sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Minhas Tias - Parte V




Naquela noite eu não dormi. Tive vontade de contar tudo para Nana e meu pai, mas lembrei-me da promessa que tinha feito à minha tia Rosana. Quase não jantei, e meu pai percebeu que eu estava calada e misteriosa... quando ele me perguntou onde eu passara a tarde, disse que tinha ido ao cemitério colocar flores para minha mãe (o que era verdade) e que depois encontrara uma amiga (o que também não deixava de ser verdade). 

Na manhã seguinte, me vesti correndo e após o café da manhã, saí correndo para a casa de tia Rosana, pois ela ia começar a pintar o meu retrato. Ainda à porta de casa, ouvi quando meu pai comentou com Nana: "Essa menina deve estar de namoro..." Achei melhor que ele pensasse assim por enquanto.

Parei diante da casa onde estivera na tarde do dia anterior. Olhei para ela, envolta por uma fraca aura dourada de luz solar. Respirei fundo, e entrei. Quando ia bater à porta, minha tia abriu-a, e disse que estava me esperando. Na sala, o cavalete com a tela, e as tintas. Ela sentou-me junto à janela, onde a luz natural incidia sobre meus cabelos, puxando-lhes o brilho, como ela mesma dissera. Pediu-me que olhasse para fora, como se eu estivesse serenamente contemplando a paisagem. 

-Agora mantenha essa expressão arrebatadora que você tem, Alana... assim mesmo... 

Ela trabalhava avidamente, traçando caminhos com um lápis. Olhava para mim  e depois parecia mergulhar na tela. Eu escutava passarinhos lá fora, mas eles pareciam estar cantando em algum lugar bem distante. A luz que entrava pela janela era clara e leitosa, e o jardim estava envolto por uma névoa fininha que o sol não conseguia dissipar. Uma paisagem estranha e encantadora. 

Nem sei por quanto tempo ficamos as duas assim, em silêncio; eu, quase imóvel, não sentia cansaço, e ela, totalmente tomada pela força de sua alma de artista, os olhos resvalando de mim para a tela, da tela para mim... finalmente, ela disse:

"Por hoje chega. Você deve estar cansada!"

Neguei, aproximando-me da tela. Mas antes que eu pudesse ver o que ela pintara, tia Rosana cobriu-a com um tecido branco:

-É uma surpresa. Meus modelos jamais veem seus retratos antes de estarem terminados. E para você, a surpresa será ainda maior.

-Por que?...

-Porque você não estará sozinha nesta imagem, Alana.
-Mesmo? E quem estará me fazendo companhia?

Ela me olhou de uma maneira muito doce, e murmurou:

-Sua mãe.

Uma forte emoção tomou conta de mim, e eu me vi chorando.

-Tia Rosana, por que vocês brigaram? Por que tive que crescer sem a presença de minhas tias, e por que minha mãe era sempre tão triste? Por que?...

-Querida, a vida nem sempre toma os caminhos que traçamos para ela. A vida é independente da nossa vontade, ela é o que deseja ser, ela nos arrasta... por mais que tentemos lutar... ela é tão... imprevisível!

Notei novamente que uma sombra escureceu-lhe o verde dos olhos. De repente, ela parecia imensamente triste, e me arrependi de ter sido eu a causadora daquela tristeza. 

Ela passou a mão pelos cabelos, prendendo-os em um coque. Segurando minhas mãos, levou-me para o sofá, e nos sentamos. Eu me sentia um tanto estranha, mas não sabia o motivo. Era como se tudo aquilo não fosse real... talvez fosse a emoção... 

Tia Rosana parecia estar procurando as palavras certas, as que ela vinha guardando com muito cuidado durante todos aqueles anos em que jamais nos falamos. Mesmo assim, parecia-me que as palavras que ela entesourara para mim durante tanto tempo, agora não lhe pareciam as palavras certas, e ela hesitava. Olhou-me quase em desespero. Sustentei-lhe o olhar, pois queria respostas.

-Alana... eu fiz algo muito estúpido há alguns anos... fui tão fraca e covarde... temo ter sido a causadora de toda a dor sentida por sua mãe. Mas por favor, não me julgue, eu fiz apenas o que eu achava que era o certo para todos naquele momento, no qual eu estava tão transida de dor. Mas eu errei, e errei muito. Meu erro não pode ser perdoado, pois envolveu as vidas de muitas pessoas, inclusive, a sua. Às vezes eu me pergunto se algum dia terei paz... mas tudo foi há muito tempo, muito tempo... e agora eu acho que é muito tarde...

