segunda-feira, 16 de março de 2015

POR QUE VOCÊ NÃO MUDA?



O clima pode mudar a vida de alguém? 




Foi naquele dia muito claro e muito quente de um verão carioca. 

Ema caminhava pela calçada movimentada da avenida, levando alguns sacos plásticos com coisas que comprara no supermercado - uma caixa de leite, alguns enlatados. O mesmo de sempre. Ela voltava para o seu apartamento no Leblon, situado ali perto no quinto andar de um prédio de classe média, numa rua arborizada e bonita do Rio de Janeiro. O suor escorria pelo seu rosto, costas, peito, pescoço. Sua roupa colava-se ao corpo como se fosse uma segunda pele. 

Ema odiava o calor. Não conseguira acostumar-se com ele, como Sálvio prometera-lhe que aconteceria há dois anos, ao se mudarem para o Rio, onde ele recebera uma proposta de emprego que  sempre fazia questão de lembrá-la como sendo "irrecusável," toda vez que ela tentava convencê-lo a voltarem para Friburgo. Não gostava das idas à praia, pois sua pele clara e sensível não conseguia ficar exposta por muito tempo, nem mesmo com filtro solar, o que a obrigava a permanecer vestida com sua saída de praia, o que fazia com que sentisse ainda mais calor. Sálvio dizia para ela entrar na água quando reclamava. Parecia não ouvir quando ela lhe respondia que a água salgada causava-lhe alergias terríveis. Borrifava água mineral no rosto e no corpo para tentar refrescar-se, enquanto Sálvio e seus amigos do escritório, com suas respectivas esposas, pareciam divertir-se mergulhando, tomando cervejas, jogando frescobol e conversando sobre assuntos que não a interessavam. Ema não conseguira fazer amizade com aquelas mulheres de seios falsos, bundas e bíceps construídos através de malhação pesada em academias sofisticadas e cabelos artificialmente loiros. Só falavam de roupas, compras, viagens, dietas, tratamentos de beleza e famosos. E é claro, umas das outras, quando alguém não estava presente. 

 A caminho de casa, Ema pensava nos acontecimentos daquele terrível dia, ao final da manhã de sábado.  O ruído dos bifes que Marta fritava na cozinha enquanto cantarolava uma música Gospel de gosto duvidoso. Depois, o som do aspirador de pó sendo passado pela sala de estar, o barulho contínuo e monótono levando-a de volta a um tempo que não existia mais. Enquanto pensava, Sálvio tomava banho naquele banheiro minúsculo e sem ventilação adequada da suíte, que ela detestava, pois fazia com que ela já saísse do banho banhada de suor. Ela odiava tudo a respeito daquele apartamento, e do Rio. Odiava aquela vida que não era sua. Às vezes, imaginava como Marta conseguia chegar ao trabalho todos os dias, tomando três conduções lotadas, suportando todo aquele calor.

Sálvio saiu do banho e olhou-a com ar de censura, pois ela ainda estava na cama, e já eram quase onze da manhã. Desde que se mudaram para o Rio, Ema apenas sabia reclamar de tudo. Não reconhecia o esforço que ele estava fazendo pelos dois. Não sentia nenhuma gratidão pela vida confortável que ele dava a ela - e que tinha tendência a melhorar depois da promoção que recebera há um mês. Andara procurando por um apartamento melhor, e encontrara um no dia anterior, e só não dissera a ela porque desejava fazer-lhe uma surpresa. Aproveitou o seu ar desanimado para dar-lhe a notícia, achando que ela ficaria feliz; pigarreou, e enquanto se vestia, olhando-a pelo espelho (e constatando o quanto ela era bonita, com sua cascata de cabelos naturalmente negros e ondulados caindo pelas suas costas nuas), disse casualmente:

-Ema, o que você acha deste apartamento?

Ela respondeu com enfado, a voz bafejada entre os lábios:

-Você já sabe. Eu o detesto.

-Pois é, eu sei. 

Sálvio calçou os tênis. Ema sentou-se na cama, bocejando e se espreguiçando, e os lençóis caíram em volta de sua cintura, deixando-lhe os seios expostos. Ela se levantou e caminhou os poucos passos que a separavam do banheiro, batendo a porta. Sálvio respirou fundo, a cabeça entre as mãos, sentado na beirada da cama, a notícia presa entre os dentes. Minutos depois, ela voltou, os cabelos enrolados em uma toalha. Começou a espalhar o creme hidratante na perna direita, o pé sobre a cama. Parecia que Sálvio nem estava presente.

