terça-feira, 17 de março de 2015

Nem Tudo é Bem Assim - Parte II





Nem Tudo é Bem Assim - Parte II


A conversa adiada acabou não acontecendo, pois na manhã de domingo, Bia resolveu recompensar o marido pelo 'não' da noite anterior. E ela o fez com muita dedicação, o que fez com que ele se esquecesse temporariamente dos ciúmes que sentira. 

Na manhã de segunda-feira, quando ele saiu para o trabalho e Bia preparava-se para trabalhar em casa, como fazia todas as segundas e quartas-feiras, a campainha tocou; quando atendeu, Bia deparou com o rapaz da flora quase totalmente escondido por trás de um imenso buquê de rosas. O cartão dizia simplesmente:  "Obrigada pelo almoço maravilhoso, Bia." 

Ela ficou um tempo sentada à mesa da cozinha, mãos entre os joelhos, olhando para o enorme arranjo de rosas coloridas que pusera sobre a mesa e deliberando o que fazer com ele. Sabia que Carlos faria uma cena quando o visse, mas tinha muita pena de jogá-lo fora. Mesmo assim, com o coração na mão, Bia agarrou o arranjo e levou-o até a lixeira do vizinho. Quando voltava para casa, arrependeu-se; voltou, abriu a lixeira e colheu do arranjo meia-dúzia de rosas, com as quais enfeitou a mesa da sala. Poderia dizer ao marido que ela as comprara; afinal, a mesa da sala estava sempre enfeitada com arranjos de flores. Mas tomou o cuidado de picar o cartão em pedacinhos bem pequenos antes de jogá-lo fora. 

Bia pensou muito em Roberto durante os dias seguintes àquele almoço. Imaginava cenas tórridas entre eles, e quando o fazia, corria para Carlos e realizava-as com ele. Era uma maneira de redimir-se. Ao mesmo tempo, isso convencia o marido que, afinal de contas, Bia ainda era apaixonada por ele. Algumas semanas após o almoço em sua casa, Bia recebeu um telefonema de Roberto, convidando-a para almoçar. Somente os dois. Ele disse que gostaria de conversar a sós com ela. Sentindo o coração querer sair pela sua garganta, ela tentou ser fria ao recusar o convite. Foi a primeira a desligar o telefone.

Quando ela desligou, deixando-o pendurado na linha, Roberto sentiu muita raiva e frustração; afinal, será que ninguém notava o quanto Carlos e Bia pouco tinham em comum? Qualquer um que olhasse mais de perto notaria que aquele casamento de onze anos estava em banho-maria há tempos, e que os dois só permaneciam juntos por conveniência! Por que ela insistia em ficar com ele? 

A amizade entre Carlos e Roberto crescia a cada dia. Os dois tinham muitas coisas em comum. O ciúme que Carlos sentira já quase desaparecera; afinal, três semanas após o almoço, Bia e Roberto não tinham se reencontrado. Mas naquele final se semana, Roberto achou de bom tom (esta foi a desculpa que deu a si mesmo) retribuir o almoço para o qual fora convidado. Na verdade, estava louco para rever Bia, e precisava de uma desculpa, já que ela recusara seu convite para o almoço há duas semanas. Assim, convidou o amigo e a esposa para um almoço em seu apartamento. Ele mesmo cozinharia (adorava cozinhar, e o fazia muito bem). Decidiu por um assado especial, receita de família. 

Arrumou o apartamento de maneira impecável; até pediu que sua mãe fosse ajudá-lo na faxina, o que fez com que ela se perguntasse o que havia de tão especial assim naquele casal... seu filho já convidara amigos do trabalho  e até garotas antes, e nunca se preocupara em demonstrar tanto esmero na arrumação. Ao perguntar ao filho o motivo de tanto capricho, ele apenas olhou para ela, passando a mão sobre o queixo, e ela compreendeu:

-Filho... você está apaixonado por ela, não é? Uma mulher casada!

