domingo, 24 de julho de 2016

A RESENHA DO MAL, CAPÍTULO XV



Ninguém da cidade compareceu ao velório de Endora, e da fazenda, apenas uns poucos funcionários, necessários para que o velório e o sepultamento – que ocorreu no cemitério da família, na própria fazenda – pudesse acontecer. Décio tentou ficar ao lado de Sophie, mas ela o ignorou e recusou-se a aceitar a sua mão ou qualquer tipo de consolação que viesse dele. Ela chorava um pranto silencioso e cheio de raiva, que escorria do seus olhos vidrados como se fosse água em uma cachoeira, naturalmente. Logo após o sepultamento, Diana entrou em um táxi que já aguardava por ela no pátio em frente à casa, e foi embora sem olhar para trás; ficaram apenas Décio, Brian e Sophie, olhando o carro desaparecer na estrada em meio à poeira avermelhada. 

Quando ninguém mais podia ver sinais do carro, Brian e Décio se entreolharam, e Sophie entrou na casa, trancando-se no quarto.  Os dois irmãos sentaram-se em silêncio nas cadeiras puídas da varanda, e finalmente Brian perguntou: 

-E agora, irmão? 

Brian observava os empregados que voltavam para suas casas, ao longe. O dia estava terrivelmente quente, apesar de cinzento e sombrio. Pensava no que faria de sua vida, no que realmente pensava em fazer, e a pergunta do irmão o sacudiu:

-Acho que vou embora.

-Sozinho?

Ele olhou para Brian, dando-lhe um tapinha de leve no ombro, e indo sentar-se na beirada do muro baixo que cercava a varanda:

-Acho que sim. Sophie não quer nada comigo.

Brian aproximou-se, sentando-se ao lado dele:

-Acho que talvez seja melhor assim. Sabe... eu tenho um amigo na escola. A mãe dele sofre de alguma doença emocional que eu não sei o nome. O pai dele passa maus momentos por causa disso, aliás, a casa toda parece que gira em torno dela, as pessoas andam cabisbaixas, falando pelos cantos, pisando em ovos para não fazerem barulho e tentando não fazer com que a mãe do meu amigo tenha uma explosão. Eles tem grana, sabe, e queriam viajar, mas a mulher sofre de uma tal... síndrome...

-Síndrome do pânico?

-Isso mesmo. Ela não consegue sair de casa. O pai tentou viajar sozinho com os filhos nas férias, mas ela entrou em crise e deu o maior piti. Eles tiveram que cancelar tudo. Os garotos foram sozinhos, e o pai do meu amigo teve que ficar com ela. Mandou o motorista acompanhar as crianças na viagem, no lugar dele. É barra pesada, cara... você não acha?

-Mas... por que você está me contando tudo isso?

-Parece que a sua musa tem a mesma coisa que a mãe do meu amigo, sabe... e eu... sempre te admirei porque você é um cara que está sempre alegre, independente, adora viajar, tem uma cara feliz, é ‘pra cima.’  Tenho medo que ela te pegue pelo pé. A Sophie, quero dizer. Estamos aqui há alguns dias, e ela nunca falou comigo direito, e quer saber? Nem com você. ela é muito estranha...

Brian ficou esperando para ver se o irmão responderia alguma coisa; como ele permaneceu em silêncio, Brian continuou, com mais entusiasmo na voz:

-Acho que a Rafaela é bacana. Além de bonita, ela é mais parecida com você.

-Dado conselhos sentimentais agora? 

Brian riu:

-Não! É que...

-Brian, você tem só dezessete anos. Deixa que eu escolho as minhas mulheres, OK?

Décio afastou-se, e Brian respirou fundo. O irmão não gostava mesmo que dessem opiniões em sua vida!

Décio foi bater à porta de Sophie. Tentou duas vezes, e ficou escutando, mas ela não respondeu. Sem pensar duas vezes, ele girou a maçaneta e entrou. Encontrou-a deitada reta na cama, o braço cobrindo os olhos. Ela grunhiu:

-Não estou a fim de conversar.

-Mas eu estou, Sophie.

Ela descobriu os olhos, sentando-se na cama:

-O que você quer?

-Saber o que você vai fazer agora. Tenho que voltar para Petrópolis, e...

-O que eu vou fazer dependerá do que você vai fazer, Décio: você vai publicar a versão verdadeira da minha história?

Ele hesitou, sentando-se na cama ao lado dela, esfregando as mãos devagar. Ele deixou que a resposta surgisse como por instinto, já que toda vez que pensava nela, os seus pensamentos davam um nó. E o que surgiu foi:

-Eu vou manter a versão de Endora.

Ele olhou para ela. Sentiu que as feições de seu rosto pareciam se aliviar, e ela balançou a cabeça, e olhando para ele, disse:

-Obrigada. Mas... antes eu tenho que te contar uma coisa.

