segunda-feira, 15 de agosto de 2016

FEITIÇOS DE AMOR - PARTE I







FEITIÇOS DE AMOR – CAPÍTULO I

Eu tinha quinze anos quando minha avó Eduarda – ou vó Duda, como todos a chamavam, inclusive seus não-netos – adoeceu. A presença de vó Duda naquela casa e na nossa comunidade era fortíssima. Desde que eu me lembro de mim, ela, viúva, já morava conosco, e eu nunca soubera o que era chegar em casa e não encontrá-la. Ela ralhava comigo e com minha irmã Flora, um ano mais nova que eu, se demorássemos a trocar o uniforme da escola; não deixava que nos sentássemos à mesa do almoço sem lavar as mãos, e antes de comer, dávamos graças; coisas de avó.

Porém, Vó Duda não tinha nada daquelas avós dos sonhos, gorducha, cabelos brancos, rosto gentil e pele rosada; sua voz não era a de uma pessoa velha, e nem seus modos, apesar da idade avançada - ninguém sabia, ao certo, quantos anos ela tinha, nem mesmo mamãe, e ela não comentava o assunto de jeito nenhum. Vó Duda era alta, esguia e elegante. Usava os longos cabelos grisalhos sempre presos em um coque, e eu não me lembro de tê-los visto soltos nem uma única vez, a não ser após a doença, período no qual ela passava a maior parte do tempo em sua cama. Ainda me lembro dos seus vestidos, todos indo até o tornozelo e de mangas três quartos, mesmo no mais calorento verão! Todos confeccionados por ela mesma, que costurava muito bem e tinha sido modista e dona de uma loja de modas quando jovem. Os tecidos que escolhia eram todos caros e de boa qualidade: veludos, sedas peroladas, brins acetinados, crepes finíssimos, estampas – quando presentes – sempre discretas e pequenas. Lembro-me de Vó Duda como uma mulher enérgica, respeitada por todos, e temida também, devido à sua mania de sempre dizer o que pensava, doesse a quem doesse. Seus olhos verdes como esmeraldas eram perscrutadores, e acho que ela podia até adivinhar pensamentos! 

Ninguém conseguia mentir para Vó Duda, e sabendo disso, eu nem sequer tentava.

Como no dia em que me atrasei da escola para o almoço, e quando cheguei, ela já tinha arrumado a cozinha e guardado a comida. Eu estivera namoricando um menino da escola, e quando ela me perguntou o motivo do atraso, a mentira que eu tinha prontinha na ponta da língua escorregou até o chão, só dela me olhar. Contei a verdade, pensando que ia ouvir um sermão horroroso – afinal, eu tinha apenas treze anos naquela época – mas Vó Duda, me olhando de lado, disse apenas:

-Vá trocar o uniforme e lavar as mãos para almoçar. Seu prato está no forno.

Eu sabia que se tivesse mentido, passaria o dia todo de castigo e sem almoço.

Era muito comum que ela às vezes tomasse o lugar de mamãe, nos dando as broncas, conselhos e elogios que achava que merecíamos. E mamãe nunca ia contra nada do que ela dizia.
Naquela casa, vivíamos eu, minha irmã Flora, minha mãe Agnes, meu pai Berto e Vó Duda – e também os cães Cocker Spaniel, Tutti e Greco, que pertenciam, respectivamente, a mim e à minha irmã, mas que no fim, eram de todo mundo.

Nossa casa era simples, espaçosa e rústica; as cortinas tinham sido todas confeccionadas por minha avó, em chitão florido, e também as almofadas de tricô que ficavam sobre os sofás de xadrez vermelho e verde da sala. Sobre a lareira, um quadro pintado por papai, que além de ser dono de uma pequena venda no centro da nossa cidadezinha, também era pintor, e conseguia vender alguns quadros para turistas. Mamãe era formada em Literatura, mas optara por ficar em casa e cuidar de nós, virando esposa e mãe em tempo integral. Papai era engenheiro formado, mas tanto ele quanto mamãe cansaram-se da vida agitada da cidade grande e decidiram, enquanto mamãe ainda estava grávida de minha irmã, viver em estilo ‘slow life.’  Quando Vó Duda ficou sabendo do sonho deles, vendeu sua enorme casa em um dos bairros mais chiques de São Paulo, entregando-lhes o dinheiro para que realizassem seu sonho; e assim minha família veio parar em Rio Verde, uma pequena cidade nas montanhas, muito fria no inverno e fresca no verão.

