor caiu sobre a cama. Peguei-o com as mãos trêmulas, pressentindo o que poderia estar dentro dele. O que eu vi me deixou confusa a princípio, mas logo depois, a ficha caiu e eu amadureci dez anos em apenas um minuto. 

Havia fotos de Tia Samira. Em algumas, ela sorria sedutora, deitada nua em uma cama, as partes íntimas cobertas por lenços, calcinhas rendadas ou pelo lençol. Minha primeira reação foi de confusão, pois pensei o que fotos como aquelas poderiam estar junto as coisas de meu pai. Porque eu jamais poderia imaginar minha tia e meu pai daquele jeito! Eles pareciam odiar um ao outro. Então era tudo fingimento! Na verdade, eles namoravam escondido, pensei. Minha tia e meu pai namoravam escondido! Eu coloquei as fotos de volta no envelope, rapidamente, como se elas pudessem queimar meus dedos. Depois, coloquei o envelope com as fotos e as outras coisas dentro do envelope maior. Naquele momento, minha mãe entrou no quarto. Eu estivera tão envolvida com as fotos que não notara que ela tinha chegado em casa. Mamãe entrou no quarto e fechou a porta, murmurando:

 -Você viu? 

Me assustei com a voz dela, e estremeci. Concordei com a cabeça. Ela acariciou meu rosto: 

-Desculpe, querida, não deixei-as sobre a cama de propósito... eu me esqueci de guarda-las. Minha cabeça não anda boa. Mas eu queria pedir a você um favor: não conte à Sara! Ela não precisa saber de nada. 

Eu concordei com a cabeça:

 -Então o papai e a tia Samira namoravam escondido? 

Ela baixou os olhos: 

-Sim. Bem na minha cara, e eu nunca percebi. Vai ver que era por isso que ela fazia tanta questão de me afastar das outras pessoas, de estar sempre por perto, vigiando. Tinha medo de que descobríssemos ou que alguém nos contasse. Até mesmo Dona Meire desconfiava. Mas... você não deve nunca se zangar com seu pai, querida. Ele foi um bom pai para vocês. Ele as amava demais! 

 -Mas eu sempre pensei que ele amasse a senhora também. Se ele fingiu amar a senhora, com certeza também fingia que amava a gente! 

-Não, não confunda as coisas, Chiara! Pais e filhos são diferentes de marido e mulher. Os pais sempre amam seus filhos.

 -Mamãe... a senhora nunca vai perdoar a Tia Samira? 

Ela me olhou bem dentro dos olhos: 

- Escute bem uma coisa: o que ela fez não pode ser perdoado. Se um dia você crescer e quiser vê-la, poderá fazer isso. Não vou tentar impedi-la. Mas eu não quero mais ver sua tia. Ela matou o que havia de melhor em mim: a lembrança do seu pai. Ela roubou de mim o amor do seu pai. Ela nos traiu, traiu a nossa família. 

- O Tio Helvécio sabe?

 - Sabe. Mas ele a perdoou, pelas crianças. Mas ouvi dizer que ele agora mudou muito, sabe? Não deixa mais ela mandar nele, como antes. Agora, é ela quem obedece, se não quiser ir parar na rua. Dei a ele algumas dessas fotos, e ele pode usá-las a qualquer momento para acusá-la de adultério, e ela perde todos os direitos de esposa e também perde as crianças, se ele fizer isso. 

-Adultério? O que é isso? 

-É um crime. É quando uma pessoa casada namora outra, como sua tia fez. 

- Mamãe... eu queria dizer uma coisa... é que eu sei que o papai sempre amou muito você. Eu sei. 

Ela sorriu, mas era um sorriso amargo e descrente. Mas eu sabia, pois jamais me esqueceria da maneira como ele olhava para ela. Registrei todas aquelas informações novas rapidamente na minha cabeça, mas depois, passaria dias a fio pensando nelas. 

Sara continuou com seu faz-de-contas mental durante muito tempo, e nenhuma de nós tinha coragem de trazê-la de volta à realidade. Um dia, quando chegamos da escola, encontramos várias malas no corredor da casa. Sara bisbilhotou e viu as coisas de papai dentro delas. Furiosa, começou a desmanchar tudo, puxando as roupas para fora freneticamente. Eu dizia para ela parar, mas ela não me escutava. Eu não sabia como agir! Mamãe ainda não tinha chegado do trabalho (arranjara um emprego de meio expediente em um consultório médico enquanto estávamos na escola). Tudo o que pude fazer foi observá-la, até que todas as roupas de papai estavam no chão em volta dela, e ela, descabelada e ofegante, as bochechas vermelhas e os olhos injetados. Levei-a para a cozinha e dei-lhe um copo d’água, enquanto ela choramingava: 

-Por que a mamãe está tirando as coisas do papai do armário, Chiara? 