-Mas o que você fez de tão imperdoável, tia? Pede-me para não julgá-la, mas você julga a si mesma!

Ela sorriu-me tristemente.

-Você tem razão. Mas quando este quadro estiver terminado, você saberá de toda a verdade.
-Mas...
-Eu prometo, Alana.
-Mas por que todo esse mistério?

Comecei a ficar impaciente, e ela percebeu.

-Por favor, confie em mim. É só o que eu peço. De-me um pouco mais de tempo, e depois você entenderá tudo. 

Percebi que ela não cederia. Não diria uma só palavra sobre o que eu desejava tanto saber. Concluí que só me restava esperar. Achei que talvez ela pudesse me responder sobre minhas outras tias, Diana e Olga. Perguntei-lhe onde elas estavam. Ela respondeu que em breve nos conheceríamos. 

-E você tem contato com elas, tia?
-Eu?...

Ela levantou-se e caminhou até a janela, olhando para fora.

-Eu as vejo sempre, sempre...

Ocorreu-me uma pergunta de repente, e sem pensar muito, eu a verbalizei, embora tivesse certeza da resposta: 

-E você via minha mãe sem que ela soubesse? Você nos via?...

Ela um leve estremecimento:

-O tempo todo, Alana. O tempo todo.

Voltei para casa ainda a tempo para o almoço. E a cena que eu vi assim que entrei, tirou-me a respiração:

De pé, junto à lareira, estavam Nana, meu pai... e minha tia Olga! Todos pareciam muito tensos, e fiquei ali, observando-os, sem saber o que dizer ou como agir. 

 Reconheci-a imediatamente. Ela estava um pouco mais "cheinha" do que aparecia nas fotografias, e os cabelos, embora conservassem o tom ruivo das fotos, estavam bem mais curtos, mas eu jamais poderia não reconhecê-la após passar toda a minha infância e adolescência olhando para ela e para minhas outras tias nas fotos. Minha tia Olga era bonita, alta e parecia  mais velha que minha tia Rosana, apesar de ser a mais jovem entre as irmãs. Trajava um vestido azul-escuro que (pensei) tinha a intenção de deixá-la mais magra do que realmente era. Ela sorriu quando me viu, e eu sorri de volta.

Meu pai fez sinal para que eu me aproximasse. Ele parecia um pouco constrangido.:

-Alana... esta é sua tia Olga.

Não senti a mesma vontade de abraçá-la como se dera com tia Rosana, pois percebi que ela estava muito nervosa e que se eu a tocasse um pouco mais do que deveria, ela desabaria ali mesmo, no meio da nossa sala de estar. Mas gostei dela, assim como gostara de tia Rosana. Ela me estendeu uma mão trêmula e fria, que apertei, e vi que seus olhos estavam marejados. Nana percebeu a situação, e discretamente, retirou-se. Quando voltou, trazendo para todos copos com suco de frutas, estávamos acomodados no sofá.

Notei que meu pai olhava para tia Olga de maneira muito ansiosa toda vez que ela falava. E ela me falou de sua rede de restaurantes que ficavam espalhados no mundo quase todo: Paris, Roma, Rio, Espanha, Londres, Nova Iorque. Ela contou-me que trabalhava muito, e estava sempre viajando. "Como tia Rosana, " pensei, mas nada disse. Tia Olga era muito faladora, alegre, expansiva. Muito diferente de suas diáfanas irmãs. Logo, ela contou-me que eu tinha uma prima, sua filha Luiza, e que se eu quisesse, poderia passar umas férias com elas em Paris para que nos conhecêssemos, pois era lá que Luiza morava. 

Apesar do esforço que minha tia fazia para que aquela situação parecesse o mais normal possível - uma tia distante em visita à sua sobrinha - era impossível não notar a carga de tensão que pairava no ar. Eu nunca tinha visto meu pai suar frio na testa - e nem estava tão calor assim naquele dia. Várias vezes ele enxugou-a com seu lenço. Nana forçava sorrisos que mais pareciam caretas, fingindo servir suco em copos ainda cheios, e tia Olga, para disfarçar o nervosismo, falava, falava...

(continua...)


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