quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O ELEFANTE BRANCO- PARTE II






Volta Azul era uma pequena cidade fria, onde o céu era, quase sempre, cinzento.  Chovia bastante por ali, o que fazia com que o rio estivesse sempre caudaloso. A natureza era rica e abundante, e as árvores predominantes, eram as coníferas – pinheiros e araucárias. Também havia muitos eucaliptos; tantos, que o cheiro ativo de pinho era sentido por qualquer pessoa que chegasse à cidade. Com o tempo, acostumavam-se com ele, e não o sentiam mais.
Mar e montanha conviviam pacificamente, integrando-se em lindas paisagens. 

A parte mais bonita, eram as colinas e seus precipícios, que mostravam o mar azul lá embaixo. Algumas pessoas atreviam-se a descer pelas trilhas escorregadias dos penhascos, e após alguns minutos de tensão, eram recompensados com belíssimas extensões de praias desertas, de areias brancas e águas revoltas e profundas. As praias eram mais frequentadas por surfistas e aventureiros. Íris tinha pavor de altura, e achou que jamais desceria até uma delas. Só de olhar lá para baixo, ela sentia vertigens.

O centro era uma pequena aglomeração de lojinhas, pequenos mercados, dois cinemas, um shopping center com 150 lojas que Iris achou absurdamente pequeno, em comparação aos que ela estava acostumada a frequentar, uma igreja católica e algumas protestantes. Também havia lanchonetes e restaurantes, todos bonitinhos e aconchegantes, e todo mundo parecia conhecer todo mundo. Para alívio de Iris, também havia WI-FI. 

Não tinham uma universidade que ela pudesse sonhar em frequentar. Os jovens de Volta Azul iam estudar fora, ou ficavam por ali mesmo, ajudando os pais a administrarem seus pequenos negócios ou trabalhando na fábrica de desinfetantes ou envolvidos com a pesca. Alguns deles iam embora e nunca mais voltavam. E Iris parecia estar entendo muito bem porquê. Não havia muito o que fazer na cidade. Pelo menos, não para uma recém-chegada de dezoito anos como ela. 

Depois que Rubens consertara o Jipe, Alana dera a ela autorização para usá-lo quando quisesse. E foi o que ela fez na primeira semana: saía cedo, embrenhava-se em cada estradinha de terra que encontrava, e descobriu que quase todas elas iam dar na beira dos penhascos – como se a cidade fosse um lugar alternativo no mundo, longe de tudo, onde ninguém poderia chegar e de onde ninguém poderia sair. Depois, chegava em casa por volta das dez da manhã e ia ajudar a mãe e Rubens (que não fora embora, afinal) a limpar o casarão velho. Aquela era a sua vida agora, e não havia nada que ela pudesse fazer para muda-la no momento.
Certa manhã, ela dirigia por uma das estradinhas de terra quando começou uma chuva forte. Iris mal conseguia ver a estrada adiante, e resolveu estacionar até que a chuvarada passasse. Desligou o motor e colocou os fones de ouvido. Ouvir música era uma das poucas atividades de lazer da qual ela dispunha naquele lugar esquecido por Deus. 

Iris sonhava, como toda adolescente; queria estudar e ter uma profissão que a deixasse financeiramente independente. Queria viajar e conhecer pessoas, fazer novos amigos. Queria encontrar um namorado. Mas desde que seu pai desaparecera, deixando-as sozinhas, parecia que seus sonhos tinham se tornado uma promessa distante e falsa que a vida lhe fizera. Teve que abandonar a cidade onde nascera e crescera, e todos os amigos. Teve que esquecer a vida tranquila que conhecia e lidar, pela primeira vez, com a luta para sobreviver a cada dia. 

Logo que o pai desapareceu, a firma imobiliária onde a mãe trabalhava fechou, e Iris teve que lidar com o desemprego da mãe, a falta de dinheiro e de perspectivas. A polícia continuava procurando por Mário, mas parecia que ele não deixara qualquer sinal de vida. Dois anos após o desaparecimento do pai, a indenização que Alana recebera da firma acabou, e ela continuava sem emprego, apesar das tentativas para encontrar um. Iris teve que lidar com a depressão da mãe, cuidando dela, administrando-lhes os remédios que ela precisava tomar e aprendendo a ser forte. Aos dezessete anos, ela tinha amadurecido cedo demais. Finalmente, o dinheiro acabou e elas tiveram que vender a casa onde moravam a fim de pagar dívidas, comprar coisas básicas, como comida e roupas, e quitar a escola de Iris, ou seu diploma ficaria preso. 

