quarta-feira, 10 de novembro de 2021

AS ESTRELAS QUE CONTEI - CAPÍTULO 14 - FINAL

 


Havia na fazenda uma casa menor para hóspedes, que geralmente ficava fechada, e nós nos mudamos para lá. Uma semana depois do incêndio, Afonso reuniu construtores para começarem a reconstruir a casa principal conforme a planta original, o que seria um árduo trabalho que levou quase três anos para ser concluído. Mas mais tarde, todos achamos que a casa nova tinha também ares muito mais leves; os móveis e paredes eram de cores mais claras, as cortinas eram mais leves, enfim, não tinha o ar pesado e difícil de respirar da casa antiga, que tinha sido cenário de acontecimentos funestos. 

Após o velório de Tamara, que foi acompanhado por grande parte dos moradores da pequena cidade, contei aos outros tudo o que eu sabia sobre o que tinha acontecido naquela casa, há muitos anos; disse-lhes tudo o que Clara, Elvira, Teo e as crianças me contaram. Minha mãe não gostou de ouvir minha história, me dizendo que aquele não era o momento para invencionices, e que eu deveria respeitar a dor de Afonso; porém, ele me apoiou, dizendo à minha mãe que eu não poderia ter inventado todos aqueles acontecimentos; ele pegou um velho álbum de fotos de família que tinha sido salvo do incêndio, e apontando as pessoas, eu as fui identificando e contando particularidades sobre elas que ninguém poderia saber, como por exemplo, uma pinta que Clara tinha do lado esquerdo do pescoço e que não aparecia em nenhuma daquelas fotos.

Falei também sobre uma deformação que Elvira, a avó dele, tinha no dedo mindinho esquerdo, provocado por artrite. Mas minha mãe só conseguiu se convencer de que eu realmente dizia a verdade quando a polícia encontrou as ossadas das pessoas mortas. Elas foram todas devidamente sepultadas no cemitério da família, que ficava na própria fazenda, e uma missa foi dita por elas. Felizmente, o baú com as provas do crime, que tinha sido encontrado debaixo da cama de Rosália, tinha sido entregue à polícia antes do incêndio.

Mas Rosália escapou. Ninguém mais sabia onde ela estava escondida, para onde ela tinha ido. A polícia estava à procura dela, e havia fotos dela espalhadas por toda cidade. Ela nem sequer participou do velório da mãe, pois aproveitou a confusão para fugir.

Aquelas férias ficariam para sempre na minha memória, e na memória de todos nós. Voltamos para a cidade e então Afonso e mamãe puderam finalmente fazer sua viagem de núpcias. 

Mal chegamos em casa, tratei de colocar toda aquela história no papel, com todos os detalhes. Minha alma de escritora ainda se agitava. Sara e eu terminamos as férias em casa, cuidadas por Geraldo e Elga e na companhia de minha amiga Fernanda, que foi passar uns dias conosco. 

A história poderia ter terminado ali, mas uma noite eu acordei me sentindo muito aflita e oprimida, e quando me levantei para ir até a cozinha, encontrei minha irmã no meio do corredor, visivelmente abalada. Perguntei:

-O que você está fazendo de pé a essa hora?

Ela coçou a cabeça, e esfregando os olhos, respondeu:

-Pelo mesmo motivo que você, eu acho. Tive um sonho ruim.

Eu não me lembrava de ter tido um sonho. Peguei minha irmã pela mão e fomos nos sentar na cozinha, onde preparei um chá para nós duas. Todos na casa estavam dormindo, e nós estávamos sozinhas na cozinha. Escutávamos o tique-taque pesado do relógio que ficava na parede do corredor.

-Me conte sobre esse sonho, Sara.

- Eu... eu sonhei com ela. Com Rosália. Chiara, eu tenho medo dela.

Abracei minha irmã:

-Calma, ela jamais se atreveria a vir aqui. A casa tem muros altos. Ela não conseguiria entrar. E se for pega, vai ser presa. 

Ela insistiu:

-No meu sonho, ela estava aqui dentro. Ela tinha uma arma. Não me lembro bem do que aconteceu. Eu estou com muito medo...

Senti um arrepio na coluna, mas me mantive aparentemente calma:

-Tome, beba este chá. Vai se sentir melhor. Olhe, Geraldo, Elga e Carlos estão dormindo logo aqui, ao lado da cozinha, em seus quartos. Fernanda está lá em cima, e eu estou aqui com você. A casa está toda trancada. Nada vai acontecer. Estamos seguras aqui. Mamãe e Afonso estarão de volta em uma semana. E na semana que vem, as aulas recomeçam. Assim que tudo voltar ao normal, nós nos esqueceremos do que se passou.

Levei-a para o meu quarto, e dormimos juntas. 

Porém, duas horas depois acordei com o ruído de alguma coisa de vidro se quebrando. Meu coração deu um salto. Olhei para o lado, e Sara dormia tranquilamente. Fiquei sentada na cama, escutando, e minutos depois, pensei ter ouvido passos leves na escada de madeira, que tinha um degrau que estalava sempre que a usávamos. Achei melhor ver o que era, e criando coragem, saí da cama e abri uma greta da porta do quarto. Olhei o corredor silencioso e escuro. Um arrepio de desconforto percorreu minha espinha, e o suor começou a brotar nas minhas costas. Tirei a chave da porta, e trancando-a, fui até o quarto onde Fernanda estava. Ela dormia. Tirei a chave dela, trancando-a no quarto também para sua própria segurança. Apertando as chaves na mão, cheguei ao meio do corredor, esticando o pescoço para ver as escadas. Então eu a avistei: Rosália não me viu, pois olhava para o chão. Ela subia as escadas devagar, e carregava um revólver. 

