quinta-feira, 26 de abril de 2018

A PAREDE DE VIDRO







Este é o meu conto publicado no livro "Gandavos - Quem Conta, Assombra" - deste ano. O livro contém vários contos fantásticos de vário autores brasileiros.




A Parede de Vidro

Lembro-me da visita à casa, antes de mudar-me. Era uma manhã fria, e surpreendeu-me a quantidade de folhas secas pelo chão quando a corretora abriu a porta. Ela mostrou-me os cômodos vazios, e vi que era o que eu estava procurando: uma casa não muito grande, porém espaçosa, afastada do barulho e do movimento, porém, a poucos quilometros da cidade, e além de tudo, bonita e em ótimo estado de conservação.

Eu estava me mudando para aquela cidade devido a uma oferta de emprego. Recém-divorciada, precisava muito mudar de vida, e a oferta chegou na hora certa. Meus pais ainda tentaram me convencer a ficar na casa deles por algum tempo, mas eu não conseguia enfrentar a possibiliade de dar de cara com  meu ex marido e sua atual namorada ao andar pela cidade. 

Ao percorrer a casa, fiquei pensando no porquê de ela  estar fechada há mais de seis  anos. A corretora não soube me dar uma explicação. Mesmo assim, adorei tudo, e fechei o negócio, alugando-a. O que mais me encantou, foi uma das paredes da sala de estar, que era totalmente de vidro, e dava vista a uma linda mata, separada do pequeno terreno da casa por uma cerca de madeira baixa. Havia um portãozinho de madeira que ligava o terreno a uma trilha que ia para dentro da mata. Logo fiquei sabendo que o proprietário do terreno morrera hà muitos anos, e que jamais construíra nada por ali, e por algum motivo desconhecido, nenhum dos herdeiros estava interessado no pedaço de terra, que permanececia abandonado e tomado pela mata. Eu pensava em algum dia fazer uma visita ao local, mas sempre acabava sendo impedida por algum acontecimento inesperado, como a chegada de algum vizinho dando as boas vindas, um trabalho extra que exigia dedicação total ou alguma outra coisa qualquer.

Eu gostava de me sentar no meu novo sofá confortável e admirar a mata. Às vezes, ficava  em um estado de semi transe, fascinada pela paisagem, e quando dava por mim, muito tempo havia se passado. Um tempo que eu não percebia ou controlava. Era como se eu saisse de mim e acordasse horas depois. Eu simplesmente não conseguia me lembrar de nada. Tinha  a impressão de que sofria um apagão mental. Eu ficava um pouco preocupada, mas depois me acalmava, relegando tudo ao estresse da mudança.

Certo dia, quando eu chegava do trabalho, o vizinho do outro lado da rua aproximou-se para me cumprimentar. Sr. Manoel era um homem idoso, e morava sozinho, ou melhor, na companhia de seus muitos gatos, que ficavam sentados feito iogues sobre o muro da casa, ou estatelados sob o sol da manhã no gramado, ou ocupando toda a a extensão do sofá da varanda. Ele me perguntou se eu estava gostando da casa, e respondi que sim, estava adorando viver ali. Vi nos olhos dele uma certa hesitação, como se quisesse me dizer alguma coisa, mas estava com receio de fazê-lo. Por fim, ele se despediu, dizendo: “Precisando de alguma coisa, a qualquer hora do dia ou da noite, pode bater à minha porta.” Agradeci, e já ia entrando, quando o ouvi dizer: “Você não achou nada na casa que possa assutá-la, não é? Está tudo bem mesmo?”

Pensei no efeito que teria para uma pessoa tão idosa, ver uma mulher jovem  como eu vivendo sozinha em uma casa como aquela. Com certeza, ficaria preocupado, ou curioso. Agradeci novamente, e não mencionei meus apagões ocasionais.

Dias depois, numa tarde de sábado, eu estava sentada no meu sofá com vista indevassável para a mata, aproveitando a tarde fria de outono para ler um novo livro que havia comprado pela manhã. O sol já deitava seus últimos raios no jardim, e acabei adormecendo. Quando acordei, a casa estava totalmente escura. Ainda sonolenta, fiquei algum tempo deitada, olhando o luar que brilhava sobre a mata, quando notei movimentos no lugar. Havia pessoas andando por ali.

Eu ainda não tinha comprado uma cortina que cobrisse a parede de vidro, pois não encontrara uma grande o suficiente, o que deixava a casa completamente à mostra para qualquer pessoa que estivesse na mata e quisesse vê-la. Antes, nem sequer tinha me preocupado com aquilo, já que seria impossível que alguém da rua visualizasse a parede lateral de vidro, e ninguém passava pela mata – pelo menos, não até aquela noite. Decidi que mandaria fazer uma sob medida na segunda feira. O vidro era inquebrável, e por isso não correria o risco de que a casa fosse invadida através dele. As luzes apagadas também não deixariam que aquelas pessoas tivessem uma visão completa da minha sala, a não ser que elas usassem lanternas, e se eu visse uma delas fazendo aquilo, chamaria a polícia. 