Ele ficou tenso, pois o que mais havia naquela história que ele desconhecia? De repente, o ar em volta deles encheu-se de tensão. A luz do teto piscou várias vezes, antes de explodir em miríades de caquinhos pequenos, assustando a ambos. Eles saíram correndo do quarto, e Sophie pegou-o pela mão levando-o em direção à cozinha, enquanto Décio, confuso e assustado (mais assustado do que ela) perguntava:

-O que foi aquilo?!

-Não importa, Décio.

Os dois chegaram à cozinha, e Sophie serviu-lhes do vinho que tinha sido aberto há algumas noites. Estava ruim, mas Décio engoliu-o assim mesmo. Sentou-se, esperando que ela começasse a falar.

-Décio, o que eu fiz quando eu era criança... é disso que eu quero falar.

-Você não precisa, Sophie. Não sabia o que estava fazendo, e...

-Eu sabia!

Ele parou, o copo de vinho apertado entre os dedos. Olhou para ela, e os olhos dela estavam injetados:

-Eu sabia muito bem o que estava fazendo. Eu vi o que o líquido no vidro tinha feito ao rato. Eu vi o animal se contorcendo e guinchando de dor, até morrer. Eu sabia, e desde aquele momento, eu soube que aquela era a minha libertação, e eu planejei tudo meticulosamente. Eu sabia também que crianças não iam presas, e que algum adulto iria pagar o pato por aquilo, mas jamais pensei que fosse a minha mãe... mas mesmo assim, quando ela assumiu a culpa, eu tive tanto medo que deixei que ela fosse presa, acusada de tudo durante todos esses anos, para que eu pudesse ter uma chance de sair deste lugar e começar uma vida nova. Eu sabia, Décio, e eu permiti que tudo acontecesse daquela forma! Mas eu nunca fui feliz. Quando saí desta casa, levei comigo todos os meus fantasmas, os fantasmas daqueles a quem eu matei, e a dor de saber que minha mãe estava em uma prisão por minha causa!

Ele ficou de olhos arregalados, sem saber o que dizer; ela continuou:

-Eu estou amaldiçoada por este lugar e por estas pessoas, Décio. Eu mesma me amaldiçoei também. 

Ele murmurou:

-Mas... eu entendo você, Sophie, eu... sinto muito por tudo, mas você precisa deixar esses fantasmas aqui e continuar sua vida, tentar ser feliz!

-Ser feliz?!


Ela deu uma gargalhada insana:

-Você está prestando atenção ao que está dizendo, Décio? Não existe esta possibilidade!

Ele sabia que ela tinha razão, e o coração dele derreteu de dor e de medo. Ele começou a chorar baixinho, por ela, pelo amor que nascera e morrera apenas algumas horas depois.

-Mas eu... eu amo você!

Ela negou com a cabeça:

-Não; você ama uma imagem que você criou, e que não existe. Você me deseja, deseja a minha beleza e a perfeição que acha que pode trazer para a minha vida, mas você simplesmente NÃO PODE! Eu não nasci para ser feliz, não nasci para ser como as outras pessoas, Décio. Acho que todo mundo nasce com um botão que faz com que as ouras pessoas se aproximem delas e gostem delas. Eu nasci sem esse botão. Não consegui conquistar nem o amor de meu pai verdadeiro.

-Sua mãe te amava muito!

-Não! Ela me manteve prisioneira dessa história. Antes de eu fazer tudo aquilo, ela tinha tudo planejado: na manhã seguinte àquela noite em que coloquei veneno no chá, ela ia fugir com meu pai verdadeiro. Os dois tinham planejado tudo. Eu atrapalhei. Ela ia me levar junto, e eu atrapalhei. Ela não queria que eles fossem feito fugitivos por um crime que não cometeram, então, para salvá-lo dela, ela confessou o crime. Ela me disse isso pouco antes de morrer. Ela me disse, na minha cara, que nunca foi por mim. Sabia que ele tentaria fugir com ela assim mesmo, mesmo após a morte de todas aquelas pessoas, pois ele a amava. Mas sabe o que ela me disse? Que não queria que ele se tornasse um fugitivo por minha causa. Que não queria que eu fosse na vida dele a maldição que eu era na vida dela.

Décio não podia acreditar no que estava ouvindo! Mas olhando nos olhos dela, ele viu que era tudo verdade. Sophie não era mulher para ele, ou para qualquer homem sensato. Ela não era feliz e nunca faria ninguém feliz. Qualquer um que se aproximasse dela estaria entrando voluntariamente em sua maldição. 

-Mas e agora, Sophie?

-Agora? Vou embora daqui,.. Vou ganhar o mundo. Me ofereceram um trabalho como fotógrafa, correspondente de guerra em um país africano. É para lá que eu vou. Tentar criar algum tipo de vida para mim.

