terça-feira, 12 de dezembro de 2017

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO VIII









-Nós não pudemos deixar de escutar vocês gritando, meninos! – Disse Sunny, em tom conciliatório. 

Mas de repente, Jane explodiu:

-Nem nós! Escutamos vocês brigando no escritório.

Sunny olhou para Paco, que disse:

-E é exatamente no escritório, por trás de  portas trancadas, que resolvemos nossos conflitos, e não nas partes comuns da casa, por onde os empregados circulam. 

Os dois se desculparam:

-Sinto muito, Sunny e sinto muito, Paco. Esta não é a minha casa, e eu extrapolei.

Paco olhou-o sério, antes de responder:

-Marvin, nós o acolhemos na nossa casa sem qualquer problema. Fizemos e fazemos de tudo para que você se sinta à vontade aqui dentro, mas eu não vou admitir, nem por um instante, que você nos julgue ou questione os nossos valores. Aqui, somos nós que estabelecemos as regras, e se você não concorda com elas, está convidado a não mais frequentar a casa. 

Marvin sentiu-se muito magoado, e pensou que nenhum dos colegas de escola, a não ser ele, frequentavam a casa de Jane. Mas iam à casa dele. Achou que eles também deveriam ter passado por aquele momento. Sunny acrescentou:

-Não podemos admitir que você tente fazer da nossa filha alguém preconceituoso, “quadrado” e infeliz. 

Ele olhou para Jane, que não o olhou de volta e nem disse qualquer palavra. Respirou profundamente; afinal, quem era ele para questionar a maneira como as pessoas viviam? Sentiu-se como seus avós: careta e controlador. Desculpou-se novamente:

-Me desculpem. Não vai acontecer de novo. 

A tensão foi cedendo aos poucos, e logo, todos estavam recostados no sofá, conversando sobre o jogo que aconteceria naquela noite. Seria uma final de campeonato, e Paco, que amava futebol, tinha entradas para todos eles. Mas embora eles tenham se divertido muito durante o jogo, Marvin estava com alguma coisa entalada na garganta que ele não conseguia definir. E achava que não poderia conversar com seus pais, porque, instintivamente, sabia que se eles soubessem o que rolava na casa de Jane, com certeza tentariam proibi-lo de encontrar-se com ela ou frequentar a sua casa. E ele sabia que já tinha swe envolvido com ela mais do que poderia controlar. Não podia, simplesmente, voltar atrás e fingir que Jane não era parte de sua vida. A paixão que sentia por ela era tão forte, que ele não sabia direito o que fazer com ela. Jane era linda. Era uma estrela que brilhava forte. A vioz dela deixava-o totalmente sem reação, e vê-la se aproximando fazia com que o mundo inteiro derretesse e sumisse debaixo dos seus pés. 

Jane era quase toda a sua existência – e ele nem percebia que estava deixando de lado seus amigos de infância e sua própria família para passar tempo com ela. E se fosse preciso mudar para que ela o amasse, ele seria capaz de fazê-lo. O futuro? Uma incógnita. Preferia não pensar muito nele. Temia o dia em que teria que enfrentar ver Jane saindo com outro garoto. E ela sempre lhe prometia que talvez aquilo fosse acontecer um dia.

Numa manhã de sábado, em que Marvin fora mais uma vez passar o dia na casa de Jane, Melissa e Rafaela estavam sozinhas na piscina, pois Cadu tinha ido levar Teófilo, Helena e Gertrude até o ônibus de excursão que os levaria a Caldas Novas – eles iam passar uma semana em uma estação de águas quentes. Melissa pensou se não seria uma boa ideia abordar com a mãe o assunto que lhe perturbava a mente há vários dias: seu irmão. Ela baixou os óculos escuros e olhou para Rafaela de soslaio. Ela parecia concentrada na leitura de uma revista de modas. Melissa pigarreou:

-Mãe... você acha que o Marvin está legal?

Rafaela ergueu os olhos da revista:

-Claro. E ele tem ido ao Dr. Figueiredo uma vez por semana. Se algo errado estivesse acontecendo, ele já teria me ligado. Mas por que pergunta?

-É que... ele anda distante da gente. Diferente...

-Seu irmão está apaixonado. É normal na idade dele. 

-Sim, mas... você já prestou atenção na Jane?

Rafaela baixou a revista, e inclinou-se na direção da filha:

-Sim. Ela é um estouro! Menina linda. Não é à toa que seu irmão está babando em cima dela. 
Melissa tirou os óculos, e sentou-se com as pernas cruzadas, olhando a mãe de frente:

-É, ela é linda sim, mas... já conversaram alguma vez?

Rafaela encolheu os ombros?

-Na verdade, não...