- Porque ele não vai voltar mais, Sara. Por isso. Eu sinto muito. Eu queria que ele estivesse aqui e que tudo pudesse voltar a ser como antes. Mas o papai não vai voltar. 

-Nem a Tia Samira?

 -Nem a Tia Samira. 

-Tio Helvécio? Décio e Joana? 

-Nem eles. 

Ela concordou com a cabeça, tomando um gole d’água. Depois, colocou o copo sobre a mesa e saiu da cozinha, indo para o quarto, onde a encontrei deitada na cama, de olhos fechados. Parecia dormir, então decidi não perturbá-la. Quando mamãe chegou, ajudei-a a refazer as malas, enquanto explicava a ela o que tinha acontecido. Desde aquele dia, Sara nunca mais tocou no nome dos nossos tios e primos, e também nunca mais mencionou papai. Eu estava passando por um período de luto múltiplo. Perdera meu pai, meus tios e primos, minha confiança na vida, nossa segurança financeira, minha inocência. Eu sabia que as coisas jamais seriam como eram novamente. Eu perdera quase tudo o que eu amava. Perdera minha fé na vida. 

 Quando eu fiz dez anos, e Sara 9, mamãe parecia ter se recuperado totalmente de tudo o que acontecera. Já a víamos cantando pela casa, enquanto fazia a faxina. Tinha conseguido um emprego melhor de secretária em uma empresa que fabricava vassouras, e também vendia algumas bijuterias que ela mesma fabricava no final de semana. A nossa mesa da sala vivia cheia de contas coloridas, fios, cordas, pedras, adornos. Suas bijuterias eram tão bonitas, que passou a vende-las sob encomenda para algumas lojas da cidade. Às vezes, eu e Sara nos sentávamos com ela, seguindo suas instruções para confeccionar colares e pulseiras. Pudemos viver uma vida normal naqueles tempos; fizéramos amizade com a vizinhança, passando a fazer parte da comunidade. Eu não voltara a escrever uma única linha sequer, e também nunca mais vira nenhuma fada ou coisa parecida, mas não me preocupava mais com aquelas coisas. 

 Certa vez, ouvi mamãe conversando com Dona Meire sobre tudo o que acontecera no passado, e ela dizia: 

-Resolvi seguir em frente, viver minha vida. O que eles fizeram foi problema deles, e não devo ser infeliz para sempre por coisas que eu mesma não fiz. Quero cuidar das meninas e seguir em frente. Quem sabe, um dia eu me case de novo.

 -Deveria, Vanessa, pois você ainda é jovem e muito bonita. Não faltarão candidatos. 

A ideia de ter um outro homem que não papai em casa com a gente me assustava. Passei a ter pesadelos durante a noite outra vez: eu via um estranho, uma sombra, entrando sorrateiramente pela janela do meu quarto. Mas eu já estava crescida o bastante para não assustar mais Sara com meus pesadelos, e acordava empapada de suor, a respiração ofegante, mas sem chamar por mamãe. Durante algum tempo após aqueles sonhos eu não conseguia me mexer ou falar, os músculos tensos, e eu escutava alguém andando em volta da minha cama e até puxando minhas cobertas. Era apavorante! Finalmente, após alguns minutos eu conseguia me mexer e falar novamente. Ia até a cozinha e bebia água, acendendo todas as luzes da casa no caminho. Mamãe um dia acordou no meio da noite e dei com ela no corredor, após minhas peregrinações noturnas pós-pesadelo. Ela me conhecia muito bem e sabia que havia algo errado, embora eu tentasse mentir. Me fez contar a ela toda a verdade. Após me ouvir, ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim:

 -É esta casa... ela faz isso, ela fez isso conosco.

 Um arrepio percorreu minha espinha. Eu jamais poderia pensar que a nossa casa, a casa onde eu, minha irmã e até a minha mãe crescêramos, poderia nos fazer algum mal. Lembrei-me das fadas que eu via no jardim, e do fantasma de minha avó. Recordei as muitas brigas de meus pais, minhas noites de insônia e pesadelos. Seria verdade? Eu não podia acreditar. Porque eu amava aquela casa e as lembranças que ela guardava. 

Meses depois desse episódio, minha mãe passou a pedir a nossa vizinha, Dona Meire, para tomar conta de nós à noitinha, dizendo que tinha muito trabalho e teria que fazer hora extra no escritório. Alegava estar juntando dinheiro para que eu e Sara pudéssemos estudar em uma escola melhor. Mas nós adorávamos a nossa escola, onde estudávamos desde sempre, e por mais que disséssemos isso a ela, ela insistia: “O melhor legado que uma mãe pode deixar aos seus filhos é uma boa educação.” Ela falava como alguém muito mais velho que ela! 