Ele achou melhor ignorar aquele comportamento, e prosseguiu, como se nada houvesse acontecido:

-Tenho excelentes notícias para você.

Ele viu o rosto dela iluminar-se com um sorriso verdadeiro pela primeira vez em meses, e ela arrancou a toalha da cabeça, penteando os cabelos com as mãos. Ema pensou que finalmente ela iria ouvir o que tanto aguardara, já que, para ela (ele sabia), a única excelente notícia seria que eles iriam voltar para casa. Já se via fazendo as malas e voltando para Friburgo, deixando aquela cidade  quente, violenta e horrorosa para trás. Aproximou-se de Sálvio, sentando em seus joelhos como há muito tempo não fazia:

- Eu sabia que você acabaria mudando de ideia sobre essa mudança louca, amor!

Sálvio percebeu que ela não tinha entendido nada, e achou melhor ir com calma; forçou um sorriso:

-Apronte-se. Vamos almoçar fora. É sábado.

-Mas... Marta está preparando o almoço. Escutei quando ela começou a fritar os bifes, vai ficar uma fera.

-Somos nós que a pagamos. Se não gostar, que coma ela mesma. 

Ema vestiu um vestidinho florido, curto e transparente, que em Friburgo teria causado um grande tumulto, mas que naquela cidade quente passava despercebido. Calçou sandálias baixas e deslizou o batom sobre os lábios. Os cabelos já secavam, emoldurando-lhe os belos olhos castanho-esverdeados. 

Sálvio escolheu um restaurante pequeno e afastado, com uma linda vista para o mar. Já tinha ido ali outras vezes, em almoços de negócios... e em uma outra ocasião da qual se arrependera e que nunca mais quis repetir. Durante o almoço, parecia que as coisas finalmente tinham voltado a ser como antes; Ema estava visivelmente muito feliz, e até comentou sobre a beleza da paisagem, coisa que nunca fizera. Sálvio ficava satisfeito ao notar que outros homens olhavam-na discretamente (outros, não tão discretamente assim), e sentiu-se orgulhoso de ter uma mulher que, aos trinta e sete anos,  arrancava suspiros e virava cabeças.

Após o almoço, durante a sobremesa, ele deu a notícia. 

Quando Ema a escutou, tudo ao redor pareceu-lhe perder a cor de repente. A paisagem e o mar tornaram-se cinzentos. O sorvete perdeu o sabor, e ela teve que fazer um esforço enorme para engolir o que estava em sua boca. Os olhos dela encheram-se de lágrimas, deixando o cenário turvo. Ela não conseguiu falar.

Sálvio fingiu não notar a decepção dela. Quis dar a entender que achava que ela estava emocionada com a boa notícia, e pôs-se a falar, falar e falar sem parar sobre a nova decoração que fariam, na piscina que tinham em sua nova varanda, no tamanho do banheiro da nova suite, no quarto extra que poderia ser do bebê que finalmente teriam. Mas ele sabia que Ema estava arrasada. Pensou que com o tempo ela aceitaria a mudança, mais uma vez. Ema permaneceu em silêncio. Enxugou uma lágrima furtiva. Pensou que nunca mais sairia daquele lugar horroroso e quente. Que nunca mais teria amigos verdadeiros. Que jamais voltaria a caminhar pelas ruas sem olhar em volta, com medo de ser assaltada novamente. Que teria que conviver com aquelas pessoas afetadas para o resto de sua vida.

Meses após a mudança, Ema parecia piorar a cada dia, até que finalmente, Sálvio marcou uma consulta para ela em um psiquiatra. Achava que sua esposa estava deprimida, e que medicamentos poderiam resolver. Ela retrucou, dizendo que seu único problema era aquela vida, naquele lugar. Amarga, mal falava com o marido. Passava o dia trancada no quarto, as persianas fechadas e o ar condicionado no máximo. Vivia resfriada, e estava mais pálida do que nunca. Emagrecera, pois mal tocava na comida. Marta estava preocupada com ela. Por isso, Sálvio decidiu pelo psiquiatra.

