quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O LAR DE OFÉLIA - PARTE XIV







As outras vidas de Ofélia chegaram de repente, misturadas umas às outras; ela viu-se como um homem, pai de uma menina que reconheceu como sendo Anselmo, e estava casado com uma bela mulher maltratada pela dureza da vida, que reconheceu como Viviam. Os papéis se invertiam vertiginosamente. Em todas aquelas vidas, a existência deles tinha sido miserável, e eles morreram cedo demais, vítimas de maus tratos, pobreza extrema, doenças não tratadas, escravidão, fome e guerra. Seus papéis de pai/mãe/filho ou filha alternavam-se, e embora aquilo acontecesse rapidamente, Ofélia compreendia cada história e revivia a dor de cada uma delas. 
Até que chegando a uma daquelas vidas, o relógio do tempo começou a andar mais devagar, parando em uma determinada cena:

Era o ano de 1415. A família estava de pé no meio de um grande pátio ao ar livre, as mãos amarradas atrás dos seus corpos, tentando protegerem as retaguardas uns dos outros. O frio noturno era intenso e cruel, e seus lábios estavam roxos. Criaturas ricas e bem vestidas os rodeavam, observando e apontando. Ofélia era então a mulher, a mãe. Ela compreendeu que a partir daquela vida, tudo mudaria para eles. 

As pessoas se aproximaram, puxando Anselmo para mais perto deles e para longe dela. Os gritos de pavor não pareciam afetar aquelas pessoas de olhares frios e distantes; pelo contrário, deixavam-nas ainda mais sedentas e excitadas. Um dos homens deixou aparecerem suas presas, aproximando-as do pescoço forçosamente esticado de Anselmo, e fincando nele as presas afiadas, alimentou-se, passando- para os outros, que se serviram. Ofélia previa o terrível futuro próximo, impotente para proteger a sua pequena filha e a si mesma. 

De repente, ela ouviu ruídos de cavalos que se aproximavam, e vislumbrou uma armada ao longe. Homens carregavam tochas no meio da noite, e ela notou que logo estariam perto deles. As pessoas fugiram ao grito de uma delas, que dizia que a armada trazia estacas de madeira e estavam acompanhadas pelo Bispo em pessoa. Anselmo ficou quase morto no meio do pátio.

Depois que eles se foram, Ofélia pensou no destino de sua família: assim que aqueles homens chegassem, matariam Anselmo para que ele não se transformasse, e depois, deixariam ela e a filha à mercê do destino, se não decidissem matá-las também a fim de não deixar testemunhas. Com muito esforço, Ofélia conseguiu soltar-se e à menina, ajudando Anselmo a se levantar. Os três se esconderam atrás de um muro, sob um monte de feno, e Ofélia deu ordens para que Viviam não fizesse nenhum barulho, tapando com a mão a boca da menina. Os três ficaram escondidos ali, ouvindo a conversa :

-Eles se foram. Nós os perdemos mais uma vez!

-Acho que levaram suas presas com eles. Não há nem sinal deles por aqui. Vejam o sangue no chão!

-Se um deles foi mordido, precisamos encontrá-lo!

-Matem também os outros que estiverem com eles. Não queremos testemunhas causando pânico entre o povo.

Ofélia ouviu passos que se aproximavam do local onde se encontravam. Apavorada, ela conseguia escutar as batidas do próprio coração. Ela sentiu uma grande pedra solta sob sua mão, e teve uma ideia: sem pensar duas vezes, pegou a pedra e jogou-a com força para o outro lado do pátio, o que fez com que os homens corressem naquela direção. Enquanto isso, os três se embrenharam na escuridão e conseguiram fugir para a floresta, onde se esconderam sobre a copa de uma grande árvore até que os cavaleiros fossem embora. Ninguém sabia, na vila onde moravam, que eles tinham sido pegos, então seria seguro voltar para lá e continuar vivendo a vida como se nada tivesse acontecido.

E foi o que a família fez. Caminharam a noite toda e chegaram em casa ao amanhecer. As ruas ainda estavam vazias, e puderam entrar em casa sem serem vistos. Imediatamente ao chegarem, Ofélia fez o marido febril deitar-se na cama, despindo-o e lavando as roupas sujas de sangue imediatamente. Também fez com que a filha se aquecesse, acendendo o fogão e colocando um velho cobertor sobre os ombros da menina após fazê-la comer um prato de mingau de aveia. Ela também tinha fome e frio, mas havia coisas a fazer antes que pudesse, finalmente, descansar e comer. Lavou e estendeu as roupas de Anselmo junto ao fogo para secá-las; tentou fazê-lo comer, mas em seu delírio, ele jogou longe a tigela de mingau com um safanão. 

Três dias se passaram, e Anselmo só piorava. Ela disse à filha que não comentasse com ninguém sobre a saúde do pai, mas que se alguém na vila perguntasse por ele, que ela dissesse que ele tinha saído em viagem até a próxima cidade, onde venderia algumas peles. Ofélia sabia que Anselmo estava sofrendo a transformação. Sabia também o que aquilo significava: ela o perderia para sempre.

A não ser que pedisse a ele que a transformasse, e também à filha. 

Na noite do quarto dia, ela despertou e deparou com uma silhueta masculina velando seu sono. Era Anselmo, não apenas recuperado da febre, mas também com aparência saudável e forte, um homem transformado, realmente belo e com um forte apelo sensual. Ofélia sentiu um arrepio na coluna ao vê-lo daquela forma. Olhou para a menina magrinha, de aparência frágil e muito pálida que dormia aconchegada a ela, e vislumbrou também a miséria do cômodo onde viviam há anos. Anselmo murmurou:

- Tenho sede. Mas é uma sede estranha. 

Ofélia compreendeu que a transformação havia terminado, mas que ele ainda não tinha consciência de sua nova vida e aparência. Afastando os cabelos do pescoço, ela virou-se de lado na cama, e disse:

-Mate a sua sede, meu amor. Você agora é um deles. Transforme-nos também. Beba de nós, mas não até a última gota. Matará a sua sede, isto é certo, mas estaremos condenados a uma outra sede, que apesar de eterna, é a nossa única chance de sobrevivência. Mas se você não o fizer, teremos que nos separar para sempre. O tempo nos afastará, pois eu envelhecerei e morrerei, mas você será sempre jovem e forte. 

Ao ver a pele alva oferecendo-se a ele, Anselmo não teve dúvidas sobre o que deveria fazer, e obedeceu a esposa. 

Logo, em uma noite de lua nova, os três abriram as portas do casebre, e caminharam para fora, respirando o ar puro da noite, e prontos para recomeçarem sua nova e eterna vida. Os outros da sua espécie logo os encontraram, cuidando para que fossem recebidos entre eles. Grandes riquezas lhes foram dadas, e a família, que passou a ser respeitada por todos, tornou-se dona de um grande castelo em um país longe dali, onde se instalaram como ricos imigrantes

(continua...)




3 comentários:

  1. Mais um bonito capitulo que está a ir muito bem. Adorei. :))

    Hoje » És a minha luz.

    Bjos
    Votos de uma óptima noite

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  2. Boa noite, Ana. O seu conto é um encantamento só. A bonança, por fim, se sobrepôs às intempéries. Causa muita expectativa a continuidade. Meus efusivos parabéns e um terno abraço.

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  3. Bom dia!
    Um texto intenso, com contratempos, mas tudo e compõe! Amei!!

    Coisas de uma Vida
    Beijos e um excelente dia!

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