segunda-feira, 4 de abril de 2016

O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XXI











O ANJO NO PORÃO - CAPÍTULO XXI






Eu fui uma linda jovem, cheia de sonhos, crente na bondade das pessoas. Pertenci a uma rica família, e tive duas irmãs que hoje estão bem casadas, e cujos maridos tem posições de muita importância na sociedade petropolitana. Elas nunca me procuraram – não sei se por não saberem onde me encontro... mas de qualquer forma, não o fizeram enquanto sabiam onde eu estava. Não conseguiriam conviver com o escândalo de uma irmã solteira e grávida. Meus pais não desejavam manchar a honra da família, e quando souberam da verdade, fui expulsa de casa, exatamente como aconteceu à sua mãe. 

Enamorei-me de um homem sem escrúpulos. Tão bonito e charmoso, que eu, inexperiente, não enxerguei a sua maldade, e embora meus pais tivessem me proibido de vê-lo, continuei a vê-lo escondido. Levava-lhe dinheiro, que ele me pedia alegando não ter como pagar o aluguel. Roubava das economias que minha mãe mantinha em uma caixa de madeira, no armário, até que ela descobriu que o dinheiro estava desaparecendo, e chamou a mim e às minhas irmãs para pedir satisfações. Foi aí que Cecília, minha irmã mais velha, a quem eu havia confiado meu segredo, contou tudo à nossa mãe, traindo minha confiança. Naquela época, eu não percebi que ela o fazia para o meu próprio bem, e deixei de falar com ela depois daquilo. Ela revelou que eu ainda me encontrava com o tal homem – chamava-se Fernando – e que provavelmente, eu estava levando-lhe o dinheiro, e após uma surra, confessei tudo. Meus pais exigiram que eu parasse de vê-lo, e eu finalmente, os obedeci. Mas o mal já estava feito, eu estava grávida e não sabia ainda. Descobri alguns meses depois, quando deixei de menstruar e a barriga começou a crescer. Eu era bem magrinha, e consegui esconder até o último momento.

Minhas duas irmãs mais velhas, Cecília e Judith, estavam de casamento marcado com dois irmãos, que pertenciam à uma família dos mais importantes negociantes de Petrópolis. Eu não podia propagar um escândalo que pudesse prejudica-las! 

Mas alguns dias antes do parto, mamãe descobriu tudo, e desesperou-se. Ela tinha ido até meu quarto enquanto eu dormia, já desconfiada, e ergueu os lençóis. Despertei com ela boquiaberta, olhando para a minha barriga.  Chorou muito. Papai acordou, atraído pelo choro escandaloso de mamãe. Logo, estavam todos em meu quarto. Minhas irmãs andavam de um lado ao outro, pensando no que representaria para elas aquele escândalo. Nenhuma delas preocupou-se comigo, ou com meu bebê. 

Na manhã seguinte, meu pai levou-me a uma casa que recebia mulheres na mesma situação que eu, e que após o parto, doavam suas crianças para adoção. Disseram a todos que eu estava viajando pela Europa a fim de comprar vestidos para o casamento de minhas irmãs... deixaram-me lá, e a administradora incumbiu-se de encontrar pais para meu filho. Mas eu não queria doá-lo! Ele era o meu filho, o meu bebê. Jamais pensaria em ficar longe dele. Então eu fugi durante a noite, pulei a janela e comecei a caminhar sem direção. Cheguei até as portas desta escola de manhã, e fiquei ali, observando o movimento. Olhava as meninas brincando, e nem percebia que alguém estava me observando também, e que adivinhava a minha história. A manhã avançava, e eu não conseguia arredar pé dali. Estava faminta e cansada. 