Dei o grito mais alto de toda a minha vida:

- Geraldo! Carlos! Socorro! Ela tem uma arma! Ela está armada!

Corri de volta para o quarto, e entrando, tranquei novamente a porta. Fernanda tinha acordado e tentava sair: 

- Chiara, o que está havendo? Estou trancada aqui! – ela gritou; 

Fui até a sacada, chamando-a, e disse-lhe que ficasse no quarto e não saísse por nada. Àquela altura, Sara tinha acordado, e nós duas nos trancamos na sacada. Fernanda, da sacada do seu quarto, nos olhava, o rosto apavorado. Expliquei a ela que a casa tinha sido invadida por Rosália. Vi as luzes do andar inferior se acenderem, iluminando parte do jardim. Geraldo e Carlos estavam no jardim, e eu gritei novamente, avisando-os de que Rosália estava armada. Eles nos mandaram ficar calmas e permanecermos nos quartos, pois a polícia já estava a caminho.

Naquele instante, ouvimos um tiro. Nós três gritamos ao mesmo tempo. Alguém bateu à porta, e eu dei um pulo. Reconheci a voz de Elga:

-Meninas, não saiam por nada! Acabou! Fiquem tranquilas, mas não saiam!

Escutamos as vozes de Carlos, Elga e Geraldo conversando alto. Soavam muito aflitos. Elga disse, a voz chorosa:

-Eu não tive como evitar! Oh, meu Deus! Tive que atirar nela!

A sirene da polícia parou diante do nosso portão, e Carlos foi abrir. Vimos os policiais entrando. Muitas coisas aconteceram no andar inferior da casa, mas achei melhor, por causa de Sara, não descer para verificar. Fernanda foi ficar conosco, e nós três permanecemos sentadas no tapete, aguardando notícias. 

Uma ambulância chegou, e corremos até a janela. Vimos quando o corpo de Rosália, cujo rosto estava coberto por um lençol, deixou a casa, carregado em uma maca. As casas vizinhas estavam todas acesas, e algumas pessoas estavam paradas nas calçadas com roupas de dormir.

Finalmente, aquele capítulo terrível da história de Afonso tinha sido devidamente encerrado. Um dia, após o jantar, eu estava sentada em minha cama quando ele bateu à porta. Disse que queria conversar.

Sentou-se em minha cama, me olhando profundamente:

- Chiara, você já deve saber que eu tenho por você e por Sara um amor paternal. Para mim, vocês duas são minhas filhas. Mas quero que saiba que eu sou muito grato a você, pois me ajudou a resolver um grande problema que eu carregava comigo. Me ajudou a desvendar a morte de minha esposa, que eu pensei ter fugido e me abandonado.

Ele riu discretamente, baixando os olhos por alguns instantes.

-Jamais pensei que um dia, uma criança me ajudaria a seguir em frente. Nunca acreditei que eu pudesse ser feliz novamente, casar-me com sua mãe e ganhar duas filhas de presente. 

Eu fiquei calada, pois não sabia o que dizer. Ele continuou:

- Sei do seu sonho em tornar-se escritora. E eu quero ajudar você a realizá-lo!

Sentei-me na cama, as pernas cruzadas, o coração descompassado:

- Mas... eu... eu... meu Deus, eu...

Uma grande insegurança tomou conta de mim, e passei a andar pelo quarto de um lado para o outro. De repente, duvidei da minha capacidade de escrever. 

-Eu não sei se posso, pai. 

Eu o chamara de pai tão espontaneamente, que nem percebi. Ele corou de satisfação. 

- É claro que pode. Sua mãe me falou sobre os concursos literários que venceu na escola, e do quanto as outras crianças adoram escutar suas histórias. Ela também me disse que você tem uma missão que deve ser realizada através dos seus escritos. Então, quanto mais cedo começarmos, melhor! 

Comecei a pular de alegria, e abracei-o pelo pescoço, dando-lhe um sonoro beijo no rosto:

-Obrigada, pai! Obrigada!

E então, eu escrevi.

Contei as histórias de toda a minha família – daqueles que eu conheci e daqueles que eu não cheguei a conhecer aqui. Criei histórias que falavam sobre os seres da natureza que eu costumava ver quando criança, e embora elas tenham sido classificadas como histórias infantis, ninguém soube o quanto aqueles personagens são verdadeiros. Fiz o que eles me pediram: tentei conscientizar as pessoas sobre a importância do respeito às coisas da natureza, do quanto são necessárias coisas como árvores, rios, animais, água, ar. Sei que as coisas que eu tentei ensinar ficaram nas mentes de pelo menos, algumas pessoas. Sinto não ter podido atingir a todos. 

Também consegui, através das minhas histórias, levar um pouco de esperança a todos aqueles que perderam entes queridos, dizendo a eles que a vida continua em outro lugar, independente da ilusão que cultivamos de um adeus para sempre. 

Hoje, sou uma mulher velha. Há muito tempo minha mãe e meu padrasto se foram essa vida. Da minha família, só restaram minha irmã Sara e meus primos, que eu nunca mais encontrei. Sara teve muitos filhos: cinco no total. Ela hoje vive em uma cidade distante da minha, e quase não podemos mais nos encontrar. Mas o amor que temos uma pela outra e nossas histórias e segredos nos mantém sempre unidas, além do tempo e do espaço. 

Eu nunca me casei, nem tive filhos. Dediquei minha vida à missão que os seres da natureza me confiaram. Enquanto termino de escrever essa história, eles estão em volta de mim, me inspirando e amparando. Sei que logo deixarei esta vida. Minha missão aqui está no final. Mas sei que existem uma nova vida e uma nova missão esperando por mim. Espero poder cumpri-la. 



FIM






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