quarta-feira, 10 de julho de 2013

As Aventuras de D. Iraci e D. Nena - Macumba!!!





AS AVENTURAS DE D IRACI E D NENA – MACUMBA

Nena e Iraci estão na calçada, ‘varrendo’ algumas folhas secas (enquanto isso, aproveitam para tomar conta da vida alheia, mas sempre com muita discrição). Observam quando Gerda, a bela alemã, chega , estacionando seu fusquinha no meio-fio em frente à sua casa. Nena observa:
“Ora, Iraci... já faz quanto tempo que a Gerda mudou para cá?”
A outra coça o queixo, e responde:
“Hum... acho que já faz uns quatro mês... por que?”
“Bom, não é que eu queira fofocar da vida alheia, mas cadê o tal filho dela, que tava passando férias na Alemanha? E o tal marido motorista de caminhão? Eu não conheço nenhum caminhoneiro que fica quatro mês na estrada, e você?”
“Nem eu... imagina... mas vamo tirá essa dúvida ‘gorinha mesmo!”
Dizendo isso, Iraci chama a vizinha:
“Ô Gerda! Dá um pulinho aqui, mulher!”
A alemã, sorridente, atravessa a rua, cumprimentando as vizinhas. Um táxi pára para dar-lhe passagem, e ela agradece, sempre sorridente, e o motorista dá uma buzinada, passando por ela devagarinho. As outras duas se entreolham, significativamente, enquanto a bela loira se desmancha em gentilezas:
“Boa tarrde, Vizinhas! Como vai?”
Nena sorri, e Iraci pergunta:
“Ô Gerda, não é que seja da minha conta não, mas é que nós se apreocupa... donde tá teu marido caminhoneiro? E teu filho? As aula já começou faz tempo, e ele nem voltou das Alemanha!”
“Ah, vizinha... meu filho resolveu ficarr passarrr mais um ano lá no meu terra com os avós. Está estudando lá. Mas ele disse que vem passar natal, mês que vem.”
“E o teu marido?”
A bela responde, cabisbaixa:
“Ah, aquele trrraste mandarr uma carta dizendo que não voltarrr mais...encontrar rabo de saia em Sergipe e ficarr por lá. Mas eu não ligo. Ele era um trassste mesmo!”
Dizendo isso, ela se despede, e as duas continuam suas especulações:
“Nena de Deus! Já pensou se essa notícia se espalha?!”
“Ara, e o que que tem, Iraci?”
“Tu tá lesada, muié? Já pensou, essa daí ciscando solta pelos terreiro? Tu não preza teu casamento não? Ela é mais galinha do que a minha Marluce!” (referindo-se à Marluce, sua galinha de estimação).
“E o que é que nós vai fazer? Você tem razão! Ainda me lembro do dia que peguei o Ditinho saindo de dentro da casa dela, com aquela desculpa esfarrapada de consertar cerca quebrada!
“Pra mim, ela tava era pulando a cerca!”
A outra, indignada:
“Não fala assim, Iraci! Pensei que tu era minha amiga!”
“E sou! Por isso mesmo, nóis tem que dá um jeitinho nisso!”
“Mas fazer o quê?!”
Iraci chega mais perto da amiga, diminuindo o tom de voz:
“Tu lembra da época que o meu Zé tava se engraçando pra cima daquela uma? Nós foi naquela macumbeira das boa, a Mãe Joana?”
“É mesmo! Ela deu jeito! A outra sumiu do mapa! Dizem até que quebrou a perna! Fora os outros pobrema que ela já arresolveu pra nós... os pobrema de cabeça do meu Ditinho... nem precisei mais levar ele no psicopata!” (psiquiatra)