Voltando a falar de nossa casa, as paredes tinham sido pintadas com tintas naturais, e por isso, tinham cores manchadas em tons pastel. Os tapetes da casa eram feitos à mão em uma roca por minha mãe, e tinham lindos desenhos intrincados. Eu dividia o quarto menor com Flora, meus pais ocupavam o quarto maior no sótão e Vó Duda ocupava o segundo maior quarto, em frente ao nosso. As janelas da casa tinham sido feitas por meu pai, em madeira pesada e vidro. Também a mesa estilo mineira da cozinha, com oito cadeiras, a arca onde guardávamos os mantimentos e alguns banquinhos. Pode-se dizer que a nossa casa era artesanal.

A lareira, que ficava bem no centro da parede principal da sala, era da altura de uma pessoa de pé. Era feita de madeira e pedra, sólida e aconchegante. Todos que nos visitavam pela primeira vez percorriam os cômodos da casa entre ‘Ahs’ e ‘Ohs’ de admiração, desfiando elogios e dizendo o quanto era confortável e aconchegante a nossa casa.

Eu era feliz, e me sentia segura. A solidez da nossa casa representava a solidez da união de nossa família. Meus pais davam-se bem, eram amorosos. Fazíamos sempre coisas juntos, como viajar nas férias, assistir a filmes, acampar ou fazer piqueniques no parque da cidade, sob os pinheiros e abetos.
Vó Duda também costurava para nós, e tínhamos os mais lindos vestidos. Quase não precisávamos comprar roupas, a não ser algumas calças jeans e alguns pares de tênis. As amigas nos olhavam com inveja toda vez que aparecíamos com um vestido ou bata novos. Vó Duda copiava os modelos das revistas da moda que nós escolhíamos, mas os mais bonitos, eram sempre os que ela mesma criava. 

Ela dizia que éramos as suas modelos preferidas.

Minha mãe, ao contrário de Vó Duda, era uma mulher silenciosa e solitária. Passava muitas horas escutando CDs de meditação ou lendo sobre assuntos místicos. Era bonita, tinha cabelos ruivos lisos e longos, e apesar de ser pequena, seu corpo era bem moldado. Ela às vezes ficava estranha, quando tinha uma de suas premonições. As pessoas da vila vinham até a nossa casa pedir a ela que deitasse as cartas do Tarô para eles, ou que fizesse pomadas, óleos ou remédios naturais. Acho que ela poderia ter ganho muito dinheiro com suas criações e poções de beleza, porque elas realmente funcionavam, mas minha mãe não cobrava por seus serviços nunca, embora às vezes pedisse que as pessoas comprassem o material que seria usado neles. Certa vez perguntei-lhe onde aprendera  a ler as cartas, e ela disse que um dia recebera pelo correio um baralho de tarô. Não havia remetente, apenas as cartas em uma caixinha de madeira, e um pequeno livro ensinando como usá-las. Desde então, foi como se ela apenas olhasse para as cartas e as escutasse, repetindo ao consulente o que elas diziam.

Meu pai era um homem alto e forte. Quando ele e mamãe estavam juntos, ela mal alcançava os ombros dele; pareciam A Bela e a Fera. O rosto de meu pai era grande, ele tinha a testa larga, os olhos penetrantes e negros, as mãos enormes, os braços muito musculosos, e media quase dois metros. Sua voz parecia um trovão ribombando pela casa! Porém, seu caráter era gentil e doce, sempre bem-humorado e disposto a ajudar qualquer um que precisasse dele. Eu amava meu pai apaixonadamente. Via nele a minha proteção, meu porto seguro. Passávamos horas só conversando, enquanto ele se recolhia na garagem (transformada em estúdio) para dedicar-se às suas pinturas; eu me enroscava em uma velha poltrona no canto do cômodo, e as conversas surgiam, varando o dia. 

Minha irmã Flora tinha mais afinidades com mamãe, e estava aprendendo a ler as cartas, embora não tivesse o mesmo dom. Flora era bem diferente de mim: eu tinha cabelos loiros, ondulados  e longos, e ela, cabelos escuros e escorridos, cortados na altura dos ombros, num corte Chanell moderno que dava a ela um ar de seriedade. Eu gostava de conversar e tinha muitos amigos, enquanto ela era mais reservada. Eu era ótima em Línguas, História, geografia e Literatura, enquanto ela adorava matemática, Química e Física. E ela era mais popular entre os meninos do que eu, mesmo sendo um ano mais nova. Havia sempre alguns garotos apaixonados por Flora, mesmo que ela não os levasse à sério. Já eu, tinha meus amores platônicos. Estava sempre apaixonada por um menino que não queria nada comigo.

