sexta-feira, 8 de maio de 2020

AS CASAS VELHAS E AS VIDAS ABANDONADAS - Capítulo 1









Bob tinha uma página no YouTube na qual ele postava vídeos sobre velhas casas abandonadas - e seus fantasmas, caso eles existissem. O nome do canal era VIDAS ABANDONADAS. A atividade o levava a viajar muito nos finais de semana, assim que ficava sabendo de uma nova velha casa - e quase sempre, os próprios seguidores do canal o alertavam sobre elas. Quando Bob tirava férias do trabalho, ele geralmente viajava para locais mais distantes, onde passava todo o tempo visitando velhas casas e fazendo vídeos sobre elas. Era sua atividade preferida.

Mas tal atividade fez dele uma pessoa bastante solitária. Solteiro aos 33 anos, embora fosse considerado um homem atraente, Bob decidira que, como as freiras que se casavam com Jesus Cristo, ele se casaria com suas casas velhas. E dentro dele, a cada visita, ele ia acrescentando-as à memória uma a uma. Seu interior era cheio de velhas casas abandonadas, nas quais ele morava. Muitas vezes, Bob as revisitava e fazia novas postagens sobre elas; "afinal, é preciso rever os velhos amigos", ele dizia. E a cada vez que revisitava uma de "suas" casas, Bob encontrava-a mais  vazia, pois as pessoas as invadiam e depredavam. Ele não: sempre deixava-as intactas após as suas visitas e filmagens, e jamais revelava os endereços das casas, exatamente para não encorajar os vândalos.

Um dia, ele ficou sabendo sobre uma casa dentro de uma floresta, que estava abandonada há mais de trinta anos, sem que ninguém a tivesse habitado ou visitado naquele período de tempo. A pessoa que o informou sobre a casa não se identificou: deu-lhe apenas as coordenadas para que Bob encontrasse a tal casa. Naquele mesmo final de semana, Bob entrou no seu carro com o equipamento de filmagem e os habituais suprimentos, como velas, baterias, comida, um cobertor (caso precisasse passar a noite) e uma garrafa de vinho tinto. Dirigiu durante horas. Passou a entrada duas vezes, tendo que voltar quilômetros, mas finalmente, encontrou a estradinha de terra que levava floresta adentro, em direção à casa. O caminho era difícil, e o jipe chacoalhou durante quase uma hora. Bob já estava pensando em desistir quando finalmente avistou um imponente portão de ferro no meio de uma clareira. Estava trancado à cadeado. Bob desceu do carro e forçou-o, e o cadeado, devido à ferrujem, caiu no chão. Ele olhou para dentro do portão e avistou um terreno muito grande e um caminho tomado pelo matagal. Seria difícil entrar alí. Mas ele voltou ao carro, pegou um facão de cortar mato que levava em suas empreitadas e começou o trabalho de desbravar o caminho, até que após meia hora de trabalho, um Bob suado avistou finalmente a casa.

Entrou no jipe e dirigiu até a porta. Era uma casa em estilo vitoriano, de dois andares, a varanda suportada por duas grossas colunas gregas. No andar inferior havia uma porta de madeira, e de cada lado desta porta, três janelas envidraçadas abertas, de venezianas - todos os vidros estavam intactos. A parede ainda era branca, embora suja e tomada por ervas que se arrastavam sobre ela e entravam pelas telhas. No segundo an dar havia quatro janelas iguais às do piso inferior, também com as venezianas abertas e os vidros intactos.

Fascinado, Bob fez sua primeira tomada de vídeo. Descreveu a casa e a emoção ao encontrá-la ainda tão conservada após tantos anos de abandono. Depois, colocou luvas e a máscara cirúrgica para proteger-se de poeira tóxica e mofo e subiu os degraus da varanda.

Bob forçou a porta: estava trancada. A madeira, apesar de velha, era muito sólida e forte. Tentou a brir uma das janelas, e foi experimentando-as até que encontrou uma que não estava trancada. Ele passou o equipamento de filmagem pela janela, e também pegou no carro as suas provisões, pois já tinha decidido passar a noite ali.

Antes de filmar o interior da casa, que apesar de empoeirado, estava totalmente conservado, com móveis, fotografias, copos, talheres e demais utensílios, Bob decidiu dar uma olhada no local. O teto mofado desabava aqui e ali, mas de um modo geral, a casa estava firme. Ele passou pelos sofás de brocado que ficavam sobre um tapete empoeirado e úmido, olhou os armários cheios de copos de cristal, bibelôs antigos e louças maravilhosas, as cadeiras cuidadosamente arranjadas em volta da mesa de jantar de madeira, ainda arrumada para uma refeição que não acontecera, e subindo as escadas curvas de madeira , Bob  percorreu os seis quartos do segundo andar, todos ainda mobiliados , as camas arrumadas como se as pessoas ainda fossem dormir ali. Abriu os armários e encontrou roupas muito antigas dependuradas nos cabides. Em um dos quartos, as roupas eram de uma criança. Um menino.

Em uma das gavetas da cômoda, encontrou documentos que datavam  dos anos trinta aos anos cinquenta, e também muitas fotografias. O coração de Bob dava saltos: aquele seria o seu melhor vídeo! Nunca tinha encontrado uma casa tão bem conservada e com todos os objetos dentro, ainda intactos, como se a família tivesse apenas viajado! 

Como já estivesse começando a escurecer, Bob decidiu deixar as filmagens para a manhã seguinte. Escolheu um dos quartos, pelo qual passou uma vassoura que encontrou na cozinha, e arrumando seu saco de dormir no chão, preparou-se para a noite.

(continua...)

7 comentários:

  1. Esse Bob é mais corajoso do
    que eu. Encantou-me com isso.

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  2. Uma história com muito suspense, muito criativa e bem escrita.
    Adorei...
    Beijinhos e bom fim de semana.
    Ailime

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  3. Ola:- Um conto muito bem escrito . Sei que vai continuar e vou tentar acompanhar. Adorei essa de, já no tempo do Bob haverem luvas e máscaras cirúrgicas. Bem apanhado. Será que vai aparecer algum "morcego" a intitular-se dono da casa?
    .
    Bom fim de semana
    Cuide-se

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  4. Que conto envolvente e bem narrado. Voltarei para acompanhar.

    É um luxo ler seus contos Ana.

    Tem mimo pra mães no blog
    https//pensandoempoesia.bolgspot.com.br

    Abração!

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  5. WOW, a great "edge of the seat" story...filled with mystery and intrigue!
    I an totally hooked...😊😊

    Have a super weekend!

    Hugs xxx

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  6. Ana
    Eu adoro fotografar casas antigas e também nunca divulgo onde é o local, por causa do vandalismo que possa ocorrer, sendo isso já uma norma de quem as fotografa.Mas nunca forço para entrar pois aí é considerado crime, inavsao de propriedade alheia.
    Neste conto que achei espectacular Bob forçou a entrada e depois, ele teve conhecimento dessa casa abnadonada por alguem que nem sabe quem é, neste caso o mistério está lançado e isso cativa quem lê.
    Voltarei para acompanhar o final.
    Bem escrito!
    Bom domingo e beijinhos
    :)
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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  7. Ana,
    Hoje resolvi acertar/atualizar minha leitura
    aqui. E Mulher! Estou encantada.
    Quanto detalhe em cada descrição!
    Vou seguir a leitura.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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