Pensando naquilo, ainda fiquei algum tempo observando as sombras escuras que se moviam pela mata. Dava medo. Eu me arrepiava só de pensar que pudessem ser ladrões ou adolescentes delinquentes. Verifiquei todas as janelas e portas antes de ir dormir, certificando-me de que estivessem bem trancadas.

Mas de manhã cedo, acordei sentindo muito frio, e me levantei da cama para perceber, estupefata, que eu estava descoberta e que todas as portas e janelas da casa tinham sido abertas. Havia marcas de pegadas elameadas por todo o piso da casa, e algumas delas estavam em volta da minha cama, como se alguém estivesse me observando enquanto eu dormia.

Chamei a policia, que me fez algumas perguntas, e depois vasculhou o local, e não encontrando nada, foram embora, me aconselhando que trocasse todas as fechaduras da casa. Eu me sentia estranhamente cansada, e achei que estava pegando uma gripe devido a exposição ao frio da noite. Havia círculos escuros de cansaço sob meus olhos, e quando fui tomar banho, notei algumas manchas arroxeadas parecidas com marcas de mãos sobre a parte interna dos braços, como se alguém os tivesse apertado com força – talvez me arrastado. Ao despir-me e olhar as costas da  camisola (estivera vestindo um robe sobre ela quando a polícia chegou), vi que estava completamente suja na parte de trás, e havia pedaços de folhas e galhos grudados ao tecido. Eu havia sido arrastada!

Tomei banho, ainda sob forte estado emocional de insegurança e medo, e quando terminei, ouvi batidas na porta. Era meu vizinho, o Sr. Manoel:

-Vi o carro de polícia. O que aconteceu?

Eu não pretendia dar muitas explicações, mas estava tão devastada, que acabei convidando-o para entrar. Precisava de companhia. Conduzi-o até o sofá, e ele se sentou devagar, olhando a paisagem lá fora com desconfiança. Contei-lhe o que tinha acontecido, e mostrei as marcas em meus braços. Ele me ouviu atentamente, sem interrupções, dizendo em seguida:

-Há uma história sobre esta casa. Algo macabro. Se eu fosse você, iria embora daqui. Pode passar  a noite lá em casa se quiser.

Eu ri, nervosa:

-Preciso muito desse emprego. A firma está pagando o aluguel, e eu não saberia como explicar a eles uma mudança após tão pouco tempo vivendo aqui. E eu... não acredito em histórias macabras, sr. Manoel. Agradeço sua oferta de passar a noite, mas não será necessário. 

-Mas você me disse que a casa foi invadida!

-Com certeza, por alguém que tinha antiga chave. Um policial me deu o telefone de um chaveiro, e ele já está a caminho. 

-Bem, então convide alguém para passar a noite com você!

-Obrigada pela preocupação, mas não conheço ninguém na cidade que possa fazer isso.

Ele sorriu:

-Bem, se você permitir, posso fazer-lhe companhia. 

Eu ri diante da possibilidade: um idoso fazendo-me companhia durante a noite para me proteger de invasores? Não, obrigada... apesar de eu não ter dito nada do que estava pensando, ele pareceu adivinhar, e comentou:

-Posso não ser fisicamente forte, mas tenho muita força. Um tipo de força que é o que você realmente precisa no momento. Sou médium, e demonologista. 

Aquela conversa  estava ficando cada vez mais estranha, e eu já estava pensando no que fazer para interrompê-la quando a chegada do chaveiro poupou-me o trabalho. Despedi-me de meu vizinho educadamente, dizendo que precisava acompanhar o trabalho do chaveiro. 

Na noite de quinta feira eu fui acordada pelos os ecos de um grito angustiado, e já desperta, fiquei deitada na cama, escutando no escuro, para ver se ouvia mais alguma coisa. Estava apavorada! Mas como não escutasse mais nenhum som, acabei adormecendo de novo. Mas sem saber o que me reservava a manhã de sexta feira!

Ao sair para o trabalho, vi um movimento de ambulância e carro de polícia na casa do Sr. Manoel, e a empregada, que conversava com um policial, chorava copiosamente, secando os olhos com um lenço. Me aproximei devagar, tentando descobrir o que tinha acontecido. Pensei que o senhor idoso pudesse ter passado mal durante a noite. Assim que cheguei perto, o policial logo perguntou-me quem eu era, e eu expliquei, no que a empregada dirigiu-se a mim, dizendo:

-Você não imagina o rosto dele! Tinha uma expressão congelada de pavor, a boca escancarada...

Tentei acalmá-la, pedindo que me informasse sobre o horário do velório, e fui trabalhar, prometendo ao policial que caso me lembrasse de ter ouvido alguma coisa estranha, entraria em contato. Não sei porque não mencionei ter escutado gritos durante a noite.

