terça-feira, 14 de setembro de 2021

AS ESTRELAS QUE EU CONTEI - CAPÍTULO 12


 Capítulo 12


-Ela nos matou porque estava apaixonada por Afonso, e nós éramos contra o relacionamento deles. Sentíamos que Rosália tinha alguma coisa de selvagem, inominável, ruim. Apesar de tentar fazer tudo para nos agradar, sabíamos que cada gesto seu e cada palavra gentil era eivada de falsidade. Ela queria possuir Afonso. Chegou a ficar grávida dele, mas felizmente, perdeu a criança após dois meses de gravidez. Os preparativos para o casamento estavam sendo feitos quando Afonso descobriu que ela não estava mais grávida. Tamara, a própria mãe de Rosália, contou a ele. Ela tinha então dezessete anos, e ele, dezoito. Viveram uma paixão adolescente que, na cabeça dela, era a solução para a sua vida. Na verdade, ela só queria saber do dinheiro de Afonso. Tamara tentava controlar a filha, mas nunca conseguiu deter a impulsividade dela. Lembro-me de que ela ia para o quarto de meu filho à noite. Eu podia escutar os dois. Disse a ele que tivesse cuidado, mas ele não nos ouviu. Até que o mandamos embora da fazenda, para estudar no exterior, numa tentativa de afastá-los.

- Mas... por que não mandaram Rosália embora? Não teria sido mais simples? 

- Nós tentamos, mas ela não quis ir, ameaçou um escândalo. E tínhamos muito apreço por Tamara, sua mãe, que é uma pessoa maravilhosa. Mas Rosália herdou a amargura e a frieza do pai. Ele foi um homem mau, que seduziu Tamara quando ela ainda era bem jovem. Engravidou-a, e assim que a criança nasceu, foi embora da fazenda com outra.

-Uau! Que história! 

Ela ignorou meu comentário:

-Bem, assim que Afonso partiu, ela se tornou insuportável. Ficava pelos cantos, nos olhando com raiva. Se recusava a ajudar Tamara nos trabalhos da fazenda. 

O olhar dela voltou a ficar cheio de horror, enquanto Elvira narrava seus últimos momentos de vida:

-Um dia bem cedinho, quando Téo e eu nos aprontamos para ir pescar, deparamos com uma mesa maravilhosa. Rosália nos esperava com um farto café da manhã, e parecia outra pessoa. Seu olhar estava mais doce e conformado, e ela se desculpou por tudo o que fizera, jurando que melhoraria dali para frente. Nós acreditamos nela, e nos sentimos aliviados. Tomamos o café da manhã, e assim que chegamos ao barco e nos afastamos da margem, começamos a nos sentir tontos e pesados. Eu tentei me mexer, mas meu corpo parecia anestesiado. Téo e eu compreendemos que ela tinha colocado alguma coisa na nossa comida. Apavorados, mas incapazes de reagir, vimos quando ela se aproximou do barco nadando, e então nos puxou para dentro da água. 

Depois, usando um machado, Rosália fez um buraco no fundo do barco, que afundou, e então... ela segurou nossas cabeças dentro da água. Simulou um acidente. 

Eu estava horrorizada e preocupada ao ouvir tal narrativa. Afinal, minha mãe e minha irmã estavam lá naquela casa de fazenda, com aquela criatura horrorosa.

O restante da história me foi contado por Clara. Notei que Clara estivera de pé atrás de nós o tempo todo. Elvira levantou-se, e Clara sentou-se no lugar dela, ao meu lado. A presença dela emanava frio. Senti que a energia dela não era tão tranquila quanto a de Elvira. Clara continuou a história de onde Elvira tinha parado.

-Quando cheguei na fazenda, sete anos após a morte pais de Afonso, estávamos casados. Ele tinha se formado e assumira os negócios da família. Éramos felizes, nos amávamos. Maldita a hora em que concordei vir para cá.