Ele segurou as mãos delas com força:

-Mas... e eu? O que eu vou fazer sem você?

-Vai ser feliz. Vai fazer aquilo que você nasceu para fazer. Agora pegue suas coisas e seu irmão, e vá embora daqui, antes que o que me persegue passe a perseguir vocês. 

Dizendo aquilo, ela puxou as mãos de dentro da concha das mãos dele. Levantou-se bruscamente, derrubando a cadeira, e foi para o quarto arrumar as próprias malas. 

Décio fez o mesmo. Não havia esperanças para aquele amor. Logo, suas malas estavam arrumadas no carro, e Brian esperava por ele no assento do carona. Ainda olhou pela janela a fim de ver Sophie pela última vez, mas não houve qualquer sinal dela. Uma aura de nuvens negras cercava a casa. Um trovão ribombou, seguido por um raio, e a tempestade começou a desabar. Décio entrou no carro, e eles foram embora daquele lugar, em silêncio. Ele ainda passou na casa para pegar seu computador, e depois, foi devolver a chave à Marta. Quando chegou lá, Brian ficou esperando no carro enquanto ele bateu à porta da casa. Marta abriu a porta, e esticando o pescoço em direção ao carro, acenou para Brian; percebeu que os dois estavam sozinhos, e disse:

-Boa viagem, meu filho. Você tomou a decisão certa. 

O caminho foi percorrido quase em silêncio. Aos poucos, quanto mais se afastavam daquela cidade e daquela casa, o céu começou a abrir-se em um azul lindo e brilhante. Brian ligou o rádio, e uma música alegre encheu o silêncio entre eles. Brian começou a tamborilar os dedos de leve na capa do celular ao ritmo da música, e logo conseguiu obter um leve sorriso do irmão. 

Lá atrás, Sophie também colocou suas coisas no jipe. Tinha uma passagem de avião. Antes de sair, ela banhou toda a casa com querosene: tapetes, cortinas, estofados. O tempo todo, ela sentia que o bafo daqueles espíritos que a odiavam tentavam gritar em seus ouvidos e enlouquece-la. Ouvia gargalhadas e portas batendo. Quase foi empurrada do topo das escadas, mas conseguiu segurar-se a tempo no corrimão. Quando aquilo aconteceu, ela berrou:

-Vocês vão queimar no inferno agora! Vão queimar por terem feito isso da minha vida, e por terem feito com que minha mãe não me amasse mais. Eu não tenho e nem nunca tive medo de vocês, seus ordinários!

Ela chorava e derramava o querosene pela casa toda, feito louca. O rosto vermelho e os olhos marejados faziam com que a cena parecesse algum filme de terror barato. Finalmente, quando chegou à sala de estar, ela acendeu o fósforo. E foi quando ela a viu.

Endora estava parada junto à porta de entrada. Sophie estancou, o fósforo imediatamente sendo apagado por um vento que ela não sabia de onde vinha, já que o lugar estava todo fechado. Endora ergueu a mão em direção a ela, e Sophie ouviu sua voz:

-Eu amo você, filha. Você entendeu tudo errado... você sempre distorce tudo o que as pessoas tentam lhe dizer. Eu só quis que vocês dois fossem felizes. Você e seu pai. E achei que Décio fosse fazer você feliz, mas você não o deixou! Mas ainda há tempo, vá atrás dele, vá agora!

A imagem de Endora foi desaparecendo aos poucos, antes que Sophie conseguisse dizer qualquer coisa. Ela chamou, a voz embargada pelas lágrimas:

-Mãe!

Mas apenas o silêncio respondeu. Sophie jogou fora o fósforo apagado, e acendeu outro. Jogou-o no chão, sobre o tapete embebido em querosene, e o fogo logo começou a pegar, lastrando sobre os estofados. Ela podia sentir o ódio daqueles fantasmas que habitaram aquela casa durante todos aqueles anos. Logo, o lugar todo era uma grande fogueira. Ela girou a maçaneta, e saiu. 

(continua...)










2 comentários:

  1. Tenho lido todos os capítulos, e só posso dizer que voltarei sempre à procura dos seus escritos. Este livro vai chegar ao fim, mas outros irão aparecer, eu espero, e cá estarei.
    Parabéns pela qualidade, por tudo!!!
    Abraço, Dilita

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  2. Ana, é mesmo assustador quando se tira a vida, mesmo que em defesa própria. Triste uma pessoa passar por tudo isso e ainda não poder viver, amarrada ao passado.
    Tem tanta gente que faz mal para as pessoas e vive como se fosse uma boa pessoa, às vezes, não dá para entender... Ela uma criança e com uma carga tão pesada.
    Felizes dias, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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