terça-feira, 12 de agosto de 2014

Minhas Tias



 



Minhas Tias - Parte I

Desde pequena, eu sabia que minha mãe tinha três irmãs, mas que elas não se falavam há muito tempo devido a uma história misteriosa que começou apenas alguns anos depois de eu nascer. Eu as via juntas nas antigas fotografias de família, e pareciam sempre tão unidas! 

Minha mãe chamava-se Sarah -era a mais velha, e  também a mais mais bonita entre as quatro irmãs,  dona de longos cabelos ruivos que formavam uma linda moldura em volta de seu rosto alvo e salpicado de sardas douradas perto do nariz. Os olhos verdes e muito expressivos, de olhar profundo, encimavam o nariz grego e os lábios bem torneados, sempre naturalmente coloridos por um rosa profundo, e ela tinha um sorriso muito branco e encantador. De personalidade frágil, às vezes passava horas trancada no quarto, as janelas fechadas, sem receber ninguém. Fui criada praticamente pelo meu pai, e quando as portas do quarto se abriam e eu tinha permissão para visitar minha mãe, sempre a encontrava sentada à penteadeira, escovando seus cabelos. Ela me recebia com muito carinho, abraçando-me forte, e murmurava em meus ouvidos: "Perdoe-me, querida filha, perdoe-me, doce Alana..." Eu queria dizer a ela que estava tudo bem, que eu não tinha nada o que perdoar, mas meu cérebro de criança não sabia formular as palavras certas, e então eu apenas me deixava ser abraçada por ela, aproveitando a beleza daqueles raros momentos. Lembro-me ainda de seu cheiro adocicado de baunilha, que vinha de um creme hidratante que ela sempre usava. Eu afundava o nariz em seus cabelos, aspirando-lhe o cheiro (talvez inconscientemente prevendo que não a teria durante muito tempo).

Minha mãe gostava muito de escrever. Escrevia poemas, mas não os mostrava a ninguém, a não ser meu pai. Tinha um caderno de capa azul onde ela anotava seus poemas e pensamentos, e o escondia sempre na prateleira mais alta do armário de seu quarto. Havia um cadeado na capa, de modo a proteger seu conteúdo.

Meu pai circulava pela casa como um fantasma, sempre em silêncio, para não perturbar o descanso de minha mãe. Passava muitas horas trabalhando no escritório, mas jamais recusava-se a me receber, interrompendo seu trabalho para caminhar comigo pelo jardim, respondendo às minhas muitas perguntas. Lembro-me com saudades daqueles longos passeios, e de nós dois sentados sob o caramanchão que derramava pétalas de roseira branca sobre nós, desprendidas pelo vento morno das tardes. Foi ali que ele me ensinou sobre as coisas da vida, e me contou muitas histórias dos tempos em que era jovem, e de como apaixonara-se por mamãe. Esta história eu gostava de ouvir muitas vezes:

Eles se conheceram durante uma ópera. Meu pai tinha dezoito anos. Entediado, ele olhava em volta durante o espetáculo, procurando alguma distração para passar mais rápido o tempo. Fora convencido por seus pais a comparecer ao espetáculo, mas logo descobriu que não gostava de ópera, e achou tudo muito enfadonho. Até que seus olhos pousaram sobre a criatura mais linda que ele jamais vislumbrara: minha mãe, aos dezesseis anos de idade. Durante as mais de duas horas de espetáculo, ele ficou mudo e totalmente embevecido pela beleza austera daquela menina, tão concentrada no que acontecia no palco, de olhar tão enlevado. Ela estava sentada na fileira da esquerda, junto ao corredor, e meu pai, também junto ao corredor mas à direita, uma fileira atrás da de minha mãe, podia observá-la cuidadosamente sem ser notado. As luzes do palco eram suficientes para deixar entrever as lindas feições e as rendas brancas e delicadas do vestido quase etéreo da moça, que diante dos olhos apaixonados de meu pai, transformavam-na em uma espécie de fada ou ser místico.

