terça-feira, 15 de setembro de 2015

O DIÁRIO DO FIM - PARTE VII






Ela jogou fora uma pedrinha com a qual brincava, e respirou fundo. De repente, senti naquela menininha um adulto que eu não conhecia. Ergui a mão e acariciei uma mecha de cabelo dela, acomodando-a atrás da orelha, como se aquilo pudesse trazer de volta a criança que eu acolhera naquele dia quente. Eu disse a ela:

-Eu sei que você sabe de alguma coisa, Sara.

Ela concordou com a cabeça, e olhou em volta, parecendo querer certificar-se de que estávamos sós. Nós estávamos sentadas em uma pedra, a alguma distância da casa, e podíamos ver as crianças brincando no quintal, aproveitando os balanços e os brinquedos improvisados feitos pelos adultos. A tarde estava quente, mas o sol se escondera atrás de nuvens pesadas que cismavam em não se transformar em chuva, e que desapareciam à noite como num passe de mágica, dando lugar a céus estrelados e límpidos. Meu marido e Genaro conversavam, apontando para a horta de legumes. Algumas mulheres passeavam, enquanto os homens faziam pequenos consertos aqui e ali ou trabalhavam na horta. Tínhamos ali uma pequena comunidade: éramos trinta e cinco pessoas.

A paisagem árida dera lugar a canteiros, jardins e muito verde em apenas três meses. Cães, gatos, cavalos e outros animais  desfrutavam daquele espaço e eram cuidados por todos. Todos trabalhavam e cumpriam suas obrigações sem que houvesse qualquer tipo de desentendimento.

Finalmente, Sara quebrou o silêncio:

-Quando você me encontrou, eu não me lmebrava. Estava sozinha, e sentia muita fome, sede e medo. Tinha tentado pedir aljuda a algumas pessoas, mas ou elas me ignoravam ou reagiam de maneira hostil, me mandando embora. Eu não sabia de onde tinha vindo, ou como tinha ido parar ali. Não sabia de nada de mim. O nome que dei a você foi o primeiro que me ocorreu, e eu nem sabia o motivo. Acho que fiquei com medo que você não me acolhesse se eu dissesse que eu não sabia quem eu era. Fui me lembrando aos poucos.

Segurei-a pela mão:

-Eu a acolheria de qualquer jeito, querida. Mas quem é você?

Ela sorriu e respondeu, mas ignorou a segunda parte de minha pergunta. 

-Olhe só para todas aquelas pessoas! Elas não estão aqui por acaso. 

Ela apertou minha mão com força, olhando-me bem dentro dos olhos, e murmurou: "Deixe ir."

Eu tentei falar, mas não consegui. Eu não podia mover-me, ou desviar os olhos dela. Ela foi ficando pequena, como se eu me afastasse dela e de tudo, e seu corpo foi sendo emoldurado aos poucos por uma névoa branca, até que ela desapareceui dentro daquela névoa. Ela não disse mais nada, mas eu ouvi; ou melhor, eu compreendi

Havia mais crianças como ela espalhadas pelo mundo todo. Elas estavam perdidas, e pediam ajuda a quem quisesse recolhê-las e dar-lhes amor. Muitos sucumbiram e continuariam sucumbindo, mas era preciso que pelo menos quinhentas delas pudessem receber ajuda e sobrevivessem. As que morriam simplesmente desapareciam, retornando ao lugar de onde tinham vindo, purificadas por seu sofrimento abnegado, e mesmo que sua tentativa tivesse falhado, delas nada seria cobrado. As nuvens no céu esperavam. 

Os lugares que as acolhiam começavam a prosperar. A água voltava milagrosamente. a comida jamais terminava, e tudo prosperava. Nossa casa e as casas que recolhiam tais crianças pareciam  oásis no meio dos mais terríveis desertos, e todos que chegassem saberiam que lhes fora dada uma nova chance.  E chegar até um destes lugares, não era mero acaso. Aquelas pessoas eram guiadas. 

Porém, dependia das crianças e da acolhida que recebiam, se o mundo receberia uma outra chance ou se nossos dias terminariam neste planeta. Eu quis saber se ainda faltavam muitas crianças para que o número chegasse aos quinhentos, mas Sara trouxe-me de volta naquele momento, e eu não fiquei sabendo da resposta. Mas ela disse que os acampamentos do futuro - era assim que elas o chamavam - seriam sempre protegidos, e nenhuma pessoa mal-intencionada conseguiria chegar até eles. O planeta estava passando por uma purificação, e somente aqueles que mereciam permaneceriam nele, mas apenas se quinhentas crianças fossem acolhidas. 

Tentei erguer-me. Eu me sentia um pouco tonta e enjoada, e apoiei-me na pedra, sentando-me novamente. Sara colocou uma mão sobre a minha testa, e os sintomas ruins desapareceram. Apesar de estar diante de alguma coisa muito grande, maior que eu mesma e meus interesses pessoais, eu não conseguia deixar de pensar em meus filhos. Não querendo parecer egoísta, guardei meus pensamentos para mim mesma. Mas Sara pareceu conseguir lê-los:

-O que acontecer a eles, acontecerá a todos. Seja lá o que aconteça, nada há para ser temido. Mas por agora,  eles estão protegidos. Estão em um abrigo semelhante a este. Você não tem nada com o que preocupar-se, Elisabeth. E você não deve comentar nada do que conversamos com as outras pessoas. Elas saberão, quando a hora chegar.

Dizendo aquilo, Sara sorriu e afastou-se, e eu fiquei ali, pensando por que eu tinha sido presenteada com a revelação daquele segredo. Eu não passava de uma mulher de meia-idade, uma escritora que, há sete anos, publicara um único livro que obtivera alguma notoriedade e depois fora esquecido, e que há algum tempo tornou-se apenas apenas mãe, esposa e dona-de-casa. Uma pessoa comum, sem grandes habilidades, que só desejava ver os filhos criados e encaminhados na vida. Só ali, naquele grupo pequeno de pessoas que integravam nossa comunidade havia, entre outros profissionais,  dois cientistas, um biólogo, alguns professores, um engenheiro civil, um agrônomo, seis construtores, um eletricista, dois jardineiros,  ou seja, pessoas que teriam muito mais habilidades do que eu para reconstruir o mundo, se fosse preciso. Por que Sara me escolhera? Logo eu, uma simples dona de casa que nem concluíra a faculdade?

De repente, meu coração deu um pulo: eu me esquecera de perguntar o que aconteceria com as outras crianças, quando tudo terminasse. 

Eu me esquecera de perguntar o que aconteceria a ela.

(continua...)




2 comentários:

  1. Lendo, sentindo a energia, vendo as imagens e esperando a continuação

    Bacios

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  2. Será que nós teremos alguma chance?
    Aguardando pelo próximo capítulo!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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