quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE XII





Bruno chegou ao portão da casa e olhou para dentro, através das grades pesadas de ferro. Há dias não via Ofélia. Ela simplesmente sumira de sua vida, e também recusava-se a atender às suas ligações. Ele esticou o pescoço, tentando ver os fundos da casa. Notou que havia marcas de pneus no caminho para carros arenoso. Bruno não teve dúvidas: as marcas dos pneus mostravam que um carro havia entrado lá, mas não tinha saído. Ficou preocupado com Ofélia. Tocou a campainha várias vezes, sem obter resposta.

De repente, ele ouviu um ruído distante de algo que se quebrava dentro da casa, talvez um objeto de vidro. Não teve dúvidas: escalou o portão e entrou. Ao tentar abrir a porta da frente, esta se encontrava trancada, então ele deu a volta na varanda que rodeava toda a casa, e olhou através das vidraças. Viu um pequeno vaso de flores no chão; por trás dele, do outro lado de onde ele se encontrava, havia uma janela aberta por onde o vento entrava, balançando as cortinas. Bruno descobriu o porquê do vaso estar quebrado. 

Correu ao outro lado, entrando na casa pela janela. 

Tudo estava silencioso. A casa, imaculadamente limpa, era um poço ameaçador de silêncio. A luz da tarde entrava pelas vidraças, mas nem mesmo a claridade amenizava aquela atmosfera de que alguma coisa pesada estava presente ali. Ele chamou por Ofélia; lá em cima, um farfalhar chamou sua atenção, e Bruno subiu até o quarto onde Ofélia costumava dormir. Ao chegar lá, mal pode acreditar no que viu:

Deitada na cama, Ofélia, de olhos fechados, estava muito pálida; tão pálida, que ele pensou que o pior pudesse ter acontecido a ela. Vestia uma camisola branca, e estava mais magra do que quando se conheceram. Assustado, Bruno sentou-se na cama, pegando a mão dela, que estava gelada, mas ele viu que ela estava respirando, e deu um suspiro de alívio. Bruno pensou nas histórias sobre a Bela Adormecida que sua mãe contava quando ele era ainda bem pequeno. Achou que se a beijasse, Ofélia despertaria daquele sono estranho. Assim ele o fez.

Aproximou o rosto do dela, beijando-a na boca levemente. Ofélia estremeceu, e abriu os olhos. Bruno sorriu para ela:

-Olá, Bela Adormecida! Se esqueceu mesmo de mim, hein? 

Ela esfregou os olhos:

-Bruno... o que você está fazendo aqui? 

Ofélia sentou-se na cama, mas sentiu-se tonta, e Bruno a segurou em seus braços. 

-Você está bem?

Ela concordou com a cabeça:

-Sim... acho que dormi demais... só isso.

-Ofélia... há quanto tempo você está aqui na casa, sozinha?

Ela respirou profundamente, desvencilhando-se dele e sentando-se na cama, as mãos segurando fortemente a beirada do colchão, e disse:

- Eu não lhe devo satisfações, Bruno. Só porque nós...

Ele a interrompeu:

-Você está muito magra e muito pálida. Há quanto tempo não come? Precisa comer alguma coisa.

Ela concordou com ele:

-E vou fazer isto agora mesmo. Vamos até a cozinha.

Ofélia calçou seus chinelos de pelo, macios e quentes, e agradeceu mentalmente por eles estarem ali. Ela sentia frio, muito frio; pegou sobre a cadeira o seu casaco, vestindo-o e aconchegando-se a ele. Bruno seguiu-a até a cozinha, enquanto Ofélia começou a preparar uma macarronada. Ela andava feito um zumbi, pegando os ingredientes nos armários e colocando os pratos, copos e talheres sobre a mesa.  Bruno notou que ela estava muito diferente - quase apática. Notou também os cabelos desgrenhados e a pele do rosto ressecada. Enquanto ela se movia lentamente pela cozinha, a luz do sol entrava pela janela e batia sobre a grande mesa de madeira. Bruno pensou que aquela seria uma cena bucólica, se não fosse a situação esquisita que ele estava presenciando. Tentou falar com ela novamente:

-Ofélia... eu senti sua falta.