Certa noite, enquanto Dona Meire adormecera assistindo à novela no sofá, eu escutei o ruído de um motor de carro parando junto à casa e fui até a janela. Vi quando minha mãe saiu de dentro do carro, um sedan preto, e acenou para o motorista após entrar no nosso portão. Ele buzinou de volta e se foi. Assim que ela passou a chave na porta, Dona Meire despertou e foi ter com ela na cozinha. Eu as segui sem que me vissem, e passei a escutar atrás da porta o que elas conversavam. Aliás, aquele era meu passatempo preferido. Dona Meire perguntou: 

-E então, Vanessa? Como foi o jantar? 

-Ah, ele é... parece ser uma ótima pessoa, Dona Meire. Fomos a um restaurante tão fino!... imagine, ele pediu champanhe para nós! E depois fomos assistir a um filme. E então... ele me beijou. Meu coração deu voltas descompassadas ao ouvir a conversa e imaginar a cena de minha mãe sendo beijada por outro homem que não o meu pai. Ela continuou: 

-Em breve, vou trazer o Afonso aqui em casa, para apresentar às meninas. 

-Hum... não acha que deveria esperar mais um pouco? Afinal, fazem apenas três meses que vocês se conheceram.

 -Não. Eu não quero esperar mais nada nessa vida. Passei a vida toda acreditando em um marido que me enganava com a minha própria irmã. Perdi um tempo enorme, Dona Meire. Agora eu quero viver, e quero dar o melhor à minhas filhas. Afonso é um homem rico. Ele é meu chefe, eu sei muito bem quanto dinheiro ele tem. Além de ser muito bonito... honesto...

 - Mas você o ama? Está apaixonada por ele? 

- Ele me ama, já disse isso várias vezes, está apaixonado por mim. Eu não faço questão de amar a mais ninguém. Não acredito mais no amor. Se ele é um homem bom, que pode me dar aquilo que eu preciso e ser um bom pai para minhas filhas, já basta. Cansei de gastar meus dedos no tanque de roupas, e as solas dos meus sapatos indo trabalhar todos os dias, e depois chegar em casa e ter tantas coisas a fazer... estou envelhecendo antes do tempo! Logo, não serei mais bonita ou jovem. Preciso aproveitar o que a vida está me oferecendo. 

-Você ainda tem a beleza da juventude, Vanessa. Ainda a terá por muitos anos. 

-Não... a minha verdadeira beleza foi enterrada junto com o Pedro. A minha fé na raça humana, a minha capacidade a amar, de confiar... tudo isso eu perdi. Agora eu preciso apenas ser fria. 

Eu não gostava de ouvir minha mãe sendo tão amarga em relação à vida. Ela sempre fora uma criatura amorosa e que acreditava no amor. Pensei no quanto aquilo que as outras pessoas nos fazem podem nos tornar pessoas amargas, e lamentei. De repente, achei que ela tinha o direito de tentar de novo, tentar ser feliz. E se a sua esperança de ter uma vida melhor e nos dar uma vida melhor estivesse naquele homem, eu não seria um obstáculo. Eu sentia falta de papai. Estranhamente, também sentia muita falta de meus tios e primos, pois crescera tendo-os em minha vida. Tivéramos muitos bons momentos juntos, e eu não poderia apagar aquilo ou pensar que um erro, por mais grave que fosse, que meu pai e minha tia tinham cometido, os fizesse pessoas ruins. Eram apenas pessoas imperfeitas. Eu sabia eu minha tia nos amava, e que meu pai nos amava muito. Nunca mais ouvira falar dela ou do resto da minha família. Era solitário estar afastada deles. Minha mãe sempre dizia que, quando eu crescesse, poderia procurar por eles se eu quisesse, mas sempre repetia que não contasse com ela para isso. Sara continuava vivendo em seu mundo de fantasia – ou de negação – fingindo que papai e Tia Samira, Tio Helvécio, Décio e Joana nunca tinham existido. Ela jamais falava neles. Se eu tentasse conversar com ela sobre qualquer um deles, ela simplesmente se erguia e saia de perto. Depois, fingia que não se lembrava de nada. Bem, era a maneira que ela encontrara para não sofrer, mas eu temia o dia em que ela seria forçada a encarar a verdade e toda a dor que ela traria. 

