terça-feira, 14 de junho de 2016

A RESENHA DO MAL – CAPÍTULO IX











Na manhã seguinte, a caminho da fazenda, Décio ainda se perguntava se teria sido uma boa ideia levar Brian com ele naquela entrevista. Recomendara que ele mantivesse a boca fechada, fosse educado, não fizesse perguntas e mantivesse uma distância cortês de Sophie, pois ela era avessa a conversas com estranhos. Brian acabou ficando irritado, e eles quase tiveram um desentendimento:

-Confie em mim, Décio. Não estou aqui para atrapalhar nada, e sei me comportar. Não sou mais um menininho idiota de quem você precisa tomar conta.

A manhã estava estranhamente fresca em relação aos outros dias, e um vento cortante soprava sem parar. O céu negro anunciava chuva. Décio parou o carro junto ao casarão, que parecia ainda mais sinistro naquela manhã cinzenta. Ao ouvir o motor, Sophie foi abrir a porta, e seu semblante demonstrou claramente que a presença de Brian não era desejada. Décio tentou contornar o mal-estar, apresentando-o:

-Sophie, este é Brian, meu irmão. Ele... chegou ontem, de repente, e achei que não incomodaria se eu o trouxesse. Mas se você quiser, ele pode ir embora.

Sophie examinou Brian dos pés à cabeça, e o rapaz corou. Ele apertava as mãos nervosamente, os braços estendidos ao longo do corpo. Ela pôde ver a tensão das veias da testa do garoto; reparou nos cabelos presos em um rabo de cavalo baixo, a calça jeans limpa e a camiseta imaculadamente branca. Brian calçava um par de tênis velhos, o único que trouxera consigo. Ela viu também que as roupas pareciam um tanto largas para ele, e que provavelmente pertenciam a Décio. Por um momento, sentiu pena dele, e saindo do caminho, fez sinal para que entrassem. Quando chegaram à sala, ela apontou as escadas para Décio, e disse secamente:

-Ele fica. 

Brian estancou no meio da sala sem saber o que fazer. Ela deu um suspiro de impaciência:

-Se quiser, pode dar uma volta pela fazenda. Tem alguns lugares bonitos. Ou fique por aí.

Dizendo aquilo, ela subiu as escadas com Décio, sem olhar para trás.

Brian ficou olhando em volta, impressionado com a quantidade de coisas velhas e empoeiradas. Achou que o lugar precisava de uma mão feminina, como sua mãe gostava de dizer, e teve certeza de que ela teria torcido o nariz àquele arremedo de decoração demodé, e principalmente, àquelas fotografias antigas e amareladas sobre os móveis. Uma delas – provavelmente, de Sophie, ainda criança, com sua mãe – fascinou-o; apesar da menina ser apenas uma criança, já era tão linda que prendia os olhos de quem a olhasse. Admirou-se da sorte do irmão em estar perto de alguém como ela, embora ela não fosse nada simpática.

Colocou a foto de volta no lugar – tentou encaixá-la exatamente sobre a marca que a poeira deixara em volta dela. Depois, decidiu dar uma volta pela fazenda, como Sophie sugerira. Saiu pensando no porquê daquelas pessoas nunca reformarem ou limparem a casa, se eram tão ricas. Sua mãe teria um chilique se entrasse ali. 

Enquanto isso, Décio parou à porta do quarto de Endora, que cheirava a remédios e limpeza. Parecia ser o único cômodo realmente limpo da casa. O assoalho de madeira brilhava, e os lençóis brancos e caros formavam uma nuvem em volta de Endora, quase tão branca quanto eles. Ela parecia ter envelhecido alguns anos desde o dia anterior. Ela olhou para ele, fazendo sinal para que entrasse e sentasse na poltrona em frente à cama. Para sua decepção, Sophie saiu, fechando a porta. Havia tantas coisas que ele gostaria de perguntar a ela, mas teria que deixar para uma outra hora. 

Olhou para Endora:

-Então, sente-se melhor? Tem certeza de que deseja continuar hoje?

Ela assentiu com a cabeça.

-Sim. Não sei se estarei viva amanhã, meu rapaz. Vamos retomar a história de onde paramos, ou seja, a partir da morte de minha mãe.

