terça-feira, 8 de setembro de 2015

O DIÁRIO DO FIM - PARTE VI





Foi num segunda-feira de manhã que eles chegaram. Escutei o barulho de passos na rua em frente a casa, e logo, batidas no portão de madeira. É claro, logo pensei que fossem nossos filhos. Renan acordou em um sobressalto, e quando chegamos à porta da casa, Genaro e Dora já esperavam por nós, ambos parecendo muito preocupados. Genaro segurava um pedaço de madeira na mão, como se fosse uma arma, e vi que Renan pegara o atiçador da lareira e o segurava da mesma forma. Meu coração se apertou. As crianças ainda dormiam. Nós olhamos uns para os outros sem saber o que fazer, pois temíamos que fossem saqueadores ou assassinos. O bairro estava vazio, a água, cada vez mais escassa. Quando havia luz, víamos pela TV as invasões e quebra-quebras que frequentemente aconteciam nas cidades. 

Renan e Genaro fizeram sinal para que eu e Dora entrássemos em casa, mas permanecemos à porta, e os dois, vagarosamente, dirigiram-se ao portão. Renan abriu bem devagar a janelinha, e espiou pela greta. Ouvimos uma voz fraca que vinha do outro lado, mas não consegui, de onde estava, distinguir o que dizia, ou se pertencia a uma mulher ou criança. Genaro, que subira no muro, olhou para fora e fez sinal para que Renan abrisse o portão, já descendo do muro e largando sua arma. Bubo começou a latir desesperadamente, e fiz sinal para que ele se calasse, mas de nada adiantou. Ele correu até o portão e começou a rodear os rcém-chegados. Parecia dar-lhes as boas vindas. 

Naquele minuto, as crianças apareceram, sonolentas. 

Eu e Dora fomos ajudar a recepcionar as pessoas que se aproximavam, caminhando com dificuldade. Tratava-se de um jovem casal, ambos aparentando estar na casa dos trinta, e uma criança que logo distingui como sendo uma menina de oito ou nove anos, de cabelos muito curtos. Todos estavam magros, empoeirados e tinham os olhos fundos. A moça apresentou-se, dizendo chamar-se Joana, e apontando para o rapaz que identificou como seu marido Antônio e para a criança, que disse chamar-se Andrea, caiu de fraqueza. Nós a ergguemos e levamos todos até a cozinha, onde rapidamente preparamos refeições quentes para todos e lhes servimos água. Ficamos esperando que terminassem de comer, sem fazer qualquer pergunta, pois notamos que não teriam forças para responder. Quando terminaram, o rapaz falou:

-Viemos caminhando até aqui, a procura de água ou de alguma alma caridosa. Estamos caminhando há quase uma semana. Nossa casa foi invadida, e fomos expulsos. Por sorte, ficamos vivos, mas meu irmão...

A voz dele morreu, e todos compreendemos.

Renan perguntou:

-De onde vocês vem? 

Joana respondeu desta vez:

 -Morávamos do outro lado da cidade.

Dora quis saber:

-E como está a cidade? Há dias não saímos.

Ela tomou um gole d'água antes de continuar:

-Um caos total! As lojas foram invadidas e saqueadas. A polícia não atende mais aos chamados, apenas aconselha que todos fiquemos em nossas casas, o que estávamos fazendo, até que houve a invasão.

Vi uma onda de terror passar pelos olhos dela, e decidi interromper a conversa:

-Vocês devem estar muito cansados. Vão tomar um banho e arrumarei o quarto do meu filho para vocês. 

Dias depois, chegou um casal de idosos, Petra e Moacyr, e nós os recebemos da mesma forma. Quando entraram, a mulher abriu a bolsa e vimos a cabeça peluda de um gato aparecer. O casal nos olhou, pensando que os censuraríamos, mas as crianças imediatamente se encantaram pelo bichano, levando-o para o jardim para alimentá-lo. Nós os instalamos na casa de caseiro, com Genaro e sua família, colocando Pedrinho e Luisinho para dormir no mesmo quarto.

Durante todo aquele tempo, as latas de comida continuaram se multiplicando inexplicavelmente, e a água não parava de jorrar na cisterna. A horta parecia não parar de produzir, e aos poucos, vimos nosso jardim começando a florescer e tornar-se cada vez mais verde. Quando eu perguntava a Sara o que estava acontecendo, ela apenas sorria e dizia que não sabia. Mas nós sabíamos que ela tinha alguma coisa a ver com tudo aquilo. Eu a via caminhar sozinha pelo jardim, afastada das outras crianças que brincavam, e ela estendia a mão sobre o solo, murmurando palavras que eu não conseguia ouvir. Ela fazia isso várias vezes ao dia. Pouco depois, víamos brotinhos verdes saindo da terra seca, e eles vingavam! 

As pessoas não paravam de chegar. Vinham sempre em grupos pequenos. Chegavam cansados, e parecia que eram guiados até o nosso portão por alguma força desconhecida. Transformamos a sala de estar em dormitório, e também disponibilizamos o escritório de Renan, que ficava em uma pequena casa a alguns metros da casa principal. Alguns trouxeram tendas e sacos de dormir, e se instalaram no jardim da casa ou na varanda. 

Através dos que chegavam, ficamos sabendo que a situação lá fora era realmente caótica. Muitas casas tinham sido saqueadas, e as pessoas eram mortas como se fossem moscas por causa de uma simples lata de comida ou por um gole de água. A civilização estava voltando à barbárie, e nem fazia tanto tempo assim que a crise havia começado. A maior parte das empresas tinha falido, pois não podiam operar sem água, e além disso, havia a crise financeira mundial, mas apesar de tudo, minha maior preocupação eram os meus filhos. Porém,  nos piores momentos, Sara me assegurava que eles estavam bem, e eu sentia o mesmo alívio de sempre. 

Um dia, segurei-a pela mão. Ela tentou desvencilhar-se e sair correndo e rindo como sempre fazia, mas eu a segurei firme. Ela ficou séria. Olhei nos olhos dela, obrigando-a a sentar-se do meu lado, e disse:

-Sara, eu quero saber o que está acontecendo. Você parece saber de coisas que ninguém mais sabe, e as coisas começaram a mudar desde que você chegou. Quem é você, e de onde vem? 

(continua...)









2 comentários:

  1. Ai ai ai... Começou a magia de Ana Bailune! hehehe
    Sara deve ser alguma princesa do mundo subterrâneo, ou uma sacerdotisa floral... ou algo assim.
    Estou adorando o conto e esperando a continuação.

    bacios

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  2. Fiquei tanto tempo sem vir aqui que quase perco a novela.
    Muito obrigado pela sua visita. Foi muito bom receber o seu carinho depois de tanto tempo ausente.

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