quarta-feira, 8 de abril de 2020

MADRE - Capítulo 10





MADRE - Capítulo 10

O jantar foi muito tranquilo. Mayara escolhera uma música suave como pano de fundo, e fomos servidas por uma das empregadas da casa, que permaneceu junto à mesa o tempo todo, em silêncio absoluto, as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Eu realmente não estava acostumada a tanto luxo e reverência, e estava achando aquilo tudo fantástico, mas também assustador. Mayara falava com a mulher suavemente, mas notei algo de cortante em sua voz. Era como se ela quisesse que suas ordens fossem bem compreendidas e jamais questionadas. A mulher parecia acostumada a servir, mas prestava muita atenção às ordens e tinha movimentos seguros, precisos, como alguém muito bem treinado. Fiquei pensando no que poderia acontecer se ela derramasse algo ao servir. Durante o jantar, fiquei sabendo que seu nome era Elvira. Mayara me disse que sempre que eu precisasse de alguma coisa poderia pedir a Elvira, caso ela não estivesse por perto.
A comida era algo tão delicioso e leve que nem sei descrever. Algo macio e espumoso de entrada, que derretia na boca, seguido por carne assada e legumes. As porções eram pequenas, mas após a sobremesa, descobri que eu estava satisfeita. Ela me convidou para tomarmos um chá digestivo na varanda. Chá digestivo?, pensei; aquela comida não precisava de nada digestivo, pois era perfeita! Mesmo assim, eu concordei com a cabeça. 

A outra mulher, chamada Rosa, serviu-nos um chá aromático com biscoitinhos bem pequenos de damasco. As xícaras eram tão finas que dava medo de segurá-las. Notei que Mayara colocava sua xícara de volta no pires sem fazer nenhum ruído, e mesmo que eu tentasse, não conseguia imitá-la. Eu era como um elefante em uma loja de louças. Mas ela não parecia reparar ou se importar. 

Conversamos sobre coisas mais corriqueiras, como a minha escola e meus amigos, minhas músicas e filmes prediletos, animais de estimação. Rimos muito das nossas histórias sobre eles. Mayara adorava animais de estimação, e disse que me mostraria seus dois cavalos e seus três cães de caça na manhã seguinte. Ela também tinha um casal de faisões que ficavam soltos pelo jardim, e uma águia que pertencera ao seu marido e que ela libertara após a morte dele, mas que continuava voltando para casa todas as tardes. Seu nome era Fênix. Também havia um pequeno lago com patos. Ela disse que me mostraria tudo no dia seguinte.
Sem querer, mal consegui disfarçar um bocejo. Já passavam das dez da noite, e eu estava exausta. Imediatamente, ela me disse que eu podia ir dormir, e que ela ainda tinha que dar algumas ordens na casa. 

Entrei naquele cômodo maravilhoso que agora era o meu quarto, vesti a camisola cor-de-rosa esvoaçante que Elvira separou para mim e me deitei entre o edredon macio e os lençóis perfumados. Pretendia telefonar para minha avó e Nina, mas nem deu tempo: Mal pus minha cabeça no travesseiro, adormeci.

Horas mais tarde, ainda tonta de sono, eu escutava as batidas insistentes. Me sentia como se estivesse em um limbo, entre o sono e a realidade. Estava tão cansada, tanto física quanto emocionalmente, que mal podia abrir os olhos. As batidas continuavam no fundo da minha cabeça. Eu achava que tudo não passava de um sonho. Também escutei vozes no corredor da casa, e abrindo os olhos, vi a luz acesa por debaixo da fresta da porta do quarto. Ouvi passos apressados cruzando o corredor, e uma porta ranger. Depois, pés que subiam uma escadaria. Contei: dez degraus. Naquele momento eu já estava totalmente desperta. Vozes abafadas. Alguém parecia estar chorando.

Eu me levantei, e me adaptando à escuridão, vislumbrei o caminho até a porta do quarto. Esfreguei os olhos, encostei a cabeça na porta e escutei. Tentei a maçaneta: eu estava trancada! Alguém tinha trancado a porta do meu quarto! Ainda tentei girá-la várias vezes; afinal, casas antigas podiam ter seus problemas. Nada: eu estava presa. 

Comecei a sentir uma angústia tomando conta de mim, salpicada de medo. Eu estava na casa de uma mulher que era a minha mãe verdadeira, mas quem era ela, realmente? Crescera longe dela, e na verdade, não a conhecia. Por que eu estava trancada no quarto? Minha mão direita se ergueu para começar a bater naquela porta que me impedia de sair, mas antes que ela pudesse baixar sobre a madeira com toda a força do meu desespero, ouvi um ‘click’ na fechadura. Passos apressados se afastaram da porta e morreram ao final do corredor. Uma outra porta bateu, se fechando. Testei a maçaneta: a minha porta tinha sido aberta.
Alguém saiu no meio da noite e trancou a porta do meu quarto por precaução, talvez porque não quisesse que eu visse alguma coisa. 

Abri a porta bem devagar, uma fresta suficiente para que eu pudesse enxergar o corredor escuro e silencioso. Senti calafrios na espinha. 