“E então? Aquela uma se viu comigo... quebrou a perna mesmo... manca até hoje! Não é que eu deseje mal a ninguém, mas se meteu comigo, vai ver!”
Nena diz, passando a mão pelas tranças do cabelo:
“Ah, mas a Gerda nunca te fez nada... ela até te deu o Alejandro, lembra?” (referindo-se a Alejandro, o galo de estimação de Iraci, presente de Gerda).
“Por isso mesmo, eu só vou pedir pra Mãe Joana arrumá um perna de calça pra ela! Assim a gente fica mais segura!”
Dizendo isso, as duas foram imediatamente ao telefone, marcar uma consulta. Na sexta-feira à tarde, elas se dirigiram para o Terreiro de Mãe Joana, e após esperarem na fila por duas horas, Mãe Joana finalmente as chama para dentro da tenda.
Mãe Joana é uma mulher de longos cabelos negros, olhos pretos injetados, unhas compridas que chegam até a dobrar nas pontas, uma verruga na ponta do nariz e um turbante vermelho na cabeça. Sua aparência é intimidadora, mas Nena e Iraci já são suas velhas clientes... Mãe Joana manda que elas se sentem, e começa a fixar os olhos em um copo de água que está em frente a ela, enquanto uma fumaça esbranquiçada começa a subir por trás de sua cadeira. Ela aperta os olhos, e diz:
“Humm... vejo aqui que uma de vocês está com um sééério problema!”
Nena e Iraci se entreolham, como a dizer: “Viu como ela é boa?” Mãe Joana continua:
“Coisa de homem... vejo uma mulher loira muito bonita... um perigo em potencial!”
Iraci interfere:
“Mas a senhora é das boa mesmo! A gente veio aqui por causa de uma alemã, vizinha nossa, que...” A ‘médium’ pede silêncio:
“Eu já sei de tudo...”


Silêncio total. Mãe Joana começa a revirar os olhos e tremer toda. Nena murmura:
“Tá baixando o santo! Ou então ela tá tendo um piripaque...”
De repente, Mãe Joana volta de seu transe, e olhando Iraci bem dentro dos olhos, diz com um sotaque afro: “O que é que suncês qué que eu faça?”
Entusiasmada, Iraci responde: “Nóis qué que a senhora arruma um perna de calça pra alemã! Um que faça ela ficar de quatro, pra modo dela nunca mais olhá pros nossos homem!”
Mãe Joana respira fundo, dá uma baforada no charuto que descansava em um cinzeiro sobre a mesa e diz, com voz gutural:
“Ocês presta atenção.” Dizendo isso, ela chama sua assistente: “ Genoveeeeva!!!”
Uma mocinha magra e loira, de andar preguiçoso, mascando um chiclete, entra em cena com um bloquinho e uma caneta, e passa a anotar tudo o que a outra diz:
“Ocês vão pegar: um galo preto, três maço de arruda, uma tigela de angu com pimenta, uma garrafa de cachaça da boa e cinco vela preta, três vermelha e quinze branca... tá anotando, Genoveva?”
“Tô, Dona Maria... quero dizer... Mãe Joana!”
“Ocês vão levá tudo isso pruma encruizilhada à meia noite... mas tem que ser perto do cemitério!”
Nena e Iraci gritam, quase ao mesmo tempo, e Nena diz: “Ah, não! Eu num gosto dessas coisa de cemitério, inda mais à noite!”
Nisso, Mãe Joana responde: “Bão... eu posso fazer isso procês, mas vai custar um pouquinho, sacumé... êh, êh... deixa aí cem pau e eu arresorvo tudo procês!”
Iraci e Nena se entreolham. Iraci diz: “Nena, é pruma boa causa!”
Dizendo isso, elas puxam, cada uma, cinqüenta reais da bolsa, depositando sobre a mesa. Mãe Joana diz: “Daqui a duas lua , a tal alemã vai tá tão enrabichada por um perna de calça que nunca mais ela vai se metê com os home de ocês! Ê, ê!”

E realmente, quando a lua cheia ergue-se no céu, Dona Iraci chega ao portão de manhã cedinho, e vê, saindo da casa da alemã, ainda abotoando as calças, nada mais, nada menos, que seu arqui-inimigo, Jorge Nojenta! Ele olha para ela, dá um sorriso maroto, mostrando todos os dentes de sua nova dentadura, e diz, bem alto:
“Bom dia, vizinha! Tô mudando pra cá! Hehehehehe...”
Moral da história: “Cuidado com o que você pede nas suas orações!”





4 comentários:

  1. Muito boa a história, ri bastante com tudo.

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  2. Adorei, todo o cuidado é pouco, beijo Lisette,

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  3. Que beleza de conto, Ana! Você é ótima. Eu me diverti com sua criatividade e com a forma com que descreveu os diálogos. Bjs.

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  4. Olá Ana!

    Tudo bem?
    A história das vizinhas está cada vez mais divertida e interessante.
    Para quando um novo capítulo?

    Obrigada pelo carinho.

    Um beijo,

    Cris Henriques

    http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.com

    http://jakeemary.blogspot.com/2013/07/capitulo-7-mary.html

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