quinta-feira, 7 de julho de 2016

A RESENHA DO MAL – CAPÍTULO XII










Todos os olhos se ergueram em direção daquele rosto na porta. Roberto, o irmão de Sophie, parecia uma pessoa totalmente diferente dela: não tinha o mesmo ar desconfiado e sombrio, mas parecia uma pessoa alegre e confiante. Havia leveza em seu olhar, paz de espírito e franqueza – coisas típicas de quem cresceu sendo amado e aprendendo a confiar nas pessoas. Ele era como se fosse o lado bom daquela história, que deixara como herdeiros pessoas amargas, desconfiadas, cheias de segredos e infelizes. O sorriso encantador de Roberto desanuviou o ar pesado da sala. Sophie levantou-se da cadeira, colando os olhos no irmão. Ambos não precisaram de apresentações. Ficaram se olhando durante um longo tempo, esquecidos das outras presenças. 

Ele sentiu o peso da energia emanada por ela; era como se uma lufada de ar viciado e cheirando a mofo o atingisse ao abrir a porta de uma casa velha, há muito tempo fechada. Pensou nas janelas que precisaria ajudá-la a abrir para que a luz pudesse entrar. Sophie o olhava com curiosidade, apenas. Ela não entendia como poderiam haver tantas pessoas genuinamente felizes em um mundo tão cinzento e cheio de mentiras, dores e traições. Ela mesma era fruto de uma destas traições: filha do amante de sua mãe. 

Roberto – o pai – pigarreou:

-Bem, acho que vocês precisam conversar. Vamos deixa-los à sós agora. (dizendo aquilo, ele fez sinal para que Décio o seguisse, e eles saíram da sala, fechando a porta). 

Foram sentar-se no espaço exterior do bar, uma varanda estilo country, coberta por um telheiro. Um garçom levou-lhes  cervejas. Ali, a música alta não incomodava, e era possível conversar, já que as outras mesas estavam vazias. Além disso, para alívio de Décio, o ar era fresco, e não cheio de fumaça e cheirando a suor, fritura e perfume barato como lá dentro. Roberto tomou alguns goles de cerveja. Décio sentia-se um intrometido em uma história que não era sua, e na qual tinha se envolvido mais do que gostaria. Roberto notou seu desconforto:

-Vejo que você gosta muito de Sophie. Há quanto tempo se conhecem?

-Apenas poucos dias. 

-Mas você está apaixonado por ela, não está?

Décio demorou um pouco a responder:

-Não sei. Acho que sim, mas não tenho certeza. É que eu nunca senti nada parecido antes.

Roberto concordou com a cabeça:

-Ela é exatamente igual à mãe quando jovem: misteriosa, envolvente. Mas existe nela – assim como existia na mãe – uma parte que ninguém pode tocar. Não sei se devido ao sofrimento pelo qual ambas passaram, mas eu às vezes penso que esta parte inacessível nasceu com elas. É algo que sempre esteve ali, e que estaria ali mesmo que elas tivessem tido uma vida totalmente diferente. Eu penso que qualquer pessoa que se envolver com elas, deverá esquecer coisas como paz de espírito, tranquilidade ou uma vida normal. Você me entende?

As palavras de Roberto surpreenderam Décio, mas após o escândalo inicial, elas começaram a fazer sentido para ele de uma maneira clara e lúcida, como se alguém desfizesse os nós de confusão que estavam em seus pensamentos.

-Engraçado você dizer isso sendo o pai dela, mas... tenho que concordar. Você está certo. Eu... eu gosto muito dela, mas não sei se quero uma vida assim.

-Pense bem, Décio, antes de mudar o seu rumo por ela. Estas coisas que eu estou lhe dizendo eu só pude perceber depois que me afastei totalmente de Endora... depois que ela foi presa e levada embora para longe de mim. Por isso eu nunca a procurei. Nunca a visitei na prisão, nem escrevi para ela. Conhecer Mirtes foi como voltar ao mundo real, seguro e iluminado. Não havia a mesma paixão entre nós, mas nunca houve tantos... fantasmas.

Décio ouviu um sininho tocar no fundo da sua mente.

-O que quer dizer com... fantasmas?

Roberto olhou as estrelas, que faziam do céu um candelabro de luxo. Franzindo as sobrancelhas, explicou:

-É difícil falar nisso, mas... você não sente nada estranho naquela casa, naquele lugar? Ou.. quando está perto de Sophie? Nós estamos no século XXI, é claro, mas... eu sempre tive a impressão de que aquele lugar é amaldiçoado, e que certas coisas estão sempre em volta delas... eu sentia isso em relação a Endora, mesmo sendo apaixonado por ela, e depois que conheci minha filha, senti o mesmo.

Décio respondeu rápido demais:

- Você tem razão.

-Você fala como quem soubesse de algo...

-Você também.

Os dois se entreolharam, fazendo um brinde antes de tomarem mais um gole de cerveja. Décio achou que não faria mal partilhar algumas de suas experiências estranhas na casa:

-Eu vi algumas coisas... imagens de pessoas, mas não eram realmente pessoas. Também ouvi vozes na noite em que dormi lá pela primeira vez. Foi aterrorizante, confesso que eu fiquei com medo. Uma das vozes me disse para ter cuidado com ela. Acho que falava de Sophie. Mas embora tenha soado como um tipo de advertência, não parecia nada amigável ou preocupada com o meu bem-estar. 

-Quando eu morava lá, na ala dos empregados, escutei muitas histórias horríveis e também presenciei algumas... não vale  apena falar sobre elas, mas... parece que aquela família não tinha sido sempre assim. Quando chegaram lá, eram pessoas normais, dignas, procurando por uma vida melhor. Após alguns anos, Cícero e seus pais foram ficando cada vez mais obcecados por dinheiro, e cada vez mais frios e arrogantes, até se tornarem cruéis. Pelo menos, era isso que um dos empregados mais velhos gostava de contar. 

