terça-feira, 12 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - CAPÍTULO 2





Bob teve um sonho estranho naquela noite: sonhou que era uma criança, um menino que usava roupas antigas e corria alegremente pela casa. Viu pessoas que pareciam muito familiares a ele no sonho, mas que não conhecia na vida real. Todas elas usavam roupas do começo do século passado. Havia uma mulher loira de cabelos cacheados presos em um coque mal-feito, muito jovem e bonita, a quem ele chamava de mãe. Ele podia sentir seu espírito livre e alegre, pela maneira como ela andava pela casa arranjando vasos de flores, seu riso fácil e pouco condizente com os costumes da época, a mania de andar descalça pelos cômodos da casa e até pelo jardim. Ela conseguia arrancar sorrisos de seu pai carrancudo, embora ele sempre tentasse resistir, mas logo se rendia a ela e aos seus encantos. 

 Já seu pai era um homem sisudo que aparentava ser bem mais velho que a delicada jovem que acolhia o filho de braços abertos enquanto brincava com ele descalça, no lindo jardim gramado. 

Sentado em uma cadeira de balanço na varanda da casa, seu pai os observava por cima do jornal que fingia ler. A moça acenava para ele, chamando-o para que se juntasse a eles no gramado, mas ele apenas sacudia o jornal e continuava a ler, fingindo impaciência. Mas no fundo, Bob sabia que ele era um homem bom, e sentia-se amado por ele. 

Havia também uma menina de uma casa vizinha que vinha brincar com ele. Eram da mesma idade - cerca de onze anos - e ela era esguia, de longos cabelos negros e olhos coloridos, como dois pedaços de vidro azul-cobalto brilhantes. Bob sabia que ela se chamava Bernadete. Os dois corriam pelo jardim, rindo e brincando de pique-esconde. Em um determinado momento, deram a volta por trás da casa e Bernadete ajoelhou-se no chão, junto à porta que dava para o porão, e cavando com um pedaço de madeira, desenterrou uma pequena caixa. Bob olhou para a caixa que ela abrira, e visualizou coisas como pedras coloridas e brilhantes  que estavam guardadas em um saco de veludo azul-marinho, papéis de carta dobrados em envelopes amassados e algumas fotografias. Ela olhou para ele e fez sinal de silêncio, enterrando novamente a caixa.

Quando Bob despertou, sentiu um peso no coração ao abrir os olhos na casa vazia e suja. Podia sentir que toda a vida que ali existira há muito estava ausente, e que as pessoas que moraram na casa a tinham deixado contra a vontade. Como ele sabia daquilo? Bob não tinha  menor ideia!

Ele se levantou, guardando o saco de dormir e foi para a cozinha preparar um café com alguns utensílios que encontrou por lá. O bule e a chaleira estavam fechados em um armário. Ele usou a água que trouxera com ele para lavá-los e preparar o café em um fogareiro que montou sobre a pia após limpá-la um pouco. Mas enquanto tomava o café, Bob começou a lembrar-se de elementos do sonho, e também da caixa que Bernadete enterrara junto à entrada de um porão que ele nem sabia se existia.

Ainda mastigando os últimos pedaços de pão, ele foi até a parte de trás da casa e encontrou um ambiente exatamente igual ao do sonho, embora coberto pelo mato. Não precisou muito para que identificasse o local onde Bernadete havia enterrado  a caixa em seu sonho! Ele afastou o mato com o facão, e jogando-se no chão de joelhos, começou a cavar o chão com a ponta da lâmina do facão. Não demorou muito para esbarrar em algo duro. Com o coração aos pulos, Bob terminou de desenterrar a caixa de madeira com as próprias mãos.

Era uma caixa pequena, e havia restos de alguma pintura feita na tampa, provavelmente por uma criança. Era fechada por um pequeno cadeado que Bob conseguiu abrir facilmente após usar a ponta de um canivete. O coração de Bob dava saltos dentro do peito: o que haveria na caixa? 

