terça-feira, 28 de junho de 2016

A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO XI








A RESENHA DO MAL - CAPÍTULO XI



Naquela noite, após o jantar, Brian sentou-se no sofá da sala de estar ao lado de Endora, e mostrou a ela as fotografias que conseguira fazer da fazenda. Mostrava paisagens onde raios de sol empoeirados passavam entre as folhas das árvores, ou então peixes que pulavam para fora do limite do espelho do rio; mostrou-lhe flores exóticas das quais ela se lembrou de ter visto quando ainda era jovem, e ela lhe falou dos lindos arranjos que fizera com elas para decorar a mesa da sala. Décio escutava a conversa dos dois de longe, sentado na varanda, observando a noite estrelada. Nunca tinha visto tantas estrelas em sua vida! E de repente, a vida parecia calma e perfeita. Ele teve a impressão de que amanhã iria embora dali para sempre, escreveria sua história e nunca mais ouviria falar daquelas duas mulheres e nem daquele lugar amaldiçoado. Voltaria para o seu apartamento barulhento, às noitadas com meninas diferentes e vazias, o trabalho, a convivência alegre e amorosa com a mãe. E quem sabe, um relacionamento diferente com Brian. 

Sophie não estava em lugar nenhum. Batera à porta do quarto dela, mas ninguém  veio abrir. Procurara por ela, indagara sobre ela a Diana, que nada soube responder. E ele pensou que talvez fosse melhor daquela forma; e se aquela história que Endora lhe contava não fosse totalmente verdadeira, de qualquer maneira, era fascinante, e renderia uma excelente reportagem – quem sabe, um livro que o tornaria famoso. Era isso que importava: tornar-se um excelente profissional, voltar à vida real onde os acontecimentos eram controlados, e fantasmas não circulavam pela casa entre os vivos. 

Mas bastou que a voz dela soasse atrás dele para que suas convicções fossem por água abaixo. Sophie o convidava para dar uma volta de carro na cidade com ela. Quem sabe, tomar um drink... ela disse que precisava sair dali por algum tempo, pois a fazenda a estava enlouquecendo. E foi só ela estender a mão, e ele a pegou, e entraram no carro dele. Adeus, estabilidade! Adeus, mundo de coisas equilibradas e reais! Adeus, apartamento barulhento, emprego, família, mulheres... era só Sophie que importava no mundo todo, e ele não podia fugir dela. Nem que ele quisesse. 

Despediram-se de Brian e Endora, que ficou muito feliz ao vê-los de mãos dadas. Foram no carro dela, que dirigiu quase uma hora até os limites da cidade, onde havia , em uma curva da estrada, uma parada entre árvores, por onde ela entrou e estacionou. Havia muitos carros, e ele pode perceber ao olhar para o local iluminado e escutar a música animada que vinha de lá, que tratava-se de um lugar animado. Era um prédio com fachada de madeira, no estilo dos velhos filmes de cowboy, com um letreiro iluminado onde se lia: “Robert’s.”  Décio ficou impressionado por Sophie, sempre tão taciturna, escolher um local como aquele. 

-Uau! Não sabia que você gostava de balada.

Ela puxou a chave da ignição, colocando-a no bolso da jaqueta jeans que usava sobre um vestido negro de saia rodada, e respondeu:

-E não gosto. Mas quero que você conheça alguém. 

Sem dizer mais nada, ela saiu do carro, e ele a seguiu. Quando entraram, a atmosfera enfumaçada pelos cigarros de dezenas de fumantes quase o sufocou, mas a música alegre que tocava, os risos e as cores vivas logo tiraram a má impressão que tivera. Sentaram-se junto ao balcão do bar, pedindo duas doses de tequila. O barman, um jovem alto, forte e bonito, quase comeu Sophie com os olhos, mas ela pareceu não notar. Décio notou que pela primeira vez na vida, sentira ciúmes. O rapaz serviu os drinks, e continuou seu trabalho, mas sempre mantendo um olhar discreto sobre Sophie. Os dois ficaram sentados ali observando o movimento, quando uma música lenta começou a tocar e ela o puxou para o centro da pista.

Décio passou os braços em volta dela, orgulhoso por estar acompanhado da mulher mais linda que havia ali dentro, percebendo os olhares admirados dos outros homens e a inveja das outras mulheres. Dançaram algumas músicas, e o clima esquentou; ele a beijou apaixonadamente várias vezes, esquecendo-se do real motivo por eles estarem ali. Parte das luzes do salão tinham sido apagadas, dando ao local um ambiente de penumbra acolhedor e íntimo. Décio gostaria de poder voltar para casa ou então ir a um local onde pudessem estar sozinhos; mas foi quando ela interrompeu seus pensamentos libidinosos:

-Eu acho melhor a gente parar por aqui... eu quero que você conheça uma pessoa, lembra?

