sexta-feira, 1 de abril de 2016

O ANJO NO PORÃO - capítulo XX










O ANJO NO PORÃO – CAPÍTULO XX




Regiane estava arrumando alguns de seus vestidos no armário que sua Tia Rosa lhe cedera. O final do ano escolar estava próximo, e ela já começara a fazer a sua mudança. Pensava em Ricardo, e no quanto sentiria saudades dele, e também no fato de não ter conseguido descobrir nada sobre ele, como por exemplo, quem era sua mãe verdadeira. Tinham combinado de se encontrar fora dali, mas alguma coisa dizia a ela que ele não cumpriria sua promessa. Não que ele não o quisesse, mas havia algo que o impedia. E ela precisava descobrir o que era, antes que ele desaparecesse para sempre de sua vida.

Rosa chegou sem ser notada, e ficou a observar Regiane arrumar o armário. Não pode deixar de perceber que a sobrinha estava preocupada, e não parecia feliz. Rosa estava encostada no portal, braços cruzados, olhando para Regiane, quando esta finalmente notou sua presença:

-Ah... olá, tia. 

-Você não está feliz, está?

-Não vou mentir. Não me sinto feliz. Sei que a senhora preferiria morar sozinha aqui, e eu também preferiria estar vivendo lá no alto, no chalé, mas sei que isso jamais vai acontecer. Tia Fiorela nunca permitiria. 

-Não tem cabimento, Regiane. Ela está certa, você é muito nova para viver sozinha. Ainda mais naquele casebre cercado de árvores no alto da colina, longe de nós, longe de tudo.

Regiane sentiu o quanto a descrição que a tia fizera do casebre soara, aos seus ouvidos, como a descrição do paraíso: “Entre as árvores... no alto da colina... longe de tudo e de todos...” sempre havia morado junto com muitas pessoas – da maioria delas, não gostara, e algumas a trataram muito mal. Seu maior sonho era ter sua própria casa, seu lar. Um lugar qualquer onde ela se sentisse a dona, e pudesse fazer o que quisesse à hora que desejasse. Um lugar onde não se sentisse sempre tão deslocada. Quase sem perceber, deu voz aos seus pensamentos:

-Meu maior sonho é ter minha própria casa.

Tia Rosa a compreendeu, pois também não se sentia bem vivendo de favor na casa da irmã:

-Entendo... mas você um dia poderá casar-se, e ter sua própria casa, enquanto eu...

Ela não terminou a frase; pigarreou ao notar que dissera mais do que pretendia. Regiane foi até ela, segurando sua mão:

-Tia, a senhora ainda é jovem e bonita. Não pensa em casar-se?

-Rosa suspirou tristemente:

-Jamais! O homem que eu amei casou-se com outra.

Regiane nada sabia daquela história, e estava muito interessada em descobrir o passado da tia. Puxou-a para a cama, sentando-se ao lado dela:

-Como assim? Por que, tia?

Rosa baixou os olhos, acariciando a colcha:

-É uma longa história... mas não gostaria de falar sobre ela. É passado, agora, e me machuca muito recordar. Vamos falar de você!

Aproveitando a intimidade daquele momento, quando uma nesga do sol da tarde entrava no quarto através da cortina e ia pousar nos desenhos da colcha de tricô, Regiane hesitou: pensava em contar a tia sobre seu segredo, sobre Ricardo.

-Falar de mim? 

-Sim! O que pretende fazer? Seu pai me disse que não quer se casar.

-Pelo menos não agora! Ainda sou muito nova, tia.

-Ora... sua avó... nossa mãe – casou-se aos quatorze anos de idade…

-Mas isso foi há muito tempo. Não quero me casar agora, a não ser....

-Percebeu que tinha falado demais. A tia insistiu:

-A não ser?...

E de repente, o segredo que a sobrinha guardava pareceu óbvio demais à Rosa:

-Você está... apaixonada! Mas é lógico, Regiane... como não percebi antes?

Regiane corou até as raízes dos cabelos, e tentou negar, lembrando-se da promessa que fizera a Ricardo de jamais mencioná-lo a outras pessoas. Mas Rosa foi implacável quando a magia do momento foi substituída pelo sentimento de responsabilidade e preocupação de tia:

-Quem é ele, e como o conheceu?

Regiane não respondeu, indo até o armário, começando a dobrar algumas blusas a fim de ficar de costas para a tia. Rosa seguiu-a segurando-a pelos ombros e obrigando-a a ficar de frente para ela:

-Conte-me tudo, Regiane, ou precisarei contar ao seu pai!

