segunda-feira, 10 de outubro de 2016

FEITIÇOS DE AMOR – CAPÍTULO XI









FEITIÇO DE AMOR – CAPÍTULO XI




Na manhã seguinte, domingo, papai saiu e levou os cães junto com ele. Disse que passaria a manhã no rio, pescando, e Tio Nestor foi também. Joana, Maya e Flora foram juntas dar uma caminhada. Eu não quis ir, estava com preguiça. Vó Duda estava em seu quarto, ao telefone, conversando com alguém. Mamãe estava sozinha na cozinha, preparando o almoço, e acho que ela pensou que eu ainda estava em meu quarto, pois quando eu ia entrando na cozinha, escutei a voz dela ao telefone, e estanquei no corredor antes que ela pudesse me ver; escutei a conversa:

-Sim, Davi... certo. Eu disse que ela era maravilhosa! Fico feliz que tenham gostado um do outro... mas não se esqueça do que combinamos! Ela não pode saber, nunca! Sei... ok então... ela saiu para uma caminhada, mas logo estará de volta... sim, ela nos contou que passarão o dia juntos na fazenda... por favor, Davi, não a faça sofrer! Boa sorte. Até logo.

Eu estava estarrecida e muito confusa. Mamãe armara aquele encontro? Davi era alguém que ela arranjara para Tia Maya? Levei as mãos à cabeça, não querendo acreditar no que acabara de ouvir. Naquele instante, mamãe saiu da cozinha, e dando de cara comigo, entendeu logo que eu escutara a conversa. Ela ficou muito pálida, levando a mão ao peito e engolindo em seco:

-Filha... há quanto empo está aqui?

-Tempo suficiente, mãe. Eu ouvi tudo. Não posso acreditar que você tenha feito isso. Não quero acreditar!

Ela me puxou para a cozinha, fechando a porta, e me obrigou a sentar-me à mesa, em frente a ela:

-Não é o que você está pensando, Eleanor! 

-“Não é o que você está pensando, Eleanor!” Acha que sou imbecil, mãe? Você arranjou esse cara para Tia Maya!

-Fale baixo, por favor. Ninguém deve saber, filha...

Mamãe parecia desesperada, e baixei o tom de voz:

-Você vai ter que desfazer o que fez, mãe. Tia Maya não merece isso. Quando vai parar de tentar manipular os acontecimentos? Será que não vê que sua interferência na vida alheia não é saudável? Nossa... parece que a mãe aqui sou eu, e você, a filha irresponsável que precisa de limites!

Ela ergueu  a mão em frente ao rosto, num gesto que pedia silêncio, e gaguejou:

-Você precisa ficar quieta, Eleanor, e me deixar explicar tudo, e então vai entender que agi da melhor forma possível para todos! Seu pai não esqueceu Maya, ele próprio me confessou que ela ainda mexe com ele. 

Meu queixo caiu; como papai podia ter dito aquilo a ela? Achei muita falta de tato, mas mamãe insistia que ele só tinha sido sincero, e que ela dever dela salvar aquela família, e aquele casamento, fazendo o que era melhor para todos. 

-Eu entrei em um site de relacionamentos e cadastrei Maya. Eu me passei por ela, e quando encontrei Davi, que eu já conhecia de ouvir falar, começamos a conversar. Ele se interessou pelas fotos. Na primeira conversa, expliquei que eu não era Maya, mas que éramos primas e eu estava tentando arranjar alguém para ela, pois ela estava muito só. Conversamos mais duas vezes, contei-lhe coisas sobre ela, mostrei mais fotos. Ele disse que gostaria de conhece-la pessoalmente, e então eu combinei tudo. Ele me prometeu que ela nunca ficaria sabendo de nada, e que se eles não se gostassem pessoalmente, ele se afastaria sem dizer nada a ela. Mas tudo deu certo, ela gostou dele, e ele acaba de me dizer que adorou Maya! 