-E ela frequenta a nossa casa há mais de dois meses! Não seria natural que já tivesse aceitado um dos convites para almoçar? Ou que ao menos se interessasse um pouquinho pela nossa vida, por nós? Parece que essa garota esconde alguma coisa. Uma vez tentei conversar com ela, e ela foi monossilábica! Sem contar que ela ignora completamente o Luis e a Gabi. Nem os cumprimenta. Não come nem bebe nada aqui, mal chega e os dois se trancam no quarto do Marvin. e quanto ao vovô e as vovós... ela parece tão desconfortável quando eles estão aqui! E uma vez aquele Max, irmão da Jane, veio aqui para busca-la... e que cara esquisito! 

-Conflito de gerações. Nada demais. O que uma menina como ela teria para conversar com seus avós, Melissa?

Melissa percebeu que não importava como ela abordasse o assunto, a mãe tentava fugir dele, talvez para que a paz temporária pudesse durar. Rafaela não queria se preocupar. Resolveu ser direta:

-Mãe... eu achei maconha na mochila do Marvin. E uns comprimidos estranhos também. 

Rafaela engoliu em seco, e seu rosto perdeu a cor.

-Tem certeza? Porque... o Dr. Figueiredo receitou-lhe uns comprimidos, e...

-Eu conheço remédio para depressão e também comprimidos esquisitos, mãe. Sou adolescente, lembra? Já me ofereceram essas coisas. E também conheço maconha, o cheiro é inconfundível. Você precisa conversar com o Marvin e com o papai.

Rafaela sentiu um alarme soar fininho dentro dela. 

-Eu vou fazer isso, filha. Mas por favor, não deixe que seus avós fiquem sabendo, ou eles vão ter mais um motivo para dizerem o quanto eu sou uma mãe incompetente. 

Melissa percebeu que não ser julgada pelos sogros era quase uma prioridade para a mãe. 

-Aproveite que eles vão ficar uma semana fora. 

-Rafaela colocou os óculos escuros novamente, recostando-se na espreguiçadeira:

-Eu vou falar com seu pai. 

Fingiu estar concentrada na leitura, mas seus pensamentos eram alarmantes: e se precisassem internar o filho de novo? E se Marvin estivesse viciado?
Naquela mesma noite, Rafaela conversou com Cadu sobre o assunto. Ele ficou transtornado:

-Mas Rafaela, você sempre me diz que ele está bem quando eu pergunto! Como é que uma coisa dessas está acontecendo debaixo do seu nariz, e sua filha adolescente precisa alertá-la para que você enxergue?

-Pare de gritar, Cadu! Você, que é o pai, também não notou nada!

-Mas você é a mãe, Rafaela! A mãe! A responsável pelo bem estar dos filhos enquanto eu me arrebento para sustentar todo mundo!

-Peraí, Cadu! Você não faz isso sozinho, eu também trabalho, e ponho dinheiro aqui dentro! E você está me culpando de tudo, como se a responsabilidade fosse só minha?!

Cadu sentou-se na cama, passando as mãos sobre os cabelos, e respirando profundamente. Acalmou-se, e respondeu:

-Me desculpe, é que eu fiquei nervoso, só isso, você tem toda razão. 

Rafela sentou-se ao lado dele, segurando-lhe a mão:

-Precisamos conversar com nosso filho. O mais rápido possível.

Ele concordou com a cabeça. 

-Acho melhor não dizermos que a Melissa nos alertou. Eu... vou dizer que eu achei a droga na mochila dele.

-E ele vai acreditar?

-Não sei... mas não quero que os meninos briguem.

-Só te peço uma coisa: deixe seus pais fora disso, Cadu. Não aguentaria o olhar de censura da sua mãe. Você sabe que  a Helena me detesta.

-Isso não é verdade! Ela apenas se preocupa, Rafaela.

-Não; ela extrapola seus direitos de avó, e se mete em tudo. Não quero os dramalhões dela envolvidos nisso. Não quero ela perseguindo o Marvin e andando em volta dele o tempo todo, sufocando-o. 

Cadu guardou para si a sua irritação, e concordou:

-Ok, eu vou deixar minha mãe fora disso. 

Os dois ficaram acordados até tarde, esperando Marvin chegar. Mandaram Melissa ir para o quarto e deixar que eles tivessem aquela conversa à sós. Marvin chegou por volta das duas da manhã, parecendo levemente embriagado. Ao ver os pais sentados no sofá com ar preocupado, ele olhou de um para o outro e sentiu um certo alarme:

-Tudo bem, pessoal? Aconteceu alguma coisa? Meus avós estão bem?

Eles balançaram a cabeça, e se entreolharam. Cadu falou:

-Seus avós estão ótimos, foram passear por uma semana. Mas temos que ter uma conversa. Sente-se aí, filho. 

Marvin sentiu um certo nervosismo, pois a mãe torcia as mãos sobre o colo, e evitava olhar para ele. Cadu estava assumindo o controle da conversa:

-Eu encontrei uma coisa na sua mochila ontem à noite, filho. Era maconha. Mas o que ram aqueles comprimidos?

