quarta-feira, 9 de outubro de 2019

29 ANOS DEPOIS







Ela trabalhava durante o dia e estudava à noite em uma escola estadual. Vivia uma vida bastante comum e sem grandes ambições imediatas, a não ser trabalhar e estudar sem ainda saber muito bem porque. É claro, ela tinha sonhos: queria uma vida melhor. Sonhava com uma casa que ficaria em um terreno onde haveria um lindo jardinzinho, e uma árvore que ela pudesse ver da janela do seu quarto de dormir. Pensava em cachorros correndo pelo quintal. Ainda não pensava em casar-se - este era o último de seus objetivos, se é que um dia ela se casaria.

Numa noite, após deixar a escola noturna com uma amiga, ela o viu. Ele estava de pé à porta de um colégio particular, olhando lá para dentro. Quando ela passou por ele e olhou para trás, percebeu que ele também a seguia com o olhar. Aquilo ainda aconteceria algumas vezes. Ela se lembrou-se de um dia, há muitos e muitos anos (talvez ela ainda tivesse dezesseis anos  naqueles tempos) no qual estava sentada nas escadas de casa, quando viu uma motocicleta passar com um menino muito parecido com ele. Anos depois, ela confirmaria aquela impressão através das palavras dele mesmo. "Sim, era eu. Eu pilotava a moto de um colega."

Certa noite, ela estava de pé no ponto de ônibus quando ele passou do outro lado da rua e fez sinal para ela, perguntando se ela gostaria de acompanhá-lo caminhando para casa (os dois moravam no mesmo bairro - ela descobrira aquilo naquela mesma noite). Assim, eles ficaram se conhecendo.

Ela tinha apenas 18 anos, e ele, 19. Marcaram um encontro à porta do colégio dela na noite seguinte após as aulas, mas eles se esqueceram de definir qual era a porta - se a dos fundos ou a da frente, e assim, se desencontraram. Não existiam telefones celulares naquele tempo, e por isso não puderam se falar e confirmar onde estavam.

Mais de uma semana se passou, e ela pensava muito nele. Não mais o vira na hora da saída da escola. Sua irmã a convenceu a pegar um catálogo telefônico e procurar por ele, já que ela sabia onde ele morava. Talvez ele tivesse tentado achá-la daquela forma, mas ela não tinha telefone em casa, e como só tinham se falado uma única vez, talvez ele achasse que não ficava bem bater à porta da casa dela.

Assim, após muito hesitar, ela resolveu procurar por ele. Os dois esclareceram o mal entendido e começaram a namorar. Ele pensou que ela tinha se arrependido e faltado ao encontro, e ela pensou o mesmo sobre ele. 

Às vezes ela tinha a impressão de que as coisas estavam muito contra eles, pois apenas uma semana mais tarde, ela teve uma doença e ficou quinze dias sem poder sair, mas ele foi visitá-la em casa, e ainda enfrentou um jantar com o pai dela, que tinha fama de ser um pai rígido no bairro. Mas os dois não apenas se deram bem desde o início, como tornaram-se grandes amigos e parceiros de jogos de carta.

Ela ainda ficaria doente várias vezes - problemas de garganta recorrentes, febres, infecções e problemas de estômago e intestino. Tais problemas a deixavam afastada do trabalho por muitos dias, e ela pensou que o namoro não resistiria a tantas doenças, mas a história deles estava escrita nas estrelas, e ele permaneceu firme ao lado dela, mesmo com todas as dificuldades.

O namoro deles foi assim, aos trancos e barrancos, cheio de impedimentos e dificuldades. Ela sentia, devido às tantas dificuldades,  que talvez ele não fosse a pessoa certa para ela, mas estavam apaixonados. Muitas vezes ela teve vontade de desistir diante dos problemas que tiveram que enfrentar. Havia muito ciúme, intrigas e inveja em volta deles. 

Mesmo assim eles se casaram, oito anos após se conhecerem e um noivado que durou seis anos. Nem todos estavam felizes durante o casamento deles. Os primeiros anos foram muito difíceis, e quando ela olha para trás, não sabe como conseguiram ficar juntos por tanto tempo. Talvez, a única explicação seja esta:

Quando duas pessoas se amam de verdade, elas resistem a tudo. Elas crescem juntas e amadurecem, aprendendo a cederem e a serem mais flexíveis. Duas pessoas que se amam aprendem também que a coisa mais importante em um relacionamento não é se os outros aprovam ou não, mas o quanto eles desejam realmente ficarem juntos. Acima de tudo, eles amadurecem o suficiente a fim de lidarem com os obstáculos, identificando-os e vencendo-os um a um. 