Eu não estava acreditando no quanto minha própria mãe podia ser manipuladora, e ainda usar aquela conversa de “Fiz o melhor para todos”  para se justificar. Segredos nunca davam certo, ela mesma tinha me ensinado aquilo! Um dia, se Davi realmente se apaixonasse por minha tia, ele iria contar a verdade a ela, pois nenhum relacionamento que começa com uma mentira poderá dar certo. E então, o que seria de minha mãe e seu casamento? E quando papai ficasse sabendo?

-Mãe, você precisa contar a verdade a ela. Não é justo o que você está fazendo com ela de novo! Vó 
Duda vai ficar uma fera!

-Não, se ela não souber de nada! E se esta for a oportunidade de Maya ser feliz? Você vai atrapalhar? 

Ela endureceu a voz:

-Eu te proíbo de contar alguma coisa a Maya ou a quem quer que seja, ou de tocar nesse assunto comigo novamente, Eleanor! Eu sou sua mãe e você tem que me obedecer!

Depois daquilo, eu compreendi que precisava sair da presença dela, ou acabaria dizendo alguma coisa que a feriria profundamente. Os pensamentos e palavras que passavam pela minha cabeça emaranhavam-se uns aos outros, formando frases horríveis de se dizer e de se escutar. Levantei-me, e saí da cozinha pisando duro. Precisava ficar sozinha, pensar um pouco. Enquanto saía da casa, encontrei com minhas tias e Flora voltando da caminhada. As três riam alto, e Tia Maya parecia a mais feliz de todas. As faces rosadas, as gargalhadas, o rabo-de-cavalo, tudo dava a ela um ar quase infantil que eu ainda não conhecia. Elas passaram por mim, e Flora me puxou:

-Vamos tomar café juntas!

Me deixei ser levada por ela. De volta à cozinha, olhei para mamãe e a tensão da conversa que acabáramos de ter parecia tê-la deixado completamente. Parecia serena, calma, sentando-se para o café da manhã como se nada tivesse acontecido. Aquilo fez com que um arrepio de medo percorresse a minha espinha. Quem era a mulher que eu crescera aprendendo a chamar de mãe, afinal? 

Depois daquilo, tomei uma decisão: iria para a faculdade. Estudaria muito, me dedicaria 24 horas por dia para que pudesse sair daquela casa o mais rapidamente possível. Desisti do meu ano sabático, pois eu não sabia o que poderia acontecer se eu tivesse que ficar ali, com o peso daquele segredo horrível sobre os ombros. Precisava me afastar. 

Senti muita falta de Dora, pois se ela estivesse ali, poderia me ajudar. Ela saberia me dizer o que fazer. Ela me ouviria, e eu poderia contar com sua discrição e seu silêncio. Ela dividiria aquele peso comigo, e eu poderia me sentir mais leve e tranquila. 
E ela estaria chegando na semana seguinte para o Natal. Eu aguentaria até lá?

Sabia que contar tudo à Flora, a rainha da indiscrição, seria o mesmo que colocar aquilo no jornal; ela acabaria dando com a língua nos dentes sem querer. Não sabia ser discreta, sempre dizia exatamente o que pensava. Eu precisaria aguentar calada até a chegada de minha prima e amiga. E ainda teria que lidar com a provável presença de Fred, que sabia o que eu sentia por ele, mas que tinha preferido ficar com Dora. Provavelmente, os dois falavam de mim, e quem sabe, diriam o quanto sentiam pensa de mim por causa de tudo aquilo... Dora diria a ele que eu era sua melhor amiga, que desistiria dele para que pudéssemos ficar juntos, mas ele responderia: “Não, Dora, é a você que eu amo!” E os dois se beijariam, e ela talvez chorasse por mim... aquelas cenas mentais me irritavam, pois minha imaginação era forte, o que fazia com que elas fossem bem reais. Eu conseguia ver as cenas que imaginava com clareza, e me sentia muito ferida com as situações que só estavam acontecendo, quem sabe, dentro de minha a cabeça. 