Ele preparou o gravador, e ela começou: 

-Depois que enterrei minha mãe, e que Ruy e meu filho desapareceram, eu fiquei realmente muito sozinha. Sentia-me a mais desgraçada das criaturas. Precisava bancar a esposa feliz e obediente para as visitas de Cícero, ou ele me surrava. Aliás, não precisava haver motivos para que ele me batesse; às vezes, ele começava apenas porque estava com vontade. Meus sogros não intervinham; quando viam que as humilhações e surras iam começar, eles se retiravam e iam para seu quarto, fechando a porta. Eu achei que nada poderia piorar, e que meu destino era viver para sempre isolada entre aquelas pessoas que me odiavam, e a quem eu odiava! Até os empregados temiam falar comigo, por medo de irritarem Cícero, ou meus sogros. Eu estava totalmente só, e muito sentida por saudades de meus pais, meu filho e meu amante.

Eu achava que nada poderia ser pior do que aquilo que eu estava vivendo, mas logo descobri que eu estava enganada: Cícero passou a fazer sexo comigo. Não havia amor, ou qualquer tipo de emoção. Era apenas uma maneira a mais que ele encontrou para humilhar-me e me fazer infeliz. Quatro anos após aqueles acontecimentos, descobri-me grávida novamente. Tive que dar a notícia a ele. E Cícero ficou quase contente com a notícia de que em breve seria pai, e desta vez, o filho seria realmente dele, pois não havia a menor possibilidade que não fosse, já que eu era vigiada o tempo todo. Parou de me bater e proibiu que meus sogros tocassem em mim. Não se tornou um homem gentil, mas pelo menos, não era mais violento. Fazia questão de que eu fosse bem alimentada e mandava um médico até a fazenda para me examinar uma vez por semana! Mas eu não tinha permissão para deixar a fazenda, sob hipótese alguma. 

A gravidez foi tranquila... logo dei à luz , ajudada por minha sogra, à menininha mais linda do mundo, a minha Sophie. Apaixonei-me por ela desde o primeiro instante em que a vi. Estava disposta a protegê-la daquela gente nem que para isso eu tivesse que matar! Eles não a tirariam de mim, não fariam com ela o que tinham feito a Ruy, aos meus pais e ao meu filho. Quando Cícero soube que era uma menina, ele não se preocupou em demonstrar a sua decepção! 

Naquele ponto da narrativa, Endora deixou que seu olhar se perdesse em algum lugar inalcançável dentro de suas memórias, fitando as nuvens negras lá fora. Décio ajeitou seu travesseiro, e serviu-lhe um pouco do suco que estava sobre a mesa de cabeceira. Endora prosseguiu:

-Cícero deixou que eu escolhesse o nome dela: Sophie. Não sei bem o motivo, mas sempre achei, desde que a vi pela primeira vez, que ela um dia moraria em Paris o que realmente aconteceu. Meus sogros a ignoravam quando podiam, e quando não podiam, faziam questão de implicar com ela. Nem mesmo o sorriso inocente de uma criança conseguia comover aqueles monstros. Cícero apenas a tolerava, mas quando ela cresceu e passou a correr pela fazenda, independente, acho que ele não gostou; achou que tinha que mostrar que era ele quem mandava em tudo, e que ela era apenas uma das coisas que pertenciam a ele naquele lugar. Minha vida era um inferno, exceto nos momentos em que estávamos sozinhas, brincando em paz no jardim, ou passeando pela fazenda. Naqueles momentos eu era feliz.

Sophie era livre e destemida, e por incrível que pareça, não tinha receio de desobedecer ao pai e aos avós. Fazia o que queria, e mesmo que fosse punida, não baixava a cabeça nunca! Felizmente, Cícero passava muito tempo fora em suas viagens, e quase não tinha tempo de olhar para ela. Mas os avós não perdiam a chance de castigá-la, colocando-a em quartos escuros e até através de punições físicas. Quando descobriram que Sophie tinha medo de baratas, amarraram-na a uma cadeira e colocaram várias sobre ela. Eu ouvi minha filha gritar, e corri até a sala para encontrá-la amarrada, enquanto os dois riam. Ela tinha apenas quatro anos... desamarrei-a, e xinguei os dois de todos os nomes ruins que eu conhecia. Meu sogro veio para cima de mim, ameaçando me bater, mas eu reagi... não sei o que me deu, eu reagi, empurrei-o e ele caiu sentado. Minha sogra me olhou, eu vi os olhos dela queimarem de ódio enquanto ela ajudava meu sogro a levantar-se. Depois daquele tombo, ele passou a sentir muitas dores no quadril e precisou da ajuda de uma bengala para caminhar.