Éramos felizes e unidos, e tínhamos uma vida despreocupada e tranquila. As pessoas da vila eram excelentes vizinhos, e vivíamos perto dos nossos tios Nestor e Joana (Joana era irmã mais velha de nossa mãe) que tinham se mudado para lá na mesma época que meus pais. Eles eram os pais de nossa querida prima Dora, uma menina alegre, levada e talentosa de dezesseis anos que era como uma irmã para mim. Eu passava mais tempo com ela do que com Flora. Dora sabia tocar violão e estudava canto. 

Queria ser cantora e compositora, e tinha uma linda voz. Escrevia poesias que transformava em músicas muito bonitas que ela tocava para nós nas noites de verão, quando estávamos todos reunidos na varanda da nossa casa. Dora não era muito bonita, mas seu talento compensava sua falta de atributos físicos. Ela era um pouco gordinha, tinha cabelos castanhos e encaracolados cortados curtos. Seu rosto era redondo, e nada delicado. Mas seus olhos azuis continham tanta beleza, que quem olhasse para eles a acharia linda! E como ela deixava todos calados e extasiados quando pegava em seu violão e começava a tocar! Não havia quem não fizesse silêncio para prestar atenção. Eu amava Dora. Eu amava Rio Verde. Eu amava nossa vida.

Tudo começou a ficar diferente quando vovó sentiu-se mal um dia, durante o jantar. Apesar de dizer que estava bem, que não passara de um mal ligeiro, todos vimos quando seu rosto ficou muito branco e ela deixou o talher cair, apoiando a cabeça em uma das mãos. Vó Duda tentou endireitar-se rapidamente, mas todos percebemos e ficamos preocupados. Ela não terminou seu jantar, e foi deitar-se. No dia seguinte, mamãe foi com ela ao médico.

Duas semanas de exames depois, descobrimos que Vó Duda tinha câncer na vesícula, e poderia ter que passar por uma cirurgia delicada. Doutor Fábio deixou claro que as chances não eram muitas, e que ela poderia ter complicações durante a cirurgia, mas que se sobrevivesse, sua perspectiva de vida poderia ser mais longa do que se ela não fosse operada. Vó Duda optou por não operar. Deram-lhe alguns meses de vida. Mamãe estava arrasada. Todos estávamos. Mas Vó Duda aceitou seu destino, e na medida do possível, continuou levando sua vida evitando tocar no assunto, e em pouco tempo, era como se a doença dela tivesse sido esquecida por todos, socada para algum canto inacessível das nossas mentes – mas ela estava lá, e nos lembrávamos quando estávamos sozinhos, antes de dormir.

Certa noite, durante o jantar, nós falávamos das coisas da escola, e também sobre os acontecimentos corriqueiros da casa e das vizinhanças, e Vó Duda apenas escutava enquanto beliscava seu jantar. Greco e Tuti estavam deitados soba mesa, aos nosss pés, como faziam todas as noites durante o jantar. Nós pisávamos em ovos, tentando manter a atmosfera leve e não deixar transparecer a ela a nossa preocupação, quando Vó Duda pediu-nos silêncio. Todos nos aquietamos imediatamente.

Ela nunca perdia seu ar altivo e digno. Tinha mandado cortar seus cabelos bem curtos, o que lamentamos; um dia, ela foi à cidade e voltou sem eles, para surpresa de todos nós e indignação de mamãe. Eu olhava para ela – todos olhávamos – esperando que ela falasse. Eu tinha a impressão de que Vó Duda estava procurando as palavras certas. Ela largou o guardanapo sobre a mesa, num gesto quase brusco, e disse:

-Bem, todos aqui sabem que eu não vou durar muito tempo.

Houve protestos de todos nós, mas ela sacudiu a mão num gesto de desprezo, pedindo silêncio:

-Não vamos fingir que está tudo bem. Todos sabemos que minha hora está chegando. Eu tenho um pedido a fazer.

Dizendo aquilo, ela olhou para mamãe.

-E tem a ver com você, Agnes. E com você também, de certa forma, Berto.
Vi o rosto de mamãe empalidecer, e notei que ela já sabia qual seria o pedido de vó Duda. Papai estendeu a mão sobre a mesa, colocando-a sobre a dela, como se lhe pedisse para ter calma e não dizer nada. Pelo visto, ele também sabia.