Ela não o olhou, mas respondeu:

-Bruno, você precisa entender que o que tivemos foi passageiro. Bom, mas acabou. Não faz sentido. Não podemos ficar juntos. Você é anos luz mais jovem que eu, e além disso, eu não estou nem nunca estive apaixonada por você.

Ele se sentiu um idiota romântico. Entrara ali com ares de príncipe salvador, mas estava sendo repelido pela sua princesa adormecida. Zangado, ele disse:

-Ok, Ofélia, tudo bem. Se é assim que você quer... mas precisa me dizer o que está acontecendo. Você não está bem, e isso é gritante. Passou por muita coisa. Precisa conversar com alguém. 

-Mas não com você. 

Ela falava as coisas sem gritar ou expressar qualquer tipo de emoção. Não parecia a mesma pessoa que tinha feito amor com ele apaixonadamente. Não tinha mais aquele brilho de curiosidade e vida nos olhos. Bruno achou que a casa estava fazendo aquilo com ela. 

Segurando um feixe de massa de macarrão, ela o olhou pela primeira vez:

-Vai ficar para comer?

-Você está me convidando?

Ela encolheu os ombros:

-Acho que sim. Mas não pense nada além disso: é só um convite para almoçar. 

Ele riu, tristemente, e concordou com a cabeça:

-Eu aceito. 

Ela andou até o fogão, onde uma panela de água fervia, e colocou o macarrão dentro dela. Ficou olhando a água borbulhar e o macarrão afundar aos poucos. Bruno disse:

- Por que não se senta aqui um pouco, enquanto a massa cozinha? 

Ofélia sentou-se à mesa, diante dele, os olhos circundados por olheiras. Bruno pensou em estender as mãos e segurar as dela, que estavam sobre a mesa, mas desistiu da ideia. 

-Me diz o que está rolando, Ofélia. 

Ela o encarou, os olhos sem vida:

-Se eu te disser, vai achar que eu estou louca. 

-Não depois de tudo o que eu vi acontecendo nesta casa. Desembucha logo, vai!

Ofélia começou a contar a ele tudo o que estava vivenciando. Falou-lhe sobre seus encontros com Anselmo e Vivian, e do quanto aquilo a estava deixando confusa, pois ao mesmo tempo que parecia ser a coisa certa estar junto deles, ela não entendia o medo que sentia de, justamente, estar junto deles. Bruno escutou sem interrompê-la. 

Mais tarde, enquanto comiam em silêncio, ele disse com urgência:

-Você precisa sair desta casa. Precisa sair, Ofélia. 

Ela o olhou apaticamente durante algum tempo, antes de responder:

-Não. Preciso chegar ao final dessa história. Preciso entender o que Anselmo quer que eu faça. Eles são a minha família, Bruno, e eu quero muito poder estar com eles. Deus, você não sabe o quanto eu sentia a falta deles... e só descobri isso depois que eu os conheci. Depois que os vi de novo.

-O final desta história não pode ser bom. Pode ser o final da sua história! Venha comigo, vamos sair daqui! Se não quiser me ver mais, não tem problema; mas eu queria saber um dia que você ficou bem. 

Bruno percebeu que de nada adiantaria argumentar com ela; ele tinha perdido Ofélia para um fantasma. Desanimado, ele disse:

-Que pena, e que desperdício de vida. Você é uma bela mulher, tão cheia da grana... tem um futuro bacana pela frente... e fica aqui, presa a um fantasma! É lamentável. 

Pela primeira vez, ela demonstrou alguma emoção: fúria. Erguendo a voz, Ofélia gritou: 

-Não fale deles assim! 

Bruno largou os talheres e levantou-se:

-Se cuida, Ofélia. Se precisar de mim, sabe como me encontrar. Eu vou embora agora. Essa história me cansou. 


(continua...)







3 comentários:

  1. Te cuida Ofélia porque o bicho vai
    pegar...
    Anda logo, Aninha, quero saber mais
    desta história.

    Beijos.


    .

    ResponderExcluir
  2. Tem de haver paciência, kkkkkk. Adorei o capitulo :))

    Hoje O teu sussurro.

    Bjos
    Votos de uma boa noite.

    ResponderExcluir

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