Na manhã seguinte, às vinte para nove da manhã, antes que eu saísse do quarto, liguei para minha avó. Nós conversamos por alguns minutos. Eu estava na sacada do meu quarto olhando o jardim lá embaixo e o movimento do jardineiro – o mesmo homem que nos recebera quando chegamos. Ele me viu, e me cumprimentou com um aceno de cabeça. Eu acenei de volta para ele. Minha avó me perguntava se eu estava bem, e como era Mayara. Eu disse que ela era linda, e que sua casa era linda. Achei melhor não mencionar a noite anterior. Nina gritava que estava com saudades. Ela às vezes pegava o fone e, chorosa, me pedia que voltasse. Impaciente, minha avó finalmente ralhou com ela, dizendo que se acalmasse e me deixasse em paz, pois toda aquela choradeira estava deixando todo mundo nervoso. 

Depois de lidar com elas, jurando que eu estava bem e que entraria em contato assim que pudesse, liguei também para Mateus, que atendeu o telefone com voz sonolenta. Me lembrei de que ele provavelmente trabalhara a noite toda, e me senti péssima por tê-lo acordado! Mas conversamos durante algum tempo, e como sempre, ele me deu toda a atenção do mundo. Também não mencionei nada sobre a noite anterior. 
Ao desligar o telefone, eu me perguntei o porquê de ter escondido deles aqueles acontecimentos estranhos, e não achei uma resposta. 

Me vesti – uma das roupas maravilhosas que Mayara comprara para mim – e desci as escadas. Ela estava tomando o café da manhã na varanda, entre bules de porcelana e xícaras com formatos e desenhos intrincados que pareciam tão caros, que davam medo de tocar. Ao me ver, seu rosto se iluminou em um sorriso e ela fez sinal para que eu me sentasse ao lado dela, e eu obedeci, me servindo de um brioche recheado com queijo quentinho e maravilhoso. Seria muito fácil me acostumar àquela vida! 

-E então, dormiu bem, - ela perguntou, mas já sabendo a resposta. Olhei para ela, acabei de mastigar meu brioche e tomando um gole de café, respondi:

-Muito bem. E você?

O tom da minha pergunta era bastante inquisidor e soou um tanto irônico, e logo me arrependi, mas ela apenas concordou com a cabeça, mudando de assunto:

-Então,  Aisha... (Ela fez sinal para que Elvira deixasse a sala, e continuou) estive pensando sobre a escola...
Eu a interrompi:

-O ano letivo está perdido, e vou continuar apenas no ano que vem. Fiquei muito tempo fora, por causa do acidente e da morte dos meus... pais. Agora eu prefiro não pensar nisso.

Ela pareceu surpresa, e corou levemente:

-Claro, mas... é que existe uma escola excelente por aqui. Estive conversando com a diretora por telefone. 
Ela acha que com aulas de reforço, você pode recuperar os meses perdidos. O que acha?

Ela parecia ter certeza de que eu ia ficar morando com ela. E também percebi que ela tinha assumido o papel de mãe completamente, não só escolhendo minhas roupas e arrumando meu quarto, mas também tentando decidir sobre minha vida escolar. Eu me lembrei da porta trancada. Me coloquei na defensiva:

-Já disse, agradeço sua preocupação, mas não voltarei para a escola esse ano. Não estou com cabeça para estudar. E nem sei se vou ficar morando aqui muito tempo, sabe. Prometi para minha avó que eu ia voltar para morar com ela. 

Uma sombra passou pelo rosto dela e apagou seu sorriso. Ela esmagou a ponta do guardanapo, e um músculo tremeu em sua testa. Mayara não gostava de ser contrariada, e aquilo estava ficando cada vez mais óbvio, na maneira como ela Às vezes perdia a paciência com os empregados e o quanto ela tentava ‘arrumar’ as coisas para mim e fazer planos para a minha vida, sem nem me conhecer direito. Quando eu vivia com meus pais adotivos, estava sempre cumprindo ordens: Não tenha redes sociais usando seu nome verdadeiro, não publique fotos suas, não ande sozinha sem avisar onde está, não fale com estranhos, arrume suas coisas AGORA e entre no carro! Eu não queria mais aquele tipo de coisa na minha vida. 

(continua...)




6 comentários:

  1. Lendo e acompanhando o desenrolar do bonito conto.
    .
    Uma feliz quarta-feira

    ResponderExcluir
  2. Mais um bonito episódio de um bom conto! Adorei :)


    Beijos. Boa noite!

    ResponderExcluir
  3. I am more and more intrigued as this fabulous story progresses...😊😊

    Happy Easter!

    Hugs xxx

    ResponderExcluir
  4. Independentemente de ler o texto/poema, aqui inserto, passo a fim de desejar uma PÁSCOA muito feliz, extensível a tua a sua família, independentemente dos condicionalismos inerentes, e impostos, pelo afastamento social e quarentena que, todos nós estamos a viver e a sofrer.
    .
    Abraço virtual.

    ResponderExcluir
  5. Boa tarde tudo bem? Procuro novos seguidores para o meu blog. Posso te seguir também. https://viagenspelobrasilerio.blogspot.com/?m=1

    Se você me seguir manda o link para o meu blog que eu te sigo de volta.

    ResponderExcluir
  6. Chegando com a história andando...
    Vou começar a ler do início...

    Abraço minha amiga...

    ResponderExcluir

Obrigada por visitar-me. Adoraria saber sua opinião. Por favor, deixe seu comentário.

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 14 - FINAL

  Havia na fazenda uma casa menor para hóspedes, que geralmente ficava fechada, e nós nos mudamos para lá. Uma semana depois do incêndio, Af...