Era muita coisa para lidar sozinha. E a doença de Vó Duda. Se ela fosse embora, eu não tinha certeza se minha mãe seria capaz de manter tudo em ordem. Achava que ela faria a família se desmoronar com seus ciúmes, segredos e manipulações. Vó Duda era o freio que a impedia de fazer besteiras. Era a cola que mantinha nossa família unida. Era a palavra sensata nas horas de incertezas. 

De repente, meu coração deu um salto: e se mamãe tivesse feito algum feitiço para que Tia Maya se apaixonasse por Davi, e vice-versa? Não... aquilo seria demais, simplesmente demais para eu suportar. Ela me proibira de voltar a tocar naquele assunto, mas eu sabia que teria que perguntar aquilo a ela. Não poderia conviver com aquela dúvida para o resto dos meus dias. 

E eu tinha medo de não suportar guardar aquele segredo, e a única saída, era se eu me afastasse. Se eu fosse para algum lugar bem longe dali, longe de todos, seria bem mais fácil. Eu teria que ir estudar em outra cidade. Faria dezessete anos em janeiro. Papai tinha que permitir.

Enquanto todos aqueles pensamentos martelavam minha mente, a conversa na cozinha era animada e alegre. Olhei para Tia Maya, que nem suspeitava da armação da qual estava sendo vítima. Logo, Vó Duda juntou-se a elas, e começaram a preparar o almoço. Tia Joana colocou uma música alegre no aparelho de som, e entre danças e risadas, as saladas e a massa ficaram prontas. Mas na hora do almoço, quando estávamos todos reunidos à mês e Tutti e Greco, cansados do passeio, dormiam em suas caminhas num canto da cozinha, eu não consegui comer direito. Aleguei uma indisposição e fui para o quarto, a cabeça girando, e uma forte dor de cabeça começou.
Meia hora depois, papai veio ter comigo, e encontrando as cortinas cerradas naquele lindo dia de sol, sentou-se ao meu lado, colocando sua mão sobre meu braço. Eu estava deitada, de olhos fechados, e continuei daquela forma, com medo de encará-lo, fazendo-o perceber que eu escondia algo. Mas até mesmo eu estando de olhos fechados, papai me conhecia muito bem. Ouvi quando ele puxou a respiração, e vi que a conversa seria longa, se eu não fosse esperta.

-O que houve, Eleanor? Você ficou calada a tarde toda, e mal tocou na comida. E eu sei que você  adora lasanha.  Está aflita com a chegada de sua prima?

Achei que aquela desculpa, oferecida de bandeja naquele momento, seria perfeita, e abri os olhos:

-Sim, pai. Não sei como ela me receberá, ou como vou encarar Fred depois de tudo... sabe, ele sabe que eu sou apaixonada por ele.

Ele derramou ternura sobre mim através do olhar:

-Sabe, filha, nessa idade, tudo parece ser muito intenso, muito forte. Ele é só a primeira pessoa por quem você se apaixona de verdade, e acredite, outros virão. logo, Você vai entender que existem outros garotos bacanas e que combinam muito mais com você, e vai encontrar um que a ame de volta. 
É muito melhor amar quando somos amados de volta, sabe?

-Eu balancei a cabeça, concordando, e voltei a fechar os olhos:

-Você tem razão, pai, mas é mais fácil falar do que fazer, não é? A gente não escolhe quem a gente ama.

Eu não pretendia soar sarcástica, mas foi o que acabou acontecendo. Abri um dos olhos, e vi que o tinha ferido. A veia em sua têmpora pulsava, e seus lábios encurvaram-se levemente para baixo. Na hora, me arrependi, mas o que foi dito não pode ser recolhido.

-Tem razão, filha. A gente não escolhe quem ama, mas as circunstâncias nos ensinam o que é melhor para nós, e para todos.

-Como assim?

-É que... a gente segue por um caminho por tempo demais, e quando olhamos para trás, é tarde para voltar e começar tudo de novo, se é que você me entende. Portanto, procure não errar, não ferir as pessoas que ama, e seja generosa com elas, sempre. 

-Mesmo que isso signifique ser infeliz, pai?