Quando cheguei em casa naquela noite, havia um bilhete sob a porta com informações sobre o velório, que seria no dia seguinte. A perícia concluiu que o pobre homem tinha morrido de um enfarto fulminante. No sábado pela manhã fui caminhando à pé até a pequena capela indicada pela empregada, onde meu ex-vizinho estava sendo velado. Ainda era cedo, e quando entrei na igreja, vi que eu estava sozinha. Andei até o caixão, e encontrei-o lacrado. Fechei os olhos e comecei a fazer uma oração. Foi quando senti o peso de uma mão em meu ombro. Abri os olhos e olhei em volta, mas não vi ninguém. Um arrepio de pavor percorreu meu corpo e eu quase gritei. Principalmente após ouvir claramente a voz do meu vizinho dizendo: “Saia daquela casa o quanto antes! Eles me pegaram porque tentei ajudar você!”

Saí correndo dali, e tranquei-me em casa, achando que eu estava ficando louca. Telefonei aos meus pais apenas para ouvir a voz deles, mas nada contei sobre os últimos fatos ocorrido, pois não pretendia assustá-los. Falar com eles deixou-me mais calma, e após dar uma caminhada por um parque próximo, voltei para casa me sentindo melhor.

Almocei e tomei um banho. Sentei-me no sofá a fim de terminar meu livro, e decidi que ficaria atenta para não dormir ou ter outro daqueles meus apagões. Me concentrei na leitura. De vez em quando, parava de ler e olhava lá para fora apenas para constatar que tudo estava normal. Tentava me convecer de que tudo não passara de coincidência, e que uma pessoa idosa vivendo sozinha poderia ter imaginação fértil, assim como eu, após tudo o que passara os últimos meses.

Não sei como, mas acabei adormecendo. Quando acordei, olhei para meu corpo e vi que estava suja de lama e sangue, e as minhas unhas estavam lascadas e imundas. Olhei-me no espelho: meu rosto estava pálido e muito sujo de terra e sangue. As roupas rasgadas e laceradas pendiam sobre meu corpo, que doía como se eu tivesse me exercitado exageradamente. Cada músculo era um feixe de dor. Achei que poderia tomar um banho e procurar um médico na segunda feira, supondo que fosse ainda domingo, mas quando o telefone tocou e eu atendi, fiquei absolutamente pasma: era minha chefe, Denise:

-Carla! Estamos preocupados com você. Não veio trabalhar ontem, e já são dez da manhã de terça. Você está doente?

Meu coração batia tão forte que eu mal conseguia falar: tinha dormido dois dias! E pior de tudo, acordei naquele estado lastimável. Desculpei-me com minha chefe, alegando que estivera tão doente, que não consegui levantar-me da cama para avisar, mas que estava melhorando e iria trabalhar no dia seguinte. Entrei no chuveiro, e sentada no chão, chorei de pavor.

Esta é a minha história, e só posso dizer que ela é verdadeira. Mas vocês me trouxeram para esta delegacia e me acusam de ter chacinado uma família inteira! Olhem para mim: tenho 1,50m e peso 49 quilos; como poderia ter matado um homem que pesava 90 quilos, sua mulher e três filhos?

O policial respirou fundo mais uma vez:

_Você foi vista deixando o local do crime suja de sangue e carregando um machado, que foi encontrado em sua casa, debaixo da sua cama. Há sangue das vítimas sob suas unhas, e suas impressões digitais estão nas maçanetas e corrimões da casa. Vasculhamos a sua casa, e encontramos um desenho sob o tapete da sala que faz parte de um ritual satanista.

-Eu já disse que não fui eu quem o fez! Não sei de desenho nenhum! Também não matei ninguém, podem ter feito uma armação para mim!

O policial fez sinal para o carcereiro:

-Leve-a de volta para a cela. Amanhã o psiquiatra virá para avaliá-la.



FIM




6 comentários:

  1. Acredito que sejam bons livros. Adorei o texto. Publicação fantástica :))

    Hoje:- Eis a fonte que nos alimenta alma

    Bjos
    Votos de uma boa Quinta-Feira

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  2. Boa tarde. Muito bom de ler. Uma pergunta: Será que as pessoas que visitam este lindo blogue, lêem tão extenso tema?

    * Solidão sentida por uma Ave, cansada. *
    .
    Um dia feliz

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  3. Ana, que história arrepiante!
    Amo seus textos, poesias e histórias, você é muito criativa, parabéns!
    Feliz FDS, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  4. Minha nossa, Ana!!
    Não esperava por esse final! Fiquei surpresa! Parabéns pela escrita firme e fluída. A leitura me envolveu e quando vi já tinha terminado!!
    Como admiradora do gênero fantástico, amo Poe, eu jamais conseguiria alugar ou comprar uma casa com parede de vidro e com vistas para uma mata, e muito menos duvidar de um vizinho que conhecesse a história do local. Não sou supersticiosa, mas que existem coisas além da nossa compreensão existem. Então melhor ficar longe...rsrs
    Adorei!

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    1. Nem eu faria tais coisas, Vivian, mas nas histórias de terror, as pessoas sempre fazem coisas tolas, como ir lá fora à noite sozinhas para verificar o motivo de um barulho estranho. Obrigada pela leitura!

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