Hoje, 35 anos após se conhecerem e 29 anos de casados, eles vivem em uma casa que tem um pequeno e lindo jardim, e existe um cedro à janela do quarto. De manhã, os passarinhos vêm cantar para eles. Ainda existem dificuldades às vezes, mas eles as superam e aprendem com elas para que possam permanecer juntos. Esta história ainda não terminou, e só terminará quando um deles morrer, porque tem que ser assim. É a vontade deles que importa.




22 comentários:

  1. Fabulous work indeed...that had me mesmerized!
    Oh I so enjoyed😊😊
    And your picture is fantastic...such amazing colours!!

    Hugs xxx

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  2. Um conto, muito bem escrito e explicado, que até parece real.
    Concordo! O amor qdo verdadeiro resiste a todo e qualquer contratempo. Parabéns!

    Abraços e bom final de semana.

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  3. A imagem, que encima o seu texto é linda e invulgar. Tudo de bom!

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  4. Olá Ana ,
    Um conto bonito apesar de tantos obstáculos permeando o caminho dos dois, mas, o amor foi mais forte. Também gostei muito da ilustração.

    abraço!

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  5. Ana,
    Que lindo texto!
    Lembra um pouco a minha historia
    com meu par de 39 anos de vida
    juntos.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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  6. Boa noite:- Um texto muito interessante. A fazer lembrar a juventude muita gente, mou seja, muitos de nós.
    .
    …… Ando por aqui …….
    .
    ^^^ Passeando sob o luar ^^^
    ^^^ Pensamentos e Devaneios Poéticos ^^^
    .
    Deixando cumprimentos.

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  7. Uma história bem apaixonante.

    Beijinhos e um sábado muito feliz.
    danielasilva-oficial.blogspot.com/

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  8. Um amor consolidado em uma linda amizade, sabe Ana, se não houver no limiar a amizade, nada restará, pois as efusões iniciais se transformam em respeito, carinho, vontade de ficar sempre juntos na cumplicidade de uma história que se narra no tempo.Muito real seu conto.b

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  9. Very nice, Ana. My husband and I have been married for more than fifty years, and you're right. The secret to remaining in a relationship and making it work lies within the wills of the two people. Both have to be committed to the union and be willing to work at it.

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  10. Meu coração já sentia a dor da saudade
    A falta de todos amizades
    ficaram distante num imenso vasio.
    È maravilhoso quando sentimos
    a presença de Deus.
    Deus me fortaleceu .
    Da vida, não quero muito.
    Quero apenas saber que tentei de tudo ..
    Tive tudo o que pude. Amei tudo o que valia a pena.
    E perdi apenas o que, no fundo, nunca foi meu.
    Um abraço saudoso com amor..

    Um amor sem Fim.

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  11. Que estória linda, Ana! É a sua estória? Se for, parabéns!
    Um abraço daqui do sul.

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  12. Assim! Simplesmente assim, querida amiga Ana. Beijo.

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  13. Oi Ana, estava torcendo para dar certo, fiquei feliz que ficaram juntos, a gente sempre torce para que o amor vença tudo.
    Muitos beijos,Vi

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  14. Como você adivinhou minha história?
    Foi muito parecida com essa, estou até escrevendo nossas lembranças para neta ler quando for adulta.
    Adorei. Parabens, escrevei lindamente.
    blogjoturquezzamundial
    Beijos.

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  15. Olá amiga!

    É sempre bom voltar aqui e apreciar sua linda publicação.Minha querida Ana, ando meu ausente mas sempre que retorno aqui me encantam suas histórias, muito bem escritas e o enredo fantástico! Esse amor com certeza já nasceu para se eternizar. Um verdadeiro amor logo de início se percebe, se sente e dele se alimenta. Amei! Parabéns!

    Deixo um pensamento da Clarice correia “Nossa vida é feita de infinitos grandes
    dias, e alguns deles são feitos de coisas pequeninas
    que se tornam grandes por serem especiais”
    Abraços da amiga Lourdes Duarte

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  16. Uma história que acontece em vários cantos do mundo e que é encantadora! Belo texto.

    Devaneios e Desvarios

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  17. Ah, e amei este seu blog, ele é simplesmente encantador, tanto nas histórias quanto no visual.
    Abraços!

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