quinta-feira, 7 de maio de 2020

MADRE - Final







MADRE – Capítulo 13 - FINAL

Minha mãe era filha de pais muito rígidos e religiosos, que, ao saberem que ela tinha engravidado do namorado, a expulsaram de casa e viraram as costas para ela. Sozinha, ela foi ter suas bebês no mesmo hospital onde a minha mãe adotiva tinha ido para ter a sua filha. As duas se conheceram e conversaram longamente, e minha mãe adotiva ficou sabendo das dificuldades que minha mãe natural – com apenas quinze anos de idade – teria para criar sozinha duas meninas. Meu pai tinha fugido das responsabilidades da paternidade por ser muito jovem, e minha mãe natural não queria força-lo a nada, pois nem estava apaixonada por ele. 

Ao ter sua bebê, minha mãe adotiva, ao visita-la no berçário, percebeu que ela estava morta. Desesperada, trocou a sua bebê morta por uma das bebês vivas de minha mãe – eu. A cor dos cabelos era a mesma e as bebês eram até parecidas. Minha mãe natural percebeu a troca, mas decidiu ficar quieta a respeito pois achou que seria mais fácil criar apenas uma menina; além disso, sabia que minha mãe adotiva seria uma boa mãe. 
Realmente, fui muito amada e bem criada por meus pais adotivos (sem saber da minha verdadeira história); a única coisa que me incomodava, eram as mudanças repentinas para lugares distantes, que não me deixavam criar raízes ou fazer amizades duradouras. Isso tudo me causou síndrome do pânico e ansiedade, e desde cedo, precisei de medicação para lidar com isso. Meus pais diziam que as mudanças eram devido às mudanças exigidas pelo trabalho do meu pai. Também me incomodava o fato de eu jamais poder ter redes sociais usando a minha verdadeira identidade ou fotografias. 

Minha mãe natural continuou levando sua vida longe de mim, criando minha irmã gêmea a quem chamou de Georgina. Mas ela conheceu um homem muito rico e bem mais velho que ela, que lhe deu suporte e escutou sua história sem julgá-la. 
Minha mãe casou-se com ele e ficou muito rica. Herdeira do ex-marido, um empresário do ramo imobiliário que morrera de uma doença no coração. Bem mais velho do que ela, apaixonaram-se quando ele foi até uma loja aonde ela trabalhava para comprar um presente para sua então namorada. Ele não apenas aceitou sua filha (minha irmã) de dois anos de idade, como criou-a como se fosse sua e amou-a como a uma filha natural.

Anos após o casamento, ao saber que minha mãe tivera outra filha, decidiu ajudá-la a encontrar a menina (eu), respeitando o pedido de minha mãe de não querer a polícia envolvida na história.  Para ele, também seria melhor se nenhuma propaganda negativa interferisse em seus negócios e expusesse o nome da sua empresa.  Ele contratou um detetive particular que conseguiu encontrar meus pais adotivos. Mas ao saberem da intenção que minha mãe tinha de retomar sua filha, meus pais adotivos simplesmente fugiram, e continuaram a fugir durante anos. 

Enquanto isso, o marido de minha verdadeira mãe deu a ela o suporte que ela precisava para criar minha irmã e a continuar a procurar por mim. Fez por minha mãe tudo o que uma mulher poderia desejar, e ao morrer, deixou-a muito rica, pois não tinha herdeiros. 
Quando meus pais adotivos morreram em um acidente, fiquei sabendo da história toda e decidi ir a procura de minha verdadeira história. 

Encontrei minha mãe verdadeira com a ajuda de minha avó adotiva, conheci uma pessoa que foi muito importante para me ajudar a tomar a decisão certa (meu amigo Mateus) e agora estou aqui, morando na casa de Mayara. A história que ela me contou bateu com a que minha mãe adotiva deixou escrita para mim em uma carta. Mas Mayara me disse que não tinha parentes vivos, e agora aparece minha tia Mércia, irmã gêmea de minha mãe verdadeira, e vira tudo de cabeça para baixo. Logo agora, que minha vida estava começando a tomar um ritmo normal. Logo agora que pela primeira vez, eu estava começando a me sentir em paz. 

Este foi um dos motivos pelo qual eu não fui ao encontro que marquei com minha tia Mércia. Haveria a festa no dia seguinte, onde eu conheceria o mundo de minha mãe – seus amigos – e tentaria fazer parte daquele mundo. Eu queria estar feliz. O vestido que eu e Mayara escolhêramos era simplesmente lindo, e a expectativa da festa estava me deixando muito excitada e feliz. 
O outro motivo, foi que minha mãe e eu tivemos uma conversa na manhã seguinte àquela do shopping center, onde eu conhecera minha tia Mércia. Foi à mesa do café, logo após a noite na qual a síndrome do pânico tinha me atacado de novo. A manhã estava um tanto pesada, o céu coberto por nuvens cinzentas. 

