quarta-feira, 31 de julho de 2019

INOCÊNCIA - CAPÍTULO XXIX, PARTE II







VIII – Encaixes

E então, para minha surpresa, algo inusitado aconteceu na manhã seguinte, logo depois que Gustavo foi embora.

 Eu fui levar o café da manhã para minha avó como sempre fazia. Bati à porta levemente antes de entrar, e fiquei surpresa ao encontrar o quarto às escuras e minha avó ainda entre as cobertas. Ela sempre estava sentada na cama me aguardando, e as cortinas, abertas. 

Parei à porta, respirando fundo, pois fiquei apreensiva. Coloquei a bandeja com o café da manhã sobre a cômoda e abri as cortinas, pensando que se ela estivesse morta, eu estaria perdida. Escutei um gemido vindo da cama, e quando me aproximei, minha avó me encarava com os olhos arregalados e a boca torta. 

Era óbvio que ela tinha sofrido um derrame durante a noite. Olhando para ela, não senti nenhuma piedade ou afeição por aquela mulher que me tratara sempre com tanta frieza e crueldade desde que eu chegara até ali, há quatro meses. Nós nos encaramos e senti que ela aguardava de mim uma atitude, e então, gritei com todas as minhas forças, e Jandira entrou correndo:

-O que aconteceu?

Apontei para a cama, fingindo choque, e Jandira levou as mãos à boca antes de agarrar o telefone e chamar o médico, que chegou quase quarenta minutos mais tarde. 

Ele entrou no quarto, examinou minha vó, que não se movia ou falava, e disse:

-Ela teve um acidente vascular cerebral. Ainda não posso dizer o quanto a afetou, é preciso que Dona Helena seja hospitalizada imediatamente para fazer exames. 

Eu e Jandira nos entreolhamos, e acho que pude ler a insinuação de um sorriso no rosto dela, e não entendi bem o motivo, já que se minha avó morresse, nós duas sofreríamos as consequências de não recebermos um tostão sequer de sua herança, que como ela mesma dissera, seria destinada a obras de caridade. 

Uma ambulância chamada pelo médico levou minha avó para o hospital, e eu a acompanhei. Jandira me renderia durante a noite, quando eu voltaria à fazenda. 
Eu estava na sala de espera do hospital quando Gustavo chegou, sentando-se ao meu lado e segurando minhas mãos:

-Como ela está?
-Ainda fazendo exames.

Ele concordou com a cabeça. Olhando-me nos olhos, perguntou:

-Como você está?

Encolhi os ombros: 

-Estou bem... não vou mentir para você, Gustavo. Minha avó não gosta de mim, e eu não gosto dela. Não lhe desejo o pior, porém, mas a sua morte não me faria triste. 

-Entendo você.

Ele parecia que tinha um rio inteiro dentro dele, pronto a transbordar quando me olhava. Tinha a impressão de que havia alguma coisa que ele gostaria muito de me dizer. Finalmente, perguntei, após alguns minutos:

-O que você tem? Parece preocupado. E não é sobre a minha avó.

Ele concordou com a cabeça, dizendo:

-Sim, é verdade. Queria te dizer uma coisa, ou melhor, duas coisas. Mas talvez este não seja o melhor momento. 

Levantei-me e andei até a janela, e então virei-me para ele, que estava de pé atrás de mim. Gustavo era um homem muito bonito, e não pude deixar de me lembrar da noite anterior, quando eu estivera em seus braços e tinha sido dele. Um arrepio me percorreu.

- Cristina... eu... desmanchei tudo com minha noiva hoje pela manhã. 

Meu coração quase saiu pela boca e rolou pela sala até o outro canto. Levei a mão ao peito, tentando respirar melhor, pois não sabia o que aquilo representaria no meu destino. Se eu o amava? Bem, acho que sim, mas o conselho de minha avó martelava em minha cabeça: “Controle a sua paixão! Use a sua razão!” 

Olhei para ele; seu olhar ansioso e úmido perscrutava meu rosto, em busca de uma reação. 

-Cristina... eu sei que é demais para você, talvez eu devesse ter esperado para contar-lhe. Mas de qualquer forma, não importa qual seja a sua decisão, eu teria desmanchado o noivado de qualquer forma, pois não amava mais a minha noiva. Não seria justo levar isso adiante, ela merece alguém que a ame de verdade. Assim, não se sinta culpada por ela. Eu... eu amo você, desde o primeiro momento em que a vi. Pela sua beleza, pela sua força, sua sensualidade, sua verdade, sua simplicidade. Quero que você se case comigo.

Aquelas palavras me encheram de uma alegria verdadeira que há muito eu não sentia. Nunca ninguém tinha me dito que me amava com tanta verdade! Nem mesmo meus pais, nem mesmo Marcelo. 

Eu cedi aos meus impulsos e o abracei, e nós nos beijamos em seguida. Senti que eu o queria, eu o queria muito. Deixei a paixão dominar a razão. Eu disse “Sim” ao pedido de casamento várias vezes, e nós nos beijamos sem parar. 

Olhei-o:

-Mas você me disse que tinha duas coisas para me dizer. Qual é a segunda?

-Bem... sua avó mentiu para você. Ela fez um testamento – eu mesmo o redigi. Só não contei antes porque ela me proibiu de fazê-lo. Metade da sua fortuna será herdada por seu pai, e a outra metade, por você e Jandira. Ela reconheceu que seu avô é o pai de Jandira.

Pensei com frieza; então eu teria apenas vinte e cinco por cento de tudo o que eu almejava! Mas... quanto aquilo representava? Eu não sabia. 



Mais tarde, naquela noite, ao deixar o hospital, Gustavo visitou-me na fazenda e me mostrou a enorme fortuna que vinte e cinco por cento dos bens de minha avó representavam. 





(CONTINUA...)










5 comentários:

  1. Oi Ana, e agora, ela vai torcer para a avó morrer?
    Boa semana,beijos,Vi

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  2. Muchas gracias por tu paso
    y aportacion al blog
    Me alegra que te guste
    Espero tus opiniones
    sobre mis pensamientos o y poemas

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  3. Minha querida Ana,
    fico aqui imaginando alguém examinando minuciosamente o carpir de outra pessoa, que de tanto chorar, se tremia ansiosa. Essa parte do texto é bem tocante.
    Esperando a continuidade...
    Beijos!
    Bom final de semana!!!

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  4. Oh Anna, I am totally under the spell of this fantastic story...am holding my breath...will Grandma die...??
    So very touching and beautiful...😊😊

    Big Hugs, always ❤❤❤❤❤❤❤

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