A menina arregalou os olhos:

-Por favor, não faça isso, tia Rosa! Eu... por favor, não...

-Então conte-me tudo!

Regiane foi até a porta, fechando-a, e Rosa sentou-se na beirada da cama, esperando. A menina sentou-se na cadeira de balanço, em frente a ela, e contou-lhe a história de Ricardo, as palavras saindo aos poucos, escolhidas com cuidado a fim de não revelarem mais que o necessário. Enquanto ela falava, Rosa via nos olhos dela algo que invejava: o amor. O sentimento de amor, de pertencer a alguém e de ter alguém que a ela pertencia. 

-Tudo começou há muitos anos, quando comecei a estudar no Nossa Senhora da Ajuda. Um dia, as meninas mais velhas trancaram-me em um porão para me colocar medo, e eu fiquei ali, gritando, até que notei que havia uma porta e uma luz que saía pelas frestas... pensei que fosse o jardineiro, que ele dormisse ali, e bati. A porta se abriu, e deparei com um menino mais velho que eu. Começamos a conversar. Ficamos amigos. Ele me ajudou muito com as matérias da escola, e líamos muitas histórias juntos, pois ele tem muitos livros em seu quarto. Eu era só uma criança que precisava de um amigo, alguém que olhasse para mim, conversasse comigo... fosse bom para mim! E ele foi. Ele me ajudou muito, tia Rosa. Ainda me ajuda. Conversou muito comigo quando perdi meus irmãos. Deu-me muitos conselhos quando precisei de uma palavra amiga. Cresci e amadureci aprendendo a admirá-lo e respeitá-lo.

-E ele respeitou você?


Regiane percebeu a verdadeira intenção daquela pergunta e fez a única coisa que poderia ter feito: mentiu.

-Sim! Nós nunca... quero dizer... a senhora sabe.

-E quem é este menino, por que ele estava ali?

Regiane preservou o segredo de Ricardo, mentindo mais uma vez:

-Eu nunca soube, tia... ele disse que as freiras deixavam que ele morasse ali, mas que ninguém poderia saber, ou ele seria expulso e não teria mais onde ficar.

Rosa logo notou que  a  sobrinha mentira, mas que direito tinha ela de questioná-la? Regiane havia crescido longe da família, e sem mãe; vivera em uma casa onde fora maltratada, surrada e castigada ao extremo, e depois, colocada em um colégio interno rígido e antiquado, pois as tias recusaram-se a ficar com ela. Fizeram o que seria mais cômodo para todos, não levando em consideração as necessidades de uma criança. Era natural que a primeira pessoa que lhe dera atenção e carinho, dedicara-lhe tempo e se importara realmente com ela, recebesse algo mais em troca. Temia que Régis descobrisse, e a reação que ele poderia ter quando soubesse daquela história. Seria mais um sofrimento na vida de Regiane. E pensando bem, que moral ele teria para questionar as decisões da filha?

Inesperadamente – Rosa não era de demonstrar afeto – abraçou a sobrinha, que apesar da surpresa daquele gesto, deixou-se ser abraçada, aceitando o ombro acolhedor da tia, o ombro que ela sempre desejara ter, do qual tanto precisara a vida inteira. Em um instante, anos de distância, culpas e ressentimentos apagaram-se. O caminho entre elas se abriu. Nada mais disseram durante bastante tempo. Finalmente, a tia perguntou:

-Você se casaria com ele?

Ela concordou com a cabeça, tristemente.

-E ele se casaria com você, Regiane?

-Não sei, tia... ele é muito misterioso. Acho que ele guarda um segredo. Mas eu respeito o direito dele. Não o cobro de nada. Se um dia ele quisesse se casar comigo, eu seria muito feliz. Mas eu não sei se ele pode... Às vezes, eu acho que ele sofre de alguma doença... é tão pálido... talvez pelo tempo em que vive naquele porão. 

-Eu gostaria de poder falar com ele.

Regiane pulou da cama:

-Não! Ele me fez jurar que jamais falaria sobre a existência dele com ninguém! Por favor, tia, não... dê-nos mais algum tempo! Preciso conquistar a confiança dele, fazê-lo contar-me mais, ou descobrir eu mesma... tenho medo que ele se vá, que eu o espante. A presença dele parece tão frágil... não sei explicar! Por favor, não me arrisque a perde-lo! Ele é a única pessoa que eu sinto que realmente me ama nesse mundo!