Ela me disse:

-Aisha, você não imagina o quanto estou feliz porque você quis me conhecer! Sou grata porque você me perdoou por não tê-la procurado com mais afinco, e por ter entendido meus motivos. O que eu quero dizer é que... bem, nós... todos temos um passado e fazemos algumas coisas das quais não nos orgulhamos muito. Gostaria que você não se tornasse uma menina amarga, que não culpasse seus pais adotivos pelo que aconteceu, e nem a mim. 

-Eu já perdoei meus pais. E a você também. 

Ela respirou fundo, tomando um gole de café e erguendo as sobrancelhas. 

-Não é isso. O que eu queria que você entendesse, é que não existe nada a ser perdoado. Um dia, quando for adulta, você cometerá erros também. Faz parte de sermos humanos. Ninguém precisa perdoar ninguém, Aisha! Basta que aceitemos uns aos outros como somos, sem julgamentos. Algumas pessoas se julgam nobres ao dizerem que perdoam alguém, mas na verdade, ao dizerem isso, só estão demonstrando o quanto são (ela desenhou aspas no ar com as mãos) “nobres e bondosas, superiores e espiritualizadas.” Na verdade, são apenas hipócritas, pois elas também não são perfeitas! 

Eu fiquei calada, mas meu rosto revelou a minha confusão a respeito do que ela dizia, e Mayara acrescentou:

-Eu só queria pedir a você que seguíssemos em frente e deixássemos para trás tudo o que aconteceu, todo o passado. É a única maneira de sermos felizes. 

Concordei com a cabeça, meu cérebro dando voltas. Retruquei:

-Mas isso significa que eu não posso mais ver a minha vó? E Tina?

Ela riu:

-Não, não! Você pode visita-las se quiser, pode trazê-las aqui, não importa! Elas fazem parte da sua vida. Também pode visitar seus pais no cemitério, mandar rezar missas por eles, enfim... é a sua vida e eu não vou interferir. Só queria que ficasse morando aqui comigo, porque já ficamos tempo demais separadas. Quero conhecer você, e quero que você me conheça. E temos a vida toda para isso.

Eu senti uma paz enorme tomando conta de mim. Olhei para o céu à janela, atrás dela, e vi que uma enorme nuvem cinza se afastava, dando lugar a um céu tão azul, que chegava a deixar a gente sem ar. Havia uma cerejeira cheia de flores no jardim, e Ronaldo, o jardineiro, ajeitava uma pequena cerca sob ela. Eu decidi que queria ter aquela vida para mim. Olhei para minha mãe, e ela tentava conter a emoção. 

-Ok, eu vou ficar morando aqui com você... mãe!

Naquele mesmo dia, bloqueei o número do telefone de minha tia Mércia. Nunca mais a vi ou soube dela, nem perguntei à minha mãe sobre ela. Também apaguei minhas redes sociais, pois deixar o passado para trás também significava começar tudo de novo. TUDO. Não queria mais me lembrar daquela festa de quinze anos que nunca aconteceu, nem ter que virar a esquisita da turma, a menina que chega e é olhada por todos, que começam a murmurar sobre ela e a fofocar sobre sua vida. Já estava cansada das perguntas indiscretas dos meus velhos amigos, que, descobri, nem valiam tanto a pena assim. 

A festa de Dalva, amiga de minha mãe, foi maravilhosa! Fiquei conhecendo seus amigos e eles me trataram muito bem. Ninguém me fez perguntas desagradáveis ou indiscretas. Todos se preocuparam em me mimar e me deixar à vontade para ser eu mesma. Na mesma noite, eu e Ian, filho de Dalva, nos conhecemos e começamos a namorar. 

A vida foi se encaixando; minha avó Beatriz e Tina nos visitavam às vezes, e costumavam passar as festas de fim de ano na nossa casa. Eu também viajava para visita-las sempre que podia, até que minha avó faleceu quando eu fiz vinte e dois anos. Logo depois, Tina também se foi. 

Eu e Ian nos casamos e tivemos três lindos filhos, aos quais demos os nomes de Beatriz, Fernanda e Jairo (os nomes de minha avó e de meus pais adotivos). Nunca escondi dele a minha verdadeira história. Tive uma vida muito feliz e muito plena. Eu, Dalva, Ian e mamãe viajamos o mundo todo, ficamos em hotéis maravilhosos e mais tarde, meus filhos juntaram-se a nós nas nossas viagens. 

