segunda-feira, 22 de junho de 2015

A PRAIA DOS SONHOS - PARTE III





A PRAIA DOS SONHOS – PARTE III

Abrir os olhos após dormir quase doze horas seguidas pode deixar as pessoas um pouco confusas. E foi exatamente assim que Anita se sentiu ao abrir os olhos e deparar com as paredes caiadas do quarto simples, as cortinas rendadas que balançavam com a brisa do mar e o gosto rançoso da cerveja da última noite ainda entre os dentes. Olhou para o lado: estava só. Com certeza, Fernando já tinha saído e estava na praia, estirado ao sol feito um lagarto. Ela levantou-se e ficou deslumbrada com a vista da janela: lá embaixo, ela via um mar imenso e verde, areias tão brancas que faziam doer os olhos e um azul dominante. Três faixas de cor: azul por cima, verde-esmeralda no meio e branco embaixo. E dois pontinhos de cor na areia: um menino estava sentado ao lado de seu marido. Ela apertou os olhos para ver melhor. Depois, bocejou e saiu. No corredor, sentiu cheiro de café. Ao chegar à recepção, encontrou Leo preparando uma bandeja de café da manhã: café, leite, pão com manteiga, um mamão e um copinho de suco de laranja. Nada mais. Nada parecido com o café da manhã farto e luxuoso do hotel, mas ela adorou o carinho da flor sobre a bandeja quando Leo a colocou na mesinha e convidou-a a sentar-se. Enquanto tomava seu café, Anita foi logo perguntando:

-Quem é o menino na praia? Seu filho?

Ele riu:

-Não, é meu irmão mais novo. O nome dele é Jorge. Jorginho.
-Ah, sim... e vocês moram aqui sozinhos, Leo?

Ela notou que ele baixou os olhos rapidamente, e uma ligeira sombra escureceu seu sorriso, mas ele logo a mandou embora:

-Não, moramos com nossos pais, mas eles estão viajando no momento, sabe, para comprar algumas coisas para a pousada. Estamos expandindo. Aliás... tive que colocá-los na minha suíte máster. É um pouquinho mais caro do que tínhamos combinado, mas é que a outra está ocupada, e a terceira está sendo pintada... mas dá direito ao café da manhã. Está bom?

Ela concordou com a cabeça, enquanto engolia um pedaço de mamão:

-Está ótimo. 

Anita lembrou-se de que quando tinham chegado, na noite anterior, havia uma plaquinha pintada à mão na outra cabana, onde se lia: “suíte máster.” Ela podia dizer que tinha certeza absoluta que a outra cabana estava desocupada... Mas como a tal plaquinha tinha ido parar na porta do seu quarto? 

Afinal, qual era a verdadeira ‘suíte máster?’  

-Eu pensei que a outra cabana estivesse vazia. Estava escura e silenciosa quando chegamos.

Ele coçou o queixo, dizendo:

-Ah, eles dormem e acordam cedo. Estavam dormindo quando chegamos, e saíram antes de vocês acordarem. Às vezes, passam dias sem aparecer. Vão acampar por aí. São um casal de americanos, acho. A gente se comunica quase que por gestos, eles falam pouco português e eu não falo quase nenhum inglês.

Ela podia jurar que ele estava mentindo, tal o excesso de detalhes, a fala rápida e os olhos que não encontravam os seus... mas Anita resolveu deixar aqueles detalhes de lado, levando em conta apenas a simpatia de seu anfitrião,  e terminando o café da manhã, foi até a praia, onde encontrou o marido e o menino. 

Foram apresentados, e Jorginho estendeu uma mão pequena e hesitante em direção a ela. Quando a apertou, Anita percebeu que ele era frágil como um passarinho machucado. Nunca vira tanta tristeza nos olhos de uma criança, apesar do leve sorriso forçado. A mãozinha do menino era fria, apesar do sol, e a pele muito branca, apesar de morarem praticamente na areia de uma linda praia. Ela achou estranho, mas não perguntou nada. Sabia que aqueles olhos escondiam uma história que não seria contada a alguém como ela. Mesmo assim, gostou imediatamente de Jorginho.
-Jorginho estava me dizendo que gosta muito de pescar, Anita. 

Ela riu:

-Bom pra você. Podem ir pescar juntos! Sabe, Jorginho, Fernando vive procurando companhia para suas pescarias. Agora encontrou uma: você.

Jorginho riu, balançando a cabeça afirmativamente, apontando para um barquinho ali perto que estava amarrado em uma estaca, sobre a areia.

-Se meu irmão deixar, podemos ir no barco dele. Tem motor!