Ele sorriu, tristemente, baixando os olhos:

-E o que é que você entende de felicidade, sua molequinha? Como é possível ser feliz sabendo que magoou uma porção de pessoas, ou então ao menos uma pessoa que a gente ama? Vamos lá para baixo. Vamos jogar cartas e assistir a um filme.

-Não, pai, eu estou com muita dor de cabeça. 

-Quer um comprimido?

-Quero.

E assim a nossa conversa terminou. Ele me trouxe um comprimido, que eu tomei, e adormeci logo em seguida.

Acordei duas horas mais tarde com uma chuva forte caindo lá fora. O quarto estava escuro devido às cortinas cerradas, e olhando pela greta, vi que a tempestade era tão forte, que a calçada estava escura, apesar de ainda ser cinco da tarde, e não havia eletricidade. Acendi a lanterna do celular e desci as escadas, livre da dor de cabeça e sentindo fome, apesar de enjoada por causa do remédio tomado com o estômago vazio.  A sala estava vazia e escura. Concluí que Tia Joana e Tio Nestor tinham ido para casa, e o resto da família estava tirando uma soneca após o dia movimentado.  Eu ia me encaminhando para a cozinha, quando deparei com um vulto escuro no sofá. Dei um pulo, assustada, mas logo me tranquilizei quando percebi que era vó Duda quem estava lá. Ela parecia profundamente adormecida, e chamei por ela. Nada de resposta. Chamei mais uma vez, e como ela não respondeu, peguei a manta que estava na poltrona e cobri seu corpo, pois a tarde tinha esfriado um pouco por causa da chuva. O perfume suave do talco floral que ela usava veio às minhas narinas. 

Cheguei à cozinha e devorei a lasanha que sobrara com um copo de refrigerante e salada. Saciada a minha fome, coloquei os pratos na pia, e direcionando a luz da lanterna para lá, passei a lavar a louça. A luz voltou quando eu estava enxugando tudo. Ouvi passos na sala, que estancaram de repente, e achei que era Vó Duda indo para o seu quarto, mas o grito que escutei a seguir fez com que eu deixasse o prato que eu enxugava cair, despedaçando-se contra o piso frio. Os cães ergueram as cabeças, e começaram a latir. Gritei para que se calassem e fui correndo para a sala, de onde ouvira Flora gritar. O trajeto até lá parecia ter acontecido em câmera lenta. Tudo não passou de alguns segundos, mas jamais esquecerei aquele momento, e o que vi quando cheguei lá.

Flora estava pálida, as mãos cobrindo a boca. Papai e mamãe, sonolentos, desciam as escadas correndo, seguidos por Tia Maya. No sofá, Vó Duda, de olhos e boca arregalados e o rosto branco feito cera, nos fitava: ela estava morta. Eu cobrira o corpo dela, há apenas meia hora. Mamãe abraçou Flora, passando os braços em volta de seus ombros e levando-a dali. Tia Maya sentou-se ao lado de Vó Duda, chorando muito, e levou a mão aos olhos dela, fechando-os, enquanto papai, as mãos na cabeça, andava de um lado ao outro da sala. Eu estava parada à porta, os olhos fixos naquela cena dantesca, e a única coisa que me vinha à cabeça, eram as palavras de minha colega, Érica: “Às vezes, as pessoas tem uma melhora repentina antes de morrer.”  Apesar da falta de tato daquelas palavras, elas eram muito verdadeiras.





3 comentários:

  1. "A gente não escolhe quem ama, mas as circunstâncias nos ensinam o que é melhor para nós, e para todos".

    Capítulo intenso! Difícil arte de abdicar do amor-próprio. Virtude é compreender a existência do outro.

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  2. Profundo e intenso este capítulo Ana
    É preciso muita força para renunciar ao amor em prol de outrem. Este veio da história está muito interessante
    Um lindo dia
    Beijos

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  3. A vida é complexa, existem decisões que muitas vezes não conseguimos entender a razão, mas depois compreendemos...
    Linda a história, gratidão, Ana!
    Felizes dias, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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