Foi quando os portões se abriram, e a Madre Superiora me acolheu, levando-me para dentro. Contei a ela a minha história, e apesar de aparentar ser uma mulher seca e dura, ela teve piedade de mim naquele momento. Alimentou-me, banhou-me e ofereceu-me esperanças. Escondeu-me no porão da escola, aonde duas semanas depois, dei à luz ao meu filho. Ela ajudou-me no parto. Ela conseguiu roupinhas para o meu bebê, pois eu não tinha nada. Eram roupinhas bonitas e antigas, mas serviram muito bem. Mas ela me advertiu que eu deveria dar a criança para adoção, pois seria melhor para todos. Neguei, pedi-lhe que, pelo amor de Deus, tivesse piedade de nós. E ela mais uma vez, me ajudou, mas pediu-me que prometesse que ninguém saberia da existência do menino, e que eu deveria me ordenar freira e cuidar dele às escondidas. Foi o que eu fiz. Meu filho Ricardo cresceu no porão desta escola, com muitas dificuldades, mas foi educado, muito bem educado. Consegui para ele os melhores livros, e ministrei-lhe aulas (durante a minha estadia aqui como noviça, formei-me professora). Ele só saía à noite, a fim de tomar ar puro, e durante os finais de semana, quando a maioria das meninas ia para casa. Tive uma amiga que o recebia em sua casa em alguns finais de semana, dizendo à sua família que ele era um órfão. Meu filho conseguiu crescer, embora com alguns problemas respiratórios... sofreu de asma na infância, mas felizmente, descobriu um médico que praticamente o curou.

Regiane parecia aliviada: agora que a história de Ricardo havia sido contada, o mistério desaparecera, e ele tomara diante dos olhos dela uma forma mais humana, mais concreta. Não parecia mais uma imagem que desapareceria a qualquer momento. Ela sorriu:

-Eu o conheço, Irmã. Lembra-se daquele dia em que as meninas me trancaram no porão? Foi quando o conheci.

Irmã Dulce pareceu confusa por algum tempo:

-Como? Quero dizer, ele está longe, agora, não vem a Petrópolis há vários anos...

O sorriso no rosto de Regiane desapareceu. Como poderia ser? Então a freira não sabia que seu filho ainda morava naquele porão?

-Mas... eu o vi, estive com ele, tenho estado com ele desde que vim para esta escola, Irmã! Ele sempre me ajudou com minhas lições de casa, sempre me aconselhou, ele foi... ele é o meu maior amigo, a pessoa que eu mais amo nesse mundo! 

Irmã Dulce negou com  a cabeça:

-O que  você está dizendo é impossível, Regiane. Meu filho foi estudar em Florianópolis. Meus pais finalmente aceitaram ajuda-lo, e pagaram por seus estudos e por um apartamento onde ele hoje mora com sua esposa e filho. 

O mundo começou a girar em volta de Regiane:

-Como.. como ele é? Quantos anos ele tem, Irmã?

-Bem, meu filho Ricardo tem hoje trinta e dois anos de idade... é moreno, tem cabelos negros, olhos pretos...

Imediatamente, Regiane percebeu que não falavam da mesma pessoa. E quem seria aquele rapaz com quem ela crescera e a quem aprendera a amar, e que vivia no porão onde se encontravam há anos? A mesma pergunta ocorreu à freira:

-Regiane.. este rapaz que você vê no porão... pode descrevê-lo para mim?

A menina estava pálida, o rosto lívido, o olhar confuso. Irmã Dulce segurou suas mãos e notou o quanto estavam frias. Regiane engoliu em seco, e começou a descrever Ricardo:

-O Ricardo que eu conheço tem vinte e seis anos, mas aparenta ser um adolescente, pois é franzino, tem a pele muito clara, olhos azuis, cabelos loiros... é uma pessoa doce... adora ler... e adora contar histórias... é discreto e às vezes eu penso que ele tem pavor de sair daquele porão. Ele me diz sempre que, se algum dia alguém o descobrir ali, ele será expulso, terá que partir para sempre...

Regiane notou que a freira estava muito pálida, e que suas mãos também tinham se tornado muito frias. As duas se entreolhavam, e Regiane não compreendia mais nada, e Irmã Dulce parecia compreender menos ainda. O silêncio entre elas foi cortado por batidas à porta: eram as outras meninas que desejavam entrar no dormitório. 

Irmã Dulce, despertando de seu transe, levantou-se, abrindo a porta, e imediatamente o quarto foi sendo preenchido pelas conversas e risadas das alunas. Regiane permaneceu sentada na cama, alheia ao movimento em volta dela. A freira voltou, e pegando-a pela mão, levou-a para fora. A noite começava a manifestar-se, e a primeira estrela despontara no céu. Regiane a viu, enquanto a freira a puxava pela mãe, cruzando a varanda da escola, conduzindo-a até o porão. Regiane foi tomada de pânico, pois não queria que Ricardo fosse surpreendido por elas daquela maneira. Ao mesmo tempo, ela não tinha forças para impedir Irmã Dulce. 