E foi quando tudo parecia irremediavelmente perdido, que elas receberam a carta do advogado de tia Bárbara. 

Alana ainda tentou colocar a velha casa à venda com a ajuda do advogado, mesmo sem tê-la visitado, mas houve poucos interessados.  Ela baixou o preço, mas nem assim conseguiu vende-la, e então, algumas semanas após receber a herança, decidiu mudar-se para a casa da falecida tia e tentar recomeçar a vida em um novo lugar. Achou que estar por perto da casa ajudaria a fazer com que pudesse vende-la, e então poderia comprar um pequeno apartamento. Tudo o que sabia sobre a casa então, era o que vira em uma fotografia que o advogado lhe mostrara, onde aparecia uma linda casa branca cercada por um belo jardim. 

Íris aguardava a chuva passar, o jipe encostado na beirada da estrada de terra. Mal conseguia ver o que estava do lado de fora devido às janelas embaçadas. Era como se ela fosse a única pessoa viva no mundo todo. Iris, embalada pelo ritmo da música que tocava em seus fones de ouvido, deu um pulo de susto quando escutou batidas na janela do carona, que fizeram com que seu coração desse um salto de pavor. Ela olhou para fora, através do vidro embaçado e das gotas de chuva, apertando os olhos para ver melhor. Instintivamente, acionou as trancas das portas. A pessoa bateu novamente, desta vez com mais força. Iris conseguiu ver o rosto de uma moça que estava ensopada da cabeça aos pés, os cabelos pretos escorridos encharcados, as palmas das mãos apoiadas nos vidros. Com medo, Iris olhou em volta, e respirando fundo, disse a si mesma: “Bem, Iris, é só uma garota.”  E abriu a porta do carro.

A moça entrou junto com uma lufada de ar frio e cheiro de chuva, agradecendo:
Iris notou o quanto ela era bonita, mesmo estando tão molhada e desarrumada. A pele era muito clara e contrastava com o cabelo escuro; as maçãs do rosto eram rosadas e os olhos, de um verde-garrafa que ela nunca tinha visto igual. Era alta e magra, o sonho de toda adolescente. Iris sentiu-se feia perto dela. A moça cumprimentou-a:

-Obrigada por me deixar entrar. Meu nome é Mercedes. Você deve ser a nova moradora da casa de Bárbara, acertei?

Iris encolheu-se no banco, enquanto a outra menina espremia os longos cabelos no chão do carro sem a menor cerimônia. Quando terminou, torceu-os na nuca, em um coque improvisado que deixou-a ainda mais encantadora. Iris respondeu entre os dentes.

-Sou eu sim. Meu nome é Iris. Eu... moro na casa velha.

A moça riu, arregalando os olhos:

-Você só pode estar brincando... você mora mesmo na casa velha? Quero dizer, não na casa menor?

Iris franziu as sobrancelhas:

-Não, não... na verdade, eu e minha mãe vivemos na edícula. A casa está em péssimo estado. Mas estamos tentando melhorá-la um pouco...

-Sozinhas? Ninguém as ajuda?

Iris começou a sentir-se perturbada com tantas perguntas. Concluiu que Mercedes era mesmo uma garota curiosa e expansiva – tudo que ela não era. Respirou fundo, e tentou explicar melhor, tentando soar um pouco irônica. Íris era assim: quando não podia lidar com alguém, recorria à ironia a fim de parecer mais forte do que era.

-Bem, temos a ajuda de Rubens, o caseiro. Você com certeza o conhece também, estou certa? Acho que sabe das histórias de todo mundo por aqui, não é?

Mercedes ergueu novamente as sobrancelhas, pegando no ar a intenção de sua nova conhecida; resolveu entrar no jogo, usando o mesmo tom de voz.