Rosa compreendeu o desespero de Regiane, e prometeu guardar silêncio. A sobrinha chorava, aos soluços, e Rosa precisou dar-lhe um copo de água com açúcar para acalmá-la. Depois, prometeu-lhe novamente que respeitaria seu segredo. 

Os dias passavam rapidamente, e Regiane sentia muita ansiedade. Sabia que seus dias na escola estavam terminando. Sentia saudades antecipadas de Ricardo, e passava muito tempo no porão. Ele pedia a ela que tivesse cuidado, pois sabia que ela aparecia em horas nas quais poderia ser vista entrando ali, e ele temia que alguém pudesse segui-la. 

-Ricardo, depois que eu for embora... o que você vai fazer?

Ele ficou mudo. Olhava para o chão.

Ela insistiu:

-Sentirá minha falta? Desejará me ver de novo, fora daqui? É o que você diz, mas não sei porque, não acredito em você. 

Ele a olhou, em silêncio, e ela entendeu: não voltariam a se ver depois que ela fosse embora. Regiane começou a chorar, as lágrimas descendo em silêncio sobre seu rosto. 

-Por que tem que ser assim, Ricardo? Você não me ama, afinal... você me enganou!

-Não! Eu jamais menti para você, Regiane, não lhe fiz qualquer promessa... desde o começo eu lhe disse que a amava, e a amo, mas há coisas que não posso mudar, que não dependem da minha vontade...

-É a sua mãe, não é? Ela é uma freira, e você aparecer para o mundo significa revelar que ela esteve com um homem, teve um filho, e isto arruinaria a reputação dela. Talvez ela fosse expulsa, ou excomungada da igreja... o que você pretende: ficar aqui o resto da sua vida? Nós podemos ir embora para longe daqui, Ricardo.

Ele não respondeu. Parecia totalmente impotente, sem argumentos. Tinha os braços estendidos junto ao corpo, e olhava para o chão. Regiane olhou para ele, irritada pelo seu silêncio:

-Não sei como pude me apaixonar por você. Olhe só para você! É magro e pálido, parece estar doente! E durante estes dez anos em que estivemos aqui, jamais me contou alguma coisa sobre seus planos, seus motivos... nunca me prometeu nada, nunca! Você me deu tanto... e ao mesmo tempo, não me deu nada!

Dizendo aquilo, Regiane abriu a porta do quarto e saiu correndo, para fora daquele lugar escuro e abafado. Ao chegar do lado de fora, sentiu o calor do sol, a sua luz ofuscando seus os olhos já embaçados pelas lágrimas. Encostou-se na parede do porão, tentando se acalmar, mas não conseguia parar de chorar. Principalmente ao realizar que estaria disposta a deixar o mundo de luz do lado de fora daquele porão escuro para sempre, trancando-se dentro dele e jogando a chave fora, se pelo menos ele pedisse aquilo a ela... mas ele não pediria. 

Alguém se aproximava. Ela podia vislumbrar um vulto através das lágrimas. Uma das alunas? Não; uma das freiras. Esfregou os olhos, e viu que tratava-se de Irmã Dulce. Ela tinha o rosto muito preocupado. E Regiane de repente compreendeu tudo: ela era a mãe de Ricardo! Só poderia ser ela, pois naquela escola, era a única que tinha idade para sê-lo. As outras eram ou jovens demais, ou velhas demais. Regiane sentiu um ódio muito forte aflorar em seu coração, algo que ela nunca havia sentido antes, nem mesmo por Celeste, que tanto a maltratara quando criança. Nem mesmo pelas suas inimigas da escola. Quando Irmã Dulce estava nem perto, Regiane estava quase explodindo de raiva. A freira parou diante dela, espantada pela expressão em seu rosto, que ela nunca vira antes:

-O que foi, minha filha? Você está se sentindo mal?

Regiane começou a falar, a voz cortante como aço:

-Sim! Eu me sinto péssima. 

-Por que? O que houve?...

-Porque estou cercada de hipocrisia, Irmã. Porque nasci a filha de uma prostituta que todos condenaram, e no entanto, vim parar neste lugar onde todas as mulheres agem como se fossem santas, mas no fundo, são iguais a minha mãe! Ou pior!