Fernando perguntou:

-E você sabe guiar o barco?

Ele levantou-se, limpando a areia da bermuda, e balançando a cabeça afirmativamente mais uma vez.

-Eu sei sim. Meu pai me ensinou.

Naquela hora, uma máscara de tristeza tomou conta do rosto do menino. Anita perguntou:
-Quantos anos você tem?
-Tenho onze.
-E onde estão seus pais, Jorginho?

Fernando olhou para ela sem entender, já que Leo já tinha dito que eles estavam longe, em viagem de compras para a pousada. Já ia interferir, quando ela olhou para ele e ele imediatamente compreendeu a mensagem: “Deixe o menino responder!”

Mas Jorginho encolheu os ombros, e nada disse. Afastou-se caminhando sozinho pela praia, deixando o casal sozinho. Anita sentou-se ao lado do marido, olhando o mar. Fernando perguntou:

-O que foi aquilo?

-Ora, vai me dizer que você não percebeu que Leo mentiu sobre os pais, assim como mentiu sobre a tal “suíte máster?”  Não existe suíte máster nenhuma, ele só colocou a plaquinha na porta para poder cobrar mais caro. Assim como também não existem outros hóspedes na pousada, além de nós.

Fernando riu, após um momento de confusão.

-Mas você é perspicaz mesmo, hein, Anita? Mas sinceramente? Eu não me importo de pagar um pouco mais, pois percebi que Leo se esforça para cuidar de tudo, e eles precisam muito do dinheiro. Estive conversando com Jorginho, e ele me disse que às vezes, a polícia vem e toma parte do que eles ganham.

Anita arregalou os olhos:

-Mas como?! E ninguém faz nada? E por que a polícia levaria parte do dinheiro deles?
-Segundo Jorginho, eles não tem licença para funcionar. Mas senti que há mais alguma coisa que ele não quis me contar... é difícil falar com ele, a gente tem que arrancar as palavras se quiser obter alguma resposta.

Eles ficaram em silêncio. Um vento morno começou a soprar, deixando o céu totalmente azul, e Anita sentiu o calor do sol queimando-lhe os ombros nus. Vestiu a saída de praia após espalhar mais um pouco de filtro solar. Quando terminou, começou a espalhar o creme sobre o rosto e as costas do marido. Fernando disse:

-Notou o quanto esse menino é triste?

-Notei sim... o que será que aconteceu?

-Não faço ideia, mas para mim, é alguma coisa relacionada aos pais. Acho que eles estão mortos.

-Por que você acha isso?

-Porque ele evita falar neles, e quando fala e eu pergunto alguma coisa a mais, ou ele se cala ou muda de assunto.

-Estranho... bem, mas cuidemos dos nossos próprios problemas, não é? Afinal, estamos aqui de férias.

Fernando lamentou a frieza de Anita. Ela nunca se interessava por crianças. Mostrava-se entediada quando os sobrinhos dele os visitavam, embora fizesse de tudo para disfarçar. Dizia sempre, quando alguém lhes perguntava por que não tinham filhos: "Crianças são um tédio. Não tenho paciência nem instinto maternal, embora eu as ache muito lindas em filmes,  fotografias e calendários. Não é que eu não goste delas; só não quero cuidar de uma."

Durante muitos anos, Fernando compartilhou daquelas ideias, mas conforme o tempo ia passando, ele sentia um vazio por dentro, às vezes... um vazio que ele tentava fingir que não existia, mas que estava lá. Quando via seus sobrinhos ou os filhos de seus amigos, tornava-se criança novamente, brincando com eles. Sentia-se melancólico quando eles partiam, ao contrário de Anita, que aliviada, arrumava a bagunça deixada na casa, cantarolando.

Ela servia os lanches, e quando eles ficavam para passar a noite, arrumava as camas, mas era só: não gostava de interagir com as crianças, preferindo ficar sozinha no jardim, lendo um livro. Era sempre gentil, e as crianças gostavam dela, pois sentiam-se bem tratadas, mas também entendiam que Anita preferia ser deixada em paz. 

Mas Fernando não sabia que Anita ficara muito impressionada com Jorginho e Leo, e que embora tentasse disfarçar, ela não sabia explicar o porquê daquela pequena brecha que começava a abrir-se em seu coração.


(continua...)




Um comentário:

  1. Gosto de ler seus contos, são sempre instigante no aguçar a nossa curiosidade para saber o que vem depois e como sou muito (bastante) curioso, fico na ansiedade do próximo capítulo rsrs

    Beijos
    Rafael

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...