-Somos uma família unida e feliz, Graças a Deus... Fui – sou – muito feliz vivendo aqui com todos vocês. Mas há uma pessoa que eu gostaria muito de ver antes de ir embora deste mundo, e sei que ela só virá se o convite partir de você, Agnes. E gostaria que isso acontecesse antes que minha doença se agravasse, pois quero ter um pouco de tempo para passar com ela.

Mamãe, num gesto inesperado, acabou dando uma cotovelada no copo de água, derrubando seu conteúdo sobre  a mesa. Papai pegou um guardanapo de papel e pôs-se a secar tudo, o rosto vermelho.

Eu também soube, e Flora idem, de quem Vó Duda estava falando: Tia Maya. Eu e minha irmã a tínhamos visto  apenas uma vez, no velório de vovô, quando ainda éramos pequenas. Mamãe não falou com ela, e papai cumprimentou-a entre os dentes, ficando desconfortável em sua presença, enquanto ela abraçava e consolava Vó Duda. Lembro-me de que ela parou um instante diante de Flora e de mim, dando um sorriso tímido, mas mamãe puxou-nos com força, passando os braços em volta de nós e nos segurando como se estivéssemos em perigo.

Tudo o que eu e Flora sabíamos era que o nome dela nunca deveria ser mencionado naquela casa, e que ela e mamãe tiveram um desentendimento no passado. Também soubemos, através de papai, que Tia Maya era prima de mamãe, e que ambas tinham sido criadas como irmãs desde que os pais de Maya (o pai de Maya era irmão de Vó Duda)  tinham morrido em um acidente de barco quando ela tinha seis anos, e mamãe, cinco. Vovô e vovó a acolheram e cuidaram dela. Estas eram as únicas coisas que sabíamos sobre ela.

Minha mãe fechou os olhos, e respirou fundo. Vó Duda não se intimidou:

-Agnes, eu quero que você convide Maya para passar algum tempo conosco. Nesta casa.

-Mamãe, o que você está me pedindo é absolutamente...

-Não quero mais desculpas, Agnes. Você e sua irmã precisam se entender.

-Nós não somos irmãs, mamãe. Somos primas.

Vó Duda socou a mesa, elevando o tom de voz, e meu coração deu um pulo. Olhei para Flora, e vi que ela engolira em seco, deixando cair o garfo no prato. Tutti e Greco saíram de sob a mesa, indo procurar abrigo na cozinha.  Papai mantinha a cabeça baixa, tendo o rosto vermelho, e os olhos de mamãe se encheram de lágrimas. Vó Duda esbravejou:

-Chega! Não vou admitir mais desculpas! Vendi tudo o que eu tinha para que vocês pudessem fugir do passado e vir parar nesta cidade, comprar esta casa e o negócio de Berto, e começarem uma vida nova. Achei que estava fazendo a coisa certa afastando vocês duas, mas eu errei, e quero consertar meu erro – e o de vocês. Banimos a presença de Maya desta família, como se ela tivesse feito algo errado, quando todos sabemos quem errou, Agnes!

Mamãe ergueu um braço:

-Pare, por favor,  as crianças...

Vovó nos olhou, respirando profundamente, baixando o tom de voz.

-Elas precisam saber da verdade.

Eu e Flora não nos atrevemos a questionar o que estava acontecendo. Não era uma boa ideia interromper vó Duda. Papai nos olhou de rabo de olho, tentando esboçar um sorriso. Sua tensão era gritante. As lágrimas de mamãe finalmente caíram. Ela olhou para vó Duda com um olhar magoado, e disse:

-Faremos o que você quer, mamãe. Nós sempre fazemos, não é mesmo?

Vó Duda a encarou:


-Nem sempre.

(CONTINUA...)

3 comentários:

  1. Boa noite, Ana, pelo jeito, mais uma emocionante história!
    Felizes dias, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  2. Olá, Ana!

    Espero que continues logo! E podes, por favor, avisar-me?
    Gostei muito da sua escrita, envolvente e gostosa de ler.
    Fiquei encantada com esta avó elegante que lembra tanto como eram as damas de antigamente! Sou fascinada por este estilo.
    Beijos e até!

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  3. Que beleza a sua crônica, Ana
    E vó Duda estava certa. Teve um gesto nobre.
    Queria ver as irmãs unidas para que pudesse partir em paz.
    Um beijinho carinhoso de
    Verena e Bichinhos.

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