Ele respirou fundo, enterrando os dedos nos cabelos dela e aspirando seu perfume. Sentiu que ela estremeceu em seus braços, e segurou-a mais forte, mas Sophie o empurrou suavemente:

-Hey! Venha comigo agora, Décio.

Ela o pegou pela mão, e os dois entraram atrás de uma cortina vermelha que levou-os por um corredor meio-escuro, longo, até uma sala nos fundos onde Décio viu um homem de meia-idade sentado à uma escrivaninha, usando um computador. A música do bar penetrava através das paredes com um som abafado. Ao vê-los, o homem ergueu os olhos sorrindo para Sophie, e levantou-se, abrindo os braços para ela, que largou a mão de Décio e foi aninhar-se nos braços do estranho. Estarrecido, Décio ficou observando a cena, queimando de ciúmes, quando eles pareceram lembrar-se de que ele estava ali, e o estranho olhou para Sophie como se indagasse quem era o homem que ela trouxera até ele. Ela sorriu, e fez as apresentações:

-Décio, este é o meu pai.

A cabeça de Décio deu um nó: aquele era Ruy, o amante de Endora! O pai verdadeiro de Sophia? 

-Desculpem, mas... Endora me contou que você era o pai verdadeiro do primeiro filho dela, um bebê que foi levado para longe. (E virando-se para Sophie) Sua mãe me disse que você é filha verdadeira de Cícero.

-Bem, parece que Endora não lhe contou toda a verdade... sente-se!

Décio sentou-se na cadeira em frente a Ruy, e Sophie foi sentar-se ao lado dele. Décio estava muito confuso com aquela história toda, e não via a hora de esclarecê-la. Foi Sophie que começou a falar:

-Minha mãe está morrendo, você sabe... ela inventou aquela história de eu ser a filha verdadeira de Cícero porque ela temia que os parentes dele reivindicassem a herança depois que ela morresse. Ela quer que eu herde tudo.

Décio pensou por um tempo, e depois concordou com a cabeça, mas ainda havia uma pergunta:

-Mas como você descobriu?

E foi Ruy quem explicou:

-Bem, ela começou a procurar por mim. Queria dar uma última alegria à Endora. Queria que voltássemos a nos ver. Sophie desejava que ela pudesse ter uma última alegria. 

-Então... mas... ela me disse que achava que Cícero tinha matado você!

-Bem, como você pode ver, não matou. E nós continuamos nos encontrando. Cícero apenas me deu uma surra que me deixou desacordado por algumas horas na beira de uma estrada de terra batida. Ele e uns capangas. Acho que pensou que eu estivesse morto, mas eu sobrevivi. E mudei de nome, fabriquei outra identidade. E comprei esse lugar aqui, depois de economizar muito trabalhando como capataz de outra fazenda. Quando Sophie me encontrou, ela também pensava ser filha de Cícero, mas nós fizemos um exame de DNA. Eu tinha certeza que ela era minha filha.

-E como você podia ter tanta certeza?

-Porque Cícero era estéril! Eu o escutei comentar sobre isso com um primo. Os dois estavam conversando no estábulo, quando Endora engravidou pela segunda vez. Eu estava escondido ali após encontrar-me com Endora. Cícero estava tremendo de ódio por causa da gravidez da esposa, mas o tal primo aconselhou-o a fingir que Sophie era filha dele, para salvar a honra da família. Endora acreditaria, já que não tinha conhecimento da esterilidade dele. Portanto, quando Sophie apareceu aqui, eu logo soube que era a minha filha.

-Mas... onde está este primo agora? Ele poderia aparecer e contar toda a verdade!
Sophie respirou fundo:

-Ele está morto. Morreu naquela noite junto com os outros. Eu o matei, Décio.

A cabeça de Décio deu uma volta, e ele sentiu-se enjoado:

-Mas... foi sua mãe, Endora que colocou veneno no chá...

Sophie baixou os olhos, e secou uma lágrima furtiva com o canto da mão:

-Eu era apenas uma menininha... este animal, primo de Cícero, tentava me agarrar. Eu não conseguia lutar contra ele. Ele... ele fez coisas horríveis comigo, e eu sentia medo, e nojo dele. Disse que mataria minha mãe se eu contasse, e que me colocaria para fora da casa para viver sozinha pela estrada. E eu acreditava nele. Porque eu tentei falar com Cícero sobre as coisas estranhas que o primo dele me obrigava a fazer, e ele me repreendeu e me colocou de castigo.

