sexta-feira, 17 de abril de 2020

MADRE- Capítulo 11








MADRE - Capítulo 11

Cada vez mais eu notava a distância entre nós e as três pessoas que trabalhavam na casa – Rosa, Elvira e Ronaldo, o jardineiro de Mayara e ocasionalmente, motorista também. Por mais que eu tentasse conversar com eles, estabelecendo um pouco mais de proximidade, eles se mantinham distantes e polidamente frios, e insistiam em me chamar de senhorita Aisha, mesmo que eu pedisse que me chamassem apenas de Aisha. Se eu fizesse alguma pergunta em relação à casa ou à minha mãe, eles apenas baixavam a cabeça e me diziam que não estavam autorizados a comentar nada ou que não sabiam nada sobre o assunto. Quando perguntei sobre a porta trancada no meu quarto, as duas mulheres se entreolharam e disseram que não passavam a noite na casa, e portanto, nada podiam me dizer sobre aquilo.

Minha mãe também mantinha um certo ar de mistério. Uma tarde, ela me convidou para o seu quarto, e enquanto eu examinava algumas fotos de meu falecido pai e de Georgina, minha falecida irmã gêmea, eu perguntei a ela como meu pai era. Mayara aproximou-se de mim, e pegando a fotografia do senhor distinto e bonito das minhas mãos, olhou para ele longamente antes de responder. 

-Eu era muito jovem e estava totalmente perdida quando o conheci. Tinha minha filha para cuidar e trabalhava em uma loja de roupas finas, que foi onde nos conhecemos. Lúcio se apaixonou por mim imediatamente. Estava lá para comprar um presente para sua namorada.

-Ele era comprometido quando a conheceu?

-Sim. Mas logo terminou. Logo após a primeira noite que me convidou para sair com ele. Seu outro relacionamento não era sério. Segundo ele mesmo, era só sexo. Eu me senti feito uma princesa decaída que encontra seu príncipe encantado de repente. Lúcio me levava a lugares incríveis, que eu jamais imaginava que poderia frequentar! Em alguns deles, eu tinha trabalhado como garçonete durante alguns eventos... agora eu entrava pela porta da frente, em grande estilo. Ele era gentil, e doce... a diferença de idade – ele era quase trinta anos mais velho – não foi importante. Lúcio não tinha família, a não ser um tio distante que já faleceu... era muito sozinho antes de me conhecer, e talvez tenha se identificado comigo por causa disso.

Enquanto ela falava, eu notava que ela revivia sua história. Dava pequenas pausas em seu relato, saboreando momentos que só ela enxergava. Perguntei sobre Georgina, e o rosto dela ficou encoberto por uma sombra, que modificava a suavidade de suas feições como uma nuvem negra que corta um céu de brigadeiro.

-Georgina era apenas uma criança quando nós a perdemos. Ela era linda e feliz, como toda criança... eu estava casada com Lúcio há dois anos. Ela era a luz e a alegria da vida dele! 

Notei um certo ressentimento quando ela disse aquilo. Não consegui deixar de perguntar:

-E você tinha ciúmes?

Ela se virou para me olhar, o rosto branco feito a parede atrás dela. Seu tom de voz foi cortante:

-Por que diz isso?

Eu engoli em seco, guardando as fotos de volta na caixa e me sentando ereta na cama:

-Nada, é que... não sei, só tive a impressão. Não sei por que perguntei, desculpe. Mas... tem uma coisa que eu gostaria de perguntar. Sobre a minha primeira noite aqui.

Ela suavizou sua expressão:

-Ora, e por que não perguntou antes, querida? Já está aqui há cinco dias!

Eu ri, tentando descontrair a atmosfera pesada do ambiente.

-Bem, vou perguntar agora! 

Ela estava sentada em uma poltrona em frente à cama, e inclinou-se em minha direção para me dar atenção. Por trás dela, a janela aberta despejava relances de verde quando a cortina de seda se levantava com a brisa. Notei o quanto ela era bonita.