Décio disse:

-E ele bem que mereceu. 

-Mas quando Cícero voltou para casa e ficou sabendo do ocorrido, é claro que ele me bateu... e pela primeira vez, bateu na menina também. Eu virei um monstro! Corri para cima dele, arranhando suas costas, e consegui livrá-la dele. Ele me empurrou, eu caí e quebrei um braço. Mas reagir foi bom... mostrei a ele que eu não era uma inútil e uma fraca. Comecei a tentar elaborar um plano para fugir dali com minha filha... eu catava dinheiro dos bolsos dele e do meu sogro, qualquer moedinha, e juntava em um saco de estopa que eu escondia no celeiro. Apenas Sophie sabia da existência daquele saco. Eu planejava levá-la comigo durante uma das viagens de meu marido. 

Porém, apesar de ele estar quase sempre fora, um dia chegaram à fazenda alguns primos e tios dele...

Ela tossiu, e a crise de tosse fez com que Endora erguesse o corpo em busca de ar, e quando Décio ia levantar-se para ajudá-la, Diana entrou rapidamente no quarto e ministrou-lhe um medicamento injetável, que foi fazendo com que ela se acalmasse aos poucos. Apavorado com aquela cena dantesca, e temendo que tivesse que testemunhar pela primeira vez a morte de alguém, Décio encolheu-se no canto da parede, tentando manter a calma enquanto Diana e Sophie tratavam de Endora. Sophie começou a aplicar compressas na testa da mãe, e colocou-a no oxigênio. 

Finalmente, elas pareceram se lembrar que ele estava ali, e Sophie, olhando rapidamente para ele, anunciou:

-Vocês ficam para o almoço. Mamãe quer assim. Ela quer que você esteja aqui sempre, pois quando sentir-se melhor, não deseja perder tempo. Ela quer contar a história dela para você, e eu não sei porque. Mas se é isso que ela quer...portanto, já preparei dois quartos: um para você e outro para Brian. E não se preocupe: estão ambos limpos. Diana me ajudou. 

Décio gostou da perspectiva de ficar sob o mesmo teto que Sophie, embora isso significasse ter que viver naquela casa sombria e esquisita. Tinha a esperança de que aquela noite em que fizeram amor poderia se repetir, e esta expectativa o deixava aceso. Culpou-se por pensar em sexo em um momento daqueles, mas como fugir de si mesmo?

Pediu licença e foi até a sala, mas encontrou-a vazia. Seu irmão devia ter seguido o conselho de Sophie e ido dar uma volta pelo lugar. Sabia que Brian gostaria da ideia de ficar por ali. foi à procura dele. Lá longe, o calor do dia anunciava chuva para o final da tarde, através de grandes rolos de nuvens cinzentas que se aproximavam no horizonte.

Décio foi caminhando pelo terreno lateral à casa, que nada mais era do que um pedaço de pasto com árvores aqui e ali. Ao final deste, o terreno se afunilava, transformando-se em mata por onde se podia seguir através de uma trilha de terra batida. Ele caminhou por uns dez minutos, e acabou chegando à cabeceira de um largo rio verde-musgoso, as águas tão calmas e paradas que o céu se refletia nelas. E lá ele encontrou seu irmão, sentado sob uma mangueira, comendo uma fruta e observando o rio. Chamou seu nome, e Brian teve um pequeno sobressalto:

-Oi. Venha sentar aqui um pouco. Olhe só como é bonito. Acho que eu poderia viver aqui... isso é, se tiver wi-fi. E algum clube aqui por perto, cinema, um shopping e alguns bons restaurantes... 

-Esqueça, não há nada disso por aqui, Brian. 

Brian coçou a testa:

-Cara, que casa sinistra! E tão empoeirada... olha que eu não sou de reparar nessas coisas.

-Sendo filho de Patrícia, aposto que é sim. É verdade... é uma casa bem estranha. Mas mesmo assim, nós vamos passar a noite aqui. Se não quiser ficar, pode pegar o carro e ir para a casa alugada. Mas vai ter que cozinhar se quiser comer por lá. 