O rosto da freira crispou-se de ódio, e sem pensar, ela desferiu uma bofetada no rosto de Regiane. Surpresa, a menina chorou ainda mais. Irmã Dulce sentia um peso enorme no coração. Será que a menina havia descoberto seu segredo? Tentou acalmar-se:

-Por que está dizendo isso, Regiane? Por que nos ofende, logo nós, que a acolhemos e lhe demos um lar? A ingratidão é um pecado mortal! Você precisa pedir perdão a Deus por...

-Perdão? Pecado mortal? E o que são pecados mortais, Irmã? Por exemplo, colocar um filho no mundo e condená-lo a viver preso em um porão escuro, com medo de escândalos? Isto seria um pecado mortal?

Irmã Dulce fez o sinal da cruz, e de repente, desabou no chão, desmaiando. Quando despertou, estava sozinha. Regiane não estava mais lá. Teria ido buscar ajuda? Não esperou para ver. Levantou-se devagar, esperando que a tontura passasse, e foi caminhando em direção ao prédio da escola. Precisava encontrar a menina.  As alunas da escola a olhavam, calando-se quando ela passava, os rostos preocupados. Alguém perguntou-lhe se ela estava bem, e Irmã Dulce ergueu um braço, pedindo silêncio. Passou. Foi passando pelo corredor, dirigindo-se ao dormitório das meninas. Lá chegando, viu que estava certa: Regiane estava sentada em sua cama, de costas para ela no dormitório vazio. Irmã Dulce entrou e trancou a porta atrás de si, os passos vacilantes ecoando entre as altas paredes do dormitório. Parou diante da menina, que não olhou para ela:

Sua voz estava fraca e hesitante, mas em um tom que seria incontestável. Ela diria toda a verdade. 

-Eu não sei o que a levou a agir daquela maneira comigo, Regiane, mas você está certa: não somos santas nesta escola, somos apenas seres humanos que cometem e cometeram erros. Não sei como você descobriu o meu segredo... não se comentam estas coisas dentro desta escola. Todas as mulheres que aqui chegaram deixaram suas vidas lá fora e tornaram-se outras pessoas, algumas até trocando seus nomes. Umas vieram guiadas pela fé, e outras, pelo desespero. Eu sou uma das que vieram pelo desespero. Talvez, se sua mãe tivesse tido a mesma ideia, ainda estaria viva. Quem sabe, a não ser Deus...

Regiane a ouvia, sem interrompê-la. Sabia que tinha ido longe demais em suas palavras, e que merecera o tapa que levara no rosto. A freira sentou-se ao lado dela na cama:

-Vim parar aqui guiada pelo desespero, mas depois, a fé me guiou, e guia até os dias de hoje. Aprendi a cultivar a fé, a gratidão, o perdão e principalmente, o esquecimento sobre a vida que ficou lá fora. Sem isso, as outras coisas não teriam sido possíveis. Mas vou lembrar de tudo agora, por causa de você, para que conheça as minhas razões, pois não sabe a minha verdadeira história, e não sei o que contaram a você. Talvez, ao ouvir a verdade, você me perdoe. 


(continua...)

5 comentários:

  1. Fico esperando...

    Parece que estava lendo um verdadeiro livro bem romanceado!
    Você tem muito jeito, e bom gosto pela escrita, gosto muito de ler-te amiga Ana!
    bjs de:sempreLuZ.(Luísa Zacarias)

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  2. Aiiii, meus sais, não aguento esperar... rsrsrs
    Quem será Ricardo afinal??? Acho que Irmã Dulce não foi cristã suficiente, porque enclausurou seu filho naquele porão, ao invés de dar-lhe outro rumo.
    Mas é a autora quem manda na história e em seus personagens.
    Estou fascinada por essa novela... Não demore muito a postar outra parte, hehehe!!

    bacios

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  3. I am really hooked...each installment makes the story more and more intriguing!
    Many thanks.:))

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  4. Ahhhhhhhhhhhhh...

    Minha nossa Ana, poderia ter mais algumas linhas... rs...

    Sabe, acho Regiane meio esquentada (não faltam motivos para isso) mas, adoro a coragem dela, é admirável mesmo!

    Bom, só me resta aguardar o desfecho, louca para conhecer a versão da Irmã Dulce, para entender tbm Ricardo.

    Tuas letras continuam desenhando perfeitamente as imagens, transfiro-me naturalmente entre os personagens, como se espiasse de uma janela, rs...

    Meu carinho...

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  5. No aguardo...
    feliz semana, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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