-E é por isso também que você não quer voltar la´?

-Também é por isso, mas... sabe, Décio, eu hoje sou um homem feliz e realizado, vivo bem com minha esposa e meu filho... por que desenterrar ossos? É claro que conhecer Sophie foi algo bom – um filho é sempre algo bom, mas quando essa história toda se resolver, apesar de amar a minha filha, eu espero que ela possa retomar sua vida. Não gostaria que ela morasse conosco. Isso pode parecer cruel da minha parte, mas é o que eu sinto que seja melhor para todo mundo. Não sei se você pode me compreender.

Décio viu uma nuvem de angústia passar pelo rosto de Roberto. Quase desespero. Ele balançou a cabeça, concordando.

-Quer um conselho, Décio? Assim que tiver material para o seu livro, dê o fora daquele lugar. E esqueça Sophie, pois ela não é para você. Pobre moça... acho que não é para ninguém. E ela sabe disso. A coisa que a segue é mais forte que ela. 

Horas depois, de volta à fazenda, Sophie o procurou. Queria conversar. Bateu à porta de seu quarto de madrugada, quando Décio já estava profundamente adormecido, e ele levou um susto ao deparar com a moça olhando-o dormir, no escuro, sentada à beirada de sua cama. Ela riu, pedindo desculpas:

-Não queria assustar você.

-Ainda bem. Porque se quisesse, teria conseguido.

Ele sentou-se na cama:

-O que foi, Sophie? Que horas são?

-Ainda é de madrugada, mas eu não consigo dormir.

Ele não conseguia ver o rosto dela, apenas sua forma desenhada contra a fraca luz que entrava pelas cortinas, devido à lâmpada que fora deixada acesa na varanda. Mas podia sentir seu perfume penetrante, e desejou estar com ela em seus braços, em sua cama. Porém, achou que o momento não seria adequado.

-Você ficou tão calado depois que conheceu meu pai e meu irmão... a minha história chocou você, não foi?

-Bem, eu confesso que não imaginava que tinha sido você a autora de todos aqueles crimes, e que isso mudou algumas coisas na minha cabeça. 

A voz deles, baixa e monótona, cruzava a distância entre eles como agulhas de gelo.

-Eu sei que você sente... ou sentia algo por mim. Isto mudou?

-Mudou... não mudou... na verdade, eu não sei, Sophie. 

-Você já decidiu o que vai fazer... com a sua história?

Décio pensara naquilo o tempo todo durante a viagem de volta, no silêncio do carro. Como jornalista, deveria contar a verdade, mostrar os fatos. Deveria esperar que Endora morresse, e então, publicar toda a verdade. Além de ser um furo de reportagem que, com certeza, iria garantir-lhe um prêmio, poderia servir de material para seu primeiro livro. Mas ao mesmo tempo, achava que devia algo a Sophie e Endora. Afinal, em apenas alguns dias, ele poderia mudar para sempre a vida de ambas. Será que ele tinha este direito, de expor Sophie por algo que acontecera há tanto tempo, sabendo das razões que a levaram àquilo? É claro que o crime prescrevera e que ela não poderia ser acusada de nada, mas e quanto à acusação das pessoas que a cercavam, da sociedade? Ela ficaria ainda mais marcada. Ele poderia contribuir para que a vida de Sophie se tornasse ainda mais infeliz. 

-Sophie, eu ainda não sei o que vou escrever. Mas... mudando um pouco o rumo da conversa, seu pai definitivamente não quer contar a verdade a Endora. Ele não vai revê-la, não é?

-Eu sei. Sempre soube, assim que o conheci. 

-Por que você quis procura-lo?

-Ora, ele é meu pai.

-Mas como você ficou sabendo? Pensei que você sempre tivesse pensado que era filha de Cícero.

-Bem, eu queria encontra-lo para mamãe. Mas quando eu estava diante dele, e vi o quanto ele se parecia comigo fisicamente... apesar dos anos... e pela maneira como ele me olhou, assim que me viu, eu soube. Então ele me contou sobre muitas coisas que eu não sabia, como a esterilidade de Cícero. E depois fizemos o exame, que confirmou a paternidade. Mas acho que ele não ficou muito feliz ao me rever, embora tenha se emocionado e me tratado tão bem. 

A voz dela soou um pouco triste, mas conformada. Décio pensou nas muitas tristezas que ela tinha em sua vida, e que aquela, de saber que o próprio pai não gostaria de tê-la conhecido, era apenas mais uma. Ele estendeu a mão a fim de acariciar seus cabelos, mas quando ele o fez, algo incrível aconteceu: ela desapareceu diante dele, como se nunca houvesse estado ali.
Imediatamente, calafrios de pavor percorreram a espinha dele. Tivera um sonho, apenas? O que, ou quem era aquela mulher que tanto o intrigava, atraía, repelia, confundia?

(continua...)


2 comentários:

  1. Ana, estou triste, não gostaria que a Sophie, depois de tanto sofrimento, acabasse sozinha.
    Será que algumas pessoas estão destinadas a vir ao mundo apenas para sofrer? Meu pai me falou isso, quando me separei do 2º marido, que ele e eu não viemos ao mundo para sermos felizes no amor, isso me calou muito fundo, porque eu sempre tive esperança de viver um grande amor.
    Mas, hoje, depois do que passei, estou concordando com ele.
    Mesmo assim, fico triste, quando vejo pessoas marcadas para viver só...
    Muito linda a sua história, felize4s dias, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. PLOFT!!!!!!!!

    Desconfiadíssima de fantasmas...
    Décio que se cuide.

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