segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Lar de Ofélia - Parte IV










A manhã silenciosa deixou-a nervosa. Havia uma névoa cobrindo tudo, as montanhas ao longe, os topos das árvores do jardim. Enquanto caminhava pela casa, tentando sentir as energias que, cada vez mais, se conectavam com ela, Ofélia pensava nos últimos acontecimentos. Achava que poeria estar ficando louca. Afinal, não era nada normal que o sangue de uma pessoa fizesse parte de um jardim seco e morto crescer diante dos olhos de repente. mas quando Ofélia olhava da janela, via que parte do jardim, a que estava |à direita da casa, onde ela se ferira no dia anterior, estava linda e viçosa, enquanto a parte esquerda continuava um amontoado de plantas ressequidas e feias. 

Ela olhou para a própria mão, e teve um impulso: levou o dedo indicador aos lábios, apertando um pedaço de pele entre os dentes até sangrar. Precisava tirar a prova daquilo tudo. A dor aguda e o gosto metálico fizeram com que Ofélia soltasse um gemido. E enquanto o sangue escorria da ponta de seu dedo (ela mordera a parte lateral junto à unha), Ofélia esticou a mão para fora da janela e deixou o sangue cair sobre o solo lá fora. Parecia uma cena de filme: assim que a primeira gota tocou o chão, uma onda verdejante começou a surgir a partir dela. Boquiaberta e sentindo algo entre maravilhada, fascinada e apavorada, Ofélia deixou escapar um pequeno grito de surpresa. Logo, ela viu camélias se abrindo em pequenas e moles nuvens brancas sobre o verde escuro das folhas; a grama cresceu e aveludou-se. As árvores tornaram-se frondosas, suas folhas farfalhando à brisa da manhã.

Acidentalmente, ela tocou o parapeito da janela com  a mão ferida, ainda sangrando. A tinta, rachada e desbotada, refez-se imediatamente, voltando à cor original - molduras azul-claras e caixas cor de creme. Extasiada, ela espremeu o dedo e foi de cômodo em cômodo, tocando janelas e portas, que imediatamente assumiram aparência de novas. Quando o dedo parou de sangrar, ela pegou dentro da bolsa um alicate de unhas e, antes de fazer o que tinha em mente, respirou fundo, cortando-se. Desta vez, Ofélia fez um talho maior, no dedo médio, para que este sangrasse mais profusamente.

Ao final daquele dia, Ofélia tinha as mãos sujas de sangue e cheias de cortes - encontrara uma faca na cozinha. A casa estava quase toda renovada, através do sangue dela. 

Não tinha jeito: seu pai teria que vender a casa para ela. Ofélia sentia que não poderia mais separar-se dela - elas eram uma, unidas por alguma história fantástica que ela pretendia desvendar. Pensou em passar a noite na casa, mas achou melhor ir embora, a fim de não chamar atenção. 

Ela abriu o tablet, apagando as fotografias da casa que havia obtido no dia anterior e produzindo novas, já com a casa renovada. Mandou-as ao pai, atendendo ao pedido dele. 

Antes de deixar a casa, Ofélia parou no portão e olhou para ela, que parecia estar se comunicando com ela; ela pensou que se a casa pudesse falar, teria dito "Até amanhã."

Quando chegou em seu prédio, a expressão assustada do porteiro ao vê-la coberta de sangue a fez lembrar que se esquecera de lavar as mãos, e quando passou pelo espelho da recepção do prédio, notou que sua blusa branca estava também toda manchada de sangue. Ela a tocara sem perceber. Ofélia entrou no elevador, e enquanto a porta se fechava, acenou alegremente para o porteiro, que a seguira, o rosto espantado. Ainda teve tempo de dizer, antes da porta se fechar: "Não é nada, foi um corte no dedo." 

Já em seu apartamento, assim que entrou em casa e religou o celular, ele começou a pipocar mensagens do pai, querendo notícias dela. Ela respirou fundo, e enquanto se despia para tomar banho, ligou para ele, colocando o aparelho em viva-voz:

-Oi, Pai. Eu estava na casa, recebeu as fotos?

-Sim, mas... eu não entendo! O Sérgio, que foi ver a casa antes de fecharmos a compra, tinha me dito que ela estava em péssimo estado. As fotos que você me mandou mostram algo totalmente diferente!

-Ora, pai... eu disse que ela não estava tão ruim assim. 

-Mas... esta casa... tem certeza que é a mesma que o Sérgio foi ver?

-Claro. A não ser que ela tenha se "auto-reformado." 

Dizendo aquilo, ela deu uma gargalhada.

-Vai deixar eu ficar com a casa, pai? 

Ele demorou um pouco antes de responder:

-Conversaremos amanhã no escritório. Você vai trabalhar amanhã, não é?

-Claro que sim. Aliás, eu trabalhei hoje também, fiquei o dia todo na casa. Eu... pai, eu nunca pedi nada a você. Por favor, pense com carinho no meu pedido.

-Veremos.


(continua...)




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