segunda-feira, 11 de maio de 2015

AS RUAS DAS ÁRVORES QUE CHORAM - HISTÓRIAS EM PETRÓPOLIS






Quando pequena, e durante minha adolescência, eu brincava nas ruas do meu bairro. Cresci no Caxambu. Mal eu e minha irmã chegávamos da escola e almoçávamos, procurávamos reunir os colegas para jogar queimado, brincar de pique-bandeira ou pique-esconde ou simplesmente, conversar. Lembro-me de algumas festas de São João que fizemos num terreno baldio que nós mesmos capinamos e acertamos. Enfeitávamos tudo com bandeirinhas e bambus, e certa vez, um dos amigos "conseguiu" um pneu usado com o qual alimentamos uma fogueira... aquela fogueira deu muita confusão quando o dono do pneu descobriu!

Durante alguns anos, houve uma casa em obras perto da nossa, e nós íamos lá quando não havia ninguém. Brincávamos de pular nos montes de barro, e chegávamos em casa tão imundas, que um dia a mãe nos impediu de entrar em casa; chovia, e tínhamos feito guerra de lama. Ela ficou furiosa, e mandou que aguardássemos o pai chegar para que ele decidisse o que faria conosco... ficamos no velho barracão onde ele tinha sua oficina, olhando a chuva cair até escurecer. Lembro-me que estava com fome e frio. Depois que ele chegou, deu-nos uma boa bronca, mandou que tomássemos um banho e entrássemos em casa. 

Naquela mesma obra, em outra ocasião, enquanto olhávamos a chuva cair sentados em troncos de madeira, nós sonhamos com o que gostaríamos de ser no futuro... muitos daqueles sonhos (e sonhadores) se foram cedo, arrancados de nós pela realidade. Recordo-me de colegas que morreram jovens, como o Nando e o Cacau. Eram irmãos, sendo que Cacau era filho de criação, e negro. Foi-se aos dezoito anos, com cirrose hepática, e o Nando, aos vinte e quatro, com meningite. 

Um dia, o prefeito decidiu construir uma pista de esqui no bairro Floresta. As obras eram visíveis dos fundos do nosso quintal. Vimos o teleférico sendo instalado, e logo tivemos a ideia de dar uma olhada mais de perto... a gente levava pipas para soltar por lá (eu não gostava de soltar pipas, pois meus olhos nunca aguentaram muita claridade). Lá, nós também pulávamos nas imensas pilhas de barro macio... depois escalávamos a encosta, afundando no barro até os joelhos, e pulávamos lá de cima de novo. 

Uma vez, quando finalmente a 'pista de esqui' foi inaugurada, eu finalmente dei uma volta no teleférico, que já parecia ser velho... eu olhava tudo lá de cima, enquanto um alto-falante  mandava ver na música "Every Little Thing She Does is Magic," do grupo The Police. Até hoje, sempre que escuto esta canção, eu me lembro daquele dia.  Foi a primeira e a única vez. Logo a pista foi desativada, e as obras nunca foram concluídas. Hoje, dizem que ainda existem as ruínas daqueles tempos pretensiosos em que todos pensávamos que nossas casas com vista para o teleférico seriam supervalorizadas, e nosso bairro se tornaria famoso e procurado por turistas do mundo inteiro. A obra toda deve ter sido apenas uma forma de justificar gastos públicos, mas éramos inocentes demais para perceber.

As minhas solas estão acostumadas ao barro vermelho e macio e à água que corria pela rua quando chovia e eu afundava os pés tentando não perder meus chinelos... Parece que a essência daquele barro e daquela água penetrou sob a pele e chegou ao coração, e acho que eu jamais serei capaz de passar muito tempo longe de Petrópolis. Sinto saudades dos tempos em que o clima era mais frio, e nós nos aconchegávamos a cobertores no sofá da sala para ver filmes nas tardes de sábado, comendo doce de abóbora ainda quente. E das vezes em que eu andava sozinha pelas ruas, mãos afundadas nos bolsos de um casaco marrom comprido, com gola de pelo que "herdei" de minha irmã, encaminhando-me para a loja onde encontrava minha outra irmã aos sábados para que, depois do expediente, encontrássemos alguns amigos e fossemos ao cinema ou a algum outro lugar. 

As ruas são as mesmas, as árvores centenárias ainda choram. Mas muitas pessoas se foram, ou simplesmente mudaram, tanto que hoje somos apenas estranhos. As significâncias tomaram outros sentidos menos alegres. Ou quem sabe, elas sempre tenham sido assim; eu é que nunca percebi antes. Só sei que a menina que eu fui ainda caminha por essas ruas levando sua fé de criança, embora esteja à procura de algo ou alguém que jamais encontrará. Eu às vezes tenho pena dela.

(continua...)



Um comentário:

  1. Quantas lembranças gostosas Ana, um saudosismo do tempo que jamais voltará, mas que permanece na memória de quem o viveu.
    Agora, a menina crescida, tem muito pra contar, para quem nada disso pode experimentar e também se encantar. Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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