domingo, 18 de maio de 2014

Da Casa Morta






Da Casa Morta
um antigo conto, re-escrito

Ela morava em uma casa branca muito bonita, de dois andares, que ficava em uma rua tranquila da cidade. O ano, 1970. Entardecia, e ela, sentada em sua poltrona favorita, via as sombras da tarde que passeavam sobre o bordado que ela confeccionava. O tique-taque do relógio de parede antigo era o único som a quebrar o silêncio sepulcral daquela casa, a não ser pelo ruído de motores de carros que, de vez em quando, vinha da rua. Nestas ocasiões, ela baixava o bordado e olhava pela janela, verificando se era o carro do marido que se aproximava. 

Quando a sala ficou quase totalmente escura, ela suspirou e acendeu a luz. Dobrou cuidadosamente o bordado e enfiou-o no saco junto com os outros bordados e paninhos de croché. Havia também lindas toalhas de mesa e colchas, todas feitas por ela. Todas impregnadas de anos de solidão, tédio e arrependimento pela vida não vivida. Mas é incrível, o quanto sentimentos tão nefastos puderam transformar-se em coisas tão bonitas!

E ela passava assim as suas tardes, em transe, a usar linhas de cores discretas para transformar suas dores em obras de arte. Aos poucos, conforme passavam os anos, a brancura de sua pele imaculada era marcada por leves sulcos, e seus fartos cabelos ruivos perdiam o viço enquanto seus olhos azuis, cansados de grudarem-se aos panos que bordava, iam perdendo o brilho.

Não tivera filhos. No começo, lamentou muito este fato, pois fora criada para ser esposa e mãe, e o fato de não ter conseguido gerar filhos deixava-a com um sentimento de culpa muito forte, uma sensação de inadequação e inferioridade diante das outras mulheres; mas depois que começou a conviver com o marido, deu graças a Deus por não ter gerado nenhuma de suas sementes.

Conheceram-se durante um jantar de família. Ele, filho de um comerciante conhecido de seu pai, logo lhe fez a corte. Rapaz bonito e garboso, encantou-a, e logo estavam casados. Mas o encanto quebrou-se alguns dias após a cerimônia, quando ele revelou sua verdadeira face: um homem ambicioso, mulherengo e frio, que casara-se com ela apenas porque o sogro dar-lhe-ia a oportunidade de expandir seu negócios. Ele saía de casa cedo pela manhã, e só retornava tarde da noite. A única vez em que ela perguntou-lhe o motivo de chegar tão tarde, ele a olhou com desprezo, e respondeu: "Maridos não devem satisfações às suas esposas. Menos ainda quando elas não lhes dão filhos."

Finalmente, ele chegara em casa. Cumprimentou-a com um boa noite seco, e foi sentar-se em frente a TV. Ela serviu-lhe o jantar, e ambos comiam em silêncio, como faziam todas as noites, mas naquela noite, ela puxou conversa; falou do convite que recebera da vizinha para participar de uma feira de artesanato e mostrar seus trabalhos. Ele resmungou com indignação, respondendo que ela não tinha necessidade de virar 'barraqueira' de feira, e que estava proibida de tomar parte em tal evento.

Ela apenas engoliu em seco a última garfada de comida. 

Há anos ele não a tocava. Ela já tinha esquecido o que era ser mulher. Não ligava mais para os telefonemas anônimos, as vozes sussurrantes que lhe diziam que seu marido tinha uma amante, simplesmente porque não se importava mais. Dava até Graças a Deus.

Sua rotina resumia-se em cuidar da casa, conversar com as vizinhas no portão ou convidá-las para um chá à tarde, quando o marido não estava. Também ia ao supermercado, ou assistia TV. E, é claro, tricotava, bordava, costurava.

Um dia, ela se foi. Ainda era uma linda mulher, apesar dos seus quase cinquenta anos. O câncer, cultivado durante anos de ressentimentos, frustrações e arrependimentos, finalmente a tinha vencido.

