terça-feira, 5 de maio de 2015

As Ruas das Árvores que Choram -Histórias em Petrópolis




Às vezes chove forte em Petrópolis. As árvores que choram ficam com seus troncos quase negros, embebidos de tanta chuva, e algumas delas caem. Assim como caem as casas que ficam nos altos dos morros, construídas sem qualquer critério ou noções de engenharia. Elas se desfazem feito papelão, escorregando pelas encostas, levando consigo vidas e histórias. Aqui, todo mundo conhece alguém que morreu em um desabamento. Mesmo assim, as construções ilegais continuam sempre acontecendo, e ao invés de serem detidas, assim que ficam prontas as autoridades responsáveis enviam-lhes carnês de IPTU e contas de água e de luz. Todo mundo sabe, só de olhar, que cedo ou tarde, elas vão cair; inclusive quem vive nelas. Mas quando a defesa civil passa seus alertas, ordenando que sejam desocupadas, ainda há quem prefira permanecer nelas e arriscar a própria vida em prol de fogões e geladeiras.

Uma vez, contaram-me a história de uma dessas famílias que sofreu durante as enchentes de 2011. Vou tentar recontá-la aqui, omitindo nomes e tentando recriá-la, fazendo uma narrativa em primeira pessoa. Não me lembro com detalhes de toda história, e preencherei suas lacunas com minhas próprias conclusões, mas a história é real, aconteceu com pessoas reais, e enquanto eu a ouvia, o terror daquelas pessoas passava diante dos meus olhos. Chorei ao final da narrativa. Tudo aconteceu em janeiro de 2011, dias antes da morte do meu sobrinho, e por isso lembro-me bem daquele ano. Enquanto vivíamos a nossa própria tragédia, outras pessoas também viviam as suas. Alguns perderam tudo o que tinham: casas, negócios, carros e membros da família. Esta é uma destas histórias.

Era noite, e chovia forte no Vale do Cuiabá, onde eu vivia com meu marido. Meus sogros e um sobrinho de cinco anos estavam em nossa casa. Eu estava grávida de oito meses. Tínhamos certeza de que morávamos em local seguro, pois não havia, próximo à nossa casa, morros ou rios. Mesmo assim, quando a luz acabou por volta das dez da noite, senti um calafrio percorrer meu corpo, apesar de ser uma noite quente.

Estávamos no primeiro andar da casa, e eu procurava algumas velas, quando de repente, ouvimos um estrondo indescritível de coisas se quebrando. No escuro, não sabíamos o que estava acontecendo. Lá fora a chuva caía forte. Começamos a ouvir um barulho ensurdecedor de água de rio, e quando meu marido olhou para fora, viu a água brilhando e aproximando-se da casa muito rapidamente. Era uma forte tromba d'água. Logo ele gritou que fôssemos todos para o segundo andar. O tempo todo, eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Ouvíamos pessoas gritando na escuridão, mas não podíamos fazer nada para ajudá-los. Tinham sido pegos de surpresa, como nós. Troncos de árvores, carros e outros objetos passavam por nossa janela. Logo, a água subiu tanto, que fomos para o telhado, mas foi por pouco tempo, pois a casa ruiu e caímos na água. Não enxergávamos nada, apenas íamos sendo carregados pela correnteza, eu, meu marido e meu sobrinho de cinco anos, nossas mãos fortemente entrelaçadas, e àquela altura, não tínhamos a menor ideia de onde estavam meus sogros. Escutávamos pessoas gritando o tempo todo enquanto éramos arrastados, escapando por pouco - e por acaso - de sermos mortalmente atingidos por um pedaço de árvore. 

O tempo todo, eu tentava também proteger a minha barriga e a criança que carregava dentro dela. Sentia minhas roupas sendo arrancadas aos poucos pela força da tromba d'água, e o pavor que sentia era algo surreal. De repente, minhas forças começaram a falhar. Eu não tinha mais como segurar a mão do meu pequeno sobrinho, que escorregou da minha, e ele se afastou rapidamente. Eu gritava em desespero, quando chegamos ao que pensei ser uma margem do rio e meu marido, mandando que eu segurasse firme no tronco de uma árvore, disse que iria atrás do menino e que logo voltaria. Gritei para que ele não me deixasse só, mas senti quando ele largou minha mão e desceu na correnteza.

Fiquei ali, agarrada o quanto pude, sentindo um frio e um medo imensos. Tentava proteger minha barriga com um dos braços e segurar-me com o outro, mas o tronco começou a soltar-se da margem lamacenta, e senti que eu descia novamente pela correnteza. "É o fim," pensei. Fechei meus olhos e deixei-me ir, pois não havia mais nada que eu pudesse fazer. Mesmo assim, meu instinto materno fez com que eu abraçasse minha barriga, envolvendo a criança não nascida em um gesto protetor.

A escuridão tornou-se ainda mais negra, e por incrível que pareça, fui envolvida por um silêncio fora de contexto enquanto perdia os sentidos e mergulhava no que eu acreditava que seria a minha morte.

Quando despertei, eu estava deitada de bruços, totalmente nua, sobre um banco de areia. pessoas na outra margem gritavam meu nome e perguntavam se eu estava bem, mas eu não sabia responder. Minha pele ardia em todas as partes do corpo. Percebi que tinha muitos cortes e hematomas, e sangrava. passei a mão pelo rosto, e com as pontas dos dedos, procurei meus olhos. Aliviada, notei que ainda os possuía. Foi quando lembrei-me do meu filho, ao desvirar o meu corpo e sentar-me no banco de areia, olhei devagar para a minha barriga para notar que ela estava intacta, sem um arranhão sequer. Chorei de alívio, enquanto as pessoas pediam-me para ficar calma. Alguém se aproximou e jogou um cobertor sobre mim. Deitaram-me em uma maca. Perdi os sentidos novamente.

Acordei em um hospital. Estava viva e meu filho estava bem. Mais tarde, soube que o corpo do meu marido e sogros tinham sido encontrados, mas o do meu sobrinho continua desaparecido, como tantos outros que foram tragados por uma densa camada de lama naquela noite horrível. Perdi tudo o que tinha. Tive que recomeçar a vida do zero. O que me deu esperanças e forças, foi quando olhei nos olhos do meu filho recém-nascido e enxerguei a vida que vinha deles, e que exigia ser retomada.

Este é o fim daquela história, mas na verdade, ela continua.


(continua...)




3 comentários:

  1. Ana que história horripilante, não dá pra imaginar, você acordar e não ter mais nada além de você e seu bebê. Quando ouvimos histórias assim, só podemos agradecer a Deus, porque ainda estamos vivos.
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Querida Ana:

    Você é uma verdadeira heroína. Perdeu tudo o que tinha, mas ainda teve a coragem de recomeçar do zero, com o seu único e mais precioso bem: o seu filhinho. Não tenho palavras para expressar os meus sentimentos.

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    Respostas
    1. Lia, embora a história seja baseada em fatos verdadeiros e tenha sido narrada em primeira pessoa, não sou eu a protagonista. A pessoa que passou por tudo isso realmente existe, e narrei em primeira pessoa porque achei que daria mais sentimento à narrativa.

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