Brian arregalou os olhos, dando uma risada:

-passar a noite aqui? Você só pode estar brincando! Por que?

-Porque Endora está muito doente, e pode morrer a qualquer momento. Se eu quiser minha história, tenho que ficar aqui para que ela a conte quando estiver se sentindo melhor.

-Pôxa... então ela está mal mesmo, hein? Coitada da Sophie. Vai ver que é por isso que ela é tão marrenta. 

Décio não pode deixar de rir, enquanto tomava assento ao lado do irmão. 

-Não, acho que ela nasceu assim. Mulher difícil...

-Diferente das minas que você está acostumado, não é? Como a Rafaela...

-É. Diferente. Mas eu não estou querendo nada sério com ela. Minha vida é longe daqui, e a dela, assim que a mãe morrer, acredito que também será longe daqui. Longe do Brasil. Com certeza, vai voltar para a Europa. 

Brian deu um longo suspiro. Levantou-se, limpando a calça com as mãos. Jogou uma pedrinha no rio, fazendo com que ela ricocheteasse sobre a superfície. Eles ouviram um trovão ao longe. Décio disse:

-Se não for ficar, melhor ir de uma vez, antes que o toró caia. 

Brian olhou para ele, e riu:

-Vou ficar. Pelo menos, tem comida decente, espero...

-Tem. Sophie cozinha bem. Mas lembre-se de não fazer nenhuma pergunta a ela, pois Sophie detesta papo furado. E não fique andando pela casa como se fosse um zumbi; fique no seu quarto e só saia de lá se alguém chamar, ok? 

-Ok.

Na hora do jantar, Sophie sentou-se à mesa com os convidados. Ela estava usando um vestido verde-escuro, debruado de rendas negras, e uma camada de tule preto sobre a saia. Os cabelos revoltos tinham sido cuidadosamente despenteados, dando-lhe um ar mais juvenil e sedutor. Os olhos verdes dela brilhavam, as pupilas estavam dilatadas e pareciam querer saltar dos olhos. Como antes, Diana não jantou com eles. 

Décio pensou que ela parecia uma gata brava. Ou uma gata assustada? Brian serviu-se do empadão de palmito como se estivesse em sua própria casa, enchendo grandes colheres de arroz e colocando no prato. Também comeu bastante salada de alface e tomate, talvez para compensar os vários dias que passou alimentando-se tão mal. Décio foi mais educado, mas também repetiu um pedaço de empadão, enquanto Sophie mal tocou na comida. Não era à toa que ela era tão magra, Décio pensou. 

O silêncio da mesa era entrecortado apenas pelo ruído dos copos e talheres. Sophie estava visivelmente tensa. Décio achou melhor não colocar lenha na fogueira, e sabendo que ela tinha um humor muito variável, achou melhor esperar até que ele mudasse e ela se tornasse mais amigável. Mas Brian, que tentava seguir os conselhos do irmão e não fazer perguntas, acabou por não resistir:

-Sophie... posso fazer uma pergunta?

Décio fuzilou-o com o olhar, mas Sophie concordou com a cabeça, pousando os talheres e olhando para ele.

-O que você pretende fazer depois... depois que... você sabe, a sua mãe...

Décio ergueu uma mão, vermelho de raiva:

-Brian! Cala essa boca!

Brian corou até a raiz dos cabelos, e o clima ficou muito tenso. Sophie tomou um gole de vinho, limpou a boca com o guardanapo de papel e encolheu os ombros:

-O óbvio. Vou embora daqui. Não vou ficar morando nesse mausoléu. Isso não é vida para mim. Por que a pergunta?

Brian olhou para Décio, que parecia furioso, mas resolveu arriscar:

-Você é jovem, e muito bonita, se me permite dizer...

Ele ficou esperando que ela agradecesse o elogio, mas como aquilo não aconteceu, ele continuou, dessa vez mais tímido:

-Você não pensa em se casar?

Décio quase saltou sobre o irmão:

-Agora chega, Brian! Cala essa boca e vá para o quarto!

Brian largou os talheres, dirigindo ao irmão um olhar magoado:

-Eu só estava... eu só queria...

Décio repetiu a ordem:

-Vá agora! 