Ele assentiu com a cabeça; afinal, precisava dividir aquele segredo com alguém.

-Mas vocês já tiveram alguma coisa?

-Não, mãe, mas eu sinto que ela também sente algo por mim, que ela também me deseja.
-E como você sabe?

Ele resumiu a história dos dois - a breve história que parecia tão importante a ele, mas que sua mãe resumiu em poucas palavras:

-Acho que você está construindo expectativas exageradas, Roberto. Cuidado para não se machucar! Não é certo interferir assim na vida dos outros. Se eles estão juntos, é porque querem. além disso, ele é seu amigo! Trabalha com você. Isso não está certo, filho.

O que a mãe disse, embora tenha sido rejeitado por ele, ficou na cabeça de Roberto. Sentia que estava cometendo um grande erro ao trair a confiança de um amigo, e decidiu que o almoço seria apenas um almoço de agradecimento, e que nunca mais insistiria para que ele e Bia se reencontrassem. Mas quando ele abriu a porta do apartamento e deu com o sorriso dela, suas convicções foram por água abaixo imediatamente. 

O beijo que ela depositou casualmente no rosto dele antes de entrar e olhar tudo, elogiando sua organização, fez renascer em Roberto a chama acesa da esperança. Carlos entrou logo depois dela, dando-lhe um abraço informal. Tratou de brincar maliciosamente:

-Hum... dizem que quando um cara solteiro é organizadinho demais, é porque é gay! É verdade, Roberto?

Roberto riu alto:

-Bem, no meu caso, sou apenas um cara solteiro que tem alguns dotes.

E Carlos completou seu comentário malicioso:

-Bem, tenho certeza então que este apartamento deve ser um tremendo matadouro, hein, Roberto? É aqui que você traz as garotas...

Roberto olhou de soslaio para Bia, e notou que ela ficara chateada com o comentário do marido. Decidiu não responder, e ao invés disso, riu e levou-os para o sofá, servindo-lhes um coquetel de frutas que Bia demonstrou apreciar muito.

-Hum... que delícia! Quero a receita, hein?

Mas Carlos não se conteve:

-Coquetel rosinha de frutas é coisa de boiola, querida. Acho que nosso amigo está tentando nos dizer alguma coisa. Macho não toma coquetel de frutas.

Bia apontou para o copo do marido, e foi em defesa do anfitrião:

-Mas você já bebeu o seu quase todo, querido.

Carlos notou o tom de ironia na palavra "querido." Sentiu seu rosto ficar vermelho.

O almoço decorreu em falso clima descontraído. Tanto Roberto quanto Bia percebiam que Carlos estava tentando fazer com que a imagem de Roberto diminuísse de importância para Bia, ridicularizando-o com brincadeiras tolas e criticando seu talento na cozinha como "coisa de gay." Mas ambos sabiam que Carlos estava apenas desesperado de ciúmes. Quando estavam apenas os dois amigos, Carlos tratava-no de maneira totalmente diferente, e apenas na presença de Bia ele agia daquela forma quase detestável. 

A tarde foi tensa, mas Bia conseguiu fazer com que a conversa fosse equilibrada, mudando de assunto imediatamente quando o marido dizia algo desagradável. Após o almoço, Carlos pediu para usar o banheiro, e Bia ajudou Roberto a tirar a mesa. 

No portal estreito que separava a cozinha da sala de jantar, enquanto passava carregando alguns pratos, Bia e Roberto ficaram presos por alguns instantes. Riram da situação. Bia ficou esperando que Roberto se afastasse para ela poder levar os pratos até a cozinha, mas ao invés disso, ele permaneceu aonde estava, olhando-a. Ela começou a sentir um enorme desconforto. Lembrou-se do sonho que tivera - e das tantas cenas que imaginara viver com ele. Bem, uma daquelas cenas estava prestes a acontecer enquanto seu marido estava a apenas alguns metros de distância, no banheiro, separado deles apenas por uma fina parede. Roberto parecia que não arredaria pé. Enquanto Bia deliberava sobre o que fazer, ele simplesmente beijou-a. Foi rápido e repentino, os lábios dele roçaram os dela de leve. Quando se separaram - ela ainda segurava os pratos entre eles - Bia descobriu que queria mais; beijou-o novamente, daquela vez, com mais força, como no sonho. 