Ema foi a duas sessões, nas quais o homem sério e taciturno (parecia a ela que ele estava entediado de tanto ouvir histórias) escutou dela a mesma coisa: o quanto ela odiava o Rio de Janeiro, as pessoas com quem tinha contato, a vida que levava. Desistira de sua profissão de professora em Friburgo porque Sálvio garantiu-lhe que eles voltariam para casa se ela não se adaptasse à nova vida, e arrependia-se. Tentou dar aulas em uma escola do Rio, mas sair de casa e caminhar pelas ruas naquele calorão, deixavam-na literalmente doente: tinha ânsias de vômito, não conseguia comer direito, sentia-se cansada o tempo todo e tinha dores de cabeça terríveis. Acabou desistindo. Sálvio concordou que ela ficasse em casa, pois seu salário dava para sustentá-la. Aos poucos, Ema contou ao seu analista, ela se viu encarcerada em uma vida que não era sua, que na verdade, nem era uma vida, e não a agradava. Fizera todos os sacrifícios pelo marido, e ele os recebera como se tivesse todos os direitos a eles. E agora, ele falava em ter filhos, em ser pai! Alegava que o relógio biológico de Ema estava com os minutos contados. Queria um filho dela. E ela nem sabia se queria continuar casada com ele. 

Na terceira consulta, após ouvir as mesmas queixas,  o Doutor Fulano, cujo nome Ema nem fez questão de lembrar, pronunciou uma frase que soou dentro de sua cabeça como uma bomba relógio; uma frase que obrigou-a a tomar uma atitude, e que ela mesma tinha muito medo de pronunciar. Aquela frase estabeleceria um marco, fazendo com que Ema finalmente admitisse que tudo o que estava passando era sua própria culpa:

Após ouvi-la por mais ou menos trinta minutos, pouco antes da parte em que ela começaria a falar sobre os sacrifícios que fizera por Sálvio, O Doutor Fulano a interrompeu, e sua voz forte e cortante trovejou:

-Por que você não muda?

Ela calou-se no meio da frase que dizia, e ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o médico, que a olhava de volta com aqueles olhos de peixe morto, as pernas cruzadas, mostrando a meia cor de vinho que não combinava com seus sapatos marrons.

-O que? - Ela perguntou.

Ele suspirou fundo, descruzando as pernas e cruzando-as novamente. Repetiu,mais devagar e  pacientemente, mas como se demonstrasse impaciência pela sua falta de bom senso, deixando pausas mais longas entre as palavras:

-Por que ...  você ... não ... muda?

Ema pigarreou, remexendo-se no sofá. Quem ele pensava que era? Como ela poderia mudar assim, de repente? Será que ele pensava que Sálvio deixaria seu "maravilhoso" emprego por causa dela, porque ela tinha decidido mudar-se? E o seu casamento, como ficaria? E ela nem tinha um emprego! Do quê sobreviveria? E as responsabilidades, que... 

Sentiu uma onda de raiva e impaciência dominá-la. Levantou-se, agarrando a bolsa e caminhando até o Doutor Fulano, que permaneceu sentado, o olhar ligeiramente alarmado. Ema parecia uma torre, fazendo sombra sobre o rosto dele:

-Quem você pensa que é?

Ele não respondeu, os olhos colados nos dela, talvez pronto para defender-se de alguma agressão física.

-Você fica aí sentado, sendo pago por hora para dizer uma frase idiota dessas como se ela fosse resolver tudo? Faz isso com todos os seus pacientes, doutor? Escuta seus problemas, e depois simplesmente diz a eles para mudarem suas vidas, como se isso fosse simples, como se a culpa fosse nossa? -  (ela dissera as últimas palavras com o dedo indicador apontado para o rosto dele, indo e vindo em direção ao seu nariz, mas sem tocá-lo). Ele piscou por alguns instantes, fazendo sinal para que Ema voltasse a sentar-se.

Ao invés disso, ela saiu pisando duro, deixando a porta escancarada. 

E naquele dia de verão muito claro e muito quente, enquanto olhava para o prédio onde morava, carregando as suas sacolinhas do supermercado, Ema suspirou profundamente. Olhou para os lados. Colocou as sacolas no chão, em frente ao portão, de onde o porteiro a olhava, já se encaminhando para ajudá-la a carregar as compras, mas antes que ele abrisse o portão, ela simplesmente continuou caminhando. Continuou, e de repente, o calorão de verão que subia em vapores escaldantes da calçada, já nem fazia tanta diferença. 

"Por que você não muda?"

Aquela frase martelava fortemente, ecoando em sua cabeça, que desta vez, não doía devido ao sol que fustigava-lhe. A pele ficando vermelha não mais a incomodava. Sinalizou para um táxi que passava, e o motorista parou a alguns metros à frente. Ela foi caminhando, bem devagar. Abriu a porta, e entrou.



Um comentário:

  1. E se fosse tão fácil mudar de lugar como de pensamentos , as alergias do que nos dói teriam cura mais rápida!
    Envolvente, Ana!
    Beijinho

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