Sophie não fez menção de intrometer-se a favor dele, e só restou a Brian sair da sala, e subir as escadas de cabeça baixa. Décio desculpou-se:

-Eu sinto muito, Sophie. Não sei onde ele está com a cabeça. Na verdade, não temos muito contato. Mal o conheço, e ele veio parar aqui assim, do nada...

Ela quase sorriu, tomando outro gole de vinho:

-Parece que você terá outro repórter na família. Está tudo bem, ele é só uma criança. Um moleque. 

Então, ela riu de verdade, pela primeira vez, e covinhas formaram-se em seu rosto, deixando-a ainda mais encantadora. Ele riu também, e atreveu-se a esticar a mão sobre a mesa até tocar a dela. Ela não moveu a mão, e olhou-o com um ar desafiador. Décio pôs a mão sobre a dela, e ela deixou-o ficar. Uma espécie de eletricidade passou de um para o outro. Décio sentiu o coração acelerar como nunca acontecera antes. Sophie deu um pequeno suspiro:

-Que tal conversarmos na varanda? Está quente aqui. 

Ele concordou, e eles foram se sentar nas cadeiras velhas de vime, com assentos acolchoados forrados por um tecido velho e esgarçado. Ele viu os trovões e raios que se aproximavam ao longe:

-Parece que teremos um temporal daqueles esta noite.

Ela concordou com a cabeça.

-Você virá ao meu quarto hoje, Décio?

Ela era assim, direta, sem subterfúgios, nada parecida com as meninas fúteis que ele conhecia, e que estavam sempre preocupadas em mostrarem ser sensuais sem o serem, inteligentes e espertas quando na verdade, eram tolas e ridículas, imaturas e fúteis. Sophie, mais velha que ele alguns anos, sabia o que queria e como conseguir, não tinha medo de nada, e nem falsos pudores. Décio pousou a mão sobre a dela novamente, e sem querer, a voz dele ficou rouca:

-Claro que sim, Sophie.

Eles se levantaram das cadeiras, e ele imprensou o corpo dela entre a parede e o corpo dele, em um longo, quente e apaixonado beijo.

Mais tarde, abraçados um ao outro na cama enquanto a tempestade caía lá fora, Décio não pode mais disfarçar uma verdade óbvia: estava apaixonado pela primeira vez na vida. Amava Sophie. Viver sem ela seria algo bem difícil de se fazer. Sentindo o calor do corpo dela contra o seu, e apreciando a beleza suave dos cílios longos e grossos de Sophie, ele adormeceu. 

Despertou horas depois com ela mexendo-se entre seus braços, a boca entreaberta, o rosto em fogo. Estava tendo outro de seus pesadelos. Ele a abraçou mais forte, mas ela desvencilhou-se dele, ainda dormindo, e desferiu um arranhão em seu peito. Décio segurou-a ainda mais forte, o que fez com que Sophie parecesse ainda mais apavorada, e finalmente, ela gritou, despertando e sentando-se na cama, a silhueta dela desenhada contra a claridade dos raios. Ele pôs a mão sobre as costas dela, e sentiu que ela ofegava. Tentou abraça-la, e daquela vez, ela não o repeliu, deixando-se ficar nos braços dele até que finalmente se acalmou. E então ele perguntou:

-Que pesadelos são esses, Sophie?

A voz dela saiu quase sussurrante:

-Ratos...

-Você sempre os tem?

-Sim, desde criança.

-Como eles acontecem? Talvez falar sobre eles possa ajudar!

Ela ficou em silêncio por um longo tempo, e Décio pensou que ela tinha dormido, ou que então não queria tocar no assunto; mas de repente, a voz dela preencheu o silêncio do quarto, com os trovões e a chuva ao fundo:

-É muito íntimo o que eu vou te contar.

Ele esperou, abraçando-a mais forte e beijando os cabelos dela.