Elas chegaram em frente ao porão e a freira perguntou-lhe, estancando o passo:

-Você me disse que o rapaz que mora aqui chama-se Ricardo?

Regiane concordou com a cabeça.

-Bem, houve um outro Ricardo que morou aqui há muito tempo, com a mesma descrição que você me deu. Eu não o conheci, porém... mas dei ao meu filho o seu nome, em sua homenagem.

Regiane estava tonta, e seu coração pulava de medo. Sua pele arrepiou-se;

-Por que, irmã? Por que batizou seu filho com o nome dele? E como poderia tê-lo feito, se o meu Ricardo – digo, o Ricardo que eu conheço – é tão mais jovem que seu filho?

A freira começou a pensar no absurdo daquela história. Pediu a Regiane que esperasse por ela no porão, e voltou até o prédio da escola. Regiane entrou, mas Ricardo não estava mais por ali. Ela concluiu que se tratava de mais um de seus sumiços misteriosos, mas apesar de sentir-se tão confusa e apreensiva, ficou feliz que aquela história estivesse chegando ao final. Logo, ela deixaria a escola, e queria ter certeza de que poderia continuar a ver seu namorado... pela primeira vez, conseguira pensar em Ricardo como seu namorado, e aquele pensamento aqueceu-a por dentro, deixando-a bem mais tranquila. Deitou-se na cama, pegando um dos livros de Ricardo. Olhou a capa, e constatou que ela não se lembrava daquele. Quando o abriu, uma fotografia caiu de dentro dele sobre a colcha. Ela a pegou, olhando-a e reconhecendo nela o amor de sua vida. Levou-a junto ao coração, fechando os olhos. Ela nunca tinha visto uma fotografia dele antes, em todos aqueles anos. Olhou novamente para a capa do livro, lendo o título: “Sonhos de Uma Noite de Verão,” de William Shakespeare. Ela pensou que adoraria ler aquela história junto com ele. Fantasiou que o fariam em uma noite de verão, após casados e vivendo em sua própria casa.


 .      .       .       .      .      .

Na escola, a Madre Superiora encerrava seu dia de trabalho, fechando a pasta com os últimos relatórios sobre a escola. O dia tinha sido cheio. O ano letivo estava terminando, e algumas meninas deixariam a escola, e outras chegariam. O número de matrículas das alunas pagas aumentara, o que era muito positivo, e que significava as crianças não pagantes poderiam desfrutar de mais conforto, pois durante as férias, ela mandaria construir um playground para elas exatamente igual ao que havia do lado da escola ocupado pelas alunas pagantes.

Ela retirou os óculos, pousando-os sobre a mesa, e já estava pronta para dirigir-se ao refeitório para o jantar, quando escutou batidas à porta. Ergueu a voz, sentando-se novamente, dizendo à pessoa que entrasse. Irmã Dulce entrou, fechando a porta, o rosto muito pálido e o semblante preocupado. Irmã Malvina temeu que algo tivesse acontecido a alguma das crianças:

-Sente-se, Irmã. O que deseja? Já estava me retirando. Aconteceu alguma coisa?

Irmã Dulce a encarava, incapaz de abrir a boca, pois não sabia como começar a perguntar-lhe o que tinha que perguntar. Irmã Malvina começou a pensar que algo muito grave acontecera, e perdeu a pouca paciência:

-Fale logo! Você sabe que eu detesto suspense.

Irmã Dulce pigarreou, mas mesmo assim, sua voz estava tremida:

-Irmã... quando vim parar aqui nesta escola com um filho na barriga, a senhora me acolheu, cuidou de mim e permitiu que eu cuidasse de meu filho. E também me contou uma história. Uma história da qual nunca mais falamos.

A Madre Superiora recostou-se na cadeira, sentindo-se desconfortável. Por que ela queria falar daquele assunto tão difícil e doloroso, logo agora? Permaneceu em silêncio, e deixou que Irmã Dulce se explicasse. 

-A senhora me disse que quando chegou aqui, também estava grávida de um menino. Me contou que seu nome era Ricardo. Descreveu-o para mim e até mostrou-me uma foto, de um rapaz loiro de olhos azuis, muito pálido, que adorava ler, era inteligente mas que sofria de pânico... não conseguia sair do porão, pois fora criado ali, em segredo... em homenagem a este menino que a senhora teve, eu dei ao meu filho o mesmo nome...