No intervalo, quando todos se levantaram para ir até a cafeteria do teatro, seus olhos finalmente se cruzaram, e os dois não mais deixaram de se olhar. Conversaram brevemente, e durante a conversa, meu pai ficou sabendo onde minha mãe estudava, e no dia seguinte, após as aulas, ele estava plantado à porta de sua escola, esperando por ela.

Casaram-se quando minha mãe tinha dezenove anos, e meu pai, vinte e um. Nasci um ano mais tarde. Meu pai sempre parava de contar a história naquele ponto. Mas eu queria saber mais; queria saber o motivo da tristeza constante de minha mãe. Queria saber o porquê daquelas outras moças - minhas tias - jamais nos visitarem, ou jamais serem mencionadas dentro daquela casa. Meu pai dizia sempre que alguns segredos de família jamais devem ser revelados, e proibia-me de indagar minha mãe àquele respeito, dizendo que ela ficaria muito magoada se eu o fizesse. Pedia-me que eu a poupasse de mais sofrimentos. Assim, cresci naquela casa silenciosa e cheia de mistérios, aos cuidados de meu pai e de Nana, minha babá, que desde que eu me conhecia por gente, estivera conosco. 

Eu pegava dentro do armário do corredor a caixa com as fotos, e me escondia no porão ou na floresta por trás da casa para olhá-las mais uma vez. Lá estavam as minhas tias, abraçadas, sentadas sob o mesmo caramanchão onde eu costumava sentar-me com meu pai, as mesmas rosas brancas derramando-se sobre elas. Eu passava os dedos pequenos sobre seus rostos, e secretamente, amava-as. Eram todas tão bonitas! Um dia, meu pai  surpreendeu-me com as fotografias, e fiquei gelada de horror, pensando que ele fosse castigar-me pela desobediência; ao invés disso, ele sentou-se ao meu lado e apontando as fotografias, ensinou-me os nomes de minhas tias, dizendo algumas poucas coisas sobre cada uma delas:

Minha tia Rosana era a que tinha os cabelos loiros, quase brancos, e a pele muito pálida e tão perfeita e uniforme quanto a mais fina porcelana. Olhos verdes muito claros, pestanas claras e longas que brilhavam à luz do sol. Muito magra e de aparência frágil, mas sempre a mais forte entre todas, era quem, segundo as histórias que meu pai contava, apoiava quem precisasse de ajuda e aconselhava sabiamente a todos que a procurassem. Amava as artes, e tinha muito talento para pintura - profissão que passou a exercer, fazendo muitas exposições ao redor do mundo. Também dizia-se que ela tinha outros talentos mais incomuns, como fazer premonições ou perceber as energias das pessoas que a cercavam. Muitas vezes, dizia coisas sobre as pessoas que ninguém mais poderia saber a não ser elas mesmas. Mas só o fazia quando solicitada.

Diana, a irmã do meio, tinha cabelos castanhos com reflexos ruivos. Na fotografia, eles apareciam presos em uma fita azul, descendo ao longo do ombro esquerdo. Seus olhos eram castanho-esverdeados, e a pele, quase morena. Gostava do sol, e passava muitas horas na praia que ficava próxima à casa onde cresceram. Tinha porte esguio e aparência muito taciturna e séria. Na fotografia, era a única que não estava sorrindo. Perguntei ao meu pai como ela era, e ele limitou-se, meio à contragosto, a dizer-me que Diana tinha poucas amigas e gostava de passar muitas horas sozinha, caminhando pela praia. Dera muito trabalho aos pais, pois sua beleza quase selvagem atraíra muitos homens mal-intencionados. Era a mais desobediente e rebelde entre as irmãs. Enquanto as outras apareciam nas fotos usando lindos vestidos, minha tia Diana trajava calças jeans e camisa xadrez. Eu olhava para ela durante muitas horas, tentando entender o que diziam aqueles olhos arredios. Aos treze anos,  Diana convencera meu avô a comprar-lhe uma roca antiga de um vendedor ambulante e aprendera a tecer lindas mantas, toalhas de mesa, fitas e colchas, que ela às vezes colocava em uma cesta e vendia na cidadezinha onde moravam . Era, segundo meu pai, a mais independente das irmãs.