Seu rosto crispou-se de raiva, mas ela logo se controlou:

Os avós estavam idosos, e ele decidiu que deveria tomar conta deles, já que devia muito a eles, que o criaram após a morte dos pais. Seu avô tinha câncer terminal, e a avó sofria de problemas cardíacos sérios. Achei nobre a atitude dele. O médico nos dissera que, infelizmente, ambos morreriam em breve. Concordei em ficar e ajudar. 

Mas aquele demônio de mulher... ela o seduziu novamente. Ela ficava o tempo todo rodeando meu marido, me afrontando... e eu não queria causar problemas para os avós de Afonso. Mesmo após as surras que Tamara dava nela, Rosália não tomava jeito. Tanto fez, que conseguiu o que queria: meu marido em sua cama. 

-Que coisa horrível! 

Pensei no quanto minha mãe estava em risco naquela fazenda, e desejei voltar para alertá-la. Mas eu sabia que precisava escutar o final da história, então me calei. O dia ali parecia não passar nunca. Eu tinha perdido a noção do tempo. Não tinha ideia de quanto tempo já estivera ali. Clara continuou:

- Eu e Afonso tivemos uma discussão horrível, e ele se desculpou, mas eu não consegui perdoá-lo. Mesmo assim, ficamos juntos até que seus avós faleceram com uma diferença de apenas duas semanas entre suas mortes. 

Logo após o falecimento dos avós de Afonso, decidi que o perdoaria, se ele concordasse em ir embora daquele lugar. E eu estava justamente me aprontando para dizer aquilo a ele, assim que ele voltasse de uma viagem que tinha feito a São Paulo a fim de organizar alguns papéis referentes à sua herança. Tamara tinha ido junto com ele, pois os avós de Afonso tinham deixado para ela algum dinheiro em testamento. Eu estava sozinha com Rosália na fazenda, esperando-o voltar.

Mas uma noite na qual fui dormir me sentindo exausta, acordei de repente na caçamba de um caminhão. Estava amarrada e amordaçada. 

Notei que estava junto a mim a minha mala de roupas. Rosália me obrigou a escrever um bilhete a Afonso, dizendo que eu estava indo embora do país e que ele não me procurasse nunca mais. Ela sabia que eu não tinha uma família, e que ninguém procuraria por mim. Achei que se eu fizesse o que ela queria, ela me levaria para longe dali e me deixaria em algum lugar distante, não sei... jamais pensei que ela seria capaz de... escrevi o tal bilhete, enquanto ela segurava uma arma de fogo contra a minha testa. Havia fúria em seus olhos. Assim que terminei, ela me atingiu com a arma. Ela me deu um tiro. Mas eu ainda estava viva quando ela me enterrou na floresta. 

Deixei escapar um grito de terror, cobrindo a boca com a mão. Àquela altura, Clara chorava muito. Ela se conteve, finalmente, e me disse:

-Mas fico feliz que ele não tenha ficado com ela. Pelo menos, isso ela não conseguiu.

-Eu sinto muito, Clara... de verdade. 

Ela me olhou, segurando minhas mãos:

-Você precisa dizer a ele a verdade. Precisa mostrar a ele onde está o meu corpo, precisa contar o que aconteceu aos pais dele. Enquanto alguém não fizer isso, estaremos presos aqui. A arma de fogo, o machado e a corda que ela usou para me amarrar estão no quarto dela, em um baú sob a cama. São as provas que precisam para acusá-la.

As crianças se aproximaram de nós, e uma delas disse:

-Faça isso pela gente também. Ela também nos matou, pois nós vimos tudo o que ela fez com os pais do senhor Afonso. Ela cortou os freios do carro escolar. Todas as crianças morreram naquele acidente. 

Ainda mais apavorada, prometi que os ajudaria a todos. 

Naquele momento, Clara projetou em minha mente uma imagem perfeita do lugar onde seu corpo estava enterrado, e de como chegar lá. Eu jamais me esqueceria. 



(CONTINUA...)







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