-Com certeza. Nasci e fui criada aqui, conheço todo mundo. Não sou uma forasteira. Como você. mas... então Rubens voltou! Achei que ele tinha ido embora. Pelo menos, ele sumiu depois do enterro de Bárbara. Coo você pode ver, não sei de tudo... mas pelo que vejo, você parece que não está gostando muito daqui. Acertei?

Iris sentiu-se ultrajada:

-Não pretendo esquentar lugar aqui nesse fim de mundo. Minhas ambições são outras. Não suportaria viver nesse lugar onde ninguém tem ambição.

Mercedes provocou:

-Hum... e quais são as suas ambições?

-Você não acha que pergunta demais? Nem nos conhecemos.

Mercedes olhou para fora, desembaçando o vidro com as costas da mão e mudando de assunto bruscamente:

-A chuva diminuiu bem... mas ainda não passou. Será que você poderia me dar uma carona até em casa?

Iris bufou, concordando com a cabeça e dando partida no carro:

-Bem, você vai ter que me mostrar o caminho. Esse jipe não tem GPS. 

E assim, ela dirigiu durante quinze minutos, guiada na direção que a outra apontava. Chegaram em frente a um chalé de madeira pintado de branco, muito gracioso. O terreno era cercado por uma cerca de madeira branca, baixa, e Iris podia ver os canteiros cheios de margaridas e bocas-de-leão. Também conseguiu identificar dálias, roseiras carregadas e algumas árvores frutíferas. Adorou o lugar, mas não daria o braço a torcer. Não disse nada, quando Mercedes agradeceu:

-Obrigada pela carona! Quando quiser, é só aparecer. Será bem tratada por essa habitante selvagem do interior. 

Iris tentou sorrir. A porta do chalé abriu, e ela pôde ver um dos rapazes mais bonitos sobre quem já tinha posto os olhos. Ele era alto, tinha cabelos pretos cacheados, queixo quadrado, maxilares bem desenhados. Era forte e musculoso na medida certa, não como os garotos que faziam academia e exageravam nos exercícios. Ela quase podia adivinhar que aqueles músculos eram fruto de trabalho ao ar livre. Os olhos eram do mesmo verde dos olhos de Mercedes, e ela se perguntou se eles seriam irmãos. Ele aparentava ser alguns anos mais velho, o que a deixou ainda mais interessada. 

O rapaz olhou para ela insistentemente, e Iris corou, sentindo-se uma tola. Logo, Mercedes seguiu a direção do olhar dela, e ao ver o jovem parado à porta de casa, acenou para ele, dizendo:

-Vou te apresentar meu irmão.

Iris teve vontade de fugir, mas Mercedes estava metade dentro do carro, e ela não podia ir embora. O jovem se aproximou, e a cada passo que ele dava, Iris desejava que a terra se abrisse para que ela pudesse se esconder. Nunca se sentira daquela forma antes. Talvez porque ele fosse bonito demais. Ela se sentia um patinho feio entre aqueles dois lindos irmãos. 

Quando ele chegou perto, Mercedes disse, abrindo um sorriso:

-Caio, esta é nossa nova vizinha, a Iris. Ela e a mãe estão morando na casa de Bárbara. Não na casa, mas na edícula.

O rapaz sorriu, e Iris sentiu que suas pernas ficavam moles:

-Prazer, Iris. Gostando da nova casa?

Ela se perguntou se ele não estaria sendo irônico, mas ao olhar para ele, viu em seus olhos apenas gentileza e curiosidade amigável. Ele só estava tentando ser educado e gentil. Ela respondeu:

-“Nova casa” não é bem a descrição certa... mas no momento, é o que temos. Eu... preciso ir agora. Minha mãe está me esperando. 

Mercedes estava de pé ao lado do irmão, e Iris teve a impressão de que ela ia dizer alguma coisa, mas antes que isso acontecesse, deu partida no jipe e saiu dirigindo rapidamente. Mais rápido do que seria necessário. Pelo espelho retrovisor, ela pode ver os dois ainda de pé, olhando o carro partir. Alguns metros adiante, ela encostou o jipe e tentou se acalmar: sua respiração estava ofegante. Ela não conseguia entender o que estava acontecendo com ela. Só sabia que aqueles dois seres encantadores – que mais pareciam coisas do outro mundo, de tão bonitos – tinham-na deixado daquele jeito.

(continua...)








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