Olga, a mais nova, aparecia na fotografia trajando um vestido verde-musgo que acentuava a cor dos seus olhos. Era a que tinha o rosto mais parecido com o de minha mãe. Também tinha os mesmos cabelos ruivos, só que muito lisos e finos. A mais "cheinha" das irmãs tinha curvas acentuadas, quadris largos e estatura mais baixa que as demais, embora não fosse gorda ou baixa. Meu pai contou-me que Olga era exímia cozinheira, e que desfrutar de uma refeição preparada por ela era quase como ter entrada permitida ao paraíso! Era ela quem preparava as ceias de natal da família, os bolos de aniversário sempre muito lindos e confeitados com arte e bom gosto, os sanduíches sofisticados dos piqueniques de domingo, os doces em compotas que eram presenteados a todos da família em vidros decorados pelo talento de minha tia Rosana e enfeitados pelas fitas fabricadas por minha tia Diana. Meu pai dizia que ninguém jamais se esquecia de uma refeição preparada por minha tia Olga. 

Notei que quando ele falava de minhas tias, seus olhos perdiam-se nas nuvens que passavam lá em cima, e às vezes, ficavam marejados. 

Conforme eu crescia, as perguntas sobre minhas tias iam mudando de conteúdo. Eu queria saber onde elas viviam, se eram casadas, se tinham filhos (meus primos), quem eram seus maridos, que tipo de vida elas levavam; mas meu pai apenas encolhia os ombros dizendo não saber, e mudava de assunto.

Às vezes, quando estávamos com minha mãe, nas raras vezes em que ela se mostrava alegre e sorridente e descia até o jardim para desfrutar uma tarde conosco, eu tinha vontade de formular tais perguntas. Mas lembrava-me das advertências de meu pai, e calava-me. Naqueles momentos, eu acabava me concentrando na beleza que era ver os dois juntos. Meu pai e minha mãe pareciam dois namorados, embora houvesse uma sombra nos olhos dela quando ela o olhava sem que ele a estivesse olhando. Eu me perguntava se ele percebia aquele traço de mágoa ou tristeza. E também me perguntava se não seria aquele o segredo de minha mãe - algo relacionado ao seu passado com meu pai. Mas era óbvio que eles se amavam muito, perdidamente, o que logo fazia com que minhas dúvidas desaparecessem pelo menos temporariamente. E o que eu mais queria naqueles momentos, não era perder-me em indagações complicadas, e sim, aproveitar a riqueza daqueles momentos tão raros e especiais. Porque, de repente, eu via que uma sombra escura fixava-se no rosto de minha mãe, o que fazia com que rugas finas que antes não estavam ali se formassem, e seus olhos verdes tornavam-se castanhos. Ela crispava as mãos sobre o colo, começava a respirar mais rapidamente, e sem mais nem menos, levantava-se da cadeira e subia para o quarto, trancando-se por horas, dias ou até mesmo, meses. E eu sabia que apenas quando aquela nuvem passasse eu teria permissão para estar com ela novamente.

(continua...)


4 comentários:

  1. Olá, querida Ana
    Minha família também tem muitas desavenças.. e, quem era tão amiga no passado, já nem se fala mais...
    É o famoso mal de família, creio...
    Fiquei curiosa pela nova parte...
    Bjm fraterno de paz e bem

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  2. Olá,Boa noite, Ana
    sim, o conto começou bem interessante,adorei a parte do início do relacionamento entre o pai e a mãe do protagonista e o roteiro nos enseja ao querer ler mais...Sarah conseguindo por enquanto, manejar os segredos da família, defendendo sua memória e das suas irmãs (as tias) Rosana,Diana,Olga...nos resta aguardar o próximo capítulo...
    Obrigado pelo carinho, belo final de semana,beijos!

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  3. só hoje li o seu ultimo post e então vou começar a ler desde o principio.

    acho muito interessante este conto.

    obrigada!

    :)

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  4. UAU, você sabe como prender a atenção leitor, Ana! Novidade né? rs
    Tá muito bom e eu vou ter que imprimir porque tem muita coisa e eu gosto de ler na cama hehehe!!!
    Estou adorando.
    bj

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