Ao ouvirem a descarga do banheiro, ambos se separaram rapidamente. Ela foi para a cozinha e começou a lavar a louça freneticamente, esperando que o rubor do seu rosto desaparecesse antes que Carlos voltasse, e Roberto, sem saber direito o que fazer, correu para seu quarto e fechou a porta. 

Quando Carlos chegou à sala, não viu os dois, e escutando a água que corria na cozinha, foi para lá; encontrou a esposa lavando a louça e soltou mais uma de suas piadinhas em voz alta:

-Olha só! O Roberto convida a gente para o almoço e na hora de lavar a louça desaparece? Deixa a mulher fazer tudo sozinha? UM GAY MACHISTA?!

Bia não sabe como aquilo aconteceu; de repente, ela sentiu um ataque de fúria tomar conta dela. Fechou a torneira, virando-se para o marido, o rosto vermelho de raiva, sussurrando de forma zangada:

-Por que está fazendo isso, Carlos? Por que faz questão de humilhar seu amigo em sua própria casa? Não vê o quanto está sendo grosseiro com essas brincadeiras de mau gosto? Esqueceu-se de como pessoas educadas se comportam?

Carlos ficou boquiaberto, fitando-a. Ela continuou:

-Você nem percebe que está fazendo um papel ridículo! Devia se envergonhar!

Ele nada disse. Ela voltou-se novamente para a pia, e Roberto, que a tudo escutara, saiu do quarto. Ouvira tudo, apesar de Bia ter dito aquilo sussurrando, pois o apartamento era pequeno e ela sussurrara de forma bastante audível... ele tentou quebrar o clima tenso:

-Hã... Carlos, que tal um joguinho na TV?

Carlos estava lívido. Olhou para Roberto, virando-se para ele em câmera lenta, enquanto Bia, de costas para ambos, esfregava uma tigela com mais força do que o necessário. 

-Roberto, eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento horrível hoje. 

Roberto e Bia, que não esperavam por aquela reação, olharam para ele de olhos arregalados:

-Eu sinto muito.

De repente, Carlos começou a sacudir os ombros, e por um instante, Bia achou que ele estava rindo; mas logo percebeu que ele estava chorando. Ela enxugou as mãos no pano de prato e correu para abraçá-lo.

Ele deitou a cabeça no ombro dela. Roberto olhava-a estarrecido, sem saber como agir. Murmurou:

-Carlos, está tudo bem... eu.. eu sei que você só estava brincando.

Bia abraçou o marido, dizendo:

-Desculpe, amor...

E de repente, ela estava chorando também. A culpa tomou conta dela, invadindo cada curva do seu corpo, fio de cabelo, sentimento e pensamento. Ela foi andando de mãos dadas com Carlos para a sala de estar. Roberto assistia àquela cena bizarra, a raiva, o ciúme, a confusão e a piedade se intercalando em ondas dentro dele. Bia pegou sua bolsa sobre o sofá e levou Carlos até a porta. Antes de sair, agradeceu a Roberto pelo almoço. Roberto ficou parado no meio da sala, sem saber o que fazer. Não fez nada. Os dois saíram. 

Na segunda-feira, Carlos aproximou-se de Roberto no escritório. Roberto cumprimentou-o casualmente, fingindo nem se lembrar da tarde de sábado. Mas Carlos olhou-o de forma tão dolorida, que Roberto pôs a mão no ombro do amigo. Carlos serviu-se de café, e disse a ele:

-Ela está apaixonada por você.

(continua...)




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