Minha mãe – Mayara – morreu quando eu tinha cinquenta anos de idade, e ela, sessenta e cinco. Nunca tivemos uma discussão sequer, nenhuma briga ou desentendimento, por menor que fosse. Éramos verdadeiras almas gêmeas. Me senti grata por poder cuidar dela até o final de sua doença, e por estar perto dela segurando a sua mão quando ela deu seu último suspiro, entre sorrisos, deixando como sua última palavra, um “obrigada.”

Após o sepultamento, todos foram embora, mas eu quis ficar um pouco mais junto ao túmulo de minha mãe. Precisava me despedir dela de verdade, agora sem o medo de perde-la, que me acordou durante os cinco anos após ela descobrir sua doença, sem o cansaço das noites em claro que eu tinha passado com ela nos seus últimos dois meses de vida, e sem as visitas que entravam e saiam de nossa casa o dia todo, pois todos adoravam Mayara. Eu queria ficar um pouco sozinha com ela, sabendo que ela não estava sorrindo para que eu não notasse que estava sentindo dor; que ela não tentava parecer que estava bem, só para que nós não nos preocupássemos tanto com ela. 

Eu queria dizer adeus à minha mãe sabendo que ela agora estaria tranquila para me ouvir. E através do meu pensamento, eu disse a ela tudo o que eu queria, e chorei todas as lágrimas que me restavam, e ri muito também, me lembrando dos nossos muitos momentos de felicidade juntas. Respirei fundo e estava pronta para ir embora, quando ergui os olhos e vi uma mulher se aproximando. Uma mulher muito parecida com minha mãe, mas não macilenta devido à doença; uma mulher que já fora bonita, e que agora estava envelhecida e amargurada demais para sua idade. Quando ela chegou mais perto, percebi as rugas profundas em volta da boca – rugas de anos de tristeza.  Ela caminhou na minha direção, e seu andar claudicante e lento  parecia carregar o peso de anos de ressentimentos. Eu percebi que ela estava ali por um motivo: destruir as memórias felizes que eu tinha de minha mãe; arruinar sua memória, matá-la uma segunda vez dentro do coração da pessoa que ela mais tinha amado e que mais a amara.

Levantei-me do banco de madeira, ajeitando a saia, agarrando com as duas mãos a bolsa preta, como se sentisse medo do que ela ia tentar roubar de mim. Ela me olhou nos olhos, e vi que sua raiva e inveja eram gritantes. Eu queria me mover, mas alguma coisa me mantinha presa ao chão, como se minha tia Mércia possuísse poderes mágicos e malignos. Ela chegou bem perto de mim e parou a menos de um metro do meu rosto, me olhando da cabeça aos pés. Notei que suas roupas eram antigas e estavam muito usadas, a saia preta plissada e desbotada, a camisa branca desgastada na gola. Eram roupas de uma mulher que não se importava consigo. Que não se importava com nada nem ninguém. 

Ela abriu a boca, e percebi que dali não sairia nada de bom ou de útil. Eu tinha certeza de que Mércia ia despejar sobre mim segredos do passado de minha mãe cuja intenção seria a de macular sua memória. Percebi também que eu não estava interessada em sabe-los agora, assim como não tinha desejado sabe-los no passado. Também notei que aquela mulher tinha sofrido muito devido a tais segredos, e se transformado em uma bruxa amarga, solitária, precocemente envelhecida e incapaz de amar. Ela não tinha seguido adiante; sua vida tinha estacionado no exato momento em que aquela antiga mágoa tinha sido perpetrada. E agora ela queria despejar tudo aquilo em cima de mim, apenas por vingança. 

Minha tia Mércia abriu a boca, e seus olhos emitiram um brilho de maldade. Mas antes que ela pudesse dizer uma única sílaba sequer, eu ergui a mão, a palma virada para o seu rosto, calando-a. Mércia hesitou, balbuciou, e eu, dando a volta por trás dela, me afastei dali a passos rápidos, de modo que ela não conseguisse me alcançar. Depois, passei a correr, e entrando no carro, bati a porta e liguei o motor, dirigindo para bem longe dela. Ainda pude ver sua imagem congelada no retrovisor do carro, me olhando, a boca entreaberta. 


FIM






2 comentários:

  1. Um conto fantástico. Tudo acabou em bem!:)
    -
    Esculpir um novo resumo.

    Beijo e uma boa tarde! :)

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  2. Maravilhoso, você escreveu muito bem.
    E um final feliz!
    Parabéns.
    blogjoturquezzamundial
    Beijos.

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