Agarrado a ela, Bob foi até os degraus da varanda da casa, onde o sol da manhã brilhava. Reparou que havia muitos pássaros cantando nas árvores, e por instantes, sentiu que já tinha vivido uma experiência parecida com aquela. Ao abrir a caixa, deparou com os envelopes e com o saquinho de veludo marinho. Abriu um dos envelopes: era uma carta de amor onde uma letra infantil confessava seu amor por um menino chamado Leonardo. De repente, Bob sentiu-se aquele menino! Não ficou surpreso ao ver a assinatura: Bernadete. Encontrou outras cartas dela para Leonardo - ou para ele, e também as respostas que ele escrevera para ela. As letras nas cartas iam amadurecendo conforme o tempo passava, e Bob percebeu que elas tinham sido escritas em um período de oito anos. 

Nas fotografias amarelecidas, Bob identificou Leonardo e Bernadete em diferentes fases de suas vidas. As cartas falavam em um amor que começou cedo, aos onze anos de idade, mas que por interferência da família dela, foi interrompido. Aos dezenove anos, Bernadete menciona um noivo escolhido para ela por seus pais, e do dote em pedras preciosas que ele, seu pai,  receberia por ela após o casamento. A família estava em sérias dificuldades financeiras, e não havia outra saída a não ser o casamento. Mas Bernadete, profundamente infeliz, acabou encontrando as pedras preciosas dadas ao seu pai e as escondendo na caixa que enterrara no jardim da casa de Leonardo. Se ela fosse obrigada a se casar com alguém que não amava, não admitiria que seu pai lucrasse através daquilo! 

Ao dar pelo sumiço das pedras, o pai de Bernadete esbravejou, demitiu empregados, culpou Leonardo e sua família pelo desaparecimento, acionou investigadores policiais para investigar o caso, sem sucesso, e até surrou Bernardete... mas ela não confessou a ele o seu crime, ou onde estavam as pedras. No fim, ele acabou desistindo de encontrar as pedras preciosas, e a família do noivo fez uma nova doação, já que eram muito ricos.

Assim, o casamento aconteceu. Os dois namorados não mais podiam se ver, embora vivessem tão próximos um do outro, mas continuaram se correspondendo secretamente. As cartas iam todas sendo colocadas na caixa de madeira que ficava enterrada nos fundos do jardim de Leonardo. Bernadete as escrevia, ele as respondia e depois ela  remetia as respostas de volta para ele, junto com uma nova carta. Havia uma jovem  empregada da casa de Leonardo que servia de pombo correio ao jovem casal: ela esperava que o marido de Bernadete saísse para o trabalho e então ia até lá, entregar as novas cartas de Leonardo e recolher as respostas de Bernadete e as cartas já lidas por ela. 

 Mas Leonardo escrevia também cartas a si mesmo, nas quais falava sobre como se sentia mortificado e infeliz pela ausência física de sua amada. Enquanto lia tais cartas. Bob experienciava as emoções de Leonardo com todo o realismo, como se as emoções fossem suas, e a dor de Leonardo era ressuscitada e revivida através dele. 

(continua...)







7 comentários:

  1. Oi Ana!Encontrei seu blog por acaso e comecei a ler a história...acabei querendo saber como vai terminar.Me fale quando tiver outro capítulo tá?Houve um tempo que eu também escrevia...

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  2. Acompanhando a Estória

    ( Peço desculpa: Publicar textos menos longos talves seja um modo de quem lê não se "aborrecer" e/ou "cansar". É apenas uma opinião. Mas pense nisso. )
    .
    Uma noite feliz
    Cuide-se

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    Respostas
    1. Olá, Rykardo. Acho que já discutimos esse mérito em uma outra ocasião. Este é um blog onde publico CONTOS, e os textos são longos. Se você se sente aborfrecido ao ler, procure blogs que ofereçam conteúdos do seu gosto e que tenham a extensão que seu intelecto consegue comportar.

      Grata pela sugestão.

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  3. Um estória longa mas interessante!:)
    -
    Sou como um rio, tão cheia de nada

    Beijo e uma excelente noite...

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  4. Ana
    Continuo a seguir e muito entusiasmada com a trama que promete muito mistério e suspense.
    Voltarei para ler a continuaçao.
    Saude e beijinhos
    :)
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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  5. Ana,
    Leio como quem toma água
    fresca
    num momento de sede.
    Bjins
    CatiahoAl.

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