segunda-feira, 1 de agosto de 2022

SEGUIR PARA TRÁS - Parte 11


 PARTE 11


Estou diante da cama onde meu avô descansa. Ele se ajeita ao me ver, estendendo os braços para mim. Caminho hesitante na direção dele, e me sento na cama, deixando que ele segure as minhas mãos. Vejo bondade no seu rosto macilento e consumido pela doença. Olho os vidros de remédios na mesa de cabeceira, e a enfermeira que deixa o quarto discretamente a um sinal de Joanna. As duas cochicham no corredor, e quando minha avó entra no quarto, ela parece ter envelhecido alguns anos. 

Ele não fala nada sobre o meu passado, só me trata e me recebe como sua neta verdadeira. Não fala nada sobre meus pais, não me pergunta sobre nada, a não ser sobre o futuro, se eu preciso de alguma coisa, se eu sou feliz, se eu já decidi o que vou estudar, se eu vou continuar em Paris, morando com eles, ou se eu gostaria de ter meu próprio  apartamento. Tantas perguntas me deixam zonza, e prefiro tentar sorrir e me esgueirar delas. Dez minutos após a minha chegada, a enfermeira entra no quarto, administra mais medicamentos e ele adormece. Este é o contato face a face que tenho com aquele que pensei ser o  meu avô, após muitos anos. 

Na sala de estar, Joanna me deixa sozinha alguns momentos. Eu estou sentada em um sofá confortável, estilo bem antigo. O apartamento nem é tão grande quanto eu imaginava, mas é elegante e muito aconchegante. Há muitos objetos que parecem ser valiosos espalhados sobre os móveis. No centro de uma mesa de jacarandá, um vaso em estilo indiano que parece ser antigo muito caro. As sanefas sobre a s janelas são de  brocado e as cortinas têm tecidos esvoaçantes cor de creme. Há flores, flores naturais espalhadas pelo cômodo. De vez em quando, a enfermeira passa atrás de mim sem fazer barulho, a não ser pelas solas emborrachadas dos seus sapatos rangendo de leve. Existem três sacadas que dão para a rua na sala. Fico curiosa para ver a vista, mas não consigo me mover, de tão pouco à vontade que eu me sinto. Estou com fome. Uma senhora começa a por a mesa para o almoço. Mesa para dois. A enfermeira passa atrás de mim novamente e eu me viro para vê-la carregando um carrinho com um prato de sopa e um pouco de água em um copo alto. 

Joanna entra na sala, e murmura algo em francês. Depois me convida para ir até a mesa e me sentar, enquanto a criada nos serve fatias de pão, água, uma salada verde e vinho. Fico pensando se aquele seria o almoço. Comemos em silêncio, e assim que terminamos, nossos pratos são retirados e substituídos por outros, onde há um pequeno pedaço de carne assada perfumada, arroz e batatas cozidas. Eles comem muito pouco por aqui. Minha enorme fome, antes da doença de meu pai,  estava acostumada a pratos imensos de massas. Faço um esforço para não devorar tudo com apenas duas garfadas. Finalmente, somos servidas de frutas cortadas, queijo e um pudim que mais parece um mini pudim de casa de boneca. Meu estômago ronca alto, esperando pelo prato principal quando já estamos na sobremesa. Entendo o porquê de eles serem tão magros, mas me lembro que eu também sou. Também me lembro que no meu caso, a magreza não é hereditária, que desde a morte de meu pai, eu tinha perdido vários quilos. Joanna me observa, e sinto carinho no seu olhar. Ela às vezes me sorri, e falamos um pouco sobre a comida.

- Gostou da refeição? Está satisfeita?

Minto. Ainda poderia comer aquilo mais três vezes. Não comia nada desde que entrara no avião, na noite anterior, e já passavam de duas da tarde. Mesmo assim, eu sorrio e respondo:

-Sim. Obrigada.

Joanna sugere que eu vá para o “meu quarto” descansar um pouco após o almoço. Sinto que ela quer um pouco de privacidade, então me deixo conduzir até um pequeno e agradável  quarto, todo pitado de azul claro, onde as roupas de cama e as cortinas são cor de creme. Ao lado da cama, sobre o chão de madeira fosca, um criado mudo antigo onde descansa um pequeno abajur também antigo de cúpula de vidro. Sobre a colcha creme, algumas almofadas em tons pastel. Ao lado da cama, vejo a minha mala. Bem na frente do estreito corredor que divide a cama e a penteadeira, por cima desta, um espelho no qual me assusto com minhas olheiras cinzentas. De repente, todo o cansaço do mundo se abate sobre meus ombros, e eu sinto um enorme sono. Há um pequeno banheiro no quarto, com uma ducha. Tomo uma chuveirada quente e rápida antes de me deitar sob as cobertas e apagar completamente.

Não se foi devido ao efeito dos comprimidos que engoli para segurar a ansiedade (tomei mais um antes de deitar), só volto a despertar na manhã seguinte, com batidas à minha porta. 


(continua...)



Em breve, a parte 12. Estou sem tempo...














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