-Uma vez, quando eu era criança, estava brincando pela fazenda. Eu costumava andar por aí, quando minha mãe estava ocupada, e brincava com os filhos dos empregados... quando as mães deles não estavam olhando, pois se me vissem perto deles, chamavam suas crianças como se eu tivesse a peste... assim, eu costumava brincar sozinha, na maioria das vezes. Então... eu estava brincando, e decidi ir até o paiol. Estava escuro lá dentro, mas eu escutei um barulho no fundo, e vi uma luz. Abri a porta, e vi meu tio – eles costumavam passar longos períodos de férias aqui na fazenda – abaixado olhando um rato que se debatia e guinchava de dor... ao lado, havia um vidro de veneno. Morri de pena do animal, e ia embora, mas meu tio me viu, e me puxou pelo braço. Eu era pequena... ele era um homem feito...

Ele sentiu o corpo dela tremer, e um líquido quente correr sobre a pele do seu peito. Décio beijou-lhe os cabelos novamente, acariciando-lhe a nuca suavemente.

-Ele me agarrou...

Ela começou a soluçar. Décio apertou-a contra o peito dele, o coração cheio de um sentimento que era totalmente inédito para ele. Queria protege-la, queria apagar aquelas memórias e fazer com que ela nunca mais sofresse. 

-Foi horrível! Ele cheirava à bebida... e o rato guinchava... debatia-se, enquanto ele passava aquela mão imunda em meu corpo...

Décio estava horrorizado:

-Sophie, eu... nem sei o que dizer, sinto muito, muito mesmo... mas tudo passou agora, você cresceu... eu estou aqui...

Ela pareceu não escutar o que ele dissera, e continuou:

-Eu não podia gritar, pois a mão dele estava sobre a minha boca, enquanto a outra me bolinava. E ele arfava em meu ouvido, minhas costas de encontro ao peito dele... senti quando ele me molhou, um líquido pegajoso e nojento. E então ele me soltou, mas antes disse que se eu contasse a alguém, ninguém acreditaria em mim, e também disse que ele me mataria, e mataria minha mãe com aquele veneno, como fizera com o rato! Eu saí dali correndo... eu rasguei aquele vestido, joguei-o no rio e fui para casa totalmente nua. Felizmente, ninguém me viu, e eu entrei em meu quarto, e tomei um banho longo de banheira. Eu não chorei. Só sentia ódio, ódio, ódio!

Sophie desvencilhou-se dos braços de Décio e levantou-se, indo até a janela, abrindo-a, e Décio continuou sentado na cama, sem saber o que fazer. Queria abraçá-la, mas ela não deixou mais. A chuva molhava o corpo nu ela, que brilhava. Ela passava as mãos ao longo do corpo com raiva, como se tentasse limpar-se de uma sujeira antiga e repugnante, uma sujeira que entranhara em seus poros e em sua pele, e que ela tentava, há anos, limpar. Os trovões davam à cena proporções dantescas, e Décio, fascinado pela intensidade do momento, o horror da história que ela contara e pela beleza dela, mal piscava os olhos. Ela arfava, urrava de dor. E foi entre um relâmpago e outro, que ele notou a criatura de pé junto à porta do quarto. Uma mulher velha. Ela usava um vestido cinza, de mangas longas, como um modelo antigo. Tinha os cabelos grisalhos presos em um coque, e tinha a face enrugada, os olhos maldosos e um riso sardônico nos lábios. E quando ele se levantou para ver melhor, ela simplesmente sumiu. Décio correu para o corredor, a fim de tentar ver se ela estaria ali, mas encontrou apenas a escuridão entrecortada pelos relâmpagos. Ele voltou, e apanhando o lençol, enrolou-o sobre o corpo de Sophie, trazendo-a para a cama e fechando a janela. Ela tremia, e estava gelada. E ele, apavorado. Não conseguia mais abrir os olhos, com medo de ver a mulher outra vez. Abraçou-se à Sophie, que aos poucos, foi parando de tremer. Ela relaxou nos braços dele, adormecendo novamente, mas Décio não conseguiu dormir. 







2 comentários:

  1. Absolutely fascinating - as always, Ana!
    It is always such a pleasure to read your wonderful work.

    Have a fabulous day!

    A Hug xoxoxo

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  2. Ana a sua história, me faz compreender a minha.
    Meu pai matava os gatinhos com as mãos, para me mostrar seu poder, isso me apavorava, além de falar que ninguém acreditaria em mim e, eu ficava boazinha...
    Nunca entendia, depois de adulta, porque sentia desejos, apesar dos traumas e, me culpava por isso.
    Você tem um profundo conhecimento da alma, me encanto com suas histórias...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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