 Ela, deitada em sua cama, reduzida a pele e ossos,  dizia às visitas que assim que se levantasse , sua vida tomaria um rumo diferente. Falava das viagens que faria. Falava dos trabalhos manuais que , finalmente, iria expor e vender. Todos a escutavam e tentavam incentivá-la, embora soubessem da gravidade de seu problema ( que o marido  proibiu-lhes de revelar-lhe) e estivessem cientes de que ela jamais sairia viva daquela cama.

Sozinho na casa, após um funeral simples e quase sem flores no qual ele não derramara nenhuma lágrima, recebendo as condolências com os lábios apertados e leves acenos de cabeça, ele finalmente sentiu a falta dela. Mais ainda quando, ao sentar-se na varanda, olhou para a mesinha de vidro e deparou com um de seus paninhos de croché sob um vaso de violetas secas. À noite, ele acordava de repente, sobressaltado, e olhava o lado vazio da cama; não conseguia mais dormir, e então perambulava pelos corredores vazios - os mesmos pelos quais ela perambulara tantos dias e tantas noites, sozinha  naquela casa, enquanto ele se divertia com outras mulheres em restaurantes e hotéis de luxo.

Tentou continuar levando a mesma vida de sempre - e , aparentemente, todos pensavam que ele realmente tinha superado a perda da esposa; mas quando retornava à casa, a solidão o acompanhava durante o jantar que consistia em comida pronta, que ele comprava no caminho, e que era comida em pratos de papel ou alumínio.

Um dia, ele chorou. As lágrimas desciam quentes sobre seu rosto, tão quentes, que queimavam-lhe a pele. naquele dia, alguma coisa parecida com arrependimento tomou conta do seu ser. Talvez nem fosse arrependimento por tudo de ruim que fizera a ela, mas por não ter se empenhado mais em salvá-la da doença, preservando a sua companhia silenciosa e seus serviços na casa; deveria ter aceito a sugestão de levá-la a um especialista em São Paulo, mas na época, achara caro demais.

Anos depois que ela se foi, ele a seguiu. Circunstâncias inesperadas fizeram com que fosse necessário que eu, uma de suas vizinhas, atravessasse a rua e aguardasse na casa a chegada de  uma tia distante, único parente ainda vivo, que viria tomar as providências para o funeral. Quando entrei naquela casa novamente, achei-a totalmente diferente: o belo jardim que havia quando ela estava viva, ele mandara destruir e cobrir de cimento. A casa tão bem-cuidada e limpa, reduzira-se a um lugar sujo, cheirando a mofo, cheio de vazamentos e coberto de poeira. Uma casa morta.

Mas alguém puxou de dentro de um armário, seus sacos de artesanato. Lindas colchas, capas de almofada, panôs bordados, cortinas, toalhas de mesa e rendas, derramaram-se uns sobre os outros, cheirando à naftalina. Alguém os lavou  e estendeu ao sol. Eram muitos! O que fazer com todos eles? A velha tia decidiu que ficaria com apenas alguns - os mais bonitos - e o restante, ela distribuiu entre nós, vizinhas e amigas. Hoje, aquelas belas rendas, bordados e crochés enfeitam salas e quartos de outras casas. As pessoas admiram-se ao vê-los, perguntando logo quem teria aquelas mãos de fadas.

Esse é o legado que ela deixou.
Ele não deixou nada.



3 comentários:

  1. Fico impressionada com a riqueza de detalhes com que descreve uma historia... adoro ler seus contos...

    Beijos...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Boa tarde Ana me fez lembrar dos relatos do meu pai no qual antigamente velavam seus mortos na própria casa.. uma aqui perto é muito antiga.. uns amigos do pai lembram de quando garotos que viam aquilo e saiam na pernada srs.. mas assim como uma mansão que se encontra aqui de uma familia que hj esta na capital deixam que coisas de época fique ao descaso.. sujeira e histórias assombrosas apenas restam.. bsj e até sempre

    Lapidando Versos

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