Irmã Malvina começava a perder novamente  a paciência:

-Você não precisa recontar a história de minha vida, Irmã. Eu a conheço muito bem, e não gosto de conversar sobre ela... tudo isso foi há muitos anos, e se lhe contei, foi em um momento de fraqueza e nostalgia. Isso não lhe dá o direito de...

Irmã Dulce a interrompeu:

-A senhora também me disse que este menino cresceu, mas que adoeceu, e após um ano de doença, 
morreu aos dezesseis anos. 

Irmã Malvina levantou-se, não podendo suportar mais a pressão das próprias lágrimas. Caminhou até a janela, ficando de costas para Irmã Dulce.

-O que você quer, ao tocar neste assunto? Por que me tortura?

-Não desejo tortura-la, Irmã, mas preciso saber da verdade: ele morreu, realmente?

Irmã Malvina virou-se para ela, e o que Irmã Dulce viu, foi um rosto banhado em lágrimas que ela lamentou ter provocado. 

-Sim, ele morreu... eu cuidei dele com todo desvelo, apenas para vê-lo morrer de tuberculose naquele porão... e carrego esta culpa até hoje, e a carregarei pelo resto da minha vida, pois não fui como você... não tive a coragem de manda-lo para longe daqui, para que fosse criado e educado longe de meus olhos, ou de dá-lo à adoção... não tive a sorte que você teve, e agora vem remexer meu passado e acusar-me?

Irmã Malvina lembrou-se de quando Irmã Dulce chegara àquela escola, e de quando a ajudou no parto. Ao olhar para o rosto do bebê recém-nascido da outra mulher, lembrara-se do seu próprio filho, e sentira inveja por não tê-lo mais. Fizera tudo o que podia para tentar convencer a mulher a doar seu filho, apenas para que não precisasse conviver com ele todos os dias, mas a outra negara-se. Então, para não ter que ver a criança crescer correndo pelo pátio da escola, Irmã Malvina confinara a convivência de ambos ao porão. Impôs a condição de que a outra se tornasse freira e jamais revelasse a existência do menino. Odiou, quando ela lhe disse que o chamaria de Ricardo, mas tentou ser forte e aceitar a homenagem. Ela poderia suportar, desde que não precisasse vê-lo jamais, ou escutar-lhe o choro.

Irmã Dulce aproximou-se dela, mas sem atrever-se a tocá-la:

-Irmã, eu jamais a acusaria de nada! A senhora me ajudou em meu pior momento, e eu jamais sentiria qualquer coisa pela senhora que não fosse carinho e gratidão. Mas algo está acontecendo, e eu precisava confirmar essa história. Uma das alunas... Regiane... jura ter estado com ele naquele porão. Ela contou-me que os dois se veem desde que ela começou estudar aqui nesta escola, há dez anos!

Irmã Malvina quase perdeu o equilíbrio; sentou-se em um sofá que estava localizado junto à janela, as mãos na cabeça:

-Por que me tortura com essas mentiras? Meu filho está morto e enterrado! Eu mesma mostrei a você onde ele está!

Irmã Dulce ajoelhou-se perto dela, a fim de ver seu rosto, e falou pausadamente:

-Irmã... ele não está morto. Regiane fala com ele. Eles se encontram há anos naquele porão. Ela está lá agora. Com ele. 

-Deve ser algum vagabundo com o mesmo nome, que se infiltrou nesta escola e que aquela menina protege, achando ser outra pessoa.

-A descrição que ela me fez dele... é a mesma de seu filho.

-Você sabe tanto quanto eu que isso não pode ser verdade. Vamos lá agora mesmo.

Irmã Malvina recuperou as forças e a dureza de sua expressão, e seguida de longe por Irmã Dulce, pisava duro nas tábuas corridas, dirigindo-se rapidamente ao porão, disposta a desmascarar o impostor e expulsá-lo para sempre.




(Continua...)






3 comentários:

  1. Ana, estou amando cada vez mais esta História...
    Quantos segredos enterramos, quantas vidas ceifamos, por medo de encarar nossos monstros...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Really intriguing...oh I am so enjoying this!
    It is fabulous.:))

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  3. Caramba, que reviravolta!
    Me emocionei com a história da Irmã Dulce, de Malvina tbm, mas, já estava impactada pela anterior...
    Um capítulo forte, surpreendente, parabéns Ana!

    Boa noite...

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