-É que eu escutei alguns barulhos que me acordaram naquela noite. Depois vi uma luz debaixo da porta... e quando tentei abri-la, estava trancada.

Ela riu:

-É uma casa antiga, e as fechaduras são todas originais. Com certeza, emperrou. Bem, isso significa que você agora vive em uma casa muito velha. Mas é só tentar mais algumas vezes, e elas acabam se abrindo. 

Me senti uma tola após a explicação dela. Era lógico que ninguém havia trancado a minha porta! Eu e a minha imaginação fértil... também pensei no que ela acabara de afirmar: “Você agora vive em uma casa velha. ” Eu não me sentia assim, como alguém que morava ali, mas apenas como alguém que estava passando um tempo, visitando.

De repente, ela se levantou com um pequeno salto, e batendo as palmas das mãos, sugeriu:

-Hey! Que tal sairmos para fazer umas compras? Preciso de um vestido novo para ir a uma festa, e você também. Vai comigo, certo? Quero apresentar você a todos os meus amigos. A festa é daqui a três dias, na casa de minha amiga Dalva. Você vai adorar ela! Ela é divorciada e tem um filho da sua idade. Você vai adorar o Ian!

A mudança de humor dela foi tão repentina que eu me assustei. Mayara era uma caixinha de surpresas! Ela me segurou pelo braço, e começamos a sair do quarto, enquanto ela dizia:

-Vamos às compras! Vá se trocar. Te encontro na sala em quinze minutos!

E eu a obedeci, incapaz (e sem a menor vontade) de confrontá-la e, ao mesmo tempo, curiosa para sair um pouco e andar pela cidade. Conhecer gente nova também me faria bem. Nós fomos ao shopping center, onde Mayara me levou nas melhores lojas. Os homens viravam a cabeça quando nós passávamos por eles, esfuziantes e sorridentes. Eu estava começando a gostar muito de minha mãe, mas ao mesmo tempo, tinha alguma coisa que estava me deixando insegura e eu não sabia o que era. 

Ela experimentou vários vestidos, até que se decidiu por um longo preto todo esvoaçante que a deixava simplesmente estonteante. Eu escolhi – ou melhor, ela escolheu para mim – um vestido longo mais simples e mais condizente com a minha idade, segundo ela, de cor prata com detalhes em preto. Enquanto eu me olhava no espelho, fascinada pela beleza do que eu via, Mayara chegou perto de mim e pegando meus cabelos soltos, ergueu-os em um coque no alto da minha cabeça. Notei pela primeira vez o quanto éramos fisicamente parecidas: o mesmo nariz afilado, a mesma curva do queijo sob o lábio inferior, os olhos cinzento-azulados que costumavam trocar de cor conforme a claridade. Me senti tão bonita quanto ela! E pela primeira vez, também me senti parte dela – sua filha. Senti vontade de abraça-la, e eu o fiz. 

Quando nos separamos, notei que ela chorava. Enxugou as lágrimas furtivamente com as costas da mão, e me olhando nos olhos, sugeriu:

-Que tal me chamar de mãe daqui pra frente? Eu ficaria muito feliz.

Eu abri a boca para responder, mas minha voz não saiu. Ela tomou aquilo como uma atitude precipitada de sua parte, e logo se desculpou:

-Desculpe, eu não quero pressionar você... eu só pensei que...

Mas eu a interrompi:

-Mãe! Está tudo bem! 

Eu disse aquilo sem o menor esforço. Ela sorriu para mim, e pela primeira vez em muitos anos, eu me senti segura. Nunca mais eu precisaria sair correndo no meio da noite. Nunca mais teria que abandonar meus amigos e minha escola para fugir correndo de alguém que era parte de quem eu realmente era. Nunca mais teria que sentir medo de gostar das pessoas por  ter que perde-las mais tarde. Eu agora teria raízes. Teria um lar, uma mãe, uma vida de verdade!

(Continua...)








3 comentários:

  1. Um texto/episódio, tão bonito!
    -
    Bom fim de semana
    Beijinhos

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  3. Ana , cada capítulo é melhor que o outro .
    Beijos e bom final de semana

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