Mas Sara era apenas uma criança, e eu era apenas uma criança e não sabia como lidar com aquilo. Depois que mamãe me dissera que nossos problemas se deviam a alguma coisa que havia naquela casa, passei a vê-la com estranheza. Já não me sentia tão feliz entre aquelas paredes. Passava a maior parte do tempo brincando no quintal ou nas casas dos vizinhos. Eu me tornara ressentida; será mesmo que uma casa pode influenciar a vida de seus moradores? Mamãe sempre dizia que seus pais (nossos avós) não tinham sido felizes ali. Meu avô morrera jovem, um pouco mais velho que papai. Meus bisavós, que também moraram ali, também tinham morrido cedo. Minha avó vivera naquela casa sozinha, desde os seus dezenove anos. Aquelas histórias de família, que mamãe ia nos contando aos poucos, enchiam a minha imaginação, e eu sentia vontade de escrevê-las, mas quando me colocava diante do meu velho caderno de histórias, não conseguia escrever nada. 

No aniversário de dez anos de Sara, mamãe decidiu dar uma festinha para ela. Lembrei-me da última festa que tivéramos naquela casa, e do quanto nossas vidas mudaram após ela. Lembrei-me de minha tia Samira ajudando na decoração, e do quanto estávamos todos tão felizes e tão bonitos naquele dia. A saudade bateu forte, mas tratei de me recuperar, pois não queria estar triste na festa de aniversário de minha irmã. Felizmente, mamãe encomendou o bolo de uma vizinha, e ninguém precisou ir buscá-lo. As crianças da escola, colegas de Sara, compareceram em massa, e os vizinhos também. A casa estava cheia e animada. Cantamos parabéns sem nenhum problema, Sara ganhou muitos presentes e estava muito feliz. Mas eu – só eu – via uma sombra passar sobre o rosto de minha mãe várias vezes. Ela também se lembrava. Ela também sofria. Eu tinha certeza que esquecer uma pessoa não se tratava de querer, apenas. Minha mãe amara meu pai violentamente, loucamente, e não poderia esquecê-lo. A dor estava sempre nos olhos dela. A dor estava no meio do seu sorriso e de sua voz, quando ela cantarolava. A dor estava na superfície e sua pele. Só eu via. Só eu poderia sentir. 

 Já no finalzinho da festa, quando quase todo mundo tinha ido embora e Sara brincava no quintal, alguém bateu à porta. Mamãe estava na cozinha lavando a louça, e então eu fui abrir. Um moço alto e elegante, muito bem-vestido, me olhou, sorrindo levemente. Os olhos dele eram azuis e um pouco tristes, mas eu gostei dele imediatamente, e sorri de volta. Senti como se o conhecesse há muito tempo, mas não sabia de onde. 

-Você deve ser a Chiara - ele disse, e eu concordei com a cabeça. Naquele momento, mamãe veio da cozinha, enxugando a mão no pano de prato. Ele olhou para ela por cima da minha cabeça, dizendo: 

-Me desculpe pelo atraso, Vanessa. Tive um problema com o carro. 

 Mamãe me puxou para junto dela, dando passagem para que ele entrasse e convidando-o para se sentar no sofá. Compreendi, pelo olhar dos dois, que ele era o namorado de mamãe. Ela parecia um tanto sem-graça: 

-Oh, eu pensei que você não viesse mais. Ela olhou para si mesma, o pano de prato pendurado nas mãos, o vestido simples e o avental respingado de água. Ele sorriu, e eu vi nos olhos dele que ele estava muito apaixonado por minha mãe. Sara entrou correndo em casa, as bochechas vermelhas: 

-Mamãe já foi todo mundo embora e está esfriando lá fora! 

Ela estancou ao ver o homem no sofá, e se aproximou dele devagar: 

-Olá! Você veio para a minha festa? Porque se veio, ela já acabou! 

Mamãe ralhou com ela: 

-Sara! Isso são modos? (e virando-se para ele) Desculpe... 

Ele riu alto, enfiou a mão no bolso e estendeu o braço na direção de Sara, segurando uma pequena caixinha. Ela pegou a caixinha e perguntou se era para ela, e ele concordou com a cabeça. Sara sentou-se no sofá ao lado dele e abriu a caixa, que tinha uma pulseirinha de ouro muito delicada, com um gatinho junto ao fecho cujos olhos eram de uma pedra azul. Ela imediatamente adorou, estendendo o braço para que ele a prendesse para ela. Impulsivamente, Sara deu um abraço no homem. Todos rimos. Mamãe finalmente lembrou-se de apresentá-lo a nós: 

-Meninas, esse é Afonso, meu... meu chefe na fábrica. Aquele dia marcou uma nova fase de mudanças em nossas vidas.  


(continua...)





Um comentário:

  1. mais um capitulo bastante interessante! Obrigada pela partilha! ;)
    -
    Beijo-te com os lábios de ternura...
    -
    Beijos, e uma excelente semana :)

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