Marvin sentiu o rosto ficar vermelho, e explodiu:

-Foi a Melissa, não é? Aquela fofoqueira!

-Não, deixe sua irmã fora disso! Queremos saber o que são os comprimidos.

Marvin viu que não tinha saída, e após um suspiro, disse:

-Alguma coisa para espantar o cansaço. Assim eu posso aproveitar as festas. Mas é tranquilo, pai. Olha, não faz mal se a gente ingerir só um e beber bastante água.

Rafaela disse:

-Meu filho, você sabe o que essas coisas podem causar? Ataque cardíaco! Você pode morrer de repente!

Ele riu:

-Mãe, eu tenho só dezessete anos, e não vou ter um ataque cardíaco, Ok?

Ela ignorou o que seu filho firmou, e perguntou:

-O Dr. Figueiredo sabe disso?

Ele negou com a cabeça:

-É claro que não, mãe! Se eu contasse, ele viria correndo contar a vocês. 

-Ela se alarmou:

-Você vem mentindo para nós e para o seu psiquiatra, Marvin? Onde pretende chegar com isso?

Cadu sentiu que ela estava perdendo o controle, e interrompeu-a:

-Rafaela, espere... o mais importante aqui é que saibamos o que está acontecendo com o nosso filho. Marvin, você sabe que a gente te ama, não é?

Marvin olhou para o pai, parecendo confuso:

-Por que isso agora, pai? Só porque eu fumei um cigarrinho e tomei um ou dois comprimidos? Aí de repente você descobre que me ama?

Cadu ignorou a ironia de Marvin:

-Filho, como são os amigos e a família de sua namorada?

-O que a Jane tem a ver com isso?

Os pais notaram o tom alarmado na voz do filho, e sentiram que tinham colocado o dedo na ferida. 

Cadu tentou uma abordagem mais suave:

-Nada... não temos nada contra ela, mas como você passa a maior parte do seu tempo lá, gostaríamos de conhece-los melhor. 

Rafaela interrompeu:

-Filho, você precisa nos prometer que vai parar de tomar drogas. E que vai parar de usar maconha também. É perigoso, e contra a lei! Você pode ir preso, nós podemos ir presos, somos os responsáveis por você. E a maconha leva ao uso de drogas mais pesadas, nós já conversamos sobre isso, e você sabe!

Marvin achou melhor não discutir. No fundo, ele sabia que estava errado. Concordou com  a cabeça. 

-Eu vou falar com os pais da Jane. Dizer que vocês querem conhecer eles. Mas não sei como vai ser, pois eles são muito ocupados. Sabem, a mãe dela tem uma ONG muito importante, e ajuda um monte de gente carente. E o pai dela é um empresário, ele é muito legal. Os dois são... muito legais. Eu... gosto muito deles. 

Tanto Cadu quanto Rafaela notaram que o filho afirmava algo em que não acreditava, mas que tentava convencer a si mesmo do que dizia. Rafaela tentou sorrir, e acariciou o rosto do filho:

-Mas se é assim... então eles não se negarão a nos receber, ou a aceitar o nosso convite para um café. Mas por favor, diga que não vai mais beber ou tomar qualquer tipo de droga, Marvin. Você está tomando antidepressivos, e a mistura pode ser muito perigosa. E você vai falar com o Dr. Figueiredo. Vai contar a ele a verdade. 

Marvin concordou, e foi autorizado a ir para o quarto. Rafaela e Cadu ainda permaneceram na sala durante algum tempo, tentando convencer um ao outro de que tudo ficaria bem, e que aquilo não passava de uma fase passageira. Ainda se lembraram das vezes em que fumaram maconha juntos quando eram jovens, e riram. Mas ambos sabiam que a coisa não seria tão simples assim. 


(continua...)




3 comentários:

  1. Como terminará a história? Fico curioso demais.
    .
    Hoje
    Límpidas Gotas de Amor em execução de Carência.
    .
    Deixando um abraço poético.
    Uma terça feira muito feliz. Bom dia.
    .

    ResponderExcluir
  2. Olá Ana,
    sempre é tempo de reflexão.
    Adorei os anjinhos .
    Feliz semana, beijos

    ResponderExcluir
  3. Muito bom. Continuando a acompanhar a "estória"
    .
    Escrevendo versos ( Poema Livre)
    O GRITO DO SILÊNCIO DOS AFLITOS.
    .
    Que a luz da Paz, ilumine o seu coração
    Bom dia/Boa tarde/boa noite.
    .

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI Capítulo 13

 CAPÍTULO 13 Achei estranho que o sol parecia nunca se por naquele lugar, e perguntei sobre isso. Imediatamente, começou a escurecer, e lind...