Ela deu uma pausa. O coração de Décio dava voltas. Queria protege-la daquelas memórias, mas ao tentar abraça-la, sentiu que o corpo dela se enrijeceu  completamente, e  ela se encolheu ao toque dele. As lembranças faziam com que ela tivesse aquela reação. 

-Certa tarde... eu entrei no paiol, e ele estava se divertindo ao matar um rato com veneno... o pobre animal guinchava e o corpo dele estremecia... foi uma visão horrível! Tudo o que eu pude ver, enquanto ele colocou suas mãos sobre mim, foi que junto ao pobre animal havia um vidro escuro. O vidro tinha um rótulo com uma caveira desenhada. Associei a morte do animal àquele vidro. 

Ela chorava copiosamente. Décio não sabia o que pensar, ou como agir. Aquela história era muito mais sórdida do que ele pensava.

-Quando ele acabou o que queria fazer comigo, eu fui embora, e pensei sobre o vidro a noite toda. De manhã bem cedo, fui até o paiol e procurei por ele nas prateleiras. Encontrei-o, e guardei-o comigo. Dias depois, Cícero estava na sala de estar com meus avós e aquela gente nojenta. Mandou que mamãe servisse um chá para eles. Enquanto ela foi pegar o açúcar para colocar na bandeja, eu peguei o vidro de veneno e derramei quase tudo no chá. Depois... você já sabe o que aconteceu... quando eles começaram a passar mal, fiquei apavorada, pois não sabia que eles sofreriam tanto, mas mamãe me viu encostada à parede, segurando o vidro na mãos, e imediatamente compreendeu tudo. 

Ela tomou o vidro das minhas mãos, limpando-o com um pedaço do tecido de sua saia, e começou a tocar nele. Sei hoje que tentava deixar suas impressões digitais sobre o vidro. Disse que eu ficasse calada, e que eu deveria esquecer-me de tudo o que acontecera ali. Repetiu aquilo tantas vezes, que eu acabei concordando. Então, depois que eles morreram, ela chamou a polícia e confessou o crime. Mas antes, ligou para sua prima no estrangeiro, contando o que fizera, ou seja, o que ela queria que as pessoas acreditassem que ela fizera. Esta prima concordou em me receber, e então ela chamou a polícia. Enquanto esperávamos, ela me fez jurar que jamais falaria sobre aquilo com ninguém. Que seria levada para longe de mim durante muito tempo, mas que sempre estaríamos juntas, e por mais que as pessoas falassem coisas terríveis sobre ela, que eu não deveria acreditar nunca, e jamais contar a verdade a ninguém. Eu deveria deixar todo mundo pensar o que quisesse. Eu era inocente. Seria sempre inocente, e ela, a culpada.

Décio estava chocado, mas tentava compreender os horrores pelos quais a pequena Sophie passara nas mãos daquelas pessoas cruéis: surras, castigos, humilhações, estupro. O silêncio era entrecortado pelas risadas que chegavam do bar. Lá fora, a vida continuava. Era sempre assim: quando o mundo acaba para alguém, ele sempre continua como antes para a maioria das pessoas. Décio tentou entender o que o grande amor que uma mãe tinha por seus filhos poderia fazer. Imaginou os anos que Endora amargara na prisão, longe da filha, e tudo o que fora obrigada a ouvir sem rebater. Com certeza, ela fora humilhada, ferida e espezinhada durante aqueles vinte e cinco anos.  Depois de tudo, ao invés de um pouco de alívio, tinha que conviver com a doença que a estava matando. Sentiu muita pena dela. Sentiu pena de Sophie, mas também um certo horror em relação a ela. Décio pensou que jamais deixaria que sua própria mãe pagasse por um crime que ele próprio cometera por causa de dinheiro. 

Ele olhou para Sophie, que estava de cabeça baixa, e depois, para o homem estranho sentado do outro lado da mesa. Ele tinha um olhar sereno, e na pele, muitas cicatrizes daquilo pelo qual ele passara e enfrentara pelo amor de uma mulher. Décio conseguiu perguntar a ele:

-Você sabia de tudo, esses anos todos?

-Não. Soube há apenas algumas semanas. Para mim, Endora cometera todos aqueles crimes. Mesmo assim, jamais consegui odiá-la ou sentir medo dela, pois eu sabia o que ela e seus pais passaram nas mãos daquela família horrorosa.

-E hoje, o que sente por ela?

Ruy deixou que seu olhar se perdesse nos desenhos intricados de um quadro, na parede em frente. Demorou um pouco para responder:

-Não sei mais. Eu me casei, continuei minha vida. Tenho uma esposa e dois filhos. Um deles, é a criança desaparecida, o menino que Cícero levou para longe de Endora. O irmão de Sophie. O nome dele é Roberto. Como o meu.

Décio conseguiu sorrir. O destino tinha tramas engraçadas.

-E como foi que você o encontrou?

-Fui seguindo as pistas. Descobri que tinha sido deixado em um orfanato no Rio de Janeiro. Um capataz da fazenda, que era meu amigo, me contou. Depois que Endora foi presa e Sophie viajou para o estrangeiro, eu fui procurar a criança, e no Rio de Janeiro, conheci minha esposa, Mirtes. Nós nos casamos e adotamos o menino, e um ano depois, ela engravidou. 

-E ele sabe de sua história de vida?

-Sabe. Desde cedo, nós nunca escondemos nada dele. Ele e Sophie vão se conhecer hoje à noite. Ele já deve estar chegando.

-Mas... você vai rever Endora?

Ele olhou para a filha, e havia um acordo estabelecido naquele olhar.

-Não... já faz muito tempo. Ela está muito fraca. Não quero deixa-la preocupada, achando que a história verdadeira virá à tona. Ela não sabe de nada. Nem deve saber.

Décio tentou não dizer nada; afinal, aquela história não era sua, e não deveria se envolver. Mas de repente, ouviu sua própria voz dizendo:

-Desculpem, mas acho que estão errados! Ela ficaria contente em saber que seu filho e seu grande amor do passado ainda vivem. Com certeza, morreria tranquila sabendo que Sophie não está sozinha, que tem um pai, e irmãos. Uma família. 

Pai e filha se entreolharam. Depois, Sophie pousou os olhos nele, com gratidão, dizendo:

-Eu sabia que você me compreenderia melhor que meu pai neste assunto, e que ficaria do meu lado, Décio. Por isso eu quis que você viesse e ficasse sabendo de tudo. Por favor, pode me ajudar a convencê-lo?

Décio sentiu-se desconcertado, mas disse:

-Você escutou a moça, Ruy...

-Por favor, me chame de Roberto. Sempre.

Décio desculpou-se, e prosseguiu:

-Você não precisa amar Endora hoje. Mas pelo menos, honre a memória do amor que os uniu, há tantos anos. Deixe que ela saiba que seu filho vive, e que você vive. Tenho certeza de que ela vai ficar contente. Eu a conheço pouco,  mas o suficiente para saber que sua maior preocupação na vida, tem sempre sido o bem estar de Sophie. 

Ruy – ou Roberto – hesitou antes de responder:

-Eu não acho que minha esposa vai gostar dessa história de voltar  a ver um grande amor do passado...

Naquele momento, Sophie abriu a bolsa e pegou uma fotografia, que entregou a ele. Décio viu que lágrimas brotaram nos olhos de Roberto ao contemplá-la, e ele precisou deixar o cômodo de repente, carregando a foto. Voltou minutos depois, com os olhos vermelhos. Sophie disse:

-Esta foto que eu te entreguei é da mulher que você conheceu e amou, a mãe de dois de seus filhos. Esta é a Endora que você conheceu no passado, que apesar de ser um pouco mais velha que você, era tão linda, que o encantou e o fez apaixonar-se por ela a ponto de arriscar a própria vida.

Então, Sophie pegou outra fotografia, de uma mulher velha, acabada e macilenta, entregando-a a ele, e dizendo:

-Esta é a Endora de hoje. Tenho certeza de que, se sua esposa olhar para ela, não terá medo.

Ela estendeu a foto para ele mais juma vez, e Roberto a pegou, olhando-a vagarosamente antes de explodir em lágrimas. Ele então pousou as duas fotos sobre a mesa, lado a lado, dizendo:

-Nem parecem a mesma pessoa. Como ela envelheceu! Pobre Endora... eu sinto muito, Sophie. Meu Deus, eu sinto muito...

Naquele instante, bateram |à porta. Antes que alguém pudesse abri-la, o rosto de um homem muito parecido com Sophie – o mesmo cabelo rebelde e os mesmos olhos verdes – apareceu na porta entreaberta:

-Posso entrar?




(continua...)






2 comentários:

  1. As surpresas que a vida nos reserva...
    História ricamente elaborada, estou amando!
    Aguardando o próximo capítulo...
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Nossa, essa trama é fascinante, vc é sensacional amiga.
    Mas esse seu "continue"... me deixa doidaa.... NÃO DEMORE COM O O OUTRO CAPÍTULO!!

    Bacios

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