sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O DIÁRIO DO FIM - PARTE V







Alguns dias depois, eu estava no jardim observando a pequena horta que Genaro plantara, e vi que alguns tomates começavam a surgir, e os alfaces pareciam estar indo muito bem. Por incrível que parecesse, as plantas não pareciam muito ressentidas com o calor, e cresciam rapidamente. Genaro comentou que dentro em breve teríamos salada no almoço. 

Passei a dormir pesadamente todas as noites, depois daquele meu episódio à mesa do café. Eu planejava ficar acordada a fim de tentar ver se sara voltaria ao reservatório, mas adormecia sem nem ao menos perceber e só acordava na manhã seguinte, o que estava sendo bom, pois me sentia mais bem disposta. 

Os dias corriam sem notícias dos meus filhos, mas estranhamente, eu apenas sabia que eles estavam bem, e que eles ficariam bem. Até me sentia culpada por não conseguir sentir preocupação, mas ao comentar o assunto com Renan, ele fez uma cara engraçada, erguendo as sobrancelhas, e respondeu que com ele se passava a mesma coisa: ele tinha certeza de que as crianças estavam bem.

Saí para dar uma volta pelo bairro, sozinha, no final de uma tarde nublada e abafada. Apesar das nuvens pesadas, a chuva parecia não querer cair, e fazendo as contas, descobrimos que já não chovia há seis meses. As casas vazias tinham seus jardins ressecados. As ruas também estavam vazias e desoladas, e parecia que todo mundo tinha ido embora. Todos os estabelecimentos comerciais tinham fechado. passávamos muitas horas, e às vezes, dias sem energia elétrica, que estava sendo racionada, e também sem telefone. A polícia e as autoridades aconselhavam a todos que ficassem em suas casas e só saíssem caso fosse estritamente necessário, e as famílias mais carentes recebiam cartões que trocavam por comida quando um caminhão passava pela rua, o que poderia levar vários dias para acontecer. Medicamentos também estavam em falta, e ouvíamos pelo rádio os vários pedidos de pessoas que precisavam de medicamentos para controlar doenças crônicas. Também ficávamos sabendo, pelo rádio, das muitas mortes que aconteciam todos os dias devido a doenças que antes tinham sido consieradas totalmente erradicadas, fome, sede e conflitos. As pessoas estavam chegando ao seu limite, o que podia torná-las violentas. 

Mas ali no nosso pequeno mundo, por trás do muro que Genaro e Renan aumentaram e fortificaram com arames farpados, nos sentíamos estranhamente seguros. 

Uma tarde, fui com Dora até o porão para pegar alguns enlatados para prepararmos o jantar, e enquanto descíamos as escadas, ela comentava que as ervilhas tinham acabado, mas que ainda tínhamos algumas latas de milho. Mas quando chegamos até as prateleiras, Dora levou a mão à boca a fim de conter sua surpresa, ao ver várias latas de ervilha empilhadas. Nos entreolhamos, e comenti que ela poderia ter se enganado, mas ela balançou a cabeça, negando, dizendo que tinha certeza absoluta que as ervilhas tinham terminado.

Demos uma geral nos outros produtos, e vimos que tínhamos muito mais comida do que imaginávamos. Tivemos a impressão que estávamos diante de algum milagre, ou pelo menos, de alguma coisa inexplicável. Nós nos sentamos nas escadas do porão, em silêncio, os olhares perdidos no vazio. Foi quando achei que seria uma boa hora para contar a ela o que tinha acontecido naquela noite, no reservatório. Dora ouviu tudo em silêncio, sem fazer perguntas, os olhos atentos presos ao meu rosto. Quando finalmente terminei meu relato, ela suspirou e apenas disse:

-Acho que eu estava certa o tempo todo: temos um anjo entre nós.

Ri de sua ingenuidade, tentando mostrar que, com certeza, haveria uma explicação plausível para tudo aquilo. Quem sabe, Renan tivesse reposto os alimentos? Quem sabe, Genaro se enganara quanto ao estado da mina? Ou eu apenas sonhara aquilo tudo, pois andava muito perturbada de preocupação com meus filhos?

Dora passou a mão pela testa, enxugando o suor, e disse:

-Bem, só há uma maneira de sabermos: vamos perguntar a eles.

E foi o que fizemos. Subimos as escadas carregando os enlatados que precisávamos, e fomos procurar nossos maridos. Nós os encontramos lá fora, cuidando da horta, felizes pelo progresso impressionante que tinham obtido em apenas alguns dias. Renan mostrou-me os tomates quase maduros, e Genaro acariciou as folhas do alface já crescido, dizendo que  comeríamos salada no almoço bem antes do que ele pensara.

Eu e Dora nos entreolhamos, e não dissemos nada. Eles notaram nossa preocupação, e Renan perguntou-nos o que estava acontecendo. Dora contou sua parte da história, sobre os enlatados, e no final perguntou se algum deles tinha reposto a comida, mas eles negaram com a cabeça. Comecei minha história fantástica sobre a noite no reservatório, e foi a vez de ambos se entreolharem. Genaro baixou a cabeça, tirando o chapéu, e colocando-o de volta nervosamente:

-Bem, Dona Elisabeth, eu já sabia sobre o reservatório, quero dizer, eu e 'seu' Renan já sabíamos. Mas eu não sei como isso pode acontecer, pois se eu levar a senhora lá na mina agora mesmo, a senhora vai ver com os próprios olhos que ela secou!

Perguntei:

-Mas por que vocês não nos disseram nada?

Renan respondeu:

-Não queríamos preocupá-las. 

Dora olhou-os com ar de censura:

-E quanto tempo vocês dois acharam que iam manter segredo de uma coisa dessas, hein?

Renan riu, e disse:

-Vocês estão certas. Sabe, eu também notei que Sara é uma menina diferente, e por mais maluca que seja a ideia, também acho que ela pode ter alguma coisa a ver com tudo isso...

Eu disse que queria ir até a mina, e eles disseram que o dia estava quente demais, mas eu e Dora fizemos pé firme, e os dois nos levaram até lá. Éramos seguidos pelas crianças, que brincavam de apostar corrida. Sempre achei incrível a maneira como elas pareciam nem se importar com o calor. Algumas vezes, deparei com Sara nos olhando, muito séria, mas assim que meu olhar cruzava com o dela, ela voltava a brincar como se fosse uma criança comum. 

Ao chegarmos, tudo o que encontramos foi o que Renan e Genaro disse que encontraríamos: muito capim seco, algumas árvores mais teimosas que cismavam em sobreviver e o local onde antes houvera uma mina, totalmente seco, sem nem sinal de água.

Pedrinho e Luisinho nem se davam conta do que estava acontecendo ali, mas Sara sorriu para nós com seu olhar inteligente e misterioso.

(continua...)



2 comentários:

  1. Ana, acredito em anjos...
    Temos muitos anjos entre nós...
    Vamos aguardar o próximo episódio, estou curiosa...
    Obrigada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Ana, boa noite!

    Que saudade estava eu em ler-te, minha amiga, e que coisa boa eu ter passado por aqui.
    Comecei a rolar a página e me deparei com esse título muito sugestivo e daí... Ah, e daí não deu outra, fui ao capítulo I e cá estou, boquiaberta com mais um conto fantástico , com aquelas pitadas do sobrenatural mágico que você conta como ninguém.

    Aprecio sua escrita direta nessa toada POP que me encanta.

    Ansiosa